sexta-feira, 25 de abril de 2008

NADA SERÁ COMO HOJE AMANHÃ

por MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA

25/04/2008

Nada dura para sempre, tudo está em constante mudança, mesmo assim, nossa sede de infinito dá aquela falsa sensação de que viveremos indefinidamente. Os moços não cogitam da velhice que lhes parece remota. Os velhos não pensam na morte que se aproxima. Os que estão no poder não imaginam que mais dia menos dia perderão seu domínio e seus privilégios.

Se não há mal que dure para sempre o bem também não dura. Aliás, o bem traduzido em termos de felicidade dura menos que o mal que é o locatário do mundo. Basta observar que a história mundial registra mais déspotas do que governantes benfazejos, mais tiranias do que democracias.

Ao mesmo tempo, isso parece demonstrar que, apesar da instabilidade das formas ilusórias da existência há uma essência que traduz a única coisa imutável da natureza humana: a ignorância com seu séqüito de desgraças tais como o desamor, a inveja, a ganância, o culto da mentira, o egoísmo, o hedonismo, a ambição desmedida, enfim, essas características do animal mais evoluído e mais cruel do planeta: o homem.

Em determinadas épocas os traços negativos da humanidade se acentuam em determinadas sociedades e, em alguns casos, contaminam o mundo. Esse tipo de pestilência tem como núcleo certas formas de poder. No século passado, por exemplo, o mal esteve por excelência não tanto nas duas guerras mundiais, mas nos totalitarismos representados pelo nazismo e pelo comunismo.

Terminada, porém, a Guerra fria, derrubado o Muro de Berlim, o mal continuou a despontar aqui e ali com outras formas. Na América Latina, que parecia expurgada de seu histórico autoritarismo, emergiram populistas sedentos de poder que pensam durar para sempre no comando arbitrário de seus povos.

Em Cuba, pequenas mudanças já são perceptíveis na medida em que Fidel Castro se encontra praticamente mumificado. Se isso é bom para os cubanos, não se pense que o sucessor de Fidel no cenário latino-americano é seu irmão Raúl Castro. O herdeiro do tirano da Ilha atende pelo nome de Hugo Chávez e este tem seguidores na Bolívia, no Equador, na Nicarágua, agora no Paraguai e, porque não, na Argentina e no Brasil. E quanto mais sobe o petróleo, mais Chávez, o bem armado, amplia sua influência sobre seus comandados e sobre os muy amigos.

Gira o mundo e sinais de mau agouro se desenham no horizonte das transformações. Em termos políticos, nos Estados Unidos a vitória de Barack Obama, tido por muitos como anti-semita, mulçumano e de esquerda traria conseqüências imprevisíveis para o planeta globalizado.

Na economia fala-se em fome mundial, especialmente para os mais pobres, ressuscitando-se, em pleno século 21, a tese de Malthus segundo a qual o crescimento populacional seria maior do que a produção de alimentos. Sobe absurdamente o barril de petróleo. A crise da economia americana turva o céu de brigadeiro que possibilitou a calmaria, inclusive, dos países subdesenvolvidos.

No Brasil algo começa a mudar na economia, como não poderia deixar de ser. Um velho filme de terror está sendo reprisado e tem como título a volta da inflação, que o Plano Real havia eliminado. Inútil se torna a costumeira manipulação de dados pelo governo, pois o povo já percebe a subida do preço dos alimentos, sendo que já há previsão de alta da gasolina. Reivindicações do Paraguai relativas à Itaipu, que possivelmente serão atendidas pelo governo brasileiro, elevarão ainda mais o preço da energia. E torçamos para que Evo Morales não resolva fechar de vez a torneira do gás, pois as conseqüências para nós seriam as piores possíveis.

Para além da economia, outras coisas vão mudando no Brasil, e para melhor. Significativa e importante foi a opinião do Comandante da Amazônia, general-de-exército Augusto Heleno Pereira, que durante palestra no Clube Militar do Rio de Janeiro se declarou contra a demarcação de imensas terras indígenas na fronteira, portanto, contra a reserva Raposa Serra do Sol, "uma ameaça a soberania nacional". O general criticou também a política indigenista que considera lamentável e caótica, e ainda ousou afirmar, muito apropriadamente, que o "Exército serve ao Estado e não a governos". Sua voz ecoou na mídia e se destacou do coro dos medíocres, dos estultos e dos acovardados que pululam nas diversas instituições do País.

Também a posse do ministro Gilmar Ferreira Mendes na presidência do STF ressuscitou a esperança de se encontrar na Justiça a verdadeira e legitima autoridade, aquela que se faz respeitar ao respeitar as leis. O ministro criticou o "modelo de edições de medidas provisórias" que paralisa o Congresso, a ação de movimentos sociais, a idéia do terceiro mandato e ainda defendeu o papel do Judiciário na consolidação da democracia.

Alguma coisa está, portanto, mudando. Afinal, "nada será como hoje amanhã".

Maria Lucia Victor Barbosa é socióloga

mlucia@sercomtel.com.br


domingo, 13 de abril de 2008

Consultando aquele famoso ginecologista


Durante uma de suas consultas, aquele famoso ginecologista não resistiu à exuberância de uma de suas pacientes e avançou o sinal. Ao sentir que o exame de toque havia virado uma orquestra, a mulher deu um pulo da maca, vestiu-se atabalhoadamente e desembestou porta afora:
- Socorro! Tarado! Esse cara é um tarado!
Estupefatas, na sala de espera, as outras pacientes levantaram os olhos das revistas Veja e Marie Claire do ano retrasado e assistiram à mulher sair correndo.
Logo o médico surge na porta e esclarece:
- Desculpem-me do transtorno! Essa mulher sofre de uma terrível síndrome e eu a aconselhei a procurar ajuda psiquiatra. Ela teve um surto e acabou fazendo esse escândalo. Pobre coitada!
Balançou a cabeça e entrou em sua sala novamente. Logo em seguida, entra a secretária.
- E aí? - pergunta ele. - Acha que fui convincente?
- O discurso foi bom, mas faltou um pequeno detalhe:
o senhor se esqueceu de vestir as calças!

Da América Latina: Tristes trópicos


Tristes Trópicos

Análise escrita por João Mellão Neto,

A América Latina já era.
A revista Veja, publicou faz tempo uma oportuna matéria sobre a crescente desimportância, de nosso subcontinente, no contexto mundial. Não soubemos, como a maioria dos países asiáticos, aproveitar a onda globalizante e, assim, nos valer da abundância de capital internacional, para alavancar as nossas economias.

Mais uma vez, fica provada a tese de que não sãos as riquezas naturais, que garantem a prosperidade e o desenvolvimento das nações. O alemão Max Weber foi o primeiro pensador a ter a coragem de afirmar que fatores culturais (e religiosos) são muito mais importantes, para determinar o sucesso ou o fracasso de uma sociedade. E fez isso, em 1904, após visitar os Estados Unidos e publicar um livro, "A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo", eleito pela crítica internacional, na virada do milênio, a obra mais importante, de todo o século 20. Trata-se de um trabalho de fácil leitura e assimilação, para os leigos, e, ainda, permanece atual. Em vez de amaldiçoar nossos irmãos do Norte, deveríamos tornar a leitura de Weber, obrigatória, em todas as nossas escolas. Quem sabe, assim, pouparíamos muito tempo e esforço, na vã tentativa de entender por que os gringos são tão ricos, enquanto nós somos tão pobres.

A culpa não é dos "malvados ianques que nos exploram". Quando muito, é de nós mesmos e do péssimo hábito, que cultuamos, de terceirizar a responsabilidade por nossas mazelas. O nosso próprio cancioneiro - seja o tango, a guarânia, o bolero, o sertanejo ou o samba-canção - é o mais eloqüente indício de que, para nós, a culpa de nossa infelicidade é, sempre, dos outros. Sejam, eles, as mulheres ingratas, os patrões prepotentes ou os garotos ricos, que nos tomaram nossas namoradas. Tema recorrente é o do "hombre macho", que costuma encher a mulher de pancada, e, depois, não entende por que ela o deixou. Não importam as situações e as circunstâncias: o fato é que, para nós, a culpa é, e será, sempre, dos outros.

Eu bem me recordo de que, no início da década de 70, ainda jovem, visitei a Ásia e saí, de lá, horrorizado com a miséria que encontrei. Havia pessoas,, em Hong Kong, por exemplo, que, esqueléticas, desnutridas, passavam a vida, sentadas nas calçadas. Durante a noite, se deitavam, ali mesmo, e, no dia seguinte, voltavam a sentar-se. Seu único bem era a tanga esfarrapada que usavam e, se permaneciam vivas, era por que o governo, no meio do dia, distribuía um punhado de macarrão, que era devorado com as mãos. Lembro-me de ter ficado horrorizado, com uma gigantesca favela flutuante, que era composta por milhares de pequenos barcos, atracados, uns aos outros, que formavam uma cidade de porte médio, com mais de 100 mil habitantes. As pessoas, que lá moravam, nasciam, cresciam e morriam, sem nunca ter pisado em terra firme. Os poucos, que se aventuravam a fazê-lo, andavam como macacos. Simplesmente, não sabiam andar eretos. Em Macau, então colônia portuguesa, não havia ninguém, que falasse o nosso idioma e a miséria era, ainda, mais gritante. A situação na Coréia do Sul, na Malásia e na Indonésia, pelo que diziam, era muitas vezes pior. Isso, para não falar na Indochina, na qual os Vietnãs e o Camboja estavam em plena guerra civil. O Sudeste da Ásia, sem dúvida, era a região mais pobre do mundo, naquela época.

Eis que, hoje, aquela é a zona do planeta que mais cresce e se desenvolve. Enquanto isso, aqui, na América Latina, a impressão é de que o tempo não passou. A renda per capita, pelo menos, está, praticamente, estagnada, há mais de duas décadas. Em termos de política - que, no final das contas, está por de trás de tudo -, quase nada evoluímos. Os argentinos continuam reverenciando Perón, os venezuelanos e bolivianos estão nas mãos de caudilhos populistas e ultranacionalistas, o Peru voltou para as mãos de Alan García, o sandinismo retornou, ao poder, na Nicarágua, Fidel continua mandando em Cuba e os jovens universitários, de todo o continente, inclusive os brasileiros, ainda se deixam mesmerizar, ante a esfinge "libertadora" de Ernesto Guevara. Ironia histórica, esta. Ao menos, nos tempos do Che, no auge da guerra fria, o resto do mundo, em especial, os países ricos, ainda se preocupava com o que acontecia por estas plagas. A caçada ao líder revolucionário, nas selvas da Bolívia, foi acompanhada pela imprensa do mundo inteiro. Hoje em dia, nem sequer as enormidades de Chávez e Morales rendem uma manchete secundária de jornal. O mundo desenvolvido está com os olhos voltados para os países islâmicos. Economicamente, quem chama a atenção é a Ásia. Quando o tema é miséria e solidariedade humana, quem monopoliza as conversas é a África.

E quanto a nós, os briosos latino-americanos? Bem, o fato é que nós não existimos mais. Quando nossos embaixadores sobem à tribuna, no plenário da ONU, o bocejo, dos demais, é geral. Somos inflamados, belicosos, verborrágicos e é só. Como entreouviu, certa vez, Roberto Campos, quando trabalhava na Organização, de diplomatas europeus: "Os latino-americanos são únicos. Eles despendem uma tonelada de palavras, para alinhavar cem gramas de argumentos."

Talvez seja esse, mesmo, o nosso maior defeito. A cultura bacharelesca, o floreio retórico, o cultivo da forma, em detrimento do conteúdo, o discurso das intenções, prevalecendo sobre a prática das ações: tudo isso é próprio do populismo, na sua vertente latino-americana.

Ainda pranteamos a morte precoce de Evita, o suicídio dramático de Vargas e o coronel Chávez, ainda, arenga às massas, cultuando Bolívar, em pleno século 21!

Enquanto isso, o tempo passa. Enquanto prevalecer a nossa cultura fatalista, este será o nosso destino. "Não perguntes por quem os sinos dobram", escreveu John Donne. "Eles sempre dobram por ti..."

Sobre o analista:
Jornalista, articulista de O Estado de São Paulo e do Florida Review (Flórida-EUA) ex- ministro e ex-deputado federal
(esta matéria foi copiada do "site" do Instituto Federalista : www.if.org.br )

sábado, 12 de abril de 2008

AMERICANO X BRASILEIRO

AMERICANO X BRASILEIRO

Um secretário de governo americano recebeu, em Washington, um ministro brasileiro. Simpático, convidou o brasileiro a ir à sua residência em estado vizinho.
O ministro brasileiro foi e ficou espantado com a bela
vivenda com haras, piscina térmica, heliporto, estufa climatizada para
plantas exóticas, adega com as melhores safras de vinhos franceses...
Com informalidade, o brasileiro pôs-se a fazer perguntas.
"Com um ordenado de secretário de estado, como é que o meu amigo conseguiu
tudo isto? Não me diga que era rico antes de ir para o Governo?"
O americano sorriu, disse que não, antes não era rico.
E com jeito de quem quer dar explicações, convidou o outro a ir até à janela.
"Estás a ver aquela auto-estrada?"
"Sim", respondeu o brasileiro.
"Pois ela foi feita por 100 milhões. Mas, na verdade, só custou 95...",
disse, piscando o olho.
Semanas depois, o secretário americano veio ao Brasil.
O brasileiro quis retribuir a simpatia e convidou-o a ir lá na sua casa em Brasília.
Era um palácio inacreditável, com varandas viradas para o pôr-do-sol, jardins
japoneses e piscinas em cascata, aeroporto particular para pouso do seu
jato executivo, farta adega com as melhores safras de champagne,
cinco automóveis importados de alto luxo entre os quais uma Ferrari.
O americano nem queria acreditar, gaguejou perguntas sobre como era
possível um homem público no Brasil ter uma mansão daquelas.
O brasileiro levou-o à varanda.
"Está vendo aquela auto-estrada?"
"Não"!

frase do dia

Frase da Semana:
"Se você é feio, pobre, burro, e mesmo assim tem um monte de mulher dando em cima de você, só tem uma explicação:
Você mora embaixo de um puteiro."
do Pd. Pze Kana

sexta-feira, 11 de abril de 2008

Burton na guerra do Paraguai


Fragmento do romance "Moscas de Guerra":

"Muitos na Inglaterra nunca ouviram falar nesta guerra que persiste por cinco anos. As várias dissertações chegam truncadas, por diferentes interpretações de acordo com a distância do conflito e a fantasia dos repassadores destas, tais como: telegrama recebido na legação brasileira em Londres: "A guerra acabou (falso). López fugiu para a Bolívia ou escondeu-se em Corrientes (falso). A execução de seu irmão, bispo, prisioneiro, confirmada. População de Assunção que foi ocupada pelo marquês de Caxias, retorna".
Recentemente, M. Elisée, na Revue dês Deux Mondes, classificou o Paraguai
como "Etat pacifique par excellence" com a impunidade da ignorância, quando cada cidadão era um soldado. Mesmo durante o período jesuíta, o lavrador do solo era um homem chamado às armas.
Raramente, nada mais impressionante foi apresentado ao mundo do que esta
tragédia, desta luta sem paralelo, mantida por um período tão longo, com tamanhas dificuldades chegando às vias da aniquilação e genocídio de uma raça. A tenacidade de buldogues e o heroísmo desta Esparta indígena, tendo como único ponto vulnerável a linha do rio, que corre do norte para o sul, foi
defendida com um valor selvagem raro na história da humanidade. Alguns a vêem como nação massacrada pelo peso de seus inimigos mais fortes, sua população tragada pelas necessidades de uma guerra sangrenta e perdida, sem comunicação com o mundo exterior. Entretanto, resolvidos a morrer em vez de se submeter aos poderes maiores que, lentamente, mas certamente, a esmagarão. Outros não vêem mais que uma raça bárbara, engarrafada pela geografia dos rios, com um tirano sedento de grandiosidade. Escravos de um déspota? O Atila da América, lutando por ameaças aos vizinhos que um mundo civilizado não pode mais conceber.
Aqueles que escrevem permitiram a sua imaginação e a seus preconceitos
guiar seu julgamento e a maioria jogou sua imparcialidade.
Os poucos Lópezguaios, os simpatizantes do Marechal Presidente, o
pretendem O Libertador da América do Sul, o Cincinatus da América, o rei Leopoldo do Prata, e gratificam o nome dado pelos seus cidadãos; o Grande Homem Branco (Karaí Guazu). O Paraguai é para estes autores outra Polônia, pequena ilha tragada em luta de três contra um, sob a tutela do Império.
Acusam o Brasil de impor sua vontade na bacia do Prata; que nenhum país pode impor o governo que queira outro. Predizem terríveis crises quando a questão Negra e os grandes feudalismos forem desativados. E acusam L'Empire Esclava-giste "por ter dado alforria a seus soldados escravos para escravizar outros povos. Muitos chamam o Marechal Presidente de Tirano do Paraguai, o Monstro López, o Nero, o Theodoro, o Bárbaro do Paraguai. E classificam a longa campanha como a batalha da civilização contra o isolamento de um Japão sul-americano, erroneamente datado do tempo do Dr. Francia.
As minhas simpatias estão com o Brasil, e a sua missão de abrir o grande
Mississipi do Sul; conservar aberto e desenvolver o magnífico leito navegável do Paraguai, Paraná, Prata; e varrer de seus portos baterias e fortificações que conservem suas águas desertas em vias internacionais.
No entanto, não posso deixar de admirar a energia indomável do Marechal
Presidente e seu pequeno e forte poderio, que nunca serão esquecidos enquanto a história for relembrada.
A campanha do Paraguai é essencialmente uma guerra de trincheiras, em
oposição aos cercos e ataques, e trincheiras tiveram decidida importância na estratégia militar após tão longa campanha.
Fiz duas visitas aos campos de guerra. A primeira, de 15 de agosto a 5 de
setembro de 1868, à foz do rio Tebicuary, quando as baterias de São Fernando vinham sendo bombardeadas, que precederam as cortinas para o terceiro ato. A segunda visita, de 4 a 8 de abril de 1869, quando a guerrilha seria a ultima fase da campanha. Durante três anos e meio de residência e serviço no Brasil, a questão paraguaia foi conversa diária, e onde o meu testemunho foi falho pude contar com o de outros informantes e participantes da campanha.
Tentei sintetizar a campanha, que bem explicada poderá ser facilmente
entendida. Compõe-se de três grandes cenas:
Cena 1ª: O presidente López levanta uma força de 80.000 homens e resolve
interferir nas ações do Brasil nos assuntos do Prata (invasão do Uruguai pelas forcas brasileiras); a derrubada dos Blancos aliados de López, a imposição e aliança com os Colorados de Venáncio Flores; o
bombardeamento de Paissandu; o fuzilamento de Leandro Gomes, a tomada de Montevidéu pelas forças imperiais; e a força do Banco Mauá, no Prata, e o apoio de Mitre ao Brasil. Solano López entra nas hostilidades e se determina a ser coroado Imperador até Buenos Aires.
Cena 2ª: O presidente López, comandando seus exércitos, em pessoa,
consegue defender as fronteiras da Republica e, gradualmente vai se retirando para o Norte, contra forças mais poderosas e uma possante frota naval. López luta por cada centímetro de seu território, com prodigiosa tenacidade. Esta fase de resistência acaba após três anos em Lomas Valentinas, o "Waterloo do Paraguai". Este golpe terrível foi dado em 25 de dezembro de 1868.
Cena 3ª: Até agora sem final, setembro de 1869, fase da guerrilha, o
presidente López compelido a abandonar sua capital, Assunção subindo para Cerro Leon e fazendo sua nova capital em Paraguary. Nesta fase deixei o rio da Prata.
Nomeado, por Sua Majestade britânica, Cônsul em Damasco, eu agora me
despeço, com sinceros sentimentos do Brasil, esta terra gloriosa, o jardim da América do Sul, que durante tanto tempo me acolheu como no meu lar."

Capitão, Richard E. Burton

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Quem foi o inglês que "descobriu o Brasil"
Sir Richard Francis Burton veio ao Brasil como cônsul da Grã-Bretanha na cidade de Santos (SP) e viajou o país em busca de riquezas que pudessem ser aproveitadas pelo Velho Mundo. "Em vista de tantas riquezas para as classes desgraçadas da Europa, que pode dizer que não há nada para os pobres e vis, salvo miséria e desespero", escreveu Burton a respeito do rio São Francisco. "A vinda de Burton ao Brasil não foi uma circunstância fortuita, atendia um interesse claro do Império Britânico", opina o historiador da Universidade Federal de São João Del Rey e especialista em Richard Burton, Paulo Roberto Varejão. "Burton veio aqui para estudar a experiência portuguesa de colonização nos trópicos, que ele já havia conhecido e admirado em partes da Índia." Referências Para Varejão, isso explica as diversas referências à cultura indiana que o britânico faz no livro Viagem de Canoa de Sabará ao Oceano Atlântico (Explorations of the Highlands of Brazil). A obra foi o resultado dos quatro meses de viagem de Burton pelos rios das Velhas - de Sabará até Pirapora - e São Francisco. "Aqui a cana de açúcar e o abacaxi crescem naturalmente. O gado e outros animais de fazenda abundam e não haveria dificuldades em aclimatar o camelo. E a região tem um potencial de riquezas minerais que vai muito além do ouro, do ferro e dos diamantes que aqui já são explorados", escreveu Burton a respeito do vale do Velho Chico. Além de explorador renomado Burton também era um reconhecido lingüista e falava 25 idiomas. Ele chegou a liderar uma expedição em busca da nascente do Nilo, mas ataques de tribos hostis africanas e um ferimento com lança na mandíbula o obrigaram a desistir, uma aventura relatada no filme As Montanhas da Lua. Burton traduziu para o inglês obras de idiomas e culturas tão diferentes quanto o indiano Kama Sutra, o árabe As Mil e Uma Noites e o português Os Lusíadas. Também bastante interessado em religião, Burton nasceu de familia cristã, mas adulto se converteu ao islamismo e morreu como um devoto muçulmano em 1880, aos 59 anos de idade.

Refugiados


Fidel morre e chega ao céu, mas não está na lista. Assim, São Pedro manda-o para o inferno. Quando chega lá, o diabo em pessoa o recebe:

- Olá Fidel, seja bem-vindo. Eu estava te esperando. Aqui você vai-se sentir em casa.

- Obrigado, Satanás, mas estive primeiro no céu e esqueci minhas malas lá em cima.

- Não se preocupe. Vou enviar dois diabinhos para pegar suas coisas. Os dois chegam às portas do céu, mas está tudo fechado, porque São Pedro tinha saído para almoçar.

- Olha, é melhor pularmos o muro. Aí pegamos as malas sem perturbar ninguém...

Então, os dois diabinhos começam a escalar o muro. Dois anjinhos passavam por ali e ao verem os diabinhos, comentam um com o outro:

- Incrível, não faz nem dez minutos que Fidel está no inferno e já temos refugiados!

quinta-feira, 3 de abril de 2008

Piadinhas...


LÓGICA
O garoto apanhou da vizinha, e a mãe furiosa foi tomar satisfação:
- Por que a senhora bateu no meu filho?
- Ele foi mal-educado e me chamou de gorda.
- E a senhora acha que vai emagrecer batendo nele?

NO BALCÃO DA ALFÂNDEGA
Seu nome ?
- Abu Abdalah Sarafi.
- Sexo?
-... Quatro vezes por semana...
- Não, não, não! Homem ou mulher?
- Homem, mulher... Algumas vezes camelo...

DIVISÃO DE BENS
Dois amigos se encontram depois de muito anos.
- Casei, separei e já fizemos a partilha dos bens.
- E as crianças?
- O juiz decidiu que ficariam com aquele que mais bens recebeu.
- Então ficaram com a mãe?
- Não, ficaram com nosso advogado.

CONFISSÃO
O condenado à morte esperava a hora da execução, quando chegou o padre:
- Meu filho, vim trazer a palavra de Deus para você.
- Perda de tempo, seu padre. Daqui a pouco vou falar com Ele pessoalmente.
Algum recado?


POLONÊS
Um imigrante polonês está fazendo exame de vista para obter carteira de motorista. O examinador lhe mostra um cartão com as seguintes letras:
C Z A J K O W S K I
O examinador pergunta: - Você consegue ler isso?
E o polonês: - Claro! E tem mais, eu conheço esse cara!!

FILHA
A filha entra no escritório do pai, com o marido a tiracolo, e indaga sem rodeios:
- Papai, por que você não coloca meu marido no lugar do seu sócio que acaba de falecer?
O pai responde de pronto:
- Conversa com o pessoal da funerária. Por mim, tudo bem.

CÉREBRO
Um menino de quatro anos examina seus testículos durante o banho. Pergunta à mãe:
- Mãe, isto é o meu cérebro?
E a mãe:
- Ainda não, filho.

quarta-feira, 2 de abril de 2008

O MEU GATO OU UM DESCONHECIDO?


Um texto do filósofo Steven Best (texto em português de Portugal)

http://www.accaoanimal.com/site/content/view/317/133/

O meu cão ou o seu filho?

Dilemas éticos e a hierarquia do valor moral - Steven Best

Demasiadas vezes, os defensores dos direitos dos animais (DDA) são confrontados com a hipotética histeria do "dilema da casa a arder". Consiste em algo deste género: Se fosse apanhado numa casa a arder, a correr para a porta da rua para salvar a vida, e só tivesse tempo para salvar um cão num dos quartos ou um ser humano noutro, qual escolheria?


Invariavelmente, a pergunta é colocada com a intenção de encontrar inconsistências no esquema de valores ou empenhamento do DDA, de tal maneira que, apesar de toda a sua conversa sobre direitos dos animais ou igualdade entre espécies, salvariam mesmo assim o humano. No fundo, portanto, o DDA é como qualquer outra pessoa e um especista de coração. Quando confrontado com a pergunta da casa a arder, é-se condenado em qualquer das escolhas. Se se responder que se salvaria o humano, o interlocutor considera-o, confiante e contente, um hipócrita. Se se responder que se salvaria o cão, é-se retratado como vilão, descrente e misantropo desviado com valores confusos.


Um pseudo-escândalo abala a pátria


Colocaram-me esta questão recentemente, durante uma sessão de perguntas e respostas para uma apresentação que dei na Universidade do Iowa (UI). Em Novembro de 2004, a Animal Liberation Front (ALF) efectuou um audacioso raid aos laboratórios do Departamento de Psicologia. Destruíram computadores e equipamento laboratorial e salvaram 401 animais. Enquanto a ferida ainda estava aberta – com a audiência cheia de segurança, agentes à paisana e membros do Departamento de Psicologia, e durante a semana Martin Luther King – falei com pormenor substancial sobre as comparações entre o movimento do século XIX para a abolição da escravatura humana e o movimento do século XXI para a abolição da escravatura animal. Expandi o conceito de King sobre justiça e a sua aceitação da desobediência civil para a defesa dos direitos dos animais, ao mesmo tempo que apontei as limitações de qualquer enquadramento humanista, por mais lato que seja, que não expanda as noções de comunidade, justiça a direitos dos animais. Usando a ideia de King de que «uma injustiça em qualquer lado é uma injustiça em todo o lado», defendi o raid da ALF aos hediondos laboratórios da UI como sendo bom e um acto justo.


Apesar do Sturm und Drang[1] da ocasião, respondi entre parêntesis à questão da casa a arder durante o Q&A[2] – onde disse que salvaria o meu cão em vez de um humano estranho – isto titulou muitos jornais e blogs por toda a nação. O insípido jornal de estudantes The Daily Iowan noticiou que as observações do Professor Best foram tão «inflamadas que deixaram a audiência boquiaberta e em murmúrios». Brian "Brain Dead" O'Conner, um biólogo reformado e vivissector, cujo único sentido da vida senil é incendiar reproduções em palha de DDA no seu virulento e tóxico blog anti-direitos dos animais, comentou sagazmente que «a ética do Professor Best é a ética do "Eu Primeiro" – uma ética que não lhe requer que meça as consequências das suas acções contra nada que não lhe dê prazer pessoal. É a auto-indulgência do egocêntrico disfarçada de um nobre princípio moral».


Sai da frente, Ward Churchill[3], tens companhia. Aparentemente, neste país, não se favorece apenas a vida do animal não humano em detrimento de um animal humano em quaisquer circunstâncias, a não ser que se queira ser colocado na mesma galeria que pessoas de comportamentos sexuais desviantes, pedófilos e campeões do incesto. Lembro-me do falso furor provocado depois do 11 de Setembro quando Karen Davis, da United Poultry Concerns, disse que «é especista pensar que este evento foi uma tragédia maior do que a matança de vários milhões de galinhas que, sem dúvida, ocorreu também a 11 de Setembro, como ocorre em qualquer dia útil nos Estados Unidos». A analogia dela recebeu atenção internacional dos média e até lhe conseguiu uma entrevista no programa de rádio de Howard Stern. Similarmente, a People for the Ethical Treatment of Animals (PETA) causou sensação com a exposição "Holocausto no seu Prato", que muito sensatamente comparou o aprisionamento, sofrimento e morte de milhões de judeus em campos de concentração nazis a milhares de milhão de animais (10 mil milhões todos os anos só nos EUA) em campos de concentração de humanos – isto é, explorações industriais de animais. Fiquei estupefacto por tantas pessoas terem ficado escandalizadas perante as minhas observações, especialmente porque a substância do meu discurso era infinitamente mais radical e provocadora. Das minhas conversas casuais e sondagens não científicas realizadas com amigos, estudantes e diversas audiências, conclui que, até as pessoas que não apoiam os direitos dos animais, salvam o próprio cão ou gato em vez de um humano estranho na situação da casa a arder.


Claramente, para sequer responder a uma questão da casa a arder, temos que a desmontar de forma a especificar concretamente e em várias situações: exactamente quem é o cão e quem é o humano entre quem temos de escolher? A questão da casa a arder não pode ser respondida em abstracto: a resposta de cada um vai – ou pelo menos deveria – variar de acordo com o ser específico que ocupa os papéis abstractos de "cão" e "ser humano". Digo «deveria variar» sabendo que os especistas vão favorecer sempre o humano em detrimento do cão.


Um "especista" é alguém que a priori (literalmente, "antes de experimentar") favorece de forma preconceituosa os interesses do humano em detrimento de animais não humanos, de tal forma que os humanos contam sempre mais por pura virtude de pertencerem à espécie Homo sapiens. De uma maneira circular, os especistas argumentam, de facto, que os humanos contam mais por serem humanos e os animais contam menos por serem animais. Do seu ponto de vista preconceituoso, esquecem-se de perguntar e responder à pergunta real de porque é que a pertença a uma espécie é valorizada em detrimento da sua natureza existencial. O errado em infligir dor em seres vivos não depende da espécie a que pertencem, mas antes concentra-se na sua natureza enquanto vida senciente individual. Como observa Peter Singer, «dar preferência a uma vida simplesmente porque esse ser é membro da nossa espécie pôr-nos-ia na mesma posição de racistas que dão preferência àqueles que são membros da sua própria raça».


Por isso, tal como fiz com brevidade na Universidade do Iowa, deixem-me responder à questão da casa a arder adequadamente, não em abstracto, mas de várias maneiras concretas.


Vá, Fido, vamos!


Cenário #1: Enquanto corro da casa a arder para salvar a minha própria vida, tropeçando pelas escadas abaixo até à porta da rua, ouvindo o latir de um cão no quarto à minha esquerda e um grito humano no quarto à minha direita, à medida que o tecto cai à minha volta, fumo concentra-se em nuvens sufocantes e eu percebo que só posso salvar uma vida. Que devo fazer? Se o cão é o meu cão e o humano é-me completamente estranho, eu salvarei, em qualquer caso, o meu cão. Para mim, isto é óbvio, axiomático, de rigeur e incontroverso, algo que até os mais especistas e certamente "amantes dos animais" fariam. Mas, aparentemente, para muitos é chocante, irresponsável, horrífico e escandaloso. Eu salvarei o meu cão e não o humano porque o cão é família, um membro íntimo do meu mais íntimo círculo de relações, enquanto o humano é-me completamente estranho.


A minha escolha não é nem arbitrária nem errada – e eu nem sequer comecei a entrar em controvérsias. Qualquer pessoa forçada a escolher entre o seu pai, mãe, irmão, irmã ou amigo e um estranho escolheria, natural e correctamente, salvar o membro da sua própria família. Usando um raciocínio semelhante, poderei escolher um membro da minha comunidade local em detrimento de alguém que vivesse na Austrália. Se uma pessoa só pode salvar uma vida, é natural e intuitivo que escolha – compreendendo que este é ainda um mero princípio muito geral, que pode mudar sob diferentes condições – alguém que está relativamente "perto" em detrimento de alguém relativamente "longe". Chamarei a isto o princípio da proximidade existencial.


Tudo em família


Agora:

1) Se o princípio da proximidade existencial se mantiver, de forma geral, e

2) As pessoas relacionam-se frequentemente com os seus cães, gatos e outros animais domésticos como se se tratassem de membros da família, então

3) Segue-se que é perfeitamente aceitável e natural salvar o próprio cão (ou gato, coelho, etc.) em detrimento de um estranho.


Argumentar em favor de salvar o humano estranho em detrimento do membro da família canino é especista e arbitrário. Privilegia um ser em vez de outro simplesmente devido à sua pertença a uma espécie, sem explicar a absoluta relevância desse critério. Há duas falhas nesta abordagem: 1) não é discutível a razão pela qual a espécie é o critério moral decisivo para a tomada de uma decisão em dilemas deste género e 2) não vê que a proximidade sócio-familiar se sobrepõe legitimamente ao critério da espécie e que nós consideramos correctamente os nossos amados cães e gatos (tal como outros animais) como membros queridos das nossas famílias. De facto, as pessoas são frequentemente mais próximas dos seus animais do que dos membros da sua família. Passam, frequentemente, mais tempo com a sua família animal e – ao contrário da sua família humana – partilham até as suas camas com ela.


Para ser franco, eu salvaria o meu cão em detrimento de um, dez, oh, não sei quantos mais humanos estranhos, especialmente se fossem vis abusadores de animais – mais sobre isto abaixo. Deixe os especistas queixarem-se e zurrarem, leitor; sinta-se feliz por não ser o cão ou gato deles, porque eles vendê-lo-iam a um miserável bípede num piscar de olhos. Suspeito, contudo, que muitos destes fáceis humanistas e especistas são hipócritas que, na verdade, salvariam o seu cão em detrimento de um humano estranho, apesar dos seus preconceitos contra outros animais (como os milhares de animais terrestres e marinhos que acabam no desagradável cemitério dos seus estômagos) e a sua irracional aliança a uma espécie tão demente, perturbada e imerecedora como o Homo sapiens.


Penso que se a escolha fosse entre o próprio filho e cem estranhos, muitos ou a maior parte escolheriam salvar o próprio filho. Então o que pensa, Herr O'Conner? Isso também é comportamento "auto-indulgente" e "egocêntrico"? Quer que acredite que sacrificaria o seu filho ou filha por um estranho, que pode muito bem ser uma pessoa desagradável ou, céus!, um DDA? Qual é o problema do "filho" ser um cão? Família é família é família – não interessa se o membro da família tem quatro pernas ou duas, pele felpuda ou pele nua, se bebe de uma taça ou por um copo, ou se trata dos seus assuntos dentro ou fora de casa.


Mãe, pai, mana, céus!


Cenário #2: A situação pode mudar, contudo, se se for forçado a escolher entre membros da família humanos e não humanos, tal como o cão ou o pai, irmão ou filho. A maior parte – mas não todos – provavelmente escolheria a mãe ou o irmão em detrimento do cão, mesmo que escolhessem sempre o cão em detrimento de um humano estranho.


Cenário #3: Mas agora, e se se tivesse que escolher entre dois membros da família humanos? Salvaria a sua mãe ou o seu pai, irmão ou irmã, filho ou filha, pai ou filho, mãe ou irmã? Quem escolheria e porquê?


Utilitarismo e a qualidade de vida


Mudemos o cenário um pouco para torná-lo mais interessante e revelar mais acerca da natureza do valor moral e das considerações éticas.


Cenário #4: Suponhamos que, desta vez, o cão é um saudável cachorro que nunca conheci e que o humano é o meu idoso (85 anos de idade) vizinho do lado, nos últimos estádios de cancro. Quem devo ajudar? Mais uma vez, eu vou salvar o cão. O meu raciocínio não tem nada que ver com a espécie, mas antes com considerações utilitárias e a viabilidade da vida. O cachorro que não conheço tem uma vida cheia e rica pela frente, mas o humano que conheço tem a sua vida no passado e morrerá em breve. Suponham que o humano no quarto da direita é Terri Schiavo[4], que perdeu toda a actividade cerebral significativa e é mantido vivo apenas através de um tubo. Isto é, passo o trocadilho, um vegetal: Estou a sair da casa com o cão nos meus braços, mesmo que o cão tenha 20 anos e não tenha mais que um mês de vida. Mesmo assim, há mais qualidade de vida a ser encontrada no Fido do que em Terri. Se os papéis estivessem invertidos, contudo, e o cão estivesse doente e a morrer e o humano fosse jovem e saudável, eu salvaria o humano. Mas a minha escolha seria feita, outra vez, baseada em considerações sobre qualidade de vida (mesmo que rapidamente ou intuitivamente, eu conseguisse compreendê-las no calor do momento) e não em pertença a uma espécie.


Este é um apelo ao utilitarismo, uma doutrina filosófica que define a acção correcta como aquela que promove a maior quantidade de prazer ou felicidade para a maior quantidade de seres (sencientes), humanos ou animais. Admito livremente que os dois princípios que evoquei até agora – proximidade existencial e utilitarismo – podem facilmente contradizer-se. O meu desejo de salvar o meu cão em detrimento de cem humanos com base no facto do cão ser um membro da família, por exemplo, não maximiza claramente a quantidade de prazer ou felicidade para todos os seres envolvidos na minha decisão. Eu fico feliz, mas cem pessoas morrem e os seus amigos e familiares ficam abandonados e desconsolados. Se o estranho que sacrifiquei às chamas fosse um génio que tivesse a solução para a fome no mundo ou para a extinção das espécies, então, segundo o critério utilitário, eu claramente salvá-lo-ia em detrimento do meu cão. Posso facilmente justificar o salvamento do meu cão em detrimento de um Joe ou Josephine Schmo indistintos, mas há um certo ponto onde as escolhas baseadas na proximidade existencial se tornam difíceis de defender contra as considerações utilitárias e tornar-se-ão, de facto, egoístas.


Pessoalidade


Há uma terceira perspectiva ética, que penso ser extremamente importante analisar através do dilema da casa a arder, e que envolve o conceito de pessoalidade. Aqui bebo do conceito de "pessoa" de Peter Singer, assim como do conceito relacionado de "sujeito de uma vida" de Tom Regan. Embora Singer e Regan trabalhem a partir de enquadramentos teóricos incompatíveis (o utilitarismo de Singer vs. a abordagem deontológica dos direitos de Regan, que se foca no valor intrínseco de seres vivos e não nas consequências de uma acção), ambos rejeitam que o especista privilegie a priori humanos em detrimento de animais, enquanto permitem casos em que o valor da vida humana pesa mais do que o da vida de animais.


Tanto para Singer como para Regan, a questão eticamente relevante é não se um ser é humano ou não humano, mas antes se um ser é uma "pessoa" ou "sujeito de uma vida". Para contar como qualquer destes conceitos, um ser tem primeiro de ser senciente, ou seja, ter a capacidade de experienciar prazer e dor. Ser senciente é ter interesses profundos em evitar a dor e experienciar prazer. Faltando-lhes cérebros e sistemas nervosos, rochas e árvores não podem contar como seres com direitos, valor intrínseco e significância moral, ao contrário de sencientes humanos e animais não humanos. Acresce que, para contar como pessoa ou sujeito de uma vida, um ser tem de possuir qualidades mentais e psicológicas mais "avançadas", tais como consciência do eu, memória, desejos, preferências, uma vida emocional e compreensão do futuro. Para Singer, ostras e bivalves provavelmente não correspondem a estes critérios e ficam-se por uma zona moral cinzenta, que, ao contrário de vacas e porcos, permite que possam ser consumidos legitimamente como comida. Para desalento de Karen Davis, que estudou cuidadosamente a complexa inteligência de galinhas e perus, Singer sugeriu que tais aves podem não contar como pessoas. Para Davis, contudo, elas são pessoas em todos os sentidos do termo.


Assim que tornamos algo como a pessoalidade no factor relevante para decidir questões de ética e valor moral e abandonamos os apelos especistas ao Homo Sapiens, todo o jogo muda porque as regras são agora radicalmente diferentes. É que, quando mudamos o centro de gravidade de humanos para pessoas, vão haver muitos casos em que não humanos (como gatos, cães, golfinhos e chimpanzés) são pessoas e, controversamente, humanos (como crianças, os cerebralmente danificados, os comatosos e os que sofrem de estádios avançados de Alzheimer) são não-pessoas.


Em situações em que existe maior complexidade mental em pessoas não humanas, Singer favorece a vida de animais. Seguindo a lógica dos seus argumentos, Singer diz que seria mais ético usar humanos não-pessoas, como Terri Schiavo, para "investigação científica" e experiências do que pessoas não humanas, como um gato, cão ou chimpanzé. Mas, dada a escolha entre um animal e um adulto humano que "funcione normalmente", Singer favorece o humano em detrimento do animal devido às qualidades cognitivas mais avançadas do humano.


Singer sublinha que, se apelarmos apenas à linguagem e à razão para negarmos os direitos dos animais, então na mesma base, temos também de negar direitos a muitas categorias de seres humanos. Fetos, crianças, pacientes comatosos e alguns idosos e os severamente retardados não têm uma forma complexa de consciência e, portanto, não podem reivindicar direitos. Se um chimpanzé é mais esperto do que uma criança de três ou quatro anos e, certamente, tem muito mais consciência do que um humano "cognitivamente deficiente", porque não deixar os chimpanzés em paz e, em vez disso, confinar crianças humanas em jaulas e tentar induzir o vírus da SIDA nos seus corpos? De uma perspectiva ética não especista, esta é a coisa certa a fazer. E, certamente, de uma perspectiva científica, seria muito mais válido, uma vez que não se poria mais o problema de extrapolar dados de uma espécie para outra. Se rejeitarmos a validade de experimentar em crianças, comatosos, pacientes de Alzheimer e outras classes de humanos cognitivamente subdesenvolvidos ou deficientes, então, logicamente, teremos também de renunciar ao direito de experimentar em animais.


Do ponto de vista de Singer, existe um prémio moral sobre a auto-consciência e a complexidade mental a que se pode apelar para pesar diferentes valores, se necessário. Para Singer, «não é arbitrário defender que a vida de um ser auto-consciente, capaz de pensamento abstracto, de planeamento do futuro, de actos complexos de comunicação, etc. é mais valiosa do que a vida de um ser sem estas capacidades». É pior reduzir a vida de um humano do que de um peixe, existe menos sofrimento e perda porque o peixe tem uma vida mais curta e menor complexidade mental. Se aplicarmos o critério da pessoalidade a um cenário altamente artificial de escolha coerciva, eu escolheria o meu cão em detrimento da minha mãe morta cerebralmente, escolheria um golfinho em detrimento de um gato e um chimpanzé em detrimento de um cão.


Como Singer, Regan também privilegia a complexidade mental e favorecerá humanos em detrimento de animais em cenários de casa a arder ou naufrágio. Na verdade, Regan leva este conceito a extremos absurdos onde reivindica que atiraria um milhão de cães pela borda fora durante um naufrágio para salvar quatro vidas humanas. Em comparação com cães e outros animais, argumenta, os humanos têm um muito maior «número e variedade de oportunidades para satisfação» e, assim, o ponto de vista de Regan sobre direitos favorece uma pequena tribo de humanos em detrimento de uma vasta nação de cães. Regan oferece este argumento sem conhecimento das satisfações disponíveis para um cão e, dada a natureza stressante e competitiva da vida contemporânea, suspeito que um cão doméstico bem tratado tem muito mais satisfação na vida do que o seu guardião humano. Pode-se muito bem perguntar: não é preferível um cão feliz a um ser humano miserável cujo estilo de vida consumista é um fardo para o planeta? A fidelidade injustificada de Regan à vida humana mostra que, a certo nível, a utilidade é um critério de apelo. A que ponto – dez, cem, mil – não tenho a certeza, mas sinto que há mais valor nas vidas de um milhão de cães do que na de qualquer pessoa. Pessoalmente, saltaria do barco e afogar-me-ia para salvar um milhão de cães da morte.


Deixem cair os vossos homens de palha


Críticos dos direitos dos animais anotem. É uma crua caricatura da filosofia dos direitos dos animais reivindicar que os DDA pensam não haver diferença entre animais humanos e não humanos. Em todos os aspectos, o Homo sapiens é o ser mais criativo e inteligente do planeta; ao contrário de animais, os seres humanos podem escrever poesia, compor sonatas e desenhar naves espaciais. Se há um verdadeiro dilema ético tal que se tem de escolher entre uma vida humana viável e um animal, filósofos como Singer e Regan privilegiam sempre a existência humana e, em contradição com os pontos de vista abolicionistas e anti-vivisseccionistas de Regan, Singer defenderá a experimentação em animais sempre que exista potencial para favorecer os interesses humanos.


Dada a sua aliança com a libertação animal e os direitos dos animais, contudo, enfatizam que existem poucos casos bona fide em que os interesses humanos e animais entrem em conflito, de tal maneira que o prazer e vida de animais possa ser correctamente sacrificado pelos humanos. Explorar animais pelo seu pêlo, carne, fluidos corporais e valor de entretenimento não são exemplos de tais casos, uma vez que não existe necessidade ou razão que compila à exploração de vidas animais por interesses humanos. Os prazeres que humanos obtêm de comer carne, por exemplo, são satisfações triviais que não justificam de modo algum o aprisionamento, sofrimento, tortura e morte violenta de milhares de milhões de animais.


O meu objectivo é aqui mostrar que o reformista Singer e o proponente dos direitos dos animais Regan são exemplos de como filósofos e outros não fazem convergir as diferenças entre animais humanos e não humanos. Quando Ingrid Newkirk diz que «um rato é um cão é um rapaz», ela não está a fazer entrar em colapso todas as diferenças entre eles; está antes a enfatizar que todos, igualmente, são mamíferos sencientes que partilham as capacidades de prazer e dor, de vidas agradáveis ou horríveis. Para Singer, a "igualdade de interesses" significa que tanto humanos como animais têm igualmente interesses, têm preocupações, necessidades e preferências. Uma vez que isso seja reconhecido, Singer avaliará a natureza específica de humanos e animais, que são parte de um potencial dilema moral, e decidirá de acordo com a substância da reivindicação humana sobre animais e os diferentes graus de pessoalidade. Para Regan, humanos e animais são iguais em termos de serem sujeitos sencientes de uma vida, que tem valores intrínsecos e direitos; apenas na mais extraordinária situação – não a vivissecção, mas um barco salva-vidas a afundar-se – é que Regan permite que os interesses humanos se sobreponham aos interesses animais.


A questão não é existirem diferenças ou não entre humanos e animais; claramente, existem. A questão é se estas diferenças são moralmente significativas. Quando, se é que nalgum momento, é que o mero facto da complexidade intelectual humana justifica a utilização de animais para os nossos alegados benefícios e caprichos egoístas? E quando é que os interesses humanos e animais realmente chocam de uma forma que os seres humanos tenham um interesse substantivo em jogo, em que a única forma possível de o concretizar é causar sofrimento e/ou a morte de animais?


A mudança Gestalt cujo tempo chegou: a perspectiva biocêntrica


Cenário #5: Não interessa como chegaram lá; suponha que estava uma foca bebé num quarto e um caçador de focas no outro. Não só salvaria a foca do bárbaro que ganha a vida a bater nas cabeças desses bebés bonitos e a esfolá-los vivos, eu salvaria a foca em detrimento de mil milhões de bastardos como ele. Similarmente, eu atiraria um número infinito de cretinos tipo Ted Nugent[5] de uma falésia abaixo para salvar um veado, alce, urso ou qualquer outro animal que eles matam por prazer. Fá-lo-ia para salvar uma barata, uma pulga ou uma carraça. Ou uma erva. O planeta é um lugar melhor sem esses sádicos, que matam animais por prazer ou lucro.


Cenário #6: Eu também escolheria um membro de uma espécie em extinção (como a pantera da Florida, o rinoceronte negro ou o gorila de costas prateadas) em detrimento de um humano estranho, a menos que, de novo, esta pessoa fosse tão importante para o planeta que ele(a) pudesse fazer coisas dramáticas para o ajudar. Para qualquer pessoa que seja rápida no descortinar de mais provas da "máscara egocêntrica", eu daria de bom grado a minha vida para salvar uma espécie ameaçada.


Eu adopto uma perspectiva centrada na terra ("biocentrismo") em detrimento de uma perspectiva centrada nos humanos ("antropocentrismo"), de tal forma que vejo as necessidades da terra e da biodiversidade como mais importantes do que a vida de qualquer ser humano único, incluindo-me a mim. É extremamente raro que um membro do Homo Sapiens valorize as necessidade da terra acima de tudo, mas podem-se encontrar valores biocêntricos na ecologia profunda, A Terra Primeiro!, e eco-guerreiros como Paul Watson.


Uma vez ouvi alguém dizer que exterminaria cada um dos chimpanzés que restam no planeta para salvar um único humano da SIDA. Este é o grau de perversidade moral e trai a lógica insana do antropocentrismo, que sobrevaloriza excessivamente o valor da vida humana individual no grande cenário da evolução e biodiversidade.


A mudança para uma perspectiva biocêntrica deveria tornar a maior parte dos humanos humildes. Do ponto de vista da terra – de Gaia – a larva, a borboleta, a abelha e o escaravelho são muito mais importantes para as suas necessidades e futuro do que a inchada população de mais de seis mil milhões de seres humanos. Porque, enquanto as larvas enriquecem o solo, as borboletas e as abelhas polinizam as flores e os escaravelhos espalham nutrientes pelas florestas tropicais, o Homo sapiens ataca o corpo da terra como se fosse um vírus mortal ou cancro.


O eco-humanista Murray Bookchin pensa que o planeta estaria vazio de interesse não fossem os seres humanos. Eu, por outro lado, acredito que o planeta estaria muito melhor se a espécie hominídea denominada Homo não tivesse evoluído para o locustídeo violento e destrutivo que é, uma espécie engordada pela guerra, genocídio e dizimação ambiental, aniquilação de animais e economias descontroladas, crescimento populacional e estilos de vida.


Os humanos têm o direito de viver no planeta tal como qualquer outro animal. Mas, a não ser que os humanos – e é claro que me refiro principalmente àqueles que vivem em economias nórdicas avançadas, mas também àquelas populações em rápida modernização da China e Índia – consigam controlar-se e aprendam a reduzir os seus números, a simplificar os seus estilos de vida e a harmonizar a sua existência com as necessidades do planeta, eu não choraria muitas lágrimas pela sua destruição – que chegará, mais tarde ou mais cedo: de repente ou com doloroso prolongamento, acabando com um bang ou um queixume.


Preferiria que os elefantes de novo povoassem livremente as savanas africanas, que os chimpanzés enchessem as florestas tropicais de brincalhões pios, que as florestas tropicais, mais uma vez, inchassem majestosamente, que os rios e oceanos se tornassem limpos e cheios de golfinhos, baleias e peixes. Preferiria que a regeneração da terra transpirasse a ter os humanos a devorar continuamente e a destruir o planeta com os seus jipes, super-auto-estradas, propagação urbana, subúrbios, famílias inchadas, adições a fast food, apetites tipo Super Size Me[6], arrogância e alienação e gordos e grotescos rabos.


Ponderai o vosso prato


Eu tenho pensamentos conflituosos acerca do dilema da casa a arder. Por um lado, é um instrumento útil para clarificar valores éticos. A pertença a uma espécie pode ser relevante para dilemas morais, mas não de uma forma a priori que favoreça sempre os animais humanos em favor dos animais não humanos. Outros factores são mais decisivos para escolhas morais, tais como a proximidade existencial e pessoalidade.


Por outro lado, penso que o cenário da casa a arder é uma questão vazia, estéril e hipotética que é completamente inútil e levantada engenhosamente por insípidos palermas que nada fazem para ajudar o planeta, mas censuram os que o fazem. A sua natureza académica distrai das demasiado reais questões que todas as pessoas enfrentam no que respeita a como viver uma vida que não cause mal a animais ou à terra.


As questões reais que as pessoas têm de enfrentar não são sobre o que fariam se se vissem na situação da casa arder com escolhas a fazer e vidas para salvar, mas que tipo de roupas devem usar, que tipo de comida devem ter nos seus pratos, que tipo de produtos devem usar e que tipo de transporte devem escolher.


Quando me perguntarem sobre a questão da casa a arder novamente, no futuro, penso que responderei simplesmente: «Quando estiver numa casa a arder e tiver que escolher entre um animal e um humano, farei com que te chegue a resposta. Entretanto, tenho sérias escolhas éticas a fazer todos os dias».


Traduzido de My Dog or Your Child? Ethical Dilemmas and the Hierarchy of Moral Value
Fonte:
http://www.drstevebest.org/


[1] N. da T. - Sturm und Drang: movimento literário alemão do século XVIII caracterizado pela ênfase na subjectividade pessoal, pela intensidade com que desenvolveu o tema da genialidade dos jovens na rebelião contra os padrões aceites e pelo entusiasmo dos autores pela natureza. O principal autor desta corrente foi Goethe.

[2] N. da T. – Q&A – Abreviatura inglesa para "Questions and Answers", ou seja, "Perguntas e Respostas".

[3] Ward LeRoy Churchill – activista norte-americano dos direitos dos índios nativos do continente, escritor e académico.

[4] N. da T. – Terry Schiavo era uma cidadã norte-americana, que sofreu danos cerebrais irreversíveis e que, até à data da sua morte, em Março de 2005, foi um símbolo da luta a favor da eutanásia. A sua morte acabou por ser provocada pelos próprios médicos que, durante mais de dez anos, fizeram com que o seu corpo se mantivesse vivo através de máquinas.

[5] N. da T. – Ted Nugent é um dos mais proeminentes caçadores norte-americanos. É também músico. Defende a caça como forma de conservação da natureza e já dispõe mesmo de um reality show, no qual a caça é sublinhada como uma arte da sobrevivência.

[6] N. da T. – Super Size Me é um documentário da autoria de Morgan Spurlock que se centra no papel da fast food na dieta alimentar dos norte-americanos. O próprio realizador submete-se a uma alimentação exclusivamente composta pelo menu da McDonald's, tentando determinar os seus efeitos e chegando à conclusão que pode morrer se se mantiver naquele caminho.

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CPDA - Comitê para Pesquisa, Divulgação e Defesa dos Direitos Animais

sábado, 29 de março de 2008

Guarda burocrático

Sexta-feira à noite a polícia pára um sujeito dirigindo seu carro em zigue-zague.
O guarda pergunta se ele bebeu.
- Pois é - responde o motorista -
Eu e uns amigos paramos num bar e tomamos uns cinco ou seis chopes. Aí deram um tal de Happy Hour e serviram uma tal de margarita, que era muito boa.
Tomei umas quatro ou cinco.
Aí eu tive que levar o Miguel para casa e acabei tomando duas latas.
Para não ofendê-lo, é claro.
Aí eu parei no caminho de casa e tomei uma garrafa...
O guarda sorri e diz:
- Eu vou ter que pedir para o senhor soprar no bafômetro.
O motorista responde, espantado:
- Por que? O senhor não acredita em mim?

Diferenças Básicas

sexta-feira, 28 de março de 2008

Sonhar, imaginar...


O SONHAR E O IMAGINAR ATIVIDADES
DE TRANSCENDÊNCIA

Walter Boechat é médico, analista junguiano, diplomado pelo Instituto
C.G.Jung de Zurique. Membro-Fundador da Associação Junguiana doBrasil
.

O conteúdo dos sonhos, seu significado e sua importância para o sonhador, são temas que têm preocupado a humanidade desde seus inícios. Sabemos que os sonhos fascinaram o homem arcaico assim como ainda fascina os homens nas culturas tribais de uma forma peculiar: seus conteúdos revelariam de forma literal e direta eventos da vida diurna. Xamãs e advinhos sempre buscaram nos sonhos fontes para suas profecias e premonições.
Um fator comum permeia o relacionamento do homem arcaico com o universo onírico, pertença ele a qualquer que seja o grupo social: os conteúdos oníricos não são vivenciados como símbolos, em sua riqueza polissêmica, mas como sinais de significado fixo. Esse significado fixo é dado por pressuposto cultural qualquer.
Esta forma literal de vivenciar a subjetividade dos sonhos não é privativa da sociedade tribal, nossos contemporâneos rurais, por exemplo,vivem sob a influência inconsciente de um sistema de crenças mágico, que atribui valores determinados a certos símbolos oníricos, reduzindo-os a sinais unívocos. A fascinação é semelhante, quer entre o xamã siberiano, que tem sonhos de
profundo significado religioso, quer seja o paciente no templo do deus-médico Asclépio, na Grécia antiga que sonha a cura de sua doença no santuário do deus. Também o homem simples é tomado pelo poder das imagens em seu sistema de crenças, que rezam que certos animais ou objetos significam eventos específicos da vida desperta. Esta rede de significados visa estabelecer pontes entre o mundo onírico e o mundo diurno.
O grande valor da psicologia do inconsciente na recuperação do mundo onírico na sociedade contemporânea, é que tanto Freud quanto Jung preocuparam-se com o resgate de símbolos, não de sinais unívocos. A simplicidade ingênua da antiga abordagem dos conteúdos oníricos como sinais de valor literal foi transcendida.
Freud procurou realizar este salto fundamental declarando o sonho uma via regia para o inconsciente e usando seu método genial das associações livres.
O método das associações libera a imagem de seu significado fixo, uma mesma imagem pode ter significados diferentes, para sonhadores diferentes. Mas Jung detecta uma falha no método das associações livres, uma vez que elas podem levar o sonhador para longe demais da imagem que constitui o sonho, e o sonhador acabará se deparando com um complexo inconsciente, é verdade, mas um conteúdo que pode ter pouco a ver com a imagem do sonho em si. Jung
lembra que para se chegar ao mesmo complexo pode-se partir, por associações livres, de qualquer conteúdo consciente. Em vez disso, Jung propõe o método das associações circunscritas; as imagens são rigorosamente valorizadas, em sua textura, cor e dimensões. As emoções particulares do sonhador em relação a cada imagem são também enfatizadas.
Mas neste fascinante mosaico antitético de duas realidades paralelas, a realidade vigil e a realidade misteriosa dos sonhos, as imagens oníricas cumprem sempre uma função básica, quer seja entre o homem arcaico, quer seja entre aqueles da sociedade complexo, onde os sonhos são interpretados de uma forma sofisticada pela psicanálise ou pela psicologia analítica. *A função básica do sonho é relativizar a estreiteza da realidade consciente.* A riqueza da imagética onírica nos trás de forma definitiva uma realidade nova, que nos faz recuar de nossos automatismos conscientes e questionar.
Don Juan, mestre (onírico ou vigil?) de Carlos Castañeda está certo: a realidade do tonal (vigília) encobre uma realidade muito mais ampla e significativa, o mundo do nagual (universo onírico).

O cérebro é o espírito!


http://veja.abril.com.br/260907/p_098.shtml
*REVISTA VEJA
Edição 2027 - 26 de setembro de 2007*

*O cérebro é o espírito*

*Nossa cultura fala do cérebro como se fosse um computador. Ele é a sede da
razão, e a arte é reservada ao espírito. Mas agora a neurociência estuda a
música e outras atividades que definem a essência humana *

Carlos Graieb

O cérebro nunca recebeu o devido crédito pelas criações artísticas. Aplicado à pintura ou à música, o adjetivo "cerebral" tem inclusive conotações negativas. Implica frieza ou cálculo – como se o mesmo órgão não fosse responsável por processar as emoções. O cérebro é engrenagem, computador,razão. Mas não arte. Há também quem julgue que tratar as esculturas de Michelangelo ou as sinfonias de Beethoven como produtos de um emaranhado de células nervosas tira delas a transcendência. Devido à antiquíssima divisão da experiência humana entre o físico e o imaterial, foi e continua sendo mais comum associar a arte a abstrações como as musas e o espírito do que ao trabalho de nossa massa encefálica. Em boa parte, contudo, essas idéias se deviam à falta de instrumentos adequados para estudar as artes do ponto de vista da neurologia. Isso mudou. Técnicas como a ressonância magnética funcional, que permitem captar imagens do cérebro em funcionamento, associadas a pesquisas no campo da neuroquímica e, de modo menos divulgado, a refinados modelos de computador de nossas redes neuronais, puseram em marcha uma revolução. A nova ciência do cérebro fez explodir o número de estudos sobre essas atividades tão intimamente ligadas à nossa essência humana: a produção e a fruição das artes. "Está surgindo uma nova disciplina", afirma o inglês Semir Zeki, uma das maiores autoridades mundiais na neurologia da visão. "Podemos chamá-la de neuroestética."

A neuroestética é uma via de mão dupla. Ajuda a entender melhor o cérebro e as artes. Cientistas que usam a música ou a linguagem como ferramentas para explorar nossa vida neural têm colaborado para derrubar velhos dogmas e refazer a cartografia do cérebro. O cérebro humano tem 100 bilhões de células nervosas e mais de cinqüenta substâncias neurotransmissoras.
Estima-se que o potencial de conexões entre os neurônios chegue a 500 trilhões. Qualquer comportamento complexo depende de diversos grupos de células ligados por circuitos. A metáfora mais freqüente nos novos livros de neurologia é a das cascatas neurais – grandes seqüências de ativação de áreas do cérebro, às vezes bastante afastadas entre si. Uma das teorias destroçadas pelos achados recentes é o "localizacionismo". Ele remonta ao cirurgião francês Paul Broca, do século XIX, e postula que as principais habilidades humanas se devem única e exclusivamente a uma região do cérebro.
Sim, é verdade que o órgão tem partes especializadas. Broca identificou uma delas, relacionada à fala. Como observa o biólogo americano Philip Lieberman, contudo, hoje é certo que a linguagem humana "pode ser rastreada até as respostas motoras dos répteis". Dito de outra maneira, ela envolve tanto partes primitivas do cérebro – aquelas que compartilhamos com cobras e lagartos – quanto outras que apareceram muito mais tarde na escala da evolução, como o lobo frontal esquerdo, que aloja a área de Broca.
Especialização e coordenação – essa última em níveis às vezes insuspeitados – são dois princípios que governam o cérebro.

Mais recente ainda é a descoberta da incrível plasticidade do cérebro. Não faz muito tempo, pensava-se que pela idade de 3 anos o cérebro tinha sua estrutura rigidamente estabelecida. Hoje, está comprovado que a organização que o tecido cerebral assume no começo da vida não é definitiva. Provasassombrosas de que o cérebro é capaz de encontrar rotas alternativas para atingir a mesma finalidade estão nas hemisferectomias – operações que extirpam um dos hemisférios do cérebro, atingido por um sério dano. Um dos casos mais famosos é o do menino inglês Alex. Ele tinha uma anomalia no lado esquerdo, onde se concentram as estruturas responsáveis pela fala, e aos 8 anos de idade era incapaz de se comunicar. Dez meses depois que o hemisfério malformado foi retirado, Alex começou a se expressar com sentenças complexas, num exemplo dramático de como a massa encefálica consegue se rearranjar. Mas o fato é que pequenas metamorfoses neurológicas ocorrem todos os dias de nossa vida: a plasticidade é também o mecanismo pelo qual o cérebro responde ao mundo externo. Assim, áreas mais requisitadas por algum tipo de aprendizado, como o estudo musical, podem transformar-se em verdadeiros latifúndios neuronais. As conseqüências de constatar a maleabilidade do cérebro são profundas. Com isso, a velha disputa sobre quem molda o comportamento humano, a natureza ou a cultura, pode estar fadada a resolver-se num empate. Embora condicione de muitas maneiras a nossa experiência do mundo, o cérebro também possui uma capacidade espantosa de reconfigurar-se de acordo com a informação que recebe de fora.

Enquanto ajudam a compor uma nova "teoria geral do cérebro", cientistas interessados em arte fazem achados num terreno anteriormente percorrido apenas por filósofos e críticos culturais. Por exemplo: o que é a beleza?
Numa experiência realizada no University College de Londres, Semir Zeki e sua equipe pediram a um grupo de pessoas que classificassem 300 pinturas como belas, feias ou neutras, numa escala de 1 a 10. Depois, as mesmas pinturas lhes foram reapresentadas, enquanto seus cérebros eram monitoradosnuma máquina de ressonância magnética. Uma gama diversa de estruturas
cerebrais reagiu durante a experiência. Concluiu-se, no entanto, que o córtex orbito frontal medial e o córtex motor eram as áreas de fato ligadasao julgamento do belo. O córtex orbito frontal medial, relacionado ao prazer e às recompensas, apresentou atividade mais intensa diante de quadros belos.
A atividade era maior para um quadro que recebera nota 9 do que para um quadro nota 7. O oposto aconteceu com o córtex motor: maior atividade diante da feiúra. Como essa estrutura controla os movimentos, pode-se supor que a visão de algo feio deixa o corpo pronto a reagir, se necessário: se alguém diz ter vontade de "fugir" diante, digamos, de uma obra do artista brasileiro Tunga, talvez não esteja usando apenas uma figura de linguagem.
"Tempos atrás, se você dissesse estar maravilhado com uma obra de arte, eu não teria uma maneira objetiva de verificar isso", diz Zeki. "Agora, asmáquinas de neuroimagem nos permitem avaliar estados subjetivos. Melhor, permitem quantificá-los, pois a atividade numa região do cérebro tende a ser proporcional à intensidade declarada da experiência. Filósofos especulam sobre a beleza. Eu diria que ela é um aumento de fluxo sanguíneo na base do lobo frontal."

Semir Zeki escreveu um livro em parceria com o pintor francês Balthus e recita de memória trechos de poetas como T.S. Eliot. Ele diz que aprendeu com os artistas – "neurologistas intuitivos", que exploram e desvendam regras da percepção. Ele gosta de citar uma frase de Picasso: "Seria muito interessante preservar fotograficamente as metamorfoses de uma pintura.
Talvez assim se pudesse descobrir o caminho percorrido pelo cérebro para materializar um sonho". Segundo Zeki, é isso que a neurociência começa a fazer. Desvendando um cérebro que calcula, mas também cria. E é tão sutil quanto as musas ou o espírito.

*Arte para quê?*

Quem pensa nas artes como um produto do cérebro logo chega a outras questões. Por que o órgão mais complexo do corpo nos capacita a criar pinturas e poemas? Qual a função dessas atividades? Será que despender energia inventando batidas de tambor e desenhos para a caverna ajudou nossos ancestrais a sobreviver? Essas perguntas remetem ao naturalista inglês Charles Darwin e sua teoria da evolução. Darwin refletiu sobre uma arte em especial – a música – e concluiu que ela teve papel evolutivo. Como a cauda nos pavões, ela nos ajudava a atrair o sexo oposto. Era uma ferramenta a mais do processo que Darwin chamou de "seleção sexual". Essa é uma de suas teses mais controvertidas. Para os cientistas que discordam, a arte é apenas
um subproduto do aparato sensorial. O fato de alguns estímulos nos darem prazer fez com que inventássemos formas de ter acesso a eles repetidamente.
Para o psicólogo canadense Steven Pinker, arte é um "doce mental" –dispensável mas saborosa. Ainda assim, Darwin pode estar certo? O fato de astros do rock, mesmo com as rugas de Mick Jagger, terem muito mais parceiras do que um homem comum seria uma confirmação da tese do papel da música na seleção sexual. Seria mesmo? Em parte sim, mas Jagger as atrai pela música, pela fama, pela riqueza ou pelo poder hipnótico sobre as massas? O debate continua. Só se sabe com certeza que, entre todos os grupos de hominídeos que disputavam recursos escassos na Idade do Gelo, o mais bem-sucedido foi o que encontrou tempo para decorar com pinturas as paredes das cavernas.

*A grande orquestra do cérebro*

Alguns personagens históricos se tornaram conhecidos por terem ouvidos de pedra. Os presidentes americanos Ulysses Grant e Theodore Roosevelt e o guerrilheiro argentino Che Guevara fazem parte desse grupo, assim como o romancista russo Vladimir Nabokov, que registrou: "A música me afeta como uma sucessão arbitrária de sons mais ou menos irritantes". Por muito tempo, eles foram considerados exemplos da surdez para tons, uma insensibilidade relativa para a música que se estima estar presente em 5% da população. Nos últimos anos, alguns cientistas passaram a se perguntar se eles não teriam sido portadores de algo mais raro. Em seu novo livro, *Alucinações Musicais*(Companhia das Letras; tradução de Laura Teixeira Motta; 342 páginas; 49 reais), o inglês Oliver Sacks, o mais famoso dos neurologistas, especula a respeito de Nabokov para em seguida relatar o caso de uma paciente. Essa mulher, identificada como "L.", jamais percebeu a música como tal. Desde a infância ela se viu em situações embaraçosas por não reconhecer o hino americano ou um singelo *Parabéns a Você*. Sua condição é causada por uma anomalia congênita no córtex auditivo, a amusia total. Eis como L. descreve um concerto: "Imagine que você está na cozinha e alguém joga todos os pratos e panelas no chão. É isso que eu ouço".

A disfunção de L. marcou-a como uma espécie de "alienígena". Para a maioria das pessoas, é difícil até conceber uma situação como a dela. A música carrega memórias e emoções e está profundamente entranhada em nossa experiência íntima. Mais que isso. Nenhuma cultura conhecida foi desprovida de música, e alguns dos artefatos mais antigos encontrados em sítios arqueológicos são flautas e tambores. Ao nascer, os bebês já distinguem entre escalas musicais, preferem a harmonia à dissonância e são capazes de reconhecer canções. Seu cérebro está pronto a decifrar musicalmente o mundo.
Os caminhos neurológicos da percepção musical estão sendo esmiuçados como nunca. Como diz Robert Zatorre, professor do Instituto Neurológico de Montreal, a música se tornou alimento da neurociência.

Diversos estudos recentes demonstram como o cérebro é esculpido pela música.
Por exemplo, o corpo caloso, a grande comissura que liga os dois hemisférios cerebrais, tende a ser maior nos músicos profissionais. Descobertas desse tipo levaram alguns a sugerir que expor crianças pequenas à música clássica lhes daria uma vantagem intelectual, mas essa idéia não é corroborada pela neurociência. As mudanças causadas pela música são muito específicas, e talvez se dêem à custa de outras funções cerebrais. Ouvir Mozart na infância certamente ajuda a ouvir Mozart na idade adulta – mas não traz necessariamente outros ganhos cognitivos. O que esses estudos ressaltam é a plasticidade do cérebro, a maneira como ele é moldado, muito concretamente, pela experiência individual. Não é só estudar música que resulta em
diferenças relevantes. O tipo de aprendizado importa. Uma experiência com violinistas e trompetistas mostrou que a ativação do córtex auditivo é maior quando eles ouvem seus respectivos instrumentos. Outra pesquisa aponta que crianças chinesas têm mais chance de adquirir ouvido absoluto, que identifica automaticamente a altura de qualquer nota. Não pela raça, mas porque crescem ouvindo chinês, língua com grandes variações tonais.

Outro enigma desvendado é a razão fisiológica dos prazeres causados pela música. No recém-lançado *This Is Your Brain on Music* (O Seu Cérebro sob Efeito Musical), o neurocientista americano Daniel Levitin descreve as experiências que coordenou na Universidade McGill, do Canadá. As conclusões são técnicas, mas é possível visualizar a orquestra cerebral em ação.
"Primeiro o córtex auditivo entra em ação para analisar os componentes do som", escreve Levitin. "Depois vêm regiões frontais, relacionadas ao processamento da estrutura e das expectativas musicais. Finalmente, chegamos a um sistema de áreas envolvidas na excitação e no prazer, na transmissão de opióides e na produção de dopamina, culminando na ativação do núcleo acumbens. Os aspectos agradáveis e estimulantes da audição musical parecem ser resultado do aumento de dopamina no núcleo acumbens e da contribuição do cerebelo na regulação das emoções. A música é uma forma de melhorar o ânimo das pessoas, e agora acreditamos saber por quê."

O trabalho de Oliver Sacks em *Alucinações Musicais* é muito diverso desse.
Ele narra casos peculiares, da mesma forma que em livros anteriores como *Um Antropólogo em Marte*. São 29 capítulos com relatos sobre perdas e excessos de musicalidade, sobre a relação da audição com os outros sentidos, sobre canções que se incrustam em nossa consciência, repetindo-se incessantemente, ou sobre ataques epiléticos causados por sons específicos (como a voz de Frank Sinatra). Entre os personagens encontra-se Clive Wearing, um pianista que, depois de uma infecção no cérebro, sofreu uma perda tão devastadora da função de memória que todo acontecimento novo é esquecido imediatamente.
Apesar disso, ele não só toca piano como um mestre, mas ainda improvisa e –mais surpreendente – aprende novas partituras. Outro exemplo é o de Sheryl C., que subitamente se viu mergulhada numa situação angustiante. Qualquer pessoa é capaz de relembrar, em silêncio, uma música conhecida. Mas, para ela, era como se uma orquestra estivesse dentro de sua cabeça, tocando trechos de *A Noviça Rebelde*. Reagindo a uma surdez progressiva, seu cérebro agia espontaneamente e criava alucinações musicais.

Alguns dos capítulos de Sacks falam sobre musicoterapia, vista com desconfiança por médicos e psicólogos. Sacks tem respeito pela disciplina, cujas bases científicas estão sendo reforçadas pela neurologia. O Núcleo de Envelhecimento Cerebral (Nudec) da Universidade Federal de São Paulo mantém pesquisas nesse campo, coordenadas por Cléo Monteiro França Correia. Uma de suas pacientes é a pedagoga Zeni de Almeida Flore. Em 2001, aos 72 anos, ela mostrou os primeiros sintomas da doença de Parkinson. O parkinsonismo é um distúrbio motor, mas é comum que danifique outras áreas do cérebro, acarretando afasia e demência. Foi o que aconteceu com Zeni. À medida que a doença avançava, ela se viu incapaz de manter um diálogo e, depois, até mesmo de nomear objetos. Havia uma única situação em que ela conseguia pronunciar palavras com fluência: ao cantar. Há um ano, a capacidade musical de Zeni foi identificada. Encaminhada à musicoterapia, ela teve ganhos lingüísticos: recobrou certo poder de articular sentenças e responder a perguntas. Doenças diferentes requerem abordagem musical diferente, observa Sacks. Mas, lidando com o ritmo ou despertando emoções, a música pode orientar um paciente quando mais nada é capaz de fazê-lo.

*"NEUROLOGIA PESSOAL"*

Eileen Barroso
Oliver Sacks: contra a "civilização do iPod"

Numa das salas de seu consultório em Manhattan, o neurologista inglês Oliver Sacks, de 74 anos, mantém um quadro com retratos de amigos, a foto de um polvo e a cópia xerográfica de um texto de dicionário sobre o "abaçanamento", suplício medieval que consistia em cegar a vítima encostando uma placa de metal incandescente nos seus olhos. Explicar o interesse por esse tipo de tortura fez com que Sacks revelasse a VEJA uma doença. Em 2005, ele descobriu um tumor no olho direito. Submeteu-se a tratamento por radiação e sessões de laser, versão benigna do abaçanamento. A cura é incerta, mas, em vez de fazer do assunto um tabu, Sacks registra sua vivência da doença num diário. Num desenho do globo ocular, ele mostra a mancha que atrapalha sua visão. Para explicar como os objetos se tornam invisíveis para ele por causa dela, usa um conceito da astrofísica, os "horizontes do evento". Eles ocorreriam, segundo a teoria da relatividade de Albert Einstein, na periferia dos "buracos negros", dos quais nenhuma matéria ou radiação consegue escapar. Como saber que os "buracos negros" existem se não emitem luz ou outra radiação? Justamente pelos "horizontes do evento", turbulências detectáveis que ocorrem na fronteira do espaço-tempo e que sinalizam a existência de um "buraco negro" nas proximidades. "Como nos 'horizontes do evento', há experiências quase impossíveis de comunicar", diz Sacks. "Fazemos o possível com metáforas."

O uso da experiência pessoal, assim como a luta para encontrar palavras que descrevam estados de consciência incomuns, é um dos pilares dos extraordinários livros de Sacks. Em sua nova obra, *Alucinações Musicais, *ele também relata episódios pessoais, como as ocasiões em que sofreu de amusia, em 1974. Na primeira vez, ele ouvia uma balada de Chopin no rádio quando as notas musicais se converteram em "marteladas sem tom com uma desagradável reverberação metálica". Dias depois, a experiência se repetiu, acompanhada de alterações visuais que revelaram que o distúrbio advinha da enxaqueca. A maneira como Sacks aparece em seus livros decorre de como ele lida com seus pacientes e entende sua profissão. Contra os limites da "neurologia clássica", de olhar puramente objetivo, ele busca uma "neurologia pessoal",calcada no entendimento global do organismo e da história de cada pessoa.

*Alucinações Musicais *é uma prova de que as interações entre música e neurociência mal começaram. Mas o livro também atesta uma paixão pela arte.
Sacks é dono de um piano de cauda Bechstein fabricado em 1894 e tem opiniões fortes sobre música. "Amo Brahms", afirma. "No outro extremo, odeio Wagner com sua música erótica e inflada. Não gosto de arte que tenta me seduzir."
Sacks enxerga um paradoxo na maneira como as pessoas hoje lidam com a música. Ele é um crítico da "civilização do iPod". "Não é só porque a surdezjuvenil está aumentando de modo alarmante. Com esses aparelhos, as pessoas se enclausuram nelas próprias." Diz ele: "No passado remoto, a música uniu e sincronizou os homens. É o que está se perdendo hoje".

*Enigmas da linguagem*

Fotos Great Ape Trust of Iowa
Sue Savage-Rumbaugh e o bonobo Kanzi: ele se comunica com desenvoltura usando os "lexigramas", tabuleiros que contêm 384 símbolos e palavras do inglês Do americano Noam Chomsky se diz que é um idiota em política, por anunciar o fim do capitalismo a cada espirro das bolsas, e um gênio na ciência por seus trabalhos de lingüística. Chomsky sustenta que a linguagem depende apenas de regras universais incrustadas no cérebro, que não guardam relação nenhuma com as atividades pelas quais nos comunicamos – falar, ouvir, gesticular.
Assim como a política de Chomsky está errada, suspeita-se agora que sua ciência também caminha para a desmoralização. Depois de quatro décadas de hegemonia, sua abordagem abstrata está cedendo lugar a outra, naturalista. A evolução da linguagem, tema que Chomsky havia banido, é hoje uma área de estudos efervescente. Como observa a lingüista americana Christine Kenneally, autora do recém-lançado *The First Word* (A Primeira Palavra),trata-se de um problema extraordinariamente complexo. "A linguagem surgiu muito antes da escrita", disse ela a VEJA. "Como investigar sua origem se não há fósseis de palavras?"

O uso da linguagem é uma das características especiais dos humanos. Há dois caminhos para explicá-la na biologia. Sabe-se hoje que o genoma humano é 98% igual ao dos chimpanzés. Uma alternativa é buscar a explicação para a existência da linguagem nos 2% restantes. A outra é considerar que, para serem criados, os poemas homéricos e as peças de Shakespeare dependeram tanto daquilo que é exclusivo quanto daquilo que compartilhamos com outros animais. Esse é o caminho adotado por cientistas como Sue Savage-Rumbaugh e Philip Lieberman. Savage-Rumbaugh ganhou notoriedade ensinando macacos a produzir e compreender alguns aspectos da linguagem. Em 2003, anunciou que Kanzi, um bonobo que já conseguia se comunicar com desenvoltura usando um tabuleiro de símbolos, havia pronunciado uma palavra em inglês.

O trabalho de Lieberman se dá no campo da neurologia e da fisiologia – ou seja, das estruturas corporais ligadas ao fenômeno da linguagem. Uma de suas experiências o levou ao Monte Everest. Ele queria observar como os danos temporários causados pela falta de oxigênio a uma das estruturas mais antigas do cérebro, o gânglio de base, responsável por seqüenciar movimentos, afetavam a fala. A bateria de testes que aplicou em alpinistas mostrou que não apenas sua fala piorava à medida que eles subiam a montanha e o ar se tornava mais rarefeito: seu domínio da sintaxe também diminuía.
Foi a prova de que o sistema motor do cérebro é um dos pontos de partida para nossa capacidade de nos expressar. Em outras palavras, a linguagem humana tem raízes numa estrutura que compartilhamos com as criaturas mais primitivas. Trabalhos recentes do autor ajudam a desfazer de vez a idéia de que a capacidade de concatenar palavras depende de um compartimento milagroso em nossa mente. Até mesmo o conceito de que as estruturas da
linguagem estão concentradas no hemisfério esquerdo do cérebro já não se sustenta. Elas estão em toda parte.

Mais incipiente do que a compreensão geral da linguagem no cérebro é a tentativa de entender nosso hábito de criar poemas e histórias. Já existem alguns esboços. O pesquisador David Miall, da Universidade de Alberta, no Canadá, desenvolveu um programa de computador que analisa variações métricas e fonéticas em obras literárias. Depois, comparou esses padrões com os da fala de uma mãe ao seu bebê. Descobriu que a mãe enternecida repetia, de maneira um tanto exagerada, os mesmos ritmos encontrados na grande arte.
Como a fala da mãe também transmite emoções, circuitos que relacionam a literatura à experiência emocional poderiam começar a se formar aí. Quanto à habilidade narrativa, ela vem sendo estudada com base nos casos de pessoas que sofreram lesões no cérebro. Como talvez seja óbvio, acidentes que afetam a memória costumam comprometer a capacidade de narrar. Pessoas com amnésia grave não conseguem transmitir sua vivência aos outros. Curiosamente, porém, um subgrupo dos desmemoriados age de maneira oposta: de forma quase compulsiva, inventam versões contraditórias de um acontecimento cuja circunstância real esqueceram. Ao contrário do que ocorre com certos políticos, o objetivo não é enganar: trata-se de um esforço instintivo de satisfazer à curiosidade de quem lhes perguntou algo. Como mostram esses indivíduos desafortunados, a atividade de narrativa está de algum modo entranhada na estrutura física do cérebro humano.