domingo, 2 de maio de 2010

Fragmentos dos capítulos

A CENA MUDA
MIGUEL ANGEL FERNANDEZ
COPYRIGHT MIGUEL ANGEL FERNANDEZ
Direitos reservados e protegidos pela lei 9.610
de 19 de fevereiro de 1998.
ISBN - 85-7480-017-1
Printed in Brazil
2000/2014
Mail: miguelangel1948@gmail.com
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BUENOS AIRES, CAPITAL DA
CONSPIRAÇÃO BRASILEIRA.
COPACABANA EM CHAMAS.
COLUNA DA MORTE.
DA ESPERANÇA.

Toledo sentiu profundo e súbito cansaço ao descer do táxi
com os companheiros e dirigir-se ao portão de embarque do
aeroporto, quase vazio àquela hora. Decerto os vinhos que
tinham tomado antes de chegar estariam colaborando. Um
pouco tonto, encostou-se no balcão e ficou observando a
pista e o único avião em atividade que os aguardava: um
surrado e pequeno monomotor Laté-28 da Latecoére fazia
escala naquele portenho amanhecer de 9 de maio de 1930,
vindo do Chile e com destino a Montevidéu. Enquanto esquentava
o motor desregulado, o barulho ensurdecedor e os
súbitos estampidos do escapamento semelhantes a disparos
de fuzil faziam cintilar flash indiscreto sobre fragmentos de
suas lembranças: como a imagem daquela Copacabana
ensolarada e sangrenta cujo significado mantivera escondido
sob oito chaves - uma para cada ano -, como primeira
amante incógnita. Seu primeiro fracasso.
Entre frios nevoeiros argentinos:
Copacabana fervendo de sol
Ao detonarem: “Deponham as armas, o golpe fracassou!”,
nascera sua disposição de morrer pelo Brasil, iniciando a caminhada
por Copacabana em 1922, no primeiro levante
tenentista. Depois sentira o baque brutal no estômago dilacerado
a bala; sol e mar desapareceram no meio do fragor dos disparos.
(...)

PERNAMBUCO, GOUVEIA.
MADEIRA-MAMORÉ.
TONHO SONHA COM SÍTIO E ESPERA
MORRER VELHO
Sinhá o batizara de Tonho, melhor assim. Seu nome verdadeiro podia constar nas listas dos tenentes como desertor. Para que cutucar o azar? Nem para a branquela contou o acontecido com ele. Pra quê? Só queria mesmo um troço dele. E isso era dela... por enquanto. E ademais perigava saber que ele fugira dos canaviais de lá pelo assassinato do Gouveia, a mando de outro coronel rival da cidade de Jatobá. Quem arrumara a armação fora o José Félix, que depois do feito escondeu-se em Sergipe, mais tarde soube pegaram ele. (...)
Nos primeiros anos, ao chegar a São Paulo, teve a idéia de entrar num time de futebol. Por que não? Não tinha aquele crioulo, o tal Diamante Negro, e tantos outros negrotes mais? Se chamaria Pérola Negra. Podia ter entrado nessa, mas como? (...)
Mas pelas ironias dessa vida, foi se meter na Força Pública, dentro da casa do inimigo, podia-se dizer. Garantia comida, roupa e cama. Depois de alguns treinamentos, estourou revolução em 24. O tal de Miguel Costa, o mesmo que estava aí de novo, juntou a Força com os milicos para derrubar o Bernardes do governo. Foi uma época boa, e se divertia imaginando a cara desse Miguel ou outro mandante, soubesse que ele era preto corrido da justiça por ter dado cabo de branquelo, coronel e rico... E agora podia matar gente. Era coisa oficial. Tinha até prêmio! O narigudo do tenente Cabanas andava espetando medalha nos peitos dos que tinham se sobressaído nas batalhas. A dele devia estar nalgum canto, por aí. Depois a artilharia deles desembestou a bombardear feio, matando e ferindo de montão. Os legalistas cercaram a cidade; e o que durou uns vinte dias de glória e cantoria virou merda. Fome, frio, gente de bairros inteiros se mudando com as trouxas e filhos e tal, sem eira nem beira. (...)
Aí, então... então apareceu Madame num domingo de Carnaval. Que fruta rara! (...) Sinhá olhava ele parecendo querer abocanhar. Assim que ficou claro o que ela queria, ia negacear? (...) Lembrou o verso que roubou dela: “regaço sólido que sacia quente / minha doce febre./ Pêlo e pele / solidez incauta / balanço e aconchego / de meus peitos”. Aquele namoro não estava ficando chameguento demais?
(...)
* SÃO PAULO, CEMITÉRIO DO CAFÉ.
“CAIPIRÃO RUBIÁCEA”, PIERRE E SUA
LÍNGUA NORDESTINA.
CONSPIRAÇÃO DE TENENTES
E PAULISTAS “CARCOMIDOS”

Loucura, Pierre, é o que tu fizeste, seu infeliz. O homem sempre soubera das andanças da mulher, nunca ligara que botasse “boné” nele. Meter-se com gente de seu ambiente, igual das outras vezes, gente fina, vá lá. Mas um tição do diabo? (...) O homem pode fazer loucura. Viu a cara dele? Então ele já sabia do negro. Vai ver daquela vez, ao sair do clube, alguém viu, contou ou comentou... É, o homem sempre teve seus informantes. Cuidado com esse homem, Pierre! E com dona Magda também.
No quarto, Alvarenga trancou a porta e sentou-se na cama. Puxou e enrolou a ponta do bigode no dedo. Começaria a tremer sua pálpebra a qualquer instante. (...) Dessa vez Magda enlouquecera. Das outras aventuras nunca se importara muito, afinal pertenciam à elite esclarecida onde se podia manipular inteligentemente pactos, alguns implícitos, dos quais também ele usufruía quando tinha tempo, interesses políticos ou comerciais, fazendo de um affair às vezes incômodo um bom empreendimento (...) Ele sofrendo com as perdas, descapitalizando-se cada vez mais por causa dessa terra maldita! Nem enchente nem seca, nada. Os cafezais florescendo por hectares e mais hectares, invadindo o Estado, o país, o mundo... Enquanto ela pulava em cima de negro sujo. Quanta injustiça! (....)
Em risco à sua aliança com aqueles militares fracassados e a conspiração para derrubar Washington Luís... fato que abriria caminho a seus planos secretos. Aqueles malditos negros! Deles se vingaria por meio das filhas. Impondo-se pela autoridade e pequenos subornos, fazia as pequenas acariciarem e lamberem seu corpo, em especial seu “mastro”, doce estandarte da vingança! Humilhando aqueles negros, inoculava nas suas filhas germes de futuras prostitutas, pequenas mentirosas que não queriam perder presentes ou receber castigos. Os ingredientes libidinosos vendo aquelas crianças... sem pêlos pubianos! né, Riqui... entre suas pernas eram enriquecidos pela sensação de poder e de vingança, fazendo o prazer sexual beirar o delírio.(...)
Oportunamente entrou no Partido Democrata, naquela circunstância em lua-de-mel com a Aliança Liberal, tendo um maldito gaúcho como candidato! Getúlio Vargas, baixinho ardiloso com capacidade de criar problemas. (...)
Ainda assim, não existiam alternativas senão uma revolução para deter o continuísmo desse governo. A prova era Washington Luís impondo seu sucessor para continuar sua política de reforma econômica, como implantar uma nova moeda com o nome ridículo de “cruzeiro”! Pode ocorrência mais hilária? Isso ia acabar. Estava trabalhando nisso até em outros Estados. (...)

LIVRARIA TEIXEIRA.
ÍRIS E DIAFRAGMA
PROMETEM FITAS SONORAS.
GETÚLIO MANDA
E JOÃO ALBERTO OBEDECE.
PAULISTAS DETESTAM A IDÉIA.

Lauro chegou em casa já de noite e, como vinha fazendo há algum tempo, tentaria driblar o tio Honório. O velho andava ranheta por causa da “infâmia sofrida por São Paulo” – o resto do país era só um apêndice que não lhe dizia respeito – e dos desmandos de seus interventores. Suas críticas e broncas pelo fato de ele nunca ter se engajado, nem em 1924, nem agora em 1930, estavam ficando cada dia mais agressivas. (...)
O velho devia estar esperando por ele, porque ao barulho seguiu-se quase instantâneo acender de luzes no quarto dele. Rápido, entrou na cozinha e ficou imóvel na escuridão. A gata prenhe a seus pés, sem ligar ao cerimonial de despistamento, soltou miados longos. (..)
De cara amarrada, vestindo o puído pijama de sempre, e um jornal debaixo do braço, o tio sentou-se na cadeira ao lado da gata, sem olhar para ele. Fez uma pausa para alisar o branco bigode e jogou o jornal sobre a mesa. Apoiando os cotovelos sobre ela, de esguelha e voz grave, murmurou:
– Você viu isso?
(....) Após compartilhar com a gata bocados de mortadela e de queijo, Lauro fez um sanduíche. Enquanto comiam, leu a carta de Fausto, e ela lambeu as patas, esfregou alternadamente as orelhas e bigodes, antes de ir dormir.
Voltei da Alemanha, e assim que chegamos à França corri a me refugiar em Nice, graças a Deus! Pena você não vir. De certa maneira esperei este ano todo, mas você, o indeciso de sempre, não teve coragem e nem dinheiro suficiente, como escreves na tua última carta lacônica. Este último item não cola. Já falei mil vezes que isso não é problema. Acha outro pretexto para justificar tua covardia. (......)
. (Lauro não podia saber que, semanas antes, em Nice, o local onde Fausto se encontrava escrevendo esta carta, estava pouco iluminado. Talvez por isso seu primo, Antônio, não o tivesse visto quando entrou acompanhado pelo italiano, ambos amulatados pelo sol do Mediterrâneo e vestindo roupas de praia. Assim que o italiano fechou a porta, Antônio virou-se imediatamente e amassou os lábios do outro num pro¬longado e furioso beijo,
(...)

JUDIAÇÃO DO CINEMA SONORO.
NOVIDADES DA TELA VERSUS PREÇO
DO METRO DE SEDA FRANCESA.
FOGO NOS ÂNIMOS PAULISTAS
E NUMA LOJA JUDIA.


Grávida? Uma atrasadinha à toa não quer dizer nada. É normal. E não pode ser! Lauro bota para fora naquela hora! Mesmo detestando olhar aquilo saindo dele, dá um pouco de ânsia. Sei lá, parece catarro ou clara de ovo. Não deixa ele saber disso. Mas, grávida?
Ninguém vai ficar sabendo, nem a Jandira. Não quero que me aconteça o que aconteceu com ela, coitada, solteira e com filho em Santos. Trabalhando como louca para sustentá-los. Ai, que horas são?... Que tédio. Não entra ninguém na loja. Olha a cara do velho judeu! Furibundo. Com essa crise depois da revolução, essa baderna ainda nas ruas, quem vai pensar em tecidos? Deixa, vai...(...)
A igreja não pode entender de aborto e gravidez. Os padres são todos solteiros e as freiras, virgens. Não sabem o que é o amor entre homem e mulher, as carícias, os beijos, não dá para agüentar, é mais forte que as... as “normas que as igrejas têm a missão de propalar”. Pecado é o sofrimento da Jandira, sempre suspirando com saudade do filho que não pode trazer para São Paulo. E ia botar onde? Com a gente no quartinho da casa da tia Filomena? Aliás, se a galega soubesse que ela é “mãe solteira”, expulsava na hora. Pra rua. As duas! Velha ultrapassada.
Essa sociedade de merda castiga as mulheres por terem relação sexual sem casar. Homem pode, mulher não. Na ocasião de me entregar ao Lauro, foi por amor, não por causa dum papel.
(...)


ENCOURAÇADO SÃO PAULO.
MISS BRASIL.
REVOLUÇÃO RUSSA VERSUS OUTUBRISTA.
TIETÊ, MÃE DOS RIOS, VAI INUNDAR
SÃO PAULO. DE NOVO.
Na Rua 24 de Maio, Lauro entrou no bar e escolheu a mesa de onde se podia ver a praça da República através da ampla janela de vidro; era o mesmo local já freqüentado muitas vezes no passado, antigo ponto de encontro de amigos que deixara de ver pelas mais diversas razões, uma delas falta de tempo necessário para a boêmia de encontros inconseqüentes. Ali conhecera Ana, sua virgindade e as veleidades de atriz. E Fausto. Depois Laura e sua doença crônica. E “Axel”.
Um casal rodopiava numa vasta sala, enlevado nos acordes da valsa. Fausto, no vestíbulo quase às escuras, sentou na primeira cadeira encontrada. Pareceu dormitar imediatamente. Aproveitando-se disso, Lau¬ro fez meia volta para ir embora, mas antes, daria uma olhada mais demorada no casal: de lábios quase colados, dançavam ignorantes de tudo. O homem: surradas e estreitas calças, destacando o corpanzil, jaqueta como as da corte, pouco mais de sessenta anos, longa e embranquecida cabeleira. Ela, vestido comprido, vermelho como as pesadas cortinas de veludo que cobriam as janelas.
Lauro, atordoado, estava imobilizado no meio do quarto. O último gole que bebera parecia tratar-se daquele último trago que abarrota porões de um navio pronto a soçobrar. Oscilou para um lado, uma das pernas parecia não estar em seu lugar. A expressão estúpida no semblante denotava o medo de desabar, e denunciavam seu estado. Laura reparou:
Posso ajudá-lo? Permita.
Procurando como segurar-se no quarto girador, nem se deu conta de que estavam lhe tirando o paletó. Num fechar de olhos, a camisa sobre uma cadeira, a calça caída e enrolada nos pés. Num empurrãozinho, sentado na cama. Num abrir de olho, sapatos e meias pelo chão. Os seus. Outra piscadela e, de repente, caindo sobre eles, as roupas. Dela. Num nada, lençóis frios cobrindo-o. Corpo inquietante, generoso e nu grudado no seu, mão no membro, mordidinha no mamilo, respiração quen¬te na orelha, língua dentro dela. Desfrute na voz que pergunta:
– Vai dormir agora? – e um beijo longo e úmido impediu qualquer resposta. Se tivesse uma. Mas batidas de leve na porta e a voz noturnal, chamando por ela, também abreviou o que prometia ser longa semeadora de excitantes perspectivas. Era o que devia estar achando o fornido coletador entre suas pernas. (...) Ela deslizou até o chão e ficou de joelhos na frente de Lauro que, – extasiado, não afastava os olhos do homem. Inesperadamente mergulhou debaixo do lençol. Capaz de encher por inteiro a boca, sugou o que encontrou entre as pernas dele e ficou a bochechar e lamber lenta, pacientemente. (...) Os frutos de Lauro dentro da boca de Laura arrepiaram, o unicorne adormecido erguendo-se pouco a pouco, com altivez, foi tomando conta do exíguo espaço. Ela isolou Coto, o orgulhoso, e tomou conta apenas dele; sugando, aconchegou-o na garganta e com a língua obsequiosa cumpriu os ditames do deus imortal, aquele que desequilibra os membros e subjuga, no peito de todos os deuses e de todos os homens, o coração e a sábia vontade. A vontade conseguida: Lauro olhou para as largas ancas assomando fora do lençol, oferecida a todos os seres vivos. E ele estava vivo. Febril e súbita excitação lhe provocaram o mais temido dos pensamentos em tais circunstâncias. Não importam conseqüências: apenas a obediência ao transbordante ditador que derrotara todo o seu sistema de inibições. (...) O fim daquela noite terminaria com a ilusão ou o sonho; ou Laura teria levantado e silenciosamente sentara entre suas pernas e ele a teria penetrado com doce sensação? Em seguida, ela encostara a língua no seu ouvido e murmurara, com a voz do pai: “Nem a papoula, nem a mandrágora, nem todos os xaropes modor¬rentos do mundo poderão jamais te medicar para o doce sono que tiveste ontem”. (...)
Fausto, sempre impecavelmente elegante, com seu magnetismo pessoal e um bom humor um pouco cínico, outro tanto pedante, insolente até, mas inteligente de sempre, entrou no bar. Sentia-se bem com Fausto, que o divertia e informava. A amizade e o afeto entre eles provocavam ciúmes em Ana, desconfiança no tio Honório, e nele uma perturbação indefinida. (...)Hoje era o primeiro encontro com ele após quase um ano na Europa, de lá sempre se lembrando dele. A recíproca não era tanta. (...) Lauro ficou de pé, um pouco constrangido, abraçou o amigo. Sentiu o aroma de loção, de certo francesa, exalando das roupas italianas, talvez. Cinco segundos de perturbação nos corpos apertados. Alívio de Lauro ao se desprender, que o outro percebe sentindo breve beliscão de mágoa. (......)
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RICARDO ALVARENGA, JANTAR JE NE SAIS QUOI
E GORJETA INESQUECÍVEL ESPERAM
MAGDA E JANDIRA SE CONHECEREM MELHOR.

Magda saiu do banheiro, nua e ainda molhada, andou até a cama e se esparramou sobre ela. Os músculos das pernas deram um puxão, acomodando-se ao conforto. Ainda ardendo a vagina e o ânus, relaxou com prazer. Aquela fora uma tarde memorável. Seu “escravo” quase a matara de gozo, como sempre. (...)
– A manicura está aqui, madame – interrompeu a voz de Ezequiel, o mordomo. “Merde! Agora não, me deixem.” pensou. Tão confortável e nua. Mas logo depois, disse:
– Mande-a entrar! – esticou o braço para pegar o roupão, porém, desistindo a meio caminho, virou-se de costas para a porta e ficou quieta. Ouviu a porta abrindo devagar e depois a voz tímida da manicura.
– Dona Magda... sou eu, Jandira – podia adivinhar a cara da tonta, vendo-a assim, nua, jogada na cama. Passariam “idéias” pela cabeça dela? Que “idéias”, Magda? A coitada é... pobre. Mas bonitinha. Bem, teria idéias por ela. “Gozemos; somente os dias que damos ao prazer são nossos; brevemente não serás mais que cinza, sombra, fábula.”
(...) – Pena não seres massagista, Jandira. Estou precisando tanto de massage.
Ela sabia um pouco, sim. Sabia massagear pés, por exemplo. Era fácil. Largou o alicate e segurou um deles, apertando de leve a planta, dobrou os dedos no sentido contrário, para cima, apertando-os em movimentos circulares. Langorosa, Magda murmurou:
– Delícia... Se soubesse antes dessas tuas qualidades... Não pára. Continua. Assim...
Passou ao outro pé, raspou suavemente com as unhas a planta dele. Fazia isso para divertir Paulinho após o banho. Ele dava risadinha. Magda, não.
– Aperta mais forte...
Cravou as unhas com mais força. Com a boca bem perto, franziu os lábios e assoprou. Sem perceber, a língua escapuliu e lambeu a planta do pé. Como fazia com Paulinho. Também chupava o dedinho dele. Co¬locou o dedão dentro da boca e chupou. Do seu lugar podia ver a pele das coxas de Magda arrepiar-se, devia gostar daquilo.
– Morde um pouquinho, Jandira. Morde. Ça c’est bon. Ela mordeu a parte macia da planta. Paulinho dava gritinhos assustados. Esta dona também.
– Vem cá. Nas costas aussi bien – e virou-se de bruços. Jandira olhou o corpo, as coxas, o cabelo molhado largado nas costas, o traseiro redondo e branco – mais branco que o de Paulinho – e, rodeando a cama, foi até a cabeceira. Os braços abertos, um deles balançando na borda da cama, o corpo relaxado; as pernas abertas de Magda aguardavam. Impacientes.
– Vai, mulher, que estás esperando? – obedecendo imediatamente, colocou as mãos sobre as costas da outra e lá as deixou, quietas, patetas. Sentindo. Pelas palmas abertas, por todos os dedos, o calor daquele corpo penetrou por eles formigando e subindo à face, lá se alojou anuviando seu olhar. Incômoda de pé, ajoelhou-se na borda da cama. Então, obedecendo o impulso, acariciou a pele branca, mas sem jeito, de maneira brusca.
– Esse frasco rosa é creme – maquinal, pegou o frasco e o abriu, derramou abundantemente, sem conseguir evitar parte dele cair também no dorso de Magda. Esta se arrepiou ao sentir o líquido cremoso e frio sobre si, contraiu as nádegas em lenta fricção.
– Gostoso. Trepa na cama, em cima de mim, avec plaisir – com dificuldade, ela obedeceu, mantendo as mãos afastadas e levantadas, semelhante a cirurgião preparado para operação. De joelhos, tinha entre as pernas o corpo de Magda se aquietando, aguardando. Acarinhar uma mulher, as curvas do corpo, as nádegas, a pele, os seios... A sensação dos dedos dela entrando pela sua calcinha foi um assombro grato que lhe acelerou a respiração, aumentou as batidas cardíacas e lhe fez morder o lábio. Aquela mulher sempre fora boa. Alguém colocara os dedos dentro dela desse jeito? Quem a acariciara desse modo? Alguém a puxara de leve pelos braços até chegar tão perto de seu rosto que a união de suas bocas foi inevitável? Quem mordiscara seus lábios molhados e pusera daquela maneira a língua dentro dela? Arrancara blusa, sutiã e sugara seus seios assim, sem machucar, como um bebê safado? Santo Deus, ninguém! Dona Magda era tão gostosa, tão perfumada, as mãos não paravam quietas, o corpo molhado apertava e esfregava com tanto ardor... macio. Macio como seus lábios grossos de língua rósea. Dona Magda!
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CINCO GATINHOS ÚMIDOS
E GRAVIDEZ INDESEJADA.
HONÓRIO ATACA RUSSOS
E PAULISTAS COMUNISTAS.
PIOR PARA PUDOVKIN E LAURO..

(.....)– Deita aí, te cobre.
– Você não vai tirar essas calças molhadas? Tira, vai. E pendura meu sutiã lá. Vem deitar logo para me esquentar. E fecha essa janela. Tranca a porta. Agora vem cá, deixa ver o gatão escondido entre essas pernas. Deixa dar uma lambidela, para abrir o apetite dele. Para crescer e brincar com sua mamãe.
– Não fala de “mamãe”, pelo amor de Deus.
Ana sorriu até onde permitia a boca invadida pelo “gato” de Lauro, que foi ficando cada vez mais “assanhado”, até lhe pedir para ela se deitar e abrir as pernas.
– Ai, Lauro, será que não faz mal?
– Mal? Para quem?
– A criança... o feto. Sei lá. Faz por trás. Quer?
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FINALMENTE A TERRA DAS ANDORINHAS,
DE SOGRA E CUNHADO.
VÁRIAS DECOBERTAS DEPOIS,
BRAÇOS E PERNAS ABERTOS.

Chegaram finalmente a Campinas. Da estação de trem pegaram um táxi
que os deixou na porta da casa.
– Você acha que tua mãe vai me achar melindrosa demais? – enquanto Lauro, escolhendo no chaveiro, procurava a chave certa da porta. Há mais de quatro meses não visitava a mãe. – O vestido tá curto demais? Talvez o rosa fosse mais condizente, mais... – E antes de poder responder que “Estava bem assim, que não parecia ter abortado”, a porta se abriu, sem Lauro descobrir a chave. O rosto do irmão Pedro apareceu por ela, observando-o atentamente, demorando a reconhecê-lo.
-Lauro? (...)

- Ao morrer o pai de Lauro, já faz... acho que mais de vinte anos. Lauro devia ter o quê? Dez anos? Se Pedro vai fazer vinte e três. Então é isso. (...)
- Como você já percebeu, meu filho Pedro não é moço com muita chance de namorar e muito menos casar. Ele não é muito bom da cabeça, disseram que foi trauma de gravidez. Já estava em idade avançada quando o tive, lá sei... Foi um parto terrível, mocinha. Quase vou embora. (...)
– Queríamos dar uma cochilada, mãe. Pode ser? O quartinho nos fundos, ainda existe?
– Claro que sim. Pedro usa algumas vezes, quando entra em... crise. Ele foi para a rua, tem vários amigos. É muito querido no bairro, sabe?... Então podem ir, meus filhos. Está sempre arrumadinho. Descansem bastante. Chamo vocês para jantar. (...)
Com o vestido na mão, procurou onde pendurá-lo. Na maçaneta da porta semi-aberta do grande guarda-roupa estava bem. Foi até ele e o fez. Compenetrada na performance que deslumbraria Lauro, não poderia perceber uma terceira respiração entrecortada e anelante que parou no instante de chegar perto do móvel; menos ainda ao voltar-se na direção de Lauro, tirando o sutiã, conseguiria ver o brilho piscando em olhos escondidos no escuro de seu interior, esbugalhados de terror e ansiedade.
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ALVARENGA CONTRATA CORINTIANO.
OITO MILHÕES DE PAULISTAS,
POTENCIAIS FREGUESES DO
REFINAMENTO DO PRAZER, LTDA."

Debaixo do porta-luvas, estrategicamente escondido, tirou pequeno envelope, esvaziou o conteúdo na mão e inalou todo o pó branco; foi quando teve a iluminação de prata, fulminante! Cocaína! Mais lucrativa que café, independente dos arroubos das bolsas de investimento, de guerras e revoluções. De direita ou esquerda. Internacional, igual ao maldito café! Alguém do seu talento e da experiências nos mercados internacionais e contatos no mundo todo... poderia fazer até surgir um império! Riqui, quanto entusiasmo! Já esqueceu a revolução? Depois! Depois!... São Paulo possuindo mais de oito milhões de habitantes não parava de crescer, imigrantes de todas as partes do mundo continuavam a encher os navios que aportavam em Santos! São Paulo, um dos maiores centros Industriais da América Latina! Se não o maior! Os Lafer, Simonsen, Matarazzo, todos incrementando, produzindo uma classe média cada vez mais numerosa! Mercado nacional de mais de trinta milhões, fornecendo uma geração potencialmente viciada! Toda a jeunesse dorée praticava com elegância e refinamento o deleite desses vícios. Seria sua corte! Seus “Ciclopes!” Poderia considerar a sociedade e o apadrinhamento de importantes conhecidos, muitos deles sediados no meretrício internacional que era Cuba! Naquele antro poderia até montar a sede! Lá era campo neutro, e o presidente Gerardo Machado ficara seu amigo depois das tentativas de negociar com os barões do açúcar de Cuba!... Barões! Papai iria adorar vingança assim, tão... magistrale, que sonho pantagruélico! Ricardo, coração selvagem de leão! Você é brilhante! E diabólico também! Devagar no andor, Riqui. Olha a coitada dessa pálpebra. De qualquer modo, a nova revolução teria sucesso. Todo mundo ansiava por isso. O poder estava novamente a caminho. “‘Refinamento do Prazer, Limitada.
Agora, Magda e seu jogo sujo. Não foi o “barão” que disse só existir cura se eliminarmos o mal? Como em todo jogo, a vantagem de um jogador é o prejuízo do outro. Usaria da sua influência e da maria-farinha do sobrinho dela mais uma vez: Pedro de Toledo estava em pânico depois da nomeação como interventor, e Magda era como afilhada dele ou coisa parecida.
“E tem mais, Magda, precisamos saber o que se passa na cabeça de Pedro de Toledo, seu real envolvimento com Vargas. Com você se abrirá, tenho certeza. E a festa organizada, um vin d’honneur, é um bom lugar...”
“Magda, as manobras políticas para limpar São Paulo desses tenentes e recuperar sua independência estão tão adiantadas que se tornaram irreversíveis. Nossas desavenças não vão impedir nada. No entanto, se você acha seguro esse traidor posto de mandado do Catete... Um paulista de estirpe, obedecendo a ordens contra sua própria terra e conterrâneos... Enfim, o amigo é teu. E pode estar correndo muito perigo.”
“Vindo de você, só pode ser ameaça.”
(...)
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M.M.D.C: MATA MINEIRO,
DEGOLA CARIOCA.
TEU CABELO E TEUS SAPATOS NÃO NEGAM.
“FUI NOMEADO TEU TENENTE
INTERVENTOR”

“Y sus cabellos mesando,/el cuerpo ama¬do abrazando,/con sus lágrimas suplía/en la herida vacía/la sangre que iba faltando.” Cantarolava Dona Filomena na cozinha, sentada à mesa na frente de Ana. Entre restos de jantar, o velho rádio sempre ligado, sacodia-se ao ritmo de sam¬bas e marchas-rancho, num programa que divulgava lançamentos. (...)
Pedro. Pedra. Como uma delas entre as pernas, assim era o peso da lembrança e de sua consciência. E a pergunta agulhando: “Falo ou não falo para o Lauro?” Se contasse, ele entenderia? (.....)
Tia Filomena fez sinais pedindo silêncio e aumentou o volume do rádio; por acaso sua consciência, traumas e agonias faziam barulho? Velha chata. (....)..na esquina da Rua Barão de Itapetininga com a Praça da República, a reação da Legião Revolucionária não se fez esperar e foi brutal. Balas de metralhadora e revólver contra os manifestantes ocasionaram trágico desfecho, como não podia deixar de ser diante de tanta desordem; mais de quatro mortos e dezenas de feridos... “...Chegaram às nossas mãos, por enquanto, a confirmação dos nomes de quatro mortos; são eles: Euclides Bueno Miragaia, Mário Martins de Almeida, Dráusio Marcondes de Sousa e Antônio Américo de Camargo Andrade...
(...) No entanto o que ela sentia não era bem ciúme de outra mulher, era mais da independência descarada dele, de sair por aí sem ela, sem sentir sua falta. Além do mais, solidão num sábado assim valia por duas! E todos os cinemas fechados a essa hora! E nada a ver com aprendizado de atriz! Se Jandira não tivesse viajado, podiam sair, dar umas voltas, pela Avenida Rio Branco, por exemplo, e se passassem perto da mansão de Fausto seria sem querer; isso se alguém as visse...
(...)
– Despierta, mujer! Siempre en la luna, filha mia. Oiste lo que la rádio dijo?
– É. Mataram alguém na Avenida Rio Branco, não é?
– Que Rio Branco, o quê? En la Praça da República, mujer! Está acontecendo una guerra en esta ciudad e... Jandira? Por donde anda essa chica?
– Disse que iria pra Santos neste fim de semana visitar o... a mãe dela.
– Sei. Ni me hables de aquella índia... mãe “santista”, que de santa no tiene nada! Pero la hija no és igual, menos mal. Essa chinita anda me preocupando ultimamente, andando por allí e essa violência en las calles. Já no me dice para donde vá, com quien, se vuelve. Anda echo una boba. Notaste lo mismo?
(...)
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FESTA POLITIZADA EM CASA DE FAUSTO.
GUILHERME DE ALMEIDA
MOSTRA SEU CHARME.
LAURO BÊBADO DE MAGDA E UÍSQUE.
MELHOR PARA LAURA.


Campos Elísios, Rua Eduardo Prado, esquina com Avenida Rio Branco. Mansão da família de Fausto Sousa Queiroz. Ou o que so¬brara. De ambas. (...) A pedido de Ricardo Alvarenga, Fausto cedera a mansão para o encontro eminentemente político, acontecimento naquela noite, local que não comprometeria nenhum dos convidados, sabida a posição eqüidistante de Fausto na política e sua fama de dândi inconseqüente. Alvarenga e sua esposa Magda chegariam a qualquer hora. Junto com eles, Fausto mencionara entre outros nomes, Guilherme de Almeida, o poeta da Academia Brasileira de Letras; todavia, ainda era cedo e nenhum deles tinha chegado. Fausto se preparava no quarto, dando os retoques finais na “maquiagem”, e Laura... Laura estava descendo a grande escada naquele momento, trajando vestido parecido àquele da primeira vez, longo e vermelho, que disfarçava elegantemente os quilinhos sobrando aqui e ali. Terminou de descer e parou, as mãos na cintura esticaram o talhe e desfizeram algumas dobras; pose tirada de algum filme de Joan Craw¬ford? ou Norma Shearer? Sempre no limite tênue dividindo a inocência do grotesco, andou na direção de Lauro com aquele olhar revelador de algum desvairamento interior, que ele creditou à sua doença. (...)
Com tédio? Por enquanto. De toda maneira, poucos tédios sobrevivem a três doses de uísque escocês (e os conhaques no bar?). De costas para o hall de entrada, Lauro não viu Guilherme de Almeida entrando e, ao vê-la, de imediato beijar a mão de Magda. Nem Pedro de Toledo pouco atrás, repetindo o mesmo gesto; não teria reconhecido nenhum dos outros entrando a seguir, nem o semblante sombrio de Laura esperando ser notada; anfitriã melancólica procurando-o com olhar ansioso, temendo constatar se o vexame estava sendo testemunhado por ele.
(...)
– Magda, este é Lauro, o amigo de que te falei.
Esmeraldas, ondas nervosas do mar, folha iluminada de planta exótica, limão ou oliveira? Qual seria o verde escolhido para definir melhor a cor daqueles olhos? Penetrante, profundo, secreto, sensual... perturbado; isso tudo definiria seu olhar? Não, existia algo mais, e o que fosse, era indecifrável esfinge...
De repente, o primeiro plano de Laura apareceu na frente filtrando e obscurecendo como abençoado íris, Fausto inamistoso e a sedenta platéia de sorriso estúpido... o despenteado, o hálito e o olhar bovino de Laura indicavam que sumira para beber escondida. Sentou ao lado e grudou no seu ouvido:
– Larga esse copo. Vem comigo, Lauro, deixa te mostrar uma coisa.
(...)
---------------------
ANIVERSÁRIO DE SÃO PAULO.
COLAR DE PRESENTE.
JANDIRA, CHAMPAGNE E COCAÍNA
NÃO SE MISTURAM.

Fariam aquilo de brincar juntas, porém, na presença de amigo que gostava de ver e até participar. Magda dissera isso entre um beijo e muitas carícias. (...). Depois encosta o corpo por trás de Jandira e no abraço desabotoa-lhe a frente da blusa. Saboreando com lentura o momento, beija-a na nuca, provocando em Jandira arrepios que sempre sentia com duas coisas neste mundo: champanhe e a boca úmida de Magda. Fecha os olhos pressentindo o que vinha em seguida: as mãos dela nos seus peitos, libertando-os carinhosamente do sutiã, apertando e arranhando de leve os mamilos. Sem ver a outra bebericando atrás dela, vira-se preparada para beijar, e, ao fazê-lo, surpreende-se sentindo vir da boca de Magda o líquido agridoce entrando na sua. Engole e mordisca a língua inquieta dentro de sua boca. Os mamilos de ambas estão endurecidos, entretanto, é Jandira lambendo os da outra, brincando de morder, ao sugá-los. Ela ama aqueles seios brancos mais que aos seus.
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LAMBEDEIRA, FACÃO E MORTE.
UMA FACA ENTERÇADA
MENOS DOIS OLHOS.
CORINTIANO EXPULSO DE CAMPO.

Viu dois broncos já entrando no quarto, olhando tudo sem querer fazer barulho. Um preto buchudo e um branco bufento, cochichando entre eles, caçando com atenção. De orelha e olhos acesos, ferrou os dentes e lembrou num estalo da faca enterçada escondida debaixo do colchão. (...)
Ladrões? Ou da lei? (...) De relance, enxergou-o em cima de Sinhá, com as calças enroladas prendendo os tornozelos e bunda de fora, saracoteando desvairado. Ela em silêncio, garra cravada nas costas dele, parecia estar gostando: (..)
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LEI “ACELERADA”.
EUCLIDES FIGUEIREDO
E RICARDO ALVARENGA
NO PRIMEIRO BRADO.
FESTA NA NECRÓPOLE.
“Telégrafo do capitão Ricardo Alvarenga aos comandantes, governadores, presidente, União das Nações: ‘Comunico-vos que, em nome do povo de São Paulo e apoiado pela sua unanimidade, assumi o comando do governo com o fim de exigir e proclamar a independência de uma nova nação sul-americana: a República Paulista...,”
Coisa de arrepiar os testículos!

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DENODO, MEDO, PATRIOTISMO NOS
CAMPOS DA GUERRA CÍVICA.
ENFERMEIRA NO ÉCRAN DOS COMBATES
PROCURA NAMORADO.
No início, ela esforçara-se por disfarçar a repugnância provocada por aqueles corpos feridos, deitados sobre reles cobertores jogados no meio de corredores de enfermarias ou outros locais inadequados. Aguardando serem atendidos, ela devia prepará-los para rápidas cirurgias, ajudá-los a tirar a roupa, limpar feridas, trocar curativos. O fedor dos corpos, as roupas imundas, o sexo, as fezes, o hálito fétido. (...)sabia que mesmo após um banho reparador, ainda esfregando-se com força, o odor permaneceria nas narinas, na pele, no cabelo – agora sim, parecendo pêlos, crinas de cavalo. (...) E os lábios dele encostaram nos seus; abriu a boca permitindo a língua brincar com a dela. Mais por lassidão deixou a mão dele abrir a blusa, apartar o sutiã, afagar os mamilos. Era doce descansar assim, relaxar após tanto sangue e estrondo, dona de certos direitos que podia exercer. Gratificante e deleitoso sentir aquela língua quente roçando nos mamilos, a boca sugando-os.
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TONHO CAÇANDO CORINTIANO
EM PLENA REVOLUÇÃO.
DE FACA E PICAÇU ATÉ A CINTURA.
Pau mandado, isso sim! Ladrão coisíssima nenhuma. Foram lá dar cabo dele. E dela em seguida, se fosse o caso. Nenhum respeito pela branca, foi logo metendo nela o covarde. (...) Tudo parou. Ouvido de repente surdo. Fez-se silêncio na sua cabeça, todas as forças do instinto se uniram fortalecendo mirada; lince no fundo do bonde vislumbrando-o por inteiro, avançando e furando os obstáculos até chegar na frente, de onde partira a voz inimiga reconhecida e tantas vezes relembrada. A mirada estancou na nuca inesquecível. (...) Mas aquilo lhe acontecendo, nunca poderia imaginar: ele caçando no meio da grande cidade de São Paulo, em pleno dia de revolução e dentro de um bonde.
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PARIS-BELFORT NO RÁDIO.
PEDREGULHO NO SACO DO PAPAGAIO.
UMA BALA NO BOLSO E PEDRO MORTO.

Na porta aberta da cozinha, parou. Lá dentro, Filomena sentada à mesa de ouvido grudado no rádio. Não se arranca de um organismo o próprio coração. E você, São Paulo, é o coração do Brasil!” (...)
Sentiu as meias grudentas, cheiro de suor no corpo todo, hálito de fome na boca seca de lábios pálidos... retirou a mão do bolso: em lugar de batom, uma bala de fuzil esquecida. (...) A mãe chorou em silêncio, enquanto ele berrara pela sua liberdade. A pouca, a única coisa que podia lhe pertencer. Palavras cheias de paixão, de impotências, de óbvios. (..)
Mesmo escondendo-se no torpor do instante que antecede o sono, o sexo palpitava em segredo, aguardando momentos verdadeiros que a fantasia, antes proibida, estava prometendo.
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NA CASA DO CORINTIANO.
QUELLA CATAPECCHIA?
SAPATO NA GOELA PRODUZ VÔMITO.
AMOR DESCOBERTO, MORTE.

Entrou rápido, fechou a porta atrás de si, encostou-se na parede e prendeu a respiração. No breu total, o ronco indicou o local da cama; contudo, nem precisava, o cheiro emanando dela era inconfundível.
(...)
CONTINUA...

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Meu Currículo

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CURRICULUM VITAE
Miguel Angel Fernández, diretor de artes gráficas e teatro, narrador, roteirista, ilustrador e artista plástico.
Mais no> YOUTUBE
__________________________


ESCOLARIDADE / CURSOS

§         Cursos de cinema documentário na Universidade de Santa Fé / Argentina.
§         Curso de Artes Gráficas, Produção e Impressão na Editora Abril, SP. 1972/73/74.
§         Curso de Artes Gráficas na Associação Paulista de Propaganda, 1981.
§         Curso de Extensão Universitária de Roteirização para Cinema e TV.
Escola de Comunicação e Arte - (ECA) USP-1987.

 

EXPERIÊNCIA PROFISSIONAL

§         Web Designer e Editor de conteúdo.
§         Colaborador na revista ÉPOCA, Editora Globo. 1998 / 2000.
§         Finalista da Oficina de Roteiristas da Rede Globo em 27/02/97.
§         Editor de Arte na Editora Globo, 1991/93.
§         Departamento de Arte, Produção e Marketing na Nova Cultural Fascículos (Ex-Abril Cultural) 1985/88. 
§         Marco Editorial, Editor de Arte, Marketing e Produção de livros didáticos. 1982.
§         Diretor de arte em diversas publicações da Editora Abril. 1974/81
§         * Ilustrador de inúmeras matérias de revistas, jornais, capas de livros etc.

ATIVIDADES CULTURAIS E ARTÍSTICAS
§         Romance  "A Cena Muda" (Lançamento da Ateliê Editorial.) 2000
      Em 2ª Edição 2014, encontre no> Clube de Autores 
§         Romance “Sobre Moscas e Aranha de Guerra" (inédito)
§         Argumentista de Especial da Rede Globo de Televisão, teve seu trabalho produzido pela Rede em 1991, atuando também como co-roteirista.
§         Em Artes Plásticas participou de individuais e coletivas no MASP, Museu de Artes do Rio de Janeiro, SESC/SP, Aliança Francesa/Rio etc.
§         2º lugar no Prêmio da II Mostra de Artes Plásticas no Salão Abril. 1979
§         Prêmio “Melhor Capa” de revista. Editora Abril. 1980.
§         Está na coletânea Vício da Palavra.
§         Teatro: “Velhas” / “Cartas para Cordélia” / “Um cadáver em casa de mamãe”
§         Roteiros - longas - ("Pixote, nunca mais!" adaptação do livro homônimo de Cida Venáncio Silva.) “Cangaceiro Imortal” e argumentos para Virginia-Cinema e vídeo/ Interlab Vídeo.
§         Um dos criadores e diretor do grupo de teatro “Teatro Novo”, CRUSP. 1968

LÍNGUAS:  Português e Espanhol fluente - conhecimentos de Italiano; Inglês; Francês.
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Telefone : (11)4303-9294 / E-Mail: miguelangel1948@gmail.com

domingo, 25 de janeiro de 2009

Por que escreve o escritor?

Por que voa o passarinho? Por que escreve o escritor?


de Dennis D.

http://dennis.d.zip.net

Se, ao apresentar-se a alguém, você disser que é escritor, prepare-se para ouvir aquela indefectível perguntazinha: “E dá pra viver disso?”.

Pois bem, diante de uma indagação desse tipo, controle-se, respire profundamente, seja bem-educado e responda: “É claro que não, tanto que já penso em entrar para o nobre mundo da política, no qual é perfeitamente possível viver como multimilionário, acumular inúmeros bens, tendo a declaração de rendimentos de um singelo cidadão de classe média. Ainda por cima, transformando-me de escritor em político, receberei o tratamento de ‘sua excelência’, e força alguma sobre a Terra me obrigará a responder perguntas impertinentes.”

Ora, ora, sabido é que apenas um punhado de escritores vive exclusivamente de sua literatura, seja aqui no Brasil, seja no exterior. E tais escritores alcançaram fama e riqueza porque são os melhores em seu ofício? Obviamente, não! Eles pertencem ao seleto grupo dos que tiveram as melhores oportunidades de divulgação, seja por mérito próprio ou pela eficiência de seus apadrinhamentos, e também porque produziram obras ditas populares (muitas delas baseadas em fórmulas de comprovado sucesso editorial).

Você, leitor, pode estar conjeturando se aquele famoso escritor, aquele que recebeu o Prêmio Nobel de Literatura, teve mesmo bons padrinhos na carreira. Terá sido essa a alavanca de seu sucesso mundial? Mas ele não é um gênio?

Permita-me responder nua e cruamente, ainda que a custa de sua indignação ou mesmo desencanto. Aquele premiado escritor não é um gênio. Os gênios são raríssimos e geralmente não fazem tanto sucesso no mercado editorial (livros de jovens prostitutas logo se transformam em best-sellers, enquanto os romances de Marcel Proust só fazem embolorar nas prateleiras das livrarias). Uma análise fria e realista dos fatos nos revelará que, entre outras coisas, o tal escritor premiado com o Nobel (o suposto gênio das Belas Letras) sempre contou, ao longo de toda a sua carreira literária, com a colaboração eficiente de um vasto contingente de amigos acadêmicos, jornalistas, pessoas engajadas em determinada corrente político-ideológica. Abracadabra! Ali estava o truque do mágico!

Sendo assim, que fique muito claro: em literatura, como em qualquer outra atividade humana, o talento, por maior que ele seja, não basta para nos ungir com o reconhecimento público, tampouco para nos conceder o retorno financeiro que almejamos.

Mas será mesmo que o verdadeiro escritor, o escritor fiel ao seu propósito de produzir arte honesta e de qualidade, deve viver em função da conquista da fama e da fortuna? Será que ele deve trabalhar seus textos literários com o objetivo de torná-los mais palatáveis ao gosto de uma suposta classe de leitores, ou ao gosto de determinados críticos literários? Tais perguntas, mais cedo ou mais tarde, acabam sendo feitas e respondidas pelos jovens escritores.

Sirvo-me agora de um episódio real, para demonstrar o quão enganosas são as idéias que muitas pessoas mantêm a respeito da arte e do ofício literário.

Anos atrás, aproximou-se de mim um parente e declarou que iria escrever um livro. Fiquei surpreso e perguntei-lhe se o livro seria um romance, uma novela ou uma coletânea de contos. O tal parente respondeu-me, muito candidamente, que ainda não decidira qual o gênero, nem qual o tema do livro a ser escrito. Não é espantoso? Ele queria publicar por publicar, porque deve achar muito elegante ter o próprio nome na capa de um livro. Quanta ilusão!

Seria o caso dessa criatura se perguntar por que voa o passarinho.

Será que o passarinho voa por exibicionismo? Será que ele voa porque voar é infinitamente mais elegante do que andar? Ou bater asas e ganhar os ares é da natureza das aves, assim como nadar é da natureza dos peixes, e não andar, nem tampouco voar?

E por que escreve o escritor? Por que é fino escrever livros? Ou escreve porque é de sua natureza expressar idéias e emoções de modo artístico, por meio da palavra escrita?

É claro que, num mundo ideal, todo escritor teria uma carreira de garantido sucesso comercial, receberia rios de dinheiro, moraria em castelos do Loire, e viveria sossegadamente a criar os seus enredos e personagens. O mundo real, contudo, está longe de ser tão generoso com os verdadeiros artistas. Por outro lado, há recompensas muito preciosas no caminho de um escritor, famoso ou não, que se mostre honesto com sua arte. Produzir uma boa obra, ainda que esta seja um poema de duas linhas, pode trazer alegrias indizíveis ao autor. Saber-se lido e compreendido, ainda que por poucos, é quase um pequeno milagre.

Se, dentro de você, existe o sincero desejo de apresentar idéias e sentimentos por meio da escrita literária, não se retraia diante dos pequenos ou grandes obstáculos. Escreva, simplesmente. Escreva todos os dias, se possível. Escreva com o honesto propósito de oferecer o melhor de si mesmo. Literatura é arte, e não existe arte sem verdade, sem coragem e sem paixão.

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

A vírgula




Será que a vírgula, é tão importante assim?
(Da campanha dos 100 anos DA ABI (Associação Brasileira de
Imprensa).


Vírgula pode ser uma pausa... Ou não.
Não, espere.
Não espere.
*
Ela pode sumir com seu dinheiro.
23,4.
2,34.
*
Pode ser autoritária.
Aceito, obrigado.
Aceito obrigado.
*
Pode criar heróis.
Isso só, ele resolve.
Isso só ele resolve.
*
E vilões.
Esse, juiz, é corrupto.
Esse juiz é corrupto.
*
Ela pode ser a solução.
Vamos perder, nada foi resolvido.
Vamos perder nada, foi resolvido.
*
A vírgula muda uma opinião.
Não queremos saber.
Não, queremos saber.
*
Uma vírgula muda tudo.
ABI: 100 anos lutando para que ninguém mude uma vírgula DA sua informação.

*Detalhes Adicionais: na frase a seguir, coloque a vírgula no lugar certo *

'*SE O HOMEM SOUBESSE O VALOR QUE TEM A MULHER ANDARIA DE QUATRO À SUA PROCURA.'*

Se você for *mulher*, certamente colocou a vírgula depois de MULHER.
Se você for *homem*, colocou a vírgula depois de TEM.

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

poema sobre a vida


A coisa mais injusta sobre a vida é a maneira como ela termina. Eu acho que o verdadeiro ciclo da vida está todo de trás pra frente.
Nós deveríamos morrer primeiro, nos livrar logo disso.

Daí viver num asilo, até ser chutado pra fora de lá por estar muito novo. Ganhar um relógio de ouro e ir trabalhar. Então você trabalha 40 anos até ficar novo o bastante pra poder aproveitar sua aposentadoria.
Aí você curte tudo, bebe bastante álcool, faz festas e se prepara para a faculdade.

Você vai para colégio, tem várias namoradas, vira criança, não tem nenhuma responsabilidade, se torna um bebezinho de colo, volta pro útero da mãe, passa seus últimos nove meses de vida flutuando.
E termina tudo com um ótimo orgasmo!
Não seria perfeito?


Charles Chaplin

terça-feira, 21 de outubro de 2008

3 charges




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Os inimigos internos da cultura ocidental

OS BÁRBAROS OCIDENTAIS
por Rodrigo Constantino

“Quando você quer ajudar as pessoas, você diz a verdade a elas; quando você quer se ajudar, você diz a elas aquilo que elas querem escutar.” (Thomas Sowell)

Os impérios sempre sofreram ameaças vindas de fora, como os romanos tendo que enfrentar os hunos de Átila. Atualmente, a civilização Ocidental precisa lidar com os riscos do fanatismo islâmico, cujo ícone Bin Laden deixa evidente o desejo de destruir tudo aquilo que o Ocidente representa. Mas nem toda a ameaça vem de fora. Muitos ocidentais mesmo lutam para destruir os principais valores ocidentais. Com esses inimigos em mente, Thomas Sowell reuniu no livro Barbarians Inside the Gates vários artigos refutando inúmeras falácias repetidas com freqüência. Sua tese é que os grandes inimigos da civilização ocidental não estão fora dos portões, mas sim dentro, e possuem títulos acadêmicos, poderes judiciais, contam com verbas públicas e controlam o meio artístico e a mídia. Em resumo, são os criadores da agenda “politicamente correta” que busca sempre atacar os pilares da civilização moderna.

Sowell escolhe diversos alvos diferentes, separando os capítulos por temas como economia, política, educação e a questão racial. Seus artigos são sempre muito objetivos, e logo na introdução ele deixa claro que o livro é para aquelas pessoas comuns que entendem o que se quer dizer quando se afirma que o céu é azul. Herdeiros do “desconstrutivismo” de Jacques Derrida fazem parte justamente dos alvos de Sowell, intelectuais que têm bastante facilidade para manipular palavras, mas que ignoram o fato de que a realidade não é maleável como a linguagem. Sowell adota o caminho oposto: linguagem simples e direta, mas em sintonia com os fatos da realidade. Em outras palavras, Sowell apela ao bom-senso, contra as “grandes idéias” da intelligentsia, que costumam deixar rastros enormes de sangue no caminho.

Não podemos esquecer que os experimentos mais terríveis do século XX – o comunismo e o nazismo – foram criações de intelectuais, defendidas por muitos outros intelectuais. Tanto Pol-Pot como seus principais seguidores estudaram o marxismo em Paris, por exemplo, e o filósofo Sartre defendeu a “Revolução Cultural” de Mao Tse Tung, responsável por uma das maiores atrocidades já realizadas pelo homem. Vários intelectuais defendem o regime cubano até hoje. Muitos genocidas e ditadores receberam o apoio desses “pensadores”, e chegaram ao poder graças às suas idéias. Como resume o próprio Sowell, o “totalitarismo foi um fenômeno intelectual”. O socialismo, mesmo com seus gritantes fracassos em todos os lugares onde foi testado, continuou e continua encantando muitos intelectuais. Conforme Sowell coloca, o seu fracasso é tão evidente que apenas um intelectual poderia ignorar um fato desses.

Os inimigos internos da cultura ocidental utilizam várias táticas distintas para atingir o mesmo objetivo: detonar todos os principais pilares da civilização moderna. O multiculturalismo, por exemplo, é uma dessas táticas. Sowell aponta a hipocrisia do discurso em prol do relativismo cultural, lembrando que seus adeptos costumam ser aqueles que desfrutam dos benefícios que a tecnologia moderna oferece, enquanto desdenham dos processos que podem produzi-los. A palavra mágica é “diversidade”, que quando utilizada parece impedir o uso da razão, cedendo lugar às emoções. Há diversidade entre a social-democracia e o nazismo, mas nem por isso os relativistas parecem dispostos a defender o nazismo, apenas em nome da tal “diversidade”. Outra palavra adorada é “mudança”, mas como Sowell lembra, aqueles que falam incessantemente sobre mudança costumam ser bem dogmáticos, e querem apenas mudar os outros, na verdade. A questão que poucos param para perguntar é: mudar em qual direção? Afinal de contas, entrar em guerra é uma mudança, assim como sucumbir a uma ditadura.

A idolatria ao governo é um dos grandes sintomas desse câncer moderno. Sowell dedica vários artigos a este tema, derrubando o mito de que as soluções para os problemas existentes passam sempre por mais governo. Os intelectuais adoram falar em “direitos”, esquecendo que os bens e serviços em questão não caem do céu. “A única forma de alguém ter um direito a algo que deve ser produzido é forçar algum outro a produzir para ele”, afirma Sowell. Eis algo bastante evidente, mas curiosamente sempre ignorado por aqueles que adoram pregar o altruísmo com o esforço alheio. Poucas coisas são mais perigosas do que deixar algumas pessoas decidirem por aquilo que outros terão que arcar com os custos. No entanto, esses “bárbaros” não querem saber de custos, mas sim de posar de nobres altruístas e chegar ao poder. Eles tratam palavras como “compaixão” como se fossem monopólio deles, tentando inviabilizar qualquer debate sobre os meios.

Se alguém é contra o uso da força através do governo para alguma meta, então é assumido automaticamente que ele é contra a meta em si. Apenas esses intelectuais são “pacifistas”, “altruístas” ou “sensíveis”, ainda que os meios por eles pregados sempre levem a resultados opostos a tais fins. Mas quem liga para os resultados? O objetivo é apenas conquistar o poder ou se sentir bem por mergulhar numa “cruzada moral”, enquanto os outros são vistos como seres inferiores, egoístas gananciosos que não possuem uma alma tão pura como eles. Como Sowell afirma, é complicado entender porque seria ganância desejar manter o próprio dinheiro ganho, mas não seria ganância querer tomar o dinheiro dos outros. Enquanto esses intelectuais prometem salvar a humanidade, o governo vai exigindo mais e mais recursos, criando novos problemas para demandar mais impostos e poder. O paternalismo serve como uma camuflagem para a busca do poder ou uma “ego trip” para seus defensores. Os indivíduos são sempre tratados como mentecaptos indefesos, que necessitam do governo e desses intelectuais para lhes dizer como viver. A esquerda jamais compreendeu que, ao darmos poder suficiente para o governo criar a tal “justiça social”, então damos também poder suficiente para ele criar um despotismo. Ou talvez tenha entendido e defenda mesmo assim...

O livro segue com excelentes artigos sobre educação, violência e racismo, sempre combatendo a visão “politicamente correta” que impede qualquer debate honesto sobre temas delicados. Sowell rebate a idolatria à mediocridade, por exemplo, daqueles que falam em “igualdade” na educação, querendo dizer igualdade de resultados, e não melhores oportunidades para todos. Ele lembra que só é possível ensinar todos no mesmo ritmo se o ritmo cair para aquele do menor denominador comum. Seria a morte da meritocracia, um dos objetivos desses intelectuais. A responsabilidade individual é também defendida por Sowell, já que é um dos alvos prediletos dos “bárbaros”, sempre ávidos por culpar a “sociedade” por todos os atos irresponsáveis dos indivíduos. Os crimes, por exemplo, são vistos como culpa do “sistema”, e nunca dos criminosos. Os intelectuais pregam o desarmamento de civis como solução, ignorando que o crime já foi banido, mas nem por isso os criminosos seguem a regra.

A ação afirmativa é outra bandeira adorada pelos intelectuais, e totalmente condenada por Sowell, que afirma não conhecer um único argumento convincente para as cotas. Sua defesa costuma ser apenas através de retórica emocional, sem conteúdo concreto. Sowell conclui que os negros viraram “mascotes” para a elite branca de intelectuais, que consegue verbas e poder, além da sensação de superioridade moral, através da defesa de algo claramente racista. A inveja ao sucesso alheio também é um dos motivadores que Sowell cita para a defesa de programas como as cotas. Novamente, não é com o resultado de suas idéias que esses intelectuais estão preocupados. Adotando uma visão coletivista, eles criam mais ressentimento entre indivíduos, segregando a sociedade e estimulando o racismo que alegam combater.

Em suma, a civilização ocidental e todo o progresso que ela possibilitou estão sob ataque, e boa parte das munições vem do “fogo amigo”, ou seja, de dentro do próprio Ocidente. São pessoas que usufruem das vantagens desses avanços, enquanto cospem em cada fator que permite sua continuação ou mesmo sobrevivência. São manipuladores de palavras e conceitos que ignoram os resultados concretos de suas idéias. São intelectuais com uma agenda “politicamente correta”, que dizem pregar a “pluralidade de idéias” enquanto condenam com agressividade qualquer opinião que não esteja de acordo com a ditadura do “consenso”. No fundo, a “tolerância” defendida com veemência é apenas a tolerância com os intolerantes. A defesa de valores mais tradicionais e de conceitos “antiquados” como honestidade, integridade e objetividade são duramente atacados pelos “tolerantes”. É proibido julgar as atitudes dos outros indivíduos, somente se forem atitudes irresponsáveis e inadequadas. Esses intelectuais são os primeiros a julgar e condenar aqueles que discordam de suas idéias. Tudo aquilo que vai contra os principais valores ocidentais é “apenas uma opinião diferente”, mas os valores ocidentais podem ser condenados objetivamente.

A degradação moral patrocinada por esses intelectuais é apenas um estilo de vida alternativo. Ações de vândalos e baderneiros viram apenas atos de “protesto”, enquanto a reação da polícia é uma agressão. A corrupção na política é apenas algo inerente e natural ao processo decisório. Assaltantes são vítimas da sociedade. Reagir à violência com violência é um absurdo, pois eles encaram a equivalência física como uma equivalência moral. Doutrinar crianças ideologicamente nas escolas é educação, mas reclamar disso é censura. Quem sabe o que é certo ou errado, afinal? Ninguém sabe! À exceção, claro, desses intelectuais, os “bárbaros ocidentais” que querem implodir a civilização ocidental de dentro dos seus portões. Com amigos assim, ninguém precisa de inimigos...

http://rodrigoconstantino.blogspot.com

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

o preço justo?

Dizem que não se cobra pelo que se faz, mas pelo que se sabe! VALODA
Um especialista foi chamado para solucionar um problema com um computador de grande porte e altamente complexo... Um computador que vale 12 milhões de reais.

Sentado em frente ao monitor, pressionou algumas teclas, balançou a cabeça, murmurou algo para si mesmo e desligou o computador.
Tirou uma chave de fenda de seu bolso e deu volta e meia em um minúsculo parafuso.
Então ligou o computador e verificou que tudo estava funcionando
perfeitamente.


O presidente da empresa se mostrou surpreendido e ofereceu pagar a conta no mesmo instante.

- Quanto lhe devo? -perguntou.
- São mil reais, por favor.

- Mil reais? Mil reais por alguns minutos de trabalho? Mil reais por apertar um parafuso? Eu sei que meu computador vale 12 milhões de reais, mas mil reais é um valor absurdo!
Pagarei somente se receber uma nota fiscal com todos os detalhes que justifique tal valor.


O especialista balançou a cabeça e saiu.
Na manhã seguinte, o presidente recebeu a nota fiscal, leu com cuidado, balançou a cabeça e saiu para pagá-la no mesmo instante sem reclamar.



A nota fiscal dizia:

Serviços prestados:

  • Apertar um parafuso..................R$ 1,00
  • Saber qual parafuso apertar..........R$ 999,00

domingo, 17 de agosto de 2008

Engano

Uma mulher foi levada às pressas para o CTI de um hospital. Lá chegando, teve a chamada 'quase morte', que é uma situação pré-coma. E, neste estado, encontrou-se com Deus:
- Que é isso? - perguntou ao Criador - Eu morri?
- Não, pelos meus cálculos, você morrerá daqui a 43 anos, 8 meses, 9 dias e 16 horas - respondeu o Eterno.
Ao voltar a si, refletindo o quanto tempo ainda tinha de vida resolveu ficar ali mesmo naquele hospital e fez uma lipospiração, uma plástica de restauração dos seios, plástica no rosto, correção no nariz, na barriga, tirou todos os excessos, as ruguinhas e tudo mais que podia mexer para ficar linda e jovial.
Após alguns dias de sua alta médica, ao atravessar a rua, veio um veículo em alta velocidade e a atropelou, matando-a na hora. Ao encontrar-se de novo com Deus, ela perguntou irritada:
- Puxa, Senhor, você me disse que eu tinha mais 43 anos de vida. Por que morri depois de toda aquela despesa com cirurgias plásticas!!???
E Deus aproximou-se bem dela e, olhando-a diretamente nos olhos, respondeu:
- MENINA! EU NÃO TE RECONHECI !!!....

sábado, 16 de agosto de 2008

A "cultura Google" desestimula a leitura e o cérebro?

"Já não penso da mesma forma que costumava pensar. Percebo isso com maior nitidez quando estou lendo. Mergulhar num livro ou num artigo de fôlego era fácil. Minha mente era conduzida pela narrativa ou pelos contornos do argumento, e eu ficava horas passeando por longas extensões de prosa. Isso raramente ocorre agora. Hoje minha concentração quase sempre começa a se perder depois de duas ou três páginas. Fico inquieto, perco o fio da meada, começo a procurar outra coisa para fazer. Sinto-me como se sempre tivesse que arrastar meu cérebro rebelde de volta ao texto. A leitura profunda que costumava me vir naturalmente tornou-se uma luta.
Acho que sei o que se passa. Por mais de uma década, tenho ficado muito tempo online, pesquisando, surfando e às vezes contribuindo para o crescimento dos grandes arquivos da internet.
À primeira vista pode não parecer, mas vai muito além do tolo alarmismo anti-web o artigo – "de fôlego" – publicado por Nicholas Carr na revista "Atlantic Monthly" (em inglês, acesso gratuito), com o título O Google está nos deixando burros?. O autor especula sobre como a rede mundial de computadores, ao mudar nossa relação com a leitura, estaria reprogramando nossos cérebros.
O título chamativo não faz justiça ao texto. Embora seja um conhecido adversário dos utopistas tecnológicos, Carr não é um reacionário. Lembra que seria fácil repetir hoje o erro de Platão, que, ao prever que a escrita enfraqueceria nossa memória e multiplicaria o conhecimento às custas da verdadeira sabedoria, tinha sua dose de razão, mas sofria de visão curta: a longo prazo, os benefícios da técnica tornaram seu argumento ridículo. Um cara preocupado, isso Carr é mesmo. Mas quem vai dizer que lhe faltam motivos?"

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Um excelente dia...


No filme "Perfume de Mulher" há uma cena inesquecível na qual o cego (interpretado por
Al Pacino) convida uma jovem para dançar e ela responde: "Não posso, o meu noivo deve estar chegando".
Ao que o cego responde: “Em um momento, vive-se uma vida", e a leva para dançar um tango. Esta cena que dura apenas dois ou três minutos, é o melhor momento do filme.
Muitos vivem correndo atrás do tempo, mas só o alcançam quando morrem, quer seja de enfarte ou num acidente automobilístico por correrem para chegar a tempo. Ou outros que, tão ansiosos para viverem o futuro, esquecem-se de viver o presente, que é o único tempo que realmente existe. O tempo é o mesmo para todos, ninguém tem nem mais nem menos de 24 horas por dia.
A diferença está no que cada um faz do seu tempo. Temos de saber aproveitar cada momento, porque, como disse John Lennon, “A vida é aquilo que acontece enquanto planejamos o futuro".
Parabéns por ter conseguido ler esta mensagem até ao fim. Certamente haverá muitos que leram só metade, para "não perder tempo" tão valioso neste mundo globalizado.
Um excelente dia para você, hoje.

Objetos inúteis

O princípio do vazio


Tens o hábito de juntar objetos inúteis neste momento, crendo que um dia (não sabes quando) poderás precisar deles.

Tens o hábito de juntar dinheiro só para não o gastar, pois pensas que no futuro poderá fazer falta.

Tens o hábito de guardar roupa, brinquedos, sapatos, movéis, utensílios domésticos e outras coisas que já não usas há bastante tempo.

Tens o hábito de guardar o que sentes, broncas, ressentimentos, tristezas, medos, pessoas, etc.
E dentro de ti ?
Não faças isso!
É anti-prosperidade.
É preciso criar um espaço, um vazio, para que as coisas novas cheguem à tua vida.
É preciso eliminar o que é inútil em ti e na tua vida, para que a prosperidade venha.
É a força desse vazio que absorberá e atrairá tudo o que tu desejas.

Enquanto estiveres material ou emocionalmente carregado de coisas velhas e inúteis, não haverá espaço aberto para novas oportunidades.
Os bens precisam de circular.
Limpa as gavetas, os armários, o teu quarto, a garagem.
Dá o que tu já não usas.
A atitude de guardar um montão de coisas inúteis amarra a tua vida.

Não são os objetos guardados que param a tua vida, mas o significado da atitude de guardar.
Quando se guarda, considera-se a possibilidade de falta, de carência. É acreditar que amanhã poderá faltar e tu não terás meios de prover às tuas necessidades.

Com essa postura, tu estás a enviar duas mensagens para o teu cérebro e para a tua vida:
1º... tu não confias no amanhã
2º... tu crês que o novo e o melhor não são para ti, já que te alegras com guardar coisas velhas e inúteis.
Joseph Newton

Mala Men


O assunto da aula era medo.
A professora começa a perguntar.
- Pedrinho, do que você tem mais medo?
- Da mula-sem-cabeça, fessora.
- Mas, Pedrinho, a mula-sem-cabeça não existe. É apenas uma lenda... Você não precisa ter medo.
- Mariazinha, do que você tem mais medo?
- Do saci-pererê, fessora.
- Mariazinha o saci-pererê também não existe. É somente outra lenda... Você não precisa ter medo.
- E você, Joãozinho? Do que tem mais medo?
- Do Mala Men, fessora.
- Mala Men? Nunca ouvi falar... Quem é esse tal de Mala Men?
- Quem é eu também não sei, 'fessora'. Mas toda noite minha mãe diz na oração: 'Não nos deixais cair em tentação, mas livrai-nos do Mala Men...

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

A REVOLTA DAS MINORIAS

de MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA - 6/8/2008

Nessa época, onde a transitoriedade e a pressa se acentuam, a avalanche dos fatos não finca raízes, não se fixa na memória já curta dos homens. No caso brasileiro, não só o desconhecimento de nossa história, mas a indiferença ao que se passa no turbilhão de acontecimentos recentes faz de nós desmemoriados culturais. Entre uma semana e outra, entre uma Veja e a próxima, tudo é esquecido mesmo por aqueles que cultivam o raro hábito de ler jornais e revistas.

A amnésia coletiva que inclui letrados e iletrados aprofunda o individualismo, impede a formação de uma consciência cívica, favorece o poderio estatal e o surgimento de lideranças populistas, de demagogos que seduzem as massas sequiosas de direção e de esmolas públicas que acalmem suas aspirações.

A sensação que se tem no Brasil de hoje – diante de denúncias gravíssimas que pairam sobre membros do mais alto escalão do governo; da violência urbana, especialmente a relativa ao estado de guerra em que vive a população do Rio de Janeiro, e a do meio rural sob os ataques do MST e suas dissidências; do caos na área da Saúde; do baixo nível da Educação; da ausência de valores que norteiem o curso de cada vida – é que os indivíduos se deixam levar pela correnteza da submissão à manipulação que despersonaliza, massifica, torna todos semelhantes no anonimato, na insignificância, na mediocridade.

Faltam-nos minorias capazes de liderar, de se revoltar com o atual estado de coisas, de transformar a responsabilidade no fermento inovador de um novo patamar de progresso e, porque não, de fazer florescer o belo, o bom e o justo para assim quebrar a vulgaridade da existência atual. E as minorias a que me refiro nada têm a ver com riqueza ou pobreza, mas podem emergir em qualquer classe social, pois suas faculdades superiores de melhores residem no caráter, na essência que os aproxima mais da humanidade que da bestialidade que habita em cada criatura.

A sociedade brasileira fica estarrecida diante dos crimes atrozes devidamente "trabalhados" pela TV. Mas se queda indiferente perante os abusos cometidos pelos governantes. Afinal, os que deviam dar o bom exemplo e não dão são os piores.

Parafraseando Ortega y Gasset: infelizmente, existem algumas cabeças, muito poucas, mas o corpo vulgar do Brasil não quer pô-las sobre os ombros. Pior, o corpo vulgar insiste em manter sobre os ombros cabeças incompetentes, distantes do bem comum, articuladas por vezes com a ilegalidade.

Vários exemplos podem ser citados para confirmarem essa análise, pois se sempre houve escândalos na esfera do Poder Público, nunca se assistiu a tantos de 2003 para cá. Basta lembrar que poucos ministros restam do primeiro mandato do atual presidente da República, sendo que muitos já perderam o cargo nesse segundo mandato por conta da corrupção. Também o Poder Legislativo não se cansa de dar ao povo múltiplos exemplos de como não deve ser um parlamentar. E nem o Judiciário escapou do descumprimento da lei, o que é algo tragicamente irônico.

Entretanto, fiquemos com os fatos mais recentes, que na próxima semana já estarão esquecidos, para confirmar o que está sendo apresentado neste curto artigo:

Em matéria de incompetência governamental tivemos dois episódios marcantes. O primeiro foi relativo à atuação do chanceler Celso Amorim, que mais uma vez trabalhou com denodo para conduzir ao fracasso a Rodada de Doha. Pior, o Brasil saiu como traidor do Encontro, portanto, mal visto na esfera internacional.

O segundo está ligado à audiência pública convocada pelo ministro da Justiça, Tarso Genro e pelo secretário Especial de Direitos Humanos, Paulo Vannuchi, com o objetivo de pedir a condenação de militares que, segundo estes senhores, estariam envolvidos em práticas de tortura durante o governo militar e, assim, não poderiam ser beneficiados pela lei da anistia. Com sua atitude estes membros do governo causaram constrangimento até aos companheiros de seu próprio partido, o PT e, segundo consta, ao próprio presidente da República. Mas este não cogitou em dispensar o ministro e o secretário, como não pensou em destituir do cargo o colecionador de perdas, Celso Amorim.

Outro fato bastante grave foi a denúncia feita pela revista colombiana Cambio sobre as ligações de membros importantes do governo brasileiro e muito próximos ao presidente da República, com as Farc, bando composto por bestiais narcotraficantes, criminosos da pior espécie que estão sendo derrotados pelo presidente Álvaro Uribe.

Provavelmente tudo isso estará esquecido na semana que vem, pois com mostrou Ortega y Gasset, "a política se apressa em apagar as luzes para que todos os gatos fiquem pardos". E isso não diz respeito só aos políticos. Sem a revolta das minorias todos nós ficamos pardos.

Maria Lucia Victor Barbosa é socióloga, escritora, professora.

mlucia@sercomtel.com.br


domingo, 27 de julho de 2008

A beleza salvará o mundo


por
Leonel Marcelino


Conta-nos Alexandre Soljenitsyne que levou algum tempo a tentar perceber esta frase enigmática que, um dia, Dostoïevski deixou cair: «A beleza salvará o mundo». Interpretou-a finalmente como querendo significar que a beleza da arte, sobretudo da literatura, acabará por fascinar o mundo e convencê-lo da necessidade de reflectir e de pôr em prática a profunda defesa dos valores da dignidade humana, sobretudo da verdade e da justiça, que os grandes autores sempre deixam inscrita no seu legado literário.

Recentemente, li a notícia de que as universidades americanas, conscientes do erro cometido por darem a primazia às tecnologias e à investigação do universo material, iam voltar ao estudo do humanismo, privilegiando o conhecimento da filosofia e da literatura.

Se reflectirmos um pouco sobre o que é hoje a civilização ocidental, não será difícil chegar à conclusão do modo como a realidade material submerge a realidade espiritual.

A civilização do prazer e do lucro sobrepõe-se ao sacrifício de lutar contra as mentiras e os engodos de fanáticos e de oportunistas.

Soljenitsyne, que sofreu no corpo e na alma os horrores das massificações e das ilusões da luta de classes que, criando falsas utopias arrasaram, e continuam a arrasar, milhões de seres, preveniu-nos, com lucidez, contra os novos monstros que se transformam facilmente em degradação humana, genocídios, ditaduras cruéis, anulação do indivíduo.

Roger Martin du Gard publicou uma obra, «O Verão de 1914», em que alertava para a atmosfera angustiante que se viveu na Europa antes da mobilização para a 1.ª Grande Guerra Mundial, face à fraqueza dos governos de então, às suas hesitações, às suas indiscrições, às suas ambições inconfessáveis com a cumplicidade passiva das massas que acabariam por sofrer na pele os horrores que se seguiram (nove milhões de mortos e dez milhões de estropiados).

Mas, o homem, que continuou sem meditar a literatura, copiou os mesmos erros e desencadeou a 2.ª Guerra Mundial, com consequências mais gravosas ainda, teimando, no presente, em alimentar outros horrores um pouco por todo o mundo.

E continuamos sem ler nem apreciar a beleza da arte.

Assistimos à cavalgada do materialismo e à degradação cada vez mais abjecta da humanidade, com seu cortejo de obscenidades. Basta-nos referir o que se passa nas nossas televisões com as telenovelas e seus conteúdos mentirosos e outros programas ridículos de má língua, noticiários (!) incluídos, para percebermos o que é a concessão ao que de mais baixo e vil existe no homem desde o tempo das cavernas e que leva as novas gerações aos himalaias do gozo alarve.

Num mundo sem literatura, não me espanta que continuemos indiferentes aos vários horrores que se vão repetindo, de que, o exemplo mais vivo e recente, é o do Zimbabwe, perante a cobardia, a indiferença, a fraqueza e a inoperância de governos incompetentes, ignorantes da história, insensíveis aos valores humanos, hesitantes na defesa da dignidade humana.

Um mundo sem beleza é um mundo perdido, sem verdade nem justiça nem sentido. Alimentar a espiritualidade é libertar o Homem.

Resta-nos a esperança de que um próximo pesadelo acorde os políticos e os alerte para a urgente necessidade de reintroduzir nas escolas o estudo dos autores universais para que se cumpram as palavras de Dostoïevski e «a beleza acabe por salvar o mundo», destruindo a cobardia e o medo.




'Dostoievski'
14x21cm - Nankin e guache s/papel