GLOBALIZAÇÃO, REGIONALIZAÇÃO
E A NOVA ORDEM MUNDIAL
José Osvaldo de Meira Penna
A globalização é um fato. É o fenômeno mais evidente da modernidade, um processo que já conta com meio milênio de duração, uma evolução irreversível resultante dos descobrimentos e extraordinários avanços tecnológicos da humanidade a partir do período da Renascença. Podemos datar a globalização, se quiserem, dos fins do século XV quando portugueses e espanhóis se lançaram "por mares nunca dantes navegados", enquanto Copérnico e Galileu propunham uma teoria heliocêntrica que confirmava a redondeza da Terra e estendia infinitamente os limites do Universo. Desde então, o processo tem avançado a passos de gigante.
Podemos, no entanto, recuar mais ainda. No Cristianismo encontramos, pela primeira vez bem definida, a tese da unidade da espécie humana. Quando anunciam os Evangelhos que a missão dos apóstolos é de estender a “Boa Nova” até os limites do universo e quando, em suas Epístolas, declara São Paulo que não há judeu, nem grego, nem escravo, nem senhor, nem homem, nem mulher, circunciso ou incircunciso, bárbaro ou scita – “pois todos vós sois um só em Cristo Jesus” (Galatas 3:28 e Colossenses 3:11) – está, na realidade, pregando a superação de toda religião nacional, como eram ainda as crenças pagãs e o próprio Judaísmo, em favor de uma fé de âmbito católico no sentido literal do termo (do grego kath holon, “em geral” ou “universal”). O Cristianismo pode ser definido como uma religião “universal” nesse significado estrito. A Igreja católica nunca pretendeu o contrário, ainda que alguns padres, mal informados, condenem hoje a “globalização”. A idéia, aliás, brotou no próprio Estoicismo dos primeiros séculos de nossa era em Roma – então no apogeu de sua glória e poder. Quando o Imperador Marco Aurélio meditou a frase célebre: “Diz o poeta, cara Cidade de Cecrops; mas não dirias, Cara Cidade de Zeus?”, queria indicar a dualidade das Cidades, a nacional e a universal. Caracala, pouco depois, estenderia a cidadania romana a todos os habitantes livres do Império e Agostinho formularia transcendentalmente a mesma imagem na Cidade de Deus, que se sobrepõe às várias cidades terrenas.
O processo histórico de expansão planetária vale-se de um longínquo testemunho concreto quando, por volta da época de Trajano em princípios do segundo século de nossa era, as vanguardas de uma legião romana surpreenderam na longínqua Bactriana – ou seja, no que é hoje o Turcomenistão e norte do Afeganistão, abaixo do Hindu Kush – unidades avançadas do exército chinês. O fato é que, naquela única vez antes da modernidade, o Império Romano, o Ocidente, e o Império Chinês da dinastia Han, o Oriente, cobriam sua máxima extensão a ponto de se tocarem. Dois episódios notáveis permaneceram desse momentoso encontro. Através de um reino grego remanescente das conquistas de Alexandre, na Bactriana, que se havia convertido ao Budismo, a influência da estatuária grega se fez sentir sobre a arte budista da China e do Japão – contribuindo para a própria ligação da Índia, onde nascera a doutrina do Buda Gautama, com a Ásia Oriental onde prosperou essa religião. O Tibet é um laço comum entre a China e despencaram nas Grandes Invasões, derrubando o Império Romano a partir do quarto século de nossa era. Sob a liderança de Átila, os próprios hunos entraram na carniça. Em suma, o mundo já se globalizava muito antes de saber em que consiste a globalização. Outros fenômenos históricos contribuíram para o movimento planetário, como a expansão dos polinésios pelo Pacífico e dos wiquingues pelo Atlântico Norte, ambos em direção à América do Norte, tudo isso séculos antes da viagem de Colombo.
O grande fator de união da Eurásia foi, no entanto, representado pela conquista mongol. No século XIII, os vários impérios edificados pelos descendentes de Genghiz Khan, dominando da China até o Oriente Médio e da Mongólia até a Rússia, criaram condições que permitiram ao mercador veneziano Marco Polo atingir Kambalig, isto é, Peking (Beidjing). Antes dele, um monge franciscano, Giovanni da Piano Carpini, visitou a corte do Grande Khan para convencê-lo, em nome do Papa, a abster-se de invadir a Europa e a aliar-se com os Cruzados para uma ofensiva conjunta contra os mahometanos. Bagdad seria, pouco depois, destruída. Contudo, a conquista definitiva de um mundo ecumênico só principiou com os Grandes Descobrimentos, marcados por quatro etapas relevantes: a viagem de Colombo, dado como havendo “oficialmente” descoberto a América; a de Vasco da Gama que abriu o caminho da Índia e se prolongou, subsequentemente, com a chegada dos primeiros missionários e comerciantes europeus à China e ao Japão; a “descoberta” do Brasil por Pedro Alvares Cabral que associou nosso país ao movimento marítimo de extensão global da civilização européia; e a circunavegação do planeta pela esquadra de Fernão de Magalhães. Daí para a frente, o movimento se acentuou até culminar no século XIX. Em relação à China,. capítulos importantes foram a embaixada levada a efeito por Lord Macartney à corte do último grande imperador da dinastia mandchú em Peking (1794), embaixada que fracassou mas foi seguida, poucos anos depois, pela abertura forçada dos portos chineses após a chamada “guerra do ópio”, sendo Hong-Kong e Xanghai fundadas na ocasião. O outro capítulo foi a viagem do comodoro Perry que, em 1853, obteve sob a ameaça de seus canhões a abertura do Japão, desencadeando a “Restauração Meiji” – com a modernização sob a liderança do Mikado. A colonização da África, também no século XIX, e o acabamento da exploração do planeta em nosso próprio século (Polo Norte, Polo Sul, Monte Everest, Amazônia) terminam o que poderíamos denominar a “globalização geográfica” do mundo.
A idéia de “um Mundo Só”, em termos políticos, tem uma longa história. Ela é marcada pelo ensaio de Kant, de 1784, sob o título “Idéia para uma História Universal do Ponto de Vista Cosmopolita”. E, em 1919, o Presidente Wilson apoia a idéia de fundação da Liga das Nações que não se torna universal porque o próprio Senado americano se recusa a ratificar o Pacto que cria a organização. Em 1940, o candidato republicano contra a reeleição de Roosevelt, Wendell Wilkie, lança o slogan “Um Só Mundo”. Mas é o próprio Roosevelt que, com Churchill, concebem a Organização das Nações Unidas na Carta do Atlântico de Janeiro de 1942. A esta aderem, antes do fim da guerra, 46 nações “aliadas”, entre as quais o Brasil. Não me estenderei em relação à ONU, arremedo talvez prematuro de um governo mundial, sendo seu fim precípuo o de manter a paz e a segurança internacional, evitando novas guerras. Esses objetivos só têm sido parcial e confusamente alcançados pela Organização – que se justifica, entretanto, como cenáculo de debates na expressão dos anseios da opinião pública mundial.
Um ponto importante merece, a esta altura, ser destacado. Contrariamente à falsa idéia que prosperou entre nós, particularmente na Esquerda, não foi Karl Marx um adversário mas um entusiástico propugnador da idéia de globalização. No Manifesto Comunista de 1848, Mar e Engels declaram taxativamente: “Mediante a exploração do mercado mundial, a burguesia tem dado um caráter cosmopolita à produção e ao consumo de todos os países. Com grande mágoa dos reacionários, ela puxou de sob os pés da indústria a base nacional onde se sustentava. As antigas indústrias nacionais foram destruídas ou estão sendo continuamente destruídas. São suplantadas por outras indústrias cuja introdução se converte em questão vital para todas as nações civilizadas; por indústrias que já não empregam matéria prima indígena mas matérias-primas oriundas das regiões mais longínquas do mundo; indústrias cujos produtos não só se consomem no próprio país mas em todas as partes do mundo. No lugar das antigas necessidades, satisfeitas com produtos nacionais, surgem necessidades novas que reclamam, para sua satisfação, produtos dos países mais afastados e dos clientes mais diversos. No lugar do antigo isolamento e da autarquia das regiões e nações, se estabelece um intercâmbio universal, uma interdependência universal das nações. E isso se refere tanto à produção material quanto à intelectual. A produção intelectual de uma nação se converte em patrimônio comum de todas. A estreiteza e o exclusivismo nacionais tornam-se cada vez mais impossíveis; e a partir das numerosas literaturas nacionais e locais se forma uma literatura universal”. Chamo particularmente a atenção par as frases sublinhadas. Marx obviamente considera irreversíveis globalização e interdependência. Em várias outras obras e nos artigos que escreveu para jornais ingleses e americanos essa mesma idéia de internacionalização da economia, acompanhada pela globalização da cultura, são enfatizadas pelo fundador do comunismo, idéia que é desenvolvida por seus epígonos até o final do século. Os termos são inconfundíveis. Marx concedia seus méritos à "classe burguesa", embora o fenômeno nada devesse ao preconceito de "luta de classes".
Em suma, o que muitos marxistas tupiniquins ignoram é que o velho guru barbudo era globalista, entusiasticamente globalista, pois acreditava que só uma economia capitalista madura criaria as condições indispensáveis à revolução proletária. A prova da ignorância está numa polêmica ocorrida em 1998, entre dois eminentes cartolas do PT, os deputados José Genoíno e Sandra Starling, líder do partido na Câmara. Por coincidência, comemorava-se, então, o sesquicentenário do Manifesto de Marx/Engels. Refiro-me a esse episódio para demonstrar quanta bossalidade ainda cerca as manifestações da intelectuária de Esquerda em nossa terra. Desconhecendo com toda evidência os escritos de seu mestre, Sandra Starling deblaterou contra a globalização, considerando-a contraditoriamente como um mito, uma ilusão falsa, uma perspectiva errônea e, ao mesmo tempo, uma realidade apocalíptica cujos efeitos perversos passou a enumerar em tons histéricos. Seu colega Genoíno, mais genuinamente marxista, compreendeu as implicações das teses de Marx para uma interpretação correta do que se passa hoje no mundo.
O estupendo paradoxo é que as profecias de Marx, que se esboroaram totalmente no que diz respeito à sua tese do triunfo inevitável do socialismo sob o efeito das Leis Férreas da História - revelaram-se uma antecipação realista no que diz respeito à universalização da Cultura ocidental. A luminosa realidade no texto básico do Marxismo é que é ela atribuída, justamente, à burguesia capitalista. O paradoxo é que seja exatamente a globalização o que hoje detestam os esquerdistas, não em termos de um arrazoado econômico e social, mas por força de irresistíveis paixões nacionalistas.
A interdependência inevitável das nações é o que “a artilharia pesada” do Manifesto de 1848 anuncia, com a qual o capitalismo está “destroçando as Muralhas da China”, forçando assim, nas próprias palavras de Marx, “a capitulação do intenso e obstinado ódio dos bárbaros contra os estrangeiros”. Mas, me pergunto então: quem são hoje “os bárbaros mais obstinados”? Não seriam os de Cuba e da Coréia do Norte, os dos dois últimos baluartes da reação vermelha - os mais isolados, os mais economicamente “independentes” e os mais miseráveis? A extrema ternura e cega adoração que os esquerdistas de todo o mundo, particularmente brasileiros, que somos tão emotivos, dedicam a personalidades como o do “queridíssimo Fidel” (como assim a ele se endereçou o ex-cardeal arcebispo de São Paulo), não possui explicação racional. Irracional, na verdade, é a curiosa simpatia que, em nossos meios de comunicação, despertam personalidades exóticas do tipo de Fidel, Saddam Hussein e Slobodan Milosevitch – talvez porque se posicionem como machões ou heróicos Davids que ousam desafiar o Grande Satã do Tio Sam.
Outro exemplo é a criação, num nível mais sofisticado e francamente acadêmico, de um curioso revisionismo em matéria de história pátria. Subitamente, ao invés de vilão, surge Francisco Solano Lopez como herói da luta contra a Dependência e a Globalização. O Paraguai daquela época, de Francia e Solano Lopez, havia, efetivamente, alcançado um prodigioso estágio de crescimento autárquico e fora transformado, por seus três ditadores sucessivos, numa espécie de Prússia sul-americana, solitária, orgulhosa e agressivamente auto-suficiente: uma verdadeira autarquia com um certo vezo teocrático jesuítico. Na interpretação marxista com que os neo-historicistas patrícios pretendem exaltar essas figuras, longe de ser responsável pela guerra total que o arruinou em meados do século passado, o Paraguai, produto do coletivismo jesuítico das Missões de Guaira, foi vitima do Imperialismo britânico, agindo por intermédio do sub-imperialismo brasileiro. Que objetivos esses “imperialismos” procuravam alcançar, eis o que esses brilhantes e ilibados pesquisadores jamais condescendem a nos explicar. Mas enfim: deixai-os sonhar em suas grotescas fantasias autárquicas...
Marx não previra, contudo, o papel monstruoso do Estado. Pensara que fosse apenas o Comitê Diretor da burguesia – destinado à supressão pelo proletariado, uma vez vitoriosa a Revolução. Ora, é precisamente esse Estado, cujo crescimento patológico os liberais procuram deter, o que se transformou no patrimônio de uma Nomenklatura egoísta que sobrevive pela fraude sob o rótulo de defesa da “justiça social”... A verdade é que nenhum dos grandes maîtres à penser da primeira metade do século havia pensado na problemática do Estado-nação soberano, quando essa questão crucial forçosamente se levanta ao falarmos de Globalização. Um único economista da época, quase absolutamente desconhecido, previu e preveniu quanto aos aspectos ominosos do problema. Foi Friedrich Hayek que, em 1944, publicou um livrinho sob o título “O Caminho da Servidão”, para provar que o crescimento do Estado interventor e o controle crescente da economia pelos políticos e os burocratas conduziria, inevitavelmente, ao Totalitarismo, esse mesmo contra os quais os Aliados ocidentais estavam então combatendo.
Depois do colapso do comunismo no Annus Mirabilis de 1989, alguns liberais acreditaram que suas idéias haviam definitivamente triunfado. A própria história alcançara seu fim. Esqueceram que não somente a história nunca, presumivelmente, terá fim mas que as contradições entre os homens vivendo em sociedade, embora podendo mudar de aspecto, jamais cessarão. Passaram-se dez anos. A crise financeira na Ásia e na nação que, paradoxalmente, fora o sustentáculo máximo do Marxismo, ressuscitaram o cadáver da Ideologia que, na mente das Viúvas inconsoláveis da Praça Vermelha, se transformou, como anunciava o Manifesto, num espectro. Mas um espectro que, não a nós, liberais, mas a eles sobressalta. A crise é financeira. Ela atinge valores abstratos, câmbio, investimentos, meios de pagamento que, por força da automação e da Informática, provocam desemprego exatamente nos países cujos governos não souberam manobrar adequadamente as regras do mercado competitivo. A própria crise e o sucesso recente de partidos cor-de-rosa na França, Inglaterra e Alemanha, reacendeu-lhes as esperanças utópicas. O “pensamento desiderativo” (wishful thinking) pode manifestar-se de maneiras surpreendentes: desde o grito do notório ressentido, “A Crise é o Muro de Berlim do Capitalismo!”, até a distorção mais sutil como quando a imprensa brasileira anuncia a vitória dos democratas nas eleições americanas ao passo que, na verdade, ocorreu apenas uma pequena redução da absoluta maioria republicana na Câmara, sem afetar seu triunfo no Senado e em 32 dos 50 governos estaduais dos USA.
A extraordinária capacidade dos intelectuais de estilo neo-burro, como os chamava Gustavo Franco, de se auto-iludirem, pode ser aquilatada por três fatos decisivos que procuram ignorar. O primeiro é que a economia do grande bicho-papão, os USA, se encontra em franca e inédita prosperidade, criando três milhões de empregos e absorvendo dois milhões de imigrantes por ano, precisamente no momento em que as economias semi-socializadas da Europa registam altos índices de desemprego, em conjunção com a presença de uma pesada massa indesejável de clandestinos árabes, africanos, turcos, iugoslavos e refugiados políticos, vegetando na economia informal.
Numa incoerência semelhante parecem incorrer os que associam globalização e neoliberalismo como expressões "pósmodernas" da intervenção do demônio na história. Mas será que se dão conta do que aconteceria se, por ato ou boato de algum arcanjo ou espírito sobrenatural - encarnações tardias das masturbações mentais de Rousseau - pudesse o Brasil trancar-se dentro de suas fronteiras como autarquia absoluta, terreno fértil para a ideologia jingo-chauvinista que tanto prezam? Pois, que é o Brasil senão um dos produtos mais autênticos, num mercado aberto de coisas, de idéias e de pessoas, da extensão global dos conhecimentos, dos transportes, das comunicações e do comércio que se desenvolve desde 1500? Que é o Brasil, em outros termos, senão um dos mais belos expoentes da globalização? Do exterior, do mundo global vieram portugueses, africanos e outros imigrantes, entre os quais, presumo, os ancestrais daqueles que me estão lendo. Do exterior vieram, e continuam sendo importados os apetrechos tecnológicos que permitem ao Brasil ser hoje uma potência média em desenvolvimento, todos repito: aviões, automóveis, telefones e eletricidade, canhões, fuzis, tanques e navios, computadores e aparelhos de televisão, medicina, remédios, higiene, técnicas de controle da natalidade e tratamento odontológico, economia industrial, sistema monetário de troca, capitais e investimentos diversos, modelos de regimes políticos, constituições e ideologias. Vieram, em suma, língua, livros, filosofia, religião, quase toda a cultura e conselhos de bom senso... que outra coisa mais desejam? A globalização pode nos conduzir a um planeta sem fronteiras. Pode integrar-nos em áreas mais extensas de convivência pacífica - como está acontecendo na Europa e, timidamente, com nossos vizinhos platinos, graças a Deus! E ela exige uma língua comum, como foi, outrora, o latim e depois o francês.
É possível, entretanto, que um único governo mundial venha ainda a ser, como pensam os angustiados, um sonho prematuro ou, pelo contrário, um pesadelo horroroso. Todavia, é mister que haja instituições, tanto nacionais quanto internacionais, que combatam fenômenos que, esses também, não conhecem fronteiras. as epidemias, as catástrofes ecológicas, a criminalidade em geral, pública e privada. Ninguém falou, por enquanto, num único governo mundial. Mas que há necessidade de uma nova "organização internacional" - isto é, "entre as nações" - eis que não se trata de uma utopia, mas de um Grande Projeto bem-vindo pelas pessoas de bom senso. Afinal de contas, estamos terminando um século atormentado em que milhões de seres humanos morreram e continuam morrendo, estupidamente, em guerras mundiais, guerras regionais, guerras civis e guerrilhas, pelo efeito perverso das ideologias que nos desgraçaram e que, todas elas, pregavam a exaltação grosseira dos símbolos do coletivismo fechado.
As ciências sociais raramente se têm associado com a filosofia política e a historiografia para estudar o fenômeno desse massacre coletivo, resultante de regimes totalitários e tiranias personalistas. Há um número considerável de livros publicados sobre o Holocausto judaico da IIa Guerra Mundial; sobre a criminalidade no mundo; sobre os males do colonialismo e outros no gênero. O professor R.J. Rummel, cientista político da Universidade de Hawai, se distingue pelo trabalho gigantesco e obsessivo que tem realizado, com a publicação de já quatro livros sobre os genocídios ou o que ele chama os "democídios" de nossa centúria. Esta, como se sabe, é notória por haver avançado a cultura humana no salto mais espantoso do conhecimento científico e desenvolvimento tecnológico e econômico, mas também de ser responsável pelo morticínio inédito na história da Humanidade. Rummel não está tanto interessado nas mortes em conflitos bélicos que qualificaríamos de "normais" - como os oito milhões de soldados mortos diretamente em combate na Ia Guerra Mundial. Sua pesquisa se dirige ao massacre puro e simples de civis, prisioneiros de guerra, refugiados em trânsito, mortos em campos de concentração e de outros modos eliminados, numa variedade de formas que deixa os diversos torturadores e inquisidores da Idade Média como suaves sadistas em comparação. O número de mortes por violência coletiva em nosso século atinge facilmente 200 milhões. Rummel calcula em 170 milhões apenas os mortos em democídios, excluindo os soldados na guerra. Ele estabelece uma lista dos mega-assassinos que é a seguinte, com as respectivas cifras de sua vítimas (em milhões): URSS (62); China comunista (35) com mais 3,5 no período da guerra civil e guerrilha; Alemanha nazista (21); China nacionalista e período de anarquias militar(11); Japão (6); Cambódia (2); Turquia (1,8); Vietnam (1,7); Polônia e Tchecoeslováqauia (1,6 no episódio da expulsão dos alemães em 1944/45); Paquistão (1,5); Iugoslávia (um milhão) tanto por parte dos Titoístas quanto Croatas e Sérvios; Coréia do Norte (1,6) e México (1,4) no período da Revolução mexicana. Alguns outros episódios foram, infelizmente, esquecidos pelo eminente historiador detetive: os milhões resultantes dos regimes comunistas da Etiópia (Menguistu) e Angola; assim como os milhões resultantes da partilha do sub-continente indiano, inclusive constantes conflitos comunais. Cifras de algumas centenas de milhares de vítimas poderiam também ser registadas em "la violência" na Colombia e nas guerras coloniais da Inglaterra e de Portugal. A tese que as democracias não fazem guerras, nem cometem "democídios" é desmentida pela Guerra da África do Sul do princípio do século em que, pela primeira vez, o sistema de campos de concentração foi inventado pelos ingleses. Episódios polêmicos que deixaram seqüelas, como a guerra de independência da Argélia e a atual revolta dos Fundamentalistas (que já causaram mais mortes do que a luta contra os franceses); a Guerra Civil espanhola e várias guerras tribais na África não possuem tampouco dados exatos de perdas e genocídios. Sempre em tais estudos é difícil evitar parcialidades, preconceitos ideológicos, silêncios deliberados e muita hipocrisia. É evidente que os Aliados cometeram democídios nos bombardeios da 2ª Guerra Mundial e também causaram perdas terríveis em sua tentativa de contenção do comunismo na Coréia e no Vietnam. Menciono esses últimos casos porque me parece uma escandalosa hipocrisia o governo inglês deter agora o general Pinochet, por haver eliminado três mil comunistas, quando foi responsável por centenas de milhares de mortes em seu próprio esforço de resistência ao totalitarismo no período da Guerra Fria.
Na reestruturação global da humanidade talvez esteja certo o japonês Kenichi Ohmae quando, em sua obra The End of the Nation State, antecipa a redução do Estado-nação tradicional a grupos regionais, estruturados em torno de centros de crescimento econômico - como por exemplo o que abrange hoje o Japão, a Coréia do Sul, Taiwan e o litoral da China continental; ou aquele que engloba o Sul do Brasil, o Uruguai e a província de Buenos Aires, como núcleo atuante do Mercosul. Pode ser também que seja substituído por grandes áreas culturais como antecipa Samuel Huntington, o grande filósofo político e professor em Harvard – e, neste caso, o mundo do século XXI comportaria quatro grandes blocos, o Ocidental, o Asiático oriental, o Islâmico e o Russo. Não creio, porém, que tal compartimentação seja viável.
Nunca prosperou um ideal de abertura globalizante, nem entre a extrema esquerda leninista, nem entre a extrema direita, de linha-dura nacionalista. Mas o fechamento autárquico, no gênero do que hoje impera no Irã, Afeganistão, Cuba, Birmânia ou Coréia do Norte - só persiste como ilusão de viabilidade entre aqueles tresloucados que, sob várias bandeiras, vários partidos e vários líderes totalitários, barbudos ou não, pretenderam manter suas nações no estágio, primitivo e provinciano de seus respectivas modelos botocudos. É um beco sem saída. A própria dinâmica do desenvolvimento tecnológico se encarregará de condenar essa solução: os Nehanderthal e Aiatolás de qualquer índole paleolítica jamais impedirão a travessia global das ondas eletromagnéticas. O mundo é hoje um só. É a grande realidade de que nos damos conta neste final de milênio de progresso inédito na história da humanidade. E ainda bem!
Ao levantar essas questões, desejo solicitar a atenção para a evolução “dialética” que a semântica ideológica sofreu desde o fim da Guerra Fria e a derrubada do Império soviético. Historicamente, a Globalização, como problemática, está associada a uma série de outros fenômenos paralelos, de natureza filosófica, que contribuíram para o resultado de modo independente. Há pouco mais de 300 anos, Locke falou em tolerância religiosa e liberdade aplicada ao sistema político, assim como ao direito de propriedade. Em 1776, coincidindo com a proclamação da Independência das colônias britânicas da América do Norte, Adam Smith publicou seu Inquérito sobre as Origens da Riqueza das Nações, estendendo a idéia de um mundo sem fronteiras e de liberdade ao campo econômico, com o propósito de criticar o mercantilismo então dominante. O Mercantilismo se sustentava sobre a soberania do monarca absolutista sobre o patrimônio de toda a nação. Firmada pouco tempo depois, a Constituição dos Estados Unidos confirmou a idéia da viabilidade de uma sociedade livre e aberta ao mundo, com a absorção de homens de todas as raças, religiões e procedências, e pluribus unum – ainda que o princípio momentoso fosse durar dois séculos para, progressivamente, beneficiar os homens de cor e as mulheres. Em 1789, a Revolução Francesa reproclamava as mesmas idéias, com maior ênfase e através de um trauma emocional que repercutiria em todo o mundo. O trinômio Liberdade, Igualdade e Fraternidade firmavam uma doutrina não só suscetível de aplicação global, mas comportando a necessidade implícita de sua universalização. É evidente, contudo, que os três princípios são autônomos e podem entrar em conflito. O conflito não tardou, aliás, a manifestar-se quando a República, firmando-se pelo princípio das nacionalidades, transferiria a idéia de soberania, antes personalizada no monarca absoluto e concreto, para o Estado abstrato.
O Estado nacional soberano surgiu, precisamente, no século XVIII – mesmo que sob formas e regimes diversos, republicano ou de monarquia constitucional, parlamentarista ou presidencialista. A idéia de soberania fora transplantada, por volta dos séculos XV e XVI, do Papado para as várias monarquias nacionais que se constituíam. Os reis passaram a reivindicar um caráter semi-divino ou de intermediários entre a divindade e seus respectivos povos. Maquiavel, Bodin , Bossuet e, em certo sentido Hobbes (Hobbes, na realidade, estava antecipando o domínio do individualismo e transformando a idéia de Estado, seu Leviathan, num conceito meramente instrumental), concederam aos reis o privilégio de receberem sua dignidade “pela Graça de Deus”. Mesmo o general Franco, em pleno século XX, considerou-se “caudillo de España pela Gracia de Diós”. Como rei “cristianíssimo”, Luís XIV, no apogeu da idéia de soberania monárquica, preferiu traduzí-la através dos símbolos da mitologia helenística e do heliocentrismo copernicano, fazendo-se qualificar de “Rei Sol”.
Com o triunfo do republicanismo, foi a noção atribuída ao próprio Estado-nacional e criada uma ideologia ad-hoc. Sua essência consiste em atribuir à nação, nossa “Pátria”, uma dignidade de natureza celestial que, para servir seu soberano prussiano, Hegel deliberadamente coroou como a própria expressão do Geist, o Espírito universal – só que, em face de nossa “pátria” nacional soberana, devem necessariamente surgir outras nações inimigas contra as quais devemos eventualmente entrar em guerra. Morrer e matar pela Pátria passou a ser um dos mais altos ideais do homem. Os massacres inomináveis de nosso século, nas duas guerras mundiais, foi no que deu o Gott mit uns, o Deutschland über alles in der Welt, a France éternelle em cujo benefício deve a terra ser fertilizado, de modo que “un sang impur abreuve nos sillons”, o Dieu et mon Droit, o My country, right or wrong e o “Pátria amada, idolatrada, salve, salve” em virtude de cujo culto “verás que um filho teu não foge à luta, nem teme quem te adora a própria morte!”...
A antítese dialética adquiriu cada vez mais uma conotação maniqueísta: “nós” representamos o Bem e a Verdade, “eles” o Mal e a mentira. A fusão dos aspectos contraditórios da Revolução foi tentada por Napoleão. Mas para alcançar seus fins, l´Empereur e suas águias utilizaram a dinâmica agressiva do Imperialismo francês e a rebordosa causada, que se estendeu à América Latina, e em nosso próprio século à Ásia e África, insuflou um espírito belicoso cujas consequências ominosas não tardaram a ser percebidas. As várias doutrinas se transformaram em “Ideologias” e estas possuem um conteúdo emocional que se polarizou em uma direita e uma esquerda. Havia necessidades de projetar todos os ressentimentos, todos os ódios e invejas em bodes expiatórios apropriados. No início desse desenvolvimento, o Liberalismo foi considerado de esquerda, como eram os whigs ingleses em relação aos conservadores tories. Em seguida, a dicotomia passou a distinguir os coletivistas do Socialismo, de esquerda, e os coletivistas do Nacionalismo, arregimentados à direita. Duas ideologias ad-hoc destinadas a gerar, artificialmente, a “religião civil” que Rousseau propora como substituto para um Cristianismo em deliquescência.
No segundo estágio da evolução, que culmina em agosto de 1914 quando arrebenta a primeira Grande Guerra, socialismo e nacionalismo entram num relacionamento ambíguo que provoca outra guerra mundial e inacreditáveis genocídios. Se, na Alemanha e em outros países europeus, o “fascismo” procura fundir internamente as duas ideologias, ou os dois irmãos inimigos naquilo que, mais apropriadamente, se deveria qualificar como “nacional-socialismo”, da contradição tampouco escapa a “extrema esquerda” comunista. O Estalinismo e o Maoísmo em nada mais consistem, de fato, do que na expressão conjunta das duas tendências, configurando respectivamente um nacionalismo fascista russo e um nacionalismo fascista chinês. A Guerra Civil espanhola (1936/1939), em sua trágica brutalidade e complexidade, representa o episódio final e paradigmático do confronto ideológico característico de nosso século. É a pre-estréia da IIª Guerra Mundial e lembro-me das emoções que suscitou na minha mocidade. A reversão das expectativas ideológicas se processa a um nível subterrâneo entre 1947 e 1989, isto é, no período da Guerra Fria que resulta, precisamente, da resistência às ambições imperiais da Rússia soviética que se valia da Idéia-Força da Esquerda.
Entretanto, contra esse coletivismo tribal primitivo levantou-se, pouco a pouco, uma nova visão destinada a por no centro das cogitações o indivíduo, o homem livre e responsável. Ou seja, nós mesmos, donos de nosso nariz. No princípio do desenvolvimento dessa nova Weltanschauung, o Liberalismo, “liberalismo antigo”, “liberalismo clássico” ou primeiro liberalismo, como tem sido chamado, foi considerado revolucionário e contra ele resistiram obstinadamente, como continuam resistindo, os conservadores, os absolutistas e os nacionalistas. Tocqueville foi o primeiro sociólogo e filósofo político – que considero dos maiores – a antecipar a ruptura do trinômio da Revolução Francesa, diagnosticando a inevitável antítese que se iria criar entre o Liberalismo, de um lado, a Fraternidade patriótica e o Igualitarismo do programa de 89, do outro. Na visão de Tocqueville, expressa em sua obra máxima “De la Démocratie en Amérique”, os EEUU sobrepujaram a colisão que comprometeu a Revolução Francesa porque, em sua comunidade étnica européia, as condições já eram as mais igualitárias possíveis. A comunidade das Treze Colônias constituía uma população de classe média, relativamente homogênea, que conseguira afastar o problema da “instituição peculiar”, a Escravidão, com a presença da etnia africana assim como dos remanescentes da população indígena original. A questão, porém, permanecia e iria provocar, em meados do século XIX, o sangrento enfrentamento da Guerra Civil. Na primeira etapa, só uma contradição fora solucionada. O final se registou nos anos 50 a 70 de nosso próprio século, no que poderíamos chamar a Segunda Revolução Americana, que culminou eliminando, definitivamente, a discriminação tanto em termos de raça quanto de sexo. A Campanha dos Direitos Civis assegura, na verdade, o cumprimento derradeiro daquele texto básico da Declaração da Independência que proclama terem sido os homens criados iguais, com seus direitos fundamentais à vida, à liberdade e à procura da felicidade. Ora, a satisfação do ideário original da nação americana assegura, e só ele podia assegurar, o surgimento da América como campeã da Liberdade. Uma das mais prodigiosas realizações de Tocqueville foi haver previsto, precisamente como o fez ao final de sua obra, que as duas grandes potências do século seguinte seriam a América, paladina da liberdade, e a Rússia, campeã do despotismo. A característica fundamental da comunidade americana, legitimada pelo jus soli, é como já salientamos a abertura total aos homens de todas as raças, religiões e nacionalidades.
Isso nos conduz a concluir que a importância do resultado obtido na evolução da sociedade multirracial americana foi, justamente, elevar o indivíduo como sujeito fundamental do direito, um sujeito livre e, perante a lei, igual a qualquer outro. Considerai que é essa a condição sine qua non para o surgimento eventual de um mundo ecumênico. Sem que exista um regime em que os indivíduos sejam livres, independentemente de sexo, raça, religião e cultura, como produtores e consumidores numa economia de mercado, não é possível imaginarmos a realização da Fraternidade universal, prometida nos Evangelhos e consignada na Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão de 1789.
Notai que muito poucos países já hoje cumprem as condições necessárias ao ambiente da sociedade global. Além dos Estados Unidos, essas nações são o Brasil, a Austrália e, em termos mais restritos, o Canadá (onde perdura a problemática do Québec francófono). O milagre da África do Sul pode criar um quinto membro dessa comunidade de nações que conseguiram transcender as inatas restrições e discriminações contra membros de grupos étnicos estranhos ao nosso. É como se o que outrora se qualificava como o Novo Mundo houvesse gerado uma cultura já potencialmente globalizada, ao contrário dos regionalismos e nacionalismos de base étnica, em vigor no Velho Mundo euroasiático.
Na Ásia, a persistência dos ímpetos autárquicos, discriminatórios e endogâmicos se revela pela frequência de embates sangrentos entre castas e comunidades étnicas ou religiosas diversas. A hostilidade intratável entre a Índia e o Paquistão, que causou perto de um milhão de mortos no momento da Independência e nas várias guerras subsequentes, contrasta com a doutrina de ahimsa, “não-violência”, pregada por Gandhi. A Indonésia sofre, no momento, de conflitos internos da mesma natureza entre a maioria muçulmana e as minorias chinesa (em grande parte budista) e cristã. A perseguição às minorias cristãs é notória na China e em muitos países árabes sob governos fundamentalistas islâmicos. A Malásia se separou de Singapura precisamente pela incapacidade de suas duas etnias dominantes, os malaios islamizados e os chineses, de conviverem pacificamente. Os conflitos internos que ameaçam a integridade da China, no Tibet e no Turquestão, provêm de contenciosos da mesma natureza. Na Europa, o grande exemplo contemporâneo dessa situação de distonia é a Iugoslávia. O Estado multinacional se desintegrou em guerra civil em virtude das discórdias entre os sérvios ortodoxos, outrora hegemônicos, os católicos da Croácia e Eslovênia, e os muçulmanos da Bósnia e Kôssovo.
A superação dos conflitos nacionais que ensanguentaram a Europa desde o surgimento do Princípio das Nacionalidades, implícito no espírito da Revolução Francesa, se deu através do movimento de integração econômica que culminou com a constituição do Mercado Comum, o qual se encaminhou, rapidamente, para uma integração também política. O estímulo para esse processo surgiu, logo depois da IIª Guerra Mundial, pela consciência de franceses e alemães que não podiam prosseguir na sequência de vendetas e revanchismos que assolavam todo o continente. De Gaulle e Adenauer foram os eminentes protagonistas de tal curso de singular sabedoria política. Não nos esqueçamos, porém, que o instrumento prático para o sucesso do movimento se revelou residir na solidariedade econômica. A integração da CEE se iniciou, sabiamente, pela comunidade do carvão e do aço entre as duas nações centrais, França e Alemanha. Não há dúvida que nosso próprio Mercosul encontrou seu modelo na comunidade da Europa ocidental. Esperamos que em nosso Cone-Sul seja definitivamente eliminada a hostilidade artificial que, durante 150 anos, prejudicou o relacionamento entre Brasil, Argentina, Chile, Uruguai e Paraguai.
Paralelamente a tal processo integrativo se regista um outro, oriundo de tradições históricas ainda mais antigas. É o que provoca o impulso pela autonomia de entidades regionais ou provincianas, cuja identidade pode ser determinada pela religião, a língua ou certas peculiaridades étnicas. Os exemplos mais salientes são o da Grã-Bretanha e da Espanha. A tradição histórica unificadora e centralizadora de Castela cedeu, finalmente, em grande parte graças ao rei João Carlos e ainda como reação ao trauma da Guerra Civil, à iniciativa de conceder autonomia à Catalunha e ao País Basco. Do mesmo modo, a Escócia obteve o direito de constituir seu próprio Parlamento, com o privilégio de criar uma legislação própria. O País de Gales está reivindicando um regime semelhante. Minorias fanáticas recorrem ao terrorismo ao enfrentarem as resistências da população mais moderada na Irlanda do Norte e no País Basco. Na Itália, o Norte próspero e industrial se ressente de ser governado pelos políticos semi-mafiosos de Nápoles e Sicília. A desintegração do Império soviético, sucessor do tzarismo, obedece a um mesmo processo histórico. No caso, o que se passou com a URSS se assemelha tanto a esse processo de regionalização, quanto ao que ocorreu com os Impérios coloniais europeus, após o término da IIª Guerra Mundial, por força do princípio das nacionalidades. A legitimidade de tais movimentos regionalistas só se estabelece, todavia, quando não recorrem à força: é inaceitável a pretensão do IRA de integrar o Ulster à Irlanda quando a maioria protestante e anglófona da população dessa província prefere manter seus laços com o Reino Unido. Na França, a Córsega sofre do mesmo separatismo da bomba e da metralha. Na própria URSS, o processo não foi indolor, como vimos no episódio da secessão da Che´snya e dos conflitos que dividiram a região do Cáucaso, afetando a Geórgia, a Armênia e o Azerbeidjão.
A situação mais triste é a da África. A estrutura basicamente tribal do continente ao sul do Sahara entra em colisão com a idéia de nacionalidade, introduzida pela organização colonial de origem inglesa, francesa, belga e portuguesa. Dois casos particulares são instrutivos; o da Nigéria que tem conhecido uma convivência difícil entre suas grandes tribos, os Haussás islamizados do Norte do país, os Igbôs do Sudeste, que sofreram o impacto dos missionários protestantes e formam uma etnia excepcionalmente dinâmica, e os Iorubás, da Nigéria sul ocidental. E a triste sorte de Angola que resulta da combinação de fatores tribais, contaminados pela ideologia marxista trazida por cubanos, alemães orientais e russos.
De um modo geral, podemos resumir esse aspecto da problemática que estamos estudando pela ação contraditória de forças centrífugas e forças centrípetas. As primeiras “balcanizaram” a Europa oriental e o antigo Império espanhol da América. As segundas, mantiveram a unidade das grandes potências modernas, atuais ou emergentes, como os Estados Unidos, a China e o Brasil. Nas Nações Unidas, que já abrigam hoje umas 170 nações – não sei se é isso mesmo, já perdi a conta! – convivem uma variedade de estruturas nacionais de origem, poder econômico e militar, e de significado demográfico e cultural extremamente diversos, criando uma enorme confusão que torna tão ineficaz a Organização como modelo de um futuro Governo mundial.
De meu ponto de vista, a conclusão que podemos retirar da breve análise realizada acima, na perspectiva deste final de século, é que a estrutura inflexível do Estado-nação soberano tornou-se, obviamente, obsoleta. Mas vejam bem! O que considero obsoleto é o conceito de soberania. É difícil imaginarmos a sobrevivência de mini-estados como alguns que vamos encontrar na Polinésia, na África ocidental e na América Central e do Sul. A tradição dos símbolos da Pátria, criada em 1789 como conclusão do processo de declínio do Absolutismo monárquico patrimonialista e em obediência à tese da “religião civil” da proposta de Rouseeau, alcançou o final de sua utilidade. Passaportes, alfândegas, hinos nacionais, bandeiras, tropas desfilando em ordem unida para “apresentar armas” a líderes nacionais ou estrangeiros – todos esses elementos da simbologia nacionalista podem persistir em alguns países em que o processo histórico de integração é multissecular e glorificado por eventos de sentido quase místico. Seria o caso do nacionalismo francês, por exemplo, cujas raízes podem ser encontradas na epopéia de Joana d´Arc. O General De Gaulle ainda era muito cioso de todos esses apetrechos, mas assim mesmo sua visão era bastante larga para imaginar uma “Europa do Mediterrâneo aos Urais”...
Mas o mimetismo modernizante que leva o Burundi a se constituir em nacionalidade autônoma, através de métodos artificiais, acaba provocando tragédias como o genocídio da etnia Tutsi. O mesmo espetáculo lamentável está sendo registado em várias outras partes do mundo. Afinal de contas, as duas Guerras mundiais do século XX podem ser explicadas pelos instintos tribais que se tornam grotescamente agressivos quando uma ideologia grosseira, de natureza coletivista, se serve de outra tendência natural do homem, a de repúdio ao diferente, ao estranho, ao forasteiro, ao “outro” cuja cor de pele, conformação craniana ou língua são diversas das nossas, para tentar consolidar-se. Quando se fala, talvez com certa ingenuidade, no Fim das Ideologias, o que se propõe é um ambiente de convivência tolerante entre pessoas individualizadas, independentemente de sua religião, cor ou sexo. Sem tolerância, a própria democracia pluralista não faz sentido. Insisto, por isso, no sentido que o individualismo faz parte integrante da estrutura da sociedade liberal em processo de globalização.
Na nova perspectiva universal, surge então a questão mais difícil do relacionamento entre o econômico e o político (ou cultural e religioso). Verificamos que os dois fatores em geral colaboraram para a extensão progressivamente mais ampla da consciência ecumênica. Piano Carpini viajou até a Ásia Oriental por motivos políticos de base religiosa. Marco Polo por motivos puramente comerciais. Colombo descobriu a América e Vasco da Gama o caminho das Índias pela combinação dos dois impulsos. Na própria economia, porém, a evolução se processa pela substituição de uma visão patrimonialista e mercantilista fechada, como a que ainda dominava o Ocidente e o Oriente no século XVIII, e o horizonte do mercado aberto universal que anima os mais audazes e lúcidos descobridores, colonizadores e investidores. Ao pesquisar e aconselhar uma economia aberta, se estava Adam Smith referindo tanto a um mercado interno, quanto a um mercado externo, inerente à noção de livre-cambismo.
É fato, de qualquer forma, que o comércio parece haver exercido uma influência prioritária na abertura para o relacionamento pacífico entre os povos. O relacionamento entre tribos, mesmo no ambiente primitivo da floresta amazônica, se faz inicialmente pela troca pacífica de objetos, antes do que pela desforra bélica. A famosa tese do Senhor e do Escravo, que Hegel propôs e tanto influenciou Marx na elaboração de sua teoria da Luta de Classes, perde de vista que o comércio pode, em última análise, abrandar a agressividade inata do Homo Sapiens. Esta, que é uma espécie carnívora, ao mesmo tempo gregária e belicosa, é também uma espécie racional como Hobbes vislumbrou, capaz de concluir o Contrato Social por interesse comum a longo prazo. O exemplo mais evidente do processo de racionalização é a instituição da Escravidão. Originariamente, os prisioneiros de guerra era normalmente trucidados e, às vezes, comidos em festim canibalesco, para lhes absorver as virtudes secretas. Suas mulheres eram estupradas ou igualmente mortas. A preservação do prisioneiro nas guerras tribais, para a venda como escravo, constituiu, nesse sentido, um progresso da racionalidade sobre o instinto. Eventualmente, se descobrirá que o empregado livre, trabalhando contra pagamento, é mais eficiente na produção. O que se pode dizer é que os instintos tribais permanecem, mesmo na Europa e na Ásia civilizadas, de modo que um sérvio tenha tanta repugnância em aceitar a convivência com um albanês quanto um malaio com um chinês. O relacionamento econômico no mercado possui a virtude de transcender tais preconceitos étnicos e, pela sua própria despersonalização, conduzir à abertura do mercado na amplidão global que hoje se manifesta. Se possuo um Computador americano com um Monitor fabricado em Tijuana, no México, um No-break brasileiro e o Fax da Panasonic japonesa, fabricado na China, não preciso saber se os fabricantes de tais produtos são católicos, budistas, brancos, ameríndios, monárquicos, poligâmicos ou comunistas. Nada nisso importa. Afinal de contas, contrariamente aos preconceitos propagandísticos da Esquerda brasileira, o Mercado “neoliberal” não come criancinhas, nem executa “limpezas étnicas” nos territórios respectivos de produtores e clientes. Criancinhas, para dizer a verdade e em que pesem as angústias fidelistas do Senador Roberto Freire, estão sendo comidas pelos camponeses da Coréia do Norte porque estão morrendo de fome, eis que seu governo maoísta tem mania de grandeza e fabrica mísseis intercontinentais, ao invés de permitir as técnicas eficientes da agricultura em regime de propriedade privada. A autarquia não funciona, ponto final.
As considerações precedentes levantam a questão de saber se a liberdade política, que é pressuposto da democracia, depende ou não da liberdade econômica – e se ambas exigem ou não o processo de globalização do mercado. A questão é controvertida. Hayek tornou-se o mais eminente economista da segunda metade do século ao argumentar, como já assinalamos, que a intervenção do Estado na economia, através de todas as formas constrangedoras, desde as mais brandas do socialismo democrático, até as mais ferozes do comunismo estaliniano ou maoísta, conduz irremediavelmente à servidão totalitária. Outros alegam, com razão, que o processo de conquista da liberdade política ocorreu na Europa ocidental e se estendeu, posteriormente, a outros continentes, sem que isso implicasse a existência de um mercado livre no âmbito interno e no externo. Não nos esqueçamos que um mercado interno livre pode, amiude, conviver com uma legislação protecionista como foi, em certa época, o caso de muitas nações entre as hoje mais desenvolvidas, inclusive os Estados Unidos. A Grã-Bretanha foi a primeira a pregar o livre-cambismo porque já era rica e dominava os mares. Mas acontece que o Japão pode ser uma democracia e alegar a existência de uma economia capitalista quando, na verdade, continua sendo um dos países mais fechados do mundo. O japonês não compra produtos estrangeiros, não porque esses produtos sofrem acréscimos de preço pela taxação aduaneira, mas porque prefere comprar o que é japonês. A introversão nipônica cria um problema para seu inter-relacionamento humano com o estrangeiro, revelando-se um sério obstáculo ao processo “mental” de globalização. E a crise por que passa atualmente o Império já é sintoma dessa dificuldade.
Ora, é também verdade que uma ditadura pode, excepcionalmente, conduzir à abertura econômica segundo os princípios da Escola Austríaca ou da de Chicago. Foi o caso do Chile à época de Pinochet – esse mesmo Chile que é hoje o país com os mais altos índices de desenvolvimento da América do Sul e um daqueles em que melhor parece consolidada a democracia. É o caso da China de Deng Xiaoping, procurando a convivência entre os “dois sistemas, um só país”. A própria Cuba fidelista está fazendo tímidas tentativas nessa área, através do turismo, sem abandonar o draconiano poder ditatorial do El Comandante. A questão da possibilidade de convivência indefinida de um Estado Nacional soberano de modelo clássico, ideologicamente legitimado e provido de alfândegas, câmbio controlado e domínio estatal sobre o comércio internacional (o Trade), com o Liberalismo, me parece, contudo, duvidosa. Mais cedo ou mais tarde, uma economia nacional estatizada e fechada entra em conflito com as exigências da competição internacional. O modelo da prosperidade dos libertários acaba sendo contagioso, ele deita por terra qualquer Cortina de Ferro (ou de Fumaça...), Muralha da China ou Muro da Vergonha.
Os nacionalistas econômicos não parecem se dar conta que o que funciona em âmbito do comércio internacional sempre foi o mercado de livre concorrência. Quem se fecha em autarquia deve estar disposto a pagar um preço elevadíssimo. Se Cuba está na miséria, não é por causa do “bloqueio” norte-americano - que na realidade não existe, pois bloqueio comporta estritamente o uso da força naval – nem mesmo do simples embargo que sofre, semelhante àquele que, durante décadas e inclusive pelo Brasil, foi usado para forçar a África do Sul a abandonar sua política de apartheid. Mesmo durante os 70 anos em que o comunismo dominou a União Soviéticas, ela foi obrigada a comerciar e competir com as outras nações no mercado mundial que, por definição, é livre porque não pode ser controlado por ninguém. Foi o insucesso da URSS nessa competição o que finalmente obrigou os líderes do Kremlin a abandonar seu sistema que, além de injusto e despótico, era pavorosamente ineficiente.
Um outro aspecto, e não menos importante, da matéria sobre a qual nos estamos debruçando diz respeito à questão da extensão universal dos princípios jurídicos que sustentam a democracia. Num artigo recente na FOLHA DE S.PAULO (6.6.99), Roberto Campos refere-se às intuições de Henry Kissinger, o “Mago da Realpolitik,” que ele elogia como talvez um dos primeiros formuladores da teoria do novo equilíbrio de poder. Essa teoria está, na verdade, concedendo aos Estados Unidos o papel de uma espécie de Gendarme do mundo global. A idéia de imposição de uma “justiça global” tem sido estimulada, recentemente, pelos horrores das guerras civis na Iugoslávia. As operações americanas contra Gadafi, Noriega, Saddam Hussein, o Sudão, o Afeganistão e a Sérvia, confirmam a auto-proclamada intenção dos EUA de se transformarem em justiceiros globais. A tese que o Juiz e o Policial configuram a estrutura básica da sociedade americana foi proposta pelo sociólogo liberal francês Michel Crozier, na obra Le Mal Américain. O episódio da “Guerra de Kôssovo” possui entre muitas originalidades – inclusive a de haver sido o primeiro conflito bélico da história em que um dos contendores não perdeu um único soldado em combate! – a de revelar o Presidente dos EUA como capitão inconteste de uma turma de policiais, fortemente armados e interessados em impor o respeito universal pelos direitos humanos quando abertamente desafiados por um regime criminoso. Interesse nacional egoísta em ampliar seu território ou conquistar novas fontes de recursos naturais não foi, com certeza, a motivação de nenhum dos membros da OTAN que participaram da operação. Trata-se, na verdade, da aplicação local mais evidente de um princípio em virtude do qual os Aliados ocidentais se empenharam na IIª Guerra Mundial. A violação maciça de tais direitos por uma gangue atrabiliária e agressiva (como foi interpretado o Partido Nazista) ameaça a segurança coletiva dos demais cidadãos pacíficos, mundo afora, requerendo, consequentemente, tais medidas extraordinárias de represália. Se a Primeira Guerra Mundial pode ainda ser descrita como um confronto clássico entre grupos nacionais, concorrendo na disputa de recursos escassos, ou como a expressão normal da “política por outros meios” de Clauzevitz, com extraversão da Libido dominandi, já a Segunda se apresenta melhor não só como um contencioso ideológico, mas como uma vasta operação repressiva, destinada a manter os Direitos do Homem tais como definidos na Magna Carta inglesa, na Declaração de Independência americana e na mesma Declaração da Revolução francesa.
De onde se deduz que o fenômeno que estamos estudando deve incluir, como coluna essencial do edifício da Ordem Internacional em construção, a Globalização da Justiça. O Tribunal de Nuremberg se transforma agora no Tribunal de Haia. Tudo isso merece efusivos aplausos. Anuncia um aspecto admirável dessa superação da idéia de soberania do Estado Nação, implícita no Liberalismo globalizado deste final de século. Acontece, porém, que a maneira de por em prática a tese deve ser cuidadosamente pensada. É mister evitar aberrações jurídicas como a detenção de Pinochet na Inglaterra, que viola uma série de outros princípios bem definidos como o da não-retroatividade das leis, respeito às imunidades diplomáticas e dos ex-chefes de Estado em visita, e área de jurisdição para aplicação da lei. A idéia de julgar e punir os líderes inimigos num Tribunal internacional confirma a presunção e consolida o propósito de criar uma Justiça internacional, em qual caso se transformaria a OTAN numa espécie de Força policial que usaria a aviação de bombardeio como arma predileta, para impor as decisões que os dirigentes do Grupo dos Sete consideram necessárias, por irresistível pressão da opinião pública internacional.
Disso se pode concluir que os Exércitos nacionais estão condenados. As Forças Aliadas operam agora como polícias militares sob o comando do Poder hegemônico e quanto mais cedo viermos a participar desse Conselho mundial, melhor. A Força militar, exercida sob o amparo de decisões da ONU, será sempre parte de uma Força internacional que visa a fazer respeitar a Carta. Permito-me, nesse ponto, opinar no sentido que a tentativa diplomática do Brasil de obter um assento permanente, com direito a veto, no Conselho de Segurança da ONU é ocioso e tolo. O Conselho de Segurança deverá, sem dúvida, reformular suas constituição se a ONU desejar um dia ser mais eficiente em sua ação internacional. Bem melhor contudo faríamos se reivindicássemos, desde logo, e tão pronto quanto possível após a superação de nossa atual “crise” econômica e financeira, um lugar na cúpola do G-7, que passaria então a ser o G-8. Já possuímos um PIB e um peso geopolítico superior a alguns dos membros desse Grupo atualmente hegemônico, além de podermos agir como representando um continente inteiro – o que tornaria lícita nossa pretensão. E assim também deveríamos, no meu entender, em face da perspectiva militar que se desenha, admitir um projeto que comportasse a extensão da Organização do Tratado do Atlântico Norte ao Atlântico Sul, de maneira que viéssemos eventualmente a pertencer a essa nova OTA, assegurando a paz e a segurança neste cone sul do planeta. Para isso seria necessário, porém, que os dirigentes do Itamaraty abandonassem a diplomacia da avestruz, que há décadas define sua timidez e preguiça, para pensar em termos globais, numa visão mais larga e desprovida de preconceitos e ressentimentos.
Chego assim à conclusão que a verdadeira crise histérica que afeta nossa Esquerda, agora fortemente reforçada pelas fantasmagóricas preocupações da Direita, de índole paranóica, com a Amazônia, a ‘biomassa” das florestas tropicais, a privatização das estatais, a entrada na bolsa de capitais estrangeiros ditos “especulativos”, a concessão a bancos estrangeiros do direito de operarem no Brasil, e outros duendes do mesmo estilo, comporta o desejo romântico e reacionário de conservar um controle autárquico da economia, como expressão de uma imagem inconsciente, inspirado na visão paradisíaca do velho Brasil dos sobrados e banguês coloniais. Coincide aliás, e em parte se explica, pelo interesse não muito lícito da Nomenklatura tupiniquim de preservar seus “direitos adquiridos”...
Por que o Brasil, com uma tradição absolutamente oposta e condições propícias à abertura, teria de se manter trancado no Autismo nacionalista? Já somos um povo multirracial, formado por imigrantes. Nossa tradição mais legítima é de abertura, de cordialidade e tolerância. O único handicap que sofremos é o da língua, um idioma até certo ponto confidencial. O cidadão do futuro deve, porém, ser pelo menos bilíngue. Na medida em que optamos por conservar a estrutura do patrimonialismo num regime autárquico, ficaremos forçosamente privados das benesses e do desenvolvimento que a globalização aberta proporciona. Que o processo de transição de um sistema para o outro provoque crises e sofrimentos, ocasionais e localizados, não tenho dúvidas. Mas me pergunto se há alternativas. Mesmo a China, a potência que por sua velha tradição histórica e condições demográficas, geográficas e riqueza em recursos naturais, se poderia permitir a sobrevivência em regime fechado de autarquia econômica, política e cultural, está se preparando aos poucos para aderir ao mundo moderno. O slogan é “uma nação, dois sistemas”. Episódios como o massacre de estudantes na Praça da Paz Celestial pode ser diabólico, mas representaria apenas uma interrupção transitória num desenvolvimento irreversível para as Portas Abertas, desenvolvimento que, em obediência à mais antiga tradição chinesa, deve ser lento e prudente.
A obra de Popper, “A Sociedade Aberta e seus Inimigos”, e a não menos importante “Les deux Sources de la Morale et de la Religion”, de Bergson, fixaram há mais de meio século as condições filosóficas de uma sociedade livre em âmbito internacional. Despencar-se em acusações falsas, injuriosas, caluniosas e cretinas contra um pseudo “neoliberalismo”, como se fosse um bicho-papão, é apenas sinal de ignorância crassa, fanatismo ideológico, neo-bobismo ou desesperado recurso astucioso de quem deseja apenas conservar privilégios egoístas.
Uma definição admirável do que deverá ser a organização mundial no próximo século foi, em abril último, oferecida pelo Presidente da República tcheca, Vaclav Havel, perante o Parlamento canadense em Ottawa. Desejo concluir meu argumento citando alguns pensamentos desse que, não somente é um dos heróis da luta contra o totalitarismo e a ocupação estrangeira em sua pátria, mas um grande intelectual, escritor e teatrólogo, digno de confiança geral não só por seu passado mas pela posição que ocupa. A visita de Havel ao Canadá coincidiu com o início dos bombardeios da OTAN contra a Iugoslávia, sendo que a República tcheca se tornou recentemente membro dessa aliança militar, juntamente com seus vizinhos, a Polônia e a Hungria. Em sua oração, o Presidente tcheco acentua várias vezes que a guerra contra a Iugoslávia representa um marco na história das relações internacionais por ser a primeira vez que o casus belli era a intenção de fazer respeitar direitos humanos – não tendo os membros da OTAN qualquer interesse econômico, de petróleo ou outro, nem qualquer ambição territorial contra a Sérvia. Havel insistiu na idéia, não obstante a relutância da maioria da opinião pública de seu país em aceitar a necessidade dos bombardeios para impor o respeito a tais direitos. O principal trecho da oração do chefe de estado tcheco pode, contudo, servir de conclusão a nosso próprio arrazoado neste ensaio.
“Tudo indica que a glória do Estado-nação como culminância de todas as comunidades nacionais na história já passou de seu ponto mais elevado”, disse o Presidente. “ Parece que os esforços esclarecidos de gerações de democratas, a experiência terrível de duas guerras mundiais e a evolução da civilização finalmente obrigou a humanidade a reconbhecer que os seres humanos são mais importantes do que o Estado”. O Estado, explicou Vaclav Havel, era considerado o mais alto valor terrestre, na verdade o único em nome do qual era permissível matar e em favor do qual se considerava lícito que as pessoas oferecessem sua própria vida. Num mundo que se globaliza, entretanto, “todos nossos destinos individuais se estão fundindo num único destino – de tal modo que é o mundo, quer estejamos ou não satisfeitos com isso, que deverá carregar a responsabilidade de tudo que ocorre. Em tal mundo, o ídolo da soberania estatal se deverá inevitavelmente dissolver”. Havel não nega a necessidade da existência do Estado, mas prevê que ele se transformará numa entidade muito mais simples, menos poderosa e mais civilizada, uma mera unidade administrativa numa organização planetária mais complexa, com múltiplos degraus, regionais e transnacionais de expressão. Quanto mais depressa os povos sobrepujarem a idéia soberana do “interesse nacional”, afirmou o grande político theco - em favor do conceito de direitos humanos universais melhor será para os interesses universais comuns de todos os povos da terra. Seguindo as intuições do Presidente da República tcheca também creio que o mundo do século XXI – no caso da Humanidade ser bem sucedida no enfrentamento dos perigos que ela fabricou (concocted) para si própria – será um mundo de cooperação mais íntima e mais equitativa entre entidades, principalmente supranacionais, envolvendo continentes inteiros. Havel concluiu seu discurso com a afirmação de que “enquanto é o Estado uma criação humana, os seres humanos são criação de Deus”.
O fato é que, ao final, não podemos conceber como se desenhará o futuro político da humanidade no próximo século. Ninguém sabe, aliás. O futuro depende das decisões individuais dos bilhões de habitantes deste planeta e essas decisões são imprevisíveis. Vislumbramos apenas que a racionalidade, o bom senso e a tradição do Ocidente, ao qual pertencemos, indica a necessidade de uma cooperação e intercâmbio pacífico cada vez mais intenso, diversificado e de âmbito cada vez mais vasto. Não obstante, a criação de blocos econômicos e culturais, integrados numa Ordem Internacional global, é uma possibilidade como degrau na hierarquia de poder mundial previsto. Os problemas de ecologia, a camada de ozônio, a chuva ácida, a destruição das florestas tropicais, a alimentação de uma população mundial em expansão explosiva e reclamos gerais de eliminação da pobreza, além das exigências de combate a fenômenos como o crime organizado, as drogas e o terrorismo, bem como o aparecimento, local e ocasional, de tiranos de vezo agressivo – impõem, certamente, um crescente entrosamento dos dirigentes das potências mais poderosas, o que poderá conduzir, por força mesmo da lógica do poder, à procura de uma organização política supra-nacional.
Não acredito que essa organização futura conduza ao Imperialismo. A estrutura do Estado-nação provavelmente perdurará no próximo século mas o que está perempto é o conceito de soberania. O Imperialismo, como modelo que encontrou sua formulação historicista nas antecipação tresloucadas de filosofia da história de Spengler e, até certo ponto, na de Toynbee; a mesma que Lênine também antecipou, para seus próprios fins oportunistas na sua definição, baseada em Marx e na realidade européia de princípios do século XIX – não é mais viável num mundo regido pela Lei (the rule of law) da organização internacional. E nesse ponto podemos salientar que a tradição do direito consuetudinário anglo-saxão é muito mais flexível e adaptável ao âmbito da globalização do que o modelo do direito romano.
. Não acredito, tampouco, na hipótese de Samuel Huntington, o grande cientista político de Harvard que prevê a consolidação de vários blocos, circundando pólos econômicos-culturais como o Ocidental, o Chinês, o Russo, o do Islam. Esses blocos são, a meu ver, vulneráveis ao fenômeno global irreversível da própria globalização das comunciações. No artigo acima citado, Roberto Campos também assinala que os problemas da transição da situação de dominação dos Estados Unidos para a que ele qualifica de “hegemonia contestável... navegando entre os escolhos do idealismo de estilo wilsoniano, com seu tom excessivamente moralista, e do isolacionismo que privaria o mundo ocidental de uma liderança substancialmente benigna – são problemas positivos. Sua intuição me parece correta.
Em conclusão: o temor do crescimento da potência hegemônica até o ponto de implantação imperialista– no caso atual, os Estados Unidos da América, como uma espécie de nova Roma em projeção da “visão binocular da história” da tese toynbeana – me parece injustificado. Isso, pela razões mesmas da novidade constituída pela emergência do individualismo liberal moderno, sob um Estado de direito. Acredito, otimisticamente, que a fórmula do Imperialismo clássico foi superada pelas condições atuais da internacionalização da democracia liberal que pressupõe a descentralização e atomização do Poder concentrado no Estado. Estamos realmente diante de uma novus ordo saeclorum tal como foi formulada pelos Pais Fundadores americanos e comentada por Hannah Arendt em sua obra On Revolution. Estamos, em suma, caminhando para uma organização hierárquica, de tipo Confederação global, através dos “estados”, regiões ou províncias federadas, dos Estados-nação privados de soberania e das grandes Comunidades econômico-políticas de tipo CEE, NAFTA ou Mercosul.
Nessa hipótese, a Revolução liberal globalizante seria mesmo o termo final da Revolução Mundial. Iniciada como paradigma espiritual pelo Cristianismo (com sugestões proféticas anteriores em Isaías), ela encontra sua primeira expressão concreta na Reforma protestante e nas grandes utopias do Humanismo e Iluminismo da Idade das Luzes.
[Conferência pronunciada em dezembro, 1999, no Conselho Técnico da
Confederação Nacional do Comércio, Brasil]
quinta-feira, 7 de junho de 2007
terça-feira, 24 de abril de 2007
PSICANÁLISE: Freud

"Seja qual for o caminho que eu escolher, um poeta já passou por ele antes de mim."
Sigmund Freud
"É meu amigo aquele que me socorre, não o que me conforma"
Es amigo mío aquel que me socorre, no el que me compadece.
Freud
Há numerosos indivíduos civilizados que recuariam aterrados perante a idéia do assassínio ou do incesto, mas que não desdenham satisfazer a sua cupidez, a sua agressividade, as suas cobiças sexuais, que não hesitam em prejudicar os seus semelhantes por meio da mentira, do engano, da calúnia, contanto que o possam fazer com impunidade.
Sigmund Freud
S. Freud
"Sería muito simpático que existisse deus, que tivesse criado o mundo e fosse uma benevolente Providencia; que existissem uma orden moral no universo e uma vida futura; mas é um fato sorpreendente que todo isto seja exatamente o que nos sentimos obrigados a desejar que exista."
Sería muy bueno que dios existiese, que hubiera creado el mundo y fuese benévola Providencia; que existiese un orden moral en el universo y una
vida futura; pero es un hecho sorprendente que todos esto sea exactamente lo que nos sentimos obligados a querer que exista.
Sigmund Freud
"O sentimento de felicidade derivado da satisfação de um impulso selvagem instintivo não domado pelo ego é incomparavelmente mais intenso do que o derivado da satisfação de um instinto que já foi dominado."
"O homem civilizado trocou uma parcela de suas possibilidades de felicidade por uma parcela de segurança."
Sigmund Freud
"O homem é um organismo animal com (como outros) uma disposição bissexual inequívoca. O individuo corresponde a uma fusão de duas metades simétricas, uma das quais, (...) é puramente masculina, e a outra, feminina. (...). O sexo constitui um fato biológico que, embora de extraordinária importância na vida e na saúde mental, é dificil de apreender psicologicamente. Acostumamo-nos a dizer que todo ser humano apresenta impulsos, necessidades e aributos instintivos tanto masculinos quanto femininos, e, ainda que a anatomia, é verdade, possa indicar essas características, a psicologia não pode. Para esta, o contraste entre os sexos se desvanece num contraste entre atividade e passividade, no qual identificamos, de forma excessivamente imediata, a atividade com a masculinidade e a passividade com a feminidade, opinião de modo algum universalmente confirmada no reino animal. A teoria da bissexualidade ainda está cercada por muitos pontos obscuros, e não podemos deixar de sentir como um sério impedimento na psicanálise o fato de que ainda não tenha sido descoberto nenhum elo com a teoria dos instintos. Seja como for, se considerarmos verdadeiro o fato de que todo individuo busca satisfazer tanto desejos masculinos quanto femininos em sua vida sexual, ficamos preparados para a possibilidade de que esses dois conjuntos de exigências não sejam satisfeitos pelo mesmo objeto e que interfiram um com o outro, a menos que possam ser mantidos separados e cada impulso orientado para um canal especifico que lhe seja apropriado.
(...) Quanto ao individuo sexualmente maduro, a escolha de um objeto restringe-se ao sexo oposto, estando as satisfações extragenitais, em sua maioria proibidas como perversões. A exigência, demonstrada nessas proibições, de que haja um único tipo de vida sexual para todos, não leva em consideração as dessemelhanças inatas ou adquiridas, na constituição sexual dos seres humanos; cerceia, em bom número deles, o gozo sexual, tornando-se assim fonte de grave injustiça. (...) No entanto, o próprio amor genital heterossexual, que permaneceu isento de proscrição, é restringido por outras limitações, apresentadas sob a forma da insistência na legitimidade e na monogamia."
FRASES Machado de Assis
<(Machado, aos 35 anos)"Quando houvesse alguma intenção sexual, quem me provaria que não era mais que uma sensação fulgurante, destinada a morrer com a noite e o sono?" (Dom Casmurro, p. 336).
"Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado de nossa miséria"
"Um dia, quando já não houver império britânico nem república norte-americana, haverá Shakespeare; quando se não falar inglês, falar-se-á Shakespeare."
"Contra a conspiração da indiferença, tem V. Exa um aliado invencível: é a conspiração da posteridade."
ILUSÃO
"Alguma coisa sempre escapa ao naufrágio das ilusões" (Machado de Assis)
POESIA
"Há pessoas para as quais o crepúsculo é o prolongamento da aurora"
(Machado de Assis)
PRAZER
"Vale a pena comprar o prazer de uma hora por alguns dias de enfado"
VIDA
"Vivo mais em cinco minutos de solidão do que em vinte anos de bulício"
JUSTIÇA
"É claro que a justiça, sendo cega, não vê se é vista, e então não cora"
"Tinha em flor todas as ilusões da juventude" (Machado de Assis)
"Nem só de pão vive o homem. Vive de pão e de crédito"
"Somos todos criados com três ou quatro idéias que, em geral, são o nosso farnel de jornada"
"Era uma criança querendo ser moça, um lindo prefácio de mulher"
"Está morto : podemos elogiá-lo à vontade"
"Não importa ao tempo o minuto que passa, mas o minuto que vem.
O minuto que vem é forte, jocundo, supõe trazer em si a eternidade, e traz a morte, e perece como o outro, mas o tempo subsiste."
AMIGO
Abençoados os que possuem amigos, os que os têm sem pedir.
Porque amigo não se pede, não se compra nem se vende
Amigo a gente sente!
Benditos os que sofrem por amigos, os que falam com o olhar.
Porque amigo não se cala, não questiona nem se rende
Amigo a gente entende!
Benditos os que guardam amigos, os que entregam o ombro pra chorar.
Porque amigo sofre e chora
Amigo não tem hora pra consolar!
Benditos sejam todos os amigos, que acreditam na tua verdade ou te apontam a realidade.
Porque amigo é a direcção é a base, quando falta o chão.
Benditos sejam todos os amigos de raízes, verdadeiros.
Porque amigos são herdeiros de real sagacidade.
Ter amigos... é a melhor cumplicidade !
Machado de Assis
Ernesto SÁBATO

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O ESCRITOR E SEUS FANTASMAS
ERNESTO SÁBATO
"A existência é trágica por sua radical dualidade, por pertencer, ao mesmo tempo, ao reino da natureza e ao reino do espirito: enquanto corpo somos
natureza, e, em conseqüência, perecíveis e relativos; enquanto espirito participamos do absoluto e da eternidade. A alma puxada para cima por
nossa ânsia de eternidade e condenada à morte por sua encarnação, parece ser a verdadeira representante da condição humana e a autentica sede de
nossa infelicidade.
Poderíamos ser felizes como animais ou espirito puro, mas não como seres
humanos".
Nietzsche/Sábato
"Que é um criador? É um homem que, em algo 'perfeitamente' conhecido,
encontra aspectos desconhecidos. Mas, sobretudo, é um exagerado"
Sábato
"Quê? Querem uma originalidade absoluta? Não existe. Nem na arte nem em nada. Tudo se constrói sobre o anterior, e em nada do que é humano se pode encontrar pureza. Os deuses gregos também eram híbridos e estavam 'infectados' de religiões orientais e egípcias".
"Qual é minha pátria? Crescemos bebendo a nostalgia européia de nossos pais, ouvindo falar da terra distante, de seus mitos e contos, vendo quase suas montanhas e seus mares. (...) Mas também, em momentos de solidão naquelas cidades, sentimos que nossa terra era esta, estava aqui na pampa e no vasto rio, pois a pátria, não é senão a infância, alguns rostos, algumas lembranças.(...) deste modo Shakespeare foi o maior escritor da Inglaterra escrevendo tragédias que, às vezes, nem mesmo se desenrolavam em sua pátria".
"Pois é um erro imaginar que a metafísica se encontra unicamente nos vastos tratados filosóficos, quando, como observou Nietzsche, a encontramos na rua, nas tribulações do modesto homem de todos os dias".
"Estamos no final de uma civilização, e em um de seus confins. Submetidos a uma dupla ruptura no tempo e no espaço, estamos submetidos a uma experiência duplamente dramática. Perplexos e angustiados, somos atores de uma obscura tragédia, sem ter por trás o respaldo de uma grande cultura indígena (asteca, inca) e sem poder, tampouco, reivindicar de modo cabal a tradição de Roma ou Paris."
"Desde nossas instituições até nossa arte, tudo está sendo questionado, e questionado em uma atmosfera de tormentoso nervosismo. Quem somos? Para onde vamos? Qual é nossa verdade nacional/ Somos algo novo, está gestando aqui algo relamente original, neste caos de sangue e cultura?"
"Não há outra forma de se alcançar a eternidade senão afundando no instante, nem outra forma de chegar à universidade senão através da própria circunstância: o aqui e agora. A tarefa do escritor seria a de entrever os valores eternos que estão implícitos no drama social e político de seu tempo e lugar".
"O homem de hoje vive em alta tensão, ante o perigo da aniquilação e da morte, da tortura e da solidão. É um homem de situações extremas, chegou ou está frente aos limites últimos de sua existência. A literatura que o descreve e interroga não pode ser, pois, senão uma literatura de situações excepcionais".
"Seja qual for a coisa que se quer dizer, não há senão uma palavra para expressa-la, um verbo para anima-la e um adjetivo para qualifica-la. É preciso, então, buscar até descobri-los, essa palavra, esse verbo e esse adjetivo, e jamais se contentar com o aproximativo, nem jamais recorrer a fraudes, mesmo felizes, a palhaçadas de linguagem para evitar a dificuldade"(Maupassant)
"ninguém pode criar um personagem maior que ele mesmo, e se o apanha da história o rebaixará até seu próprio nível".
"Lançado cegamente à conquista do mundo externo, preocupado tão somente com o manejo das coisas, o homem acabou por se coisificar a si mesmo, caindo no mundo bruto onde rege o cego determinismo. Empurrado pelos objetos, títere da mesma circunstância que havia contribuído a criar, o homem deixou de ser livre e se tornou tão anônimo e impessoal como seus instrumentos. Já não vive no tempo originário do ser, senão no tempo de seus próprios relógios. É a queda do ser no mundo, é a exteriorização e a banalização de sua existência. Ganhou o mundo mas perdeu a si próprio. Até que a angustia o desperta, embora o desperte para um universo de pesadelo. Cambaleante e ansioso, busca novamente o caminho de si mesmo, em meio às trevas. Algo lhe sussurra que, apesar de tudo, é livre ou pode sê-lo, que de qualquer forma não é equiparável a uma engrenagem."
"Ocorre que, com freqüência, confunde-se transformação com decadência, porque se avalia o novo com os critérios que serviram para o velho".
"É bastante singular que se pretenda valorar a ficção do século XX com os cânones do século XIX, um século em que o tipo de realidade que o romancista descrevia era tão diferente da nossa como um tratado de frenologia de um ensaio de Jung."
"Um mau escritor ou um principiante pode incorrer na tentação de incluir uma autêntica carta de amor em um romance, com o resultado de que se torna falsa, ao ser desprendida da complicada magia que, na vida real, formava seu suporte e seu contorno. A realidade na qual vivem os seres humanos, e mesmo apenas a realidade externa que tanto preocupava aqueles narradores, é infinita, tem raízes que se estendem em todas as direções, sofre o reflexo de todas as luzes e os efeitos das mais remotas causas: todo corte é automaticamente falsificador. De modo que aqueles supostos realistas eram irrealistas da mais curiosa espécie. O paradoxo da criação do romance consiste em que o escritor deve dar em uma obra que é forçosamente finita uma realidade que é fatalmente infinita. Para consegui-lo, não pode recorrer ao corte mas à recriação: e deve proceder com aquela carta de amor de modo semelhante as falsas perspectivas que usam os cenógrafos que são falsas precisamente para dar a sensação de verdade".
CORPO, ALMA E LITERATURA
"O vitalismo de Nietzsche culmina na fenomenologia existencial, pois supera o mero biologismo sem renunciar à integridade concreta do ser humano. Para Heidegger, com efeito, ser homem é ser no mundo, e isso é possível através do corpo: o corpo é o que nos individualiza, o que nos dá uma perspectiva do mundo, desde o "eu e aqui". Não mais o observador imparcial e ubíquo da ciência ou da literatura objetivista, mas este eu concreto, encarnado em um corpo. Nesse corpo que me converte em "um ser para a morte". Daí a importância metafísica do corpo.
Essa concretude da nova filosofia caracterizou sempre a literatura, que jamais deixou de ser antropocêntrica, embora muitos de seus teóricos paradoxalmente assim o quisessem. Essa concretude restituiu ao homem sua autêntica condição trágica. A existência é trágica por sua radical dualidade, por pertencer, ao mesmo tempo, ao reino da natureza e ao reino do espírito: enquanto corpo somos natureza, e, em conseqüência, perecíveis e relativos; enquanto espírito participamos do absoluto e da eternidade. A alma puxada para cima por nossa ânsia de eternidade e condenada à morte por sua encarnação, parece ser a verdadeira representante da condição humana e a autêntica sede de nossa infelicidade. Poderíamos ser felizes como animal ou espírito puro, mas não como seres humanos".
PROSA E POESIA
"A prosa é o diurno, a poesia é a noite; se alimenta de monstros e símbolos, é a linguagem das trevas e dos abismos. Não há grande romance, pois, que em última instância não seja poesia."
DO ESTILO
"O estilo é o homem, o indivíduo, o único: sua maneira de ver e sentir o universo, sua maneira de 'pensar' a realidade, ou seja, essa maneira de mesclar seus pensamentos a suas emoções e sentimentos, a seu tipo de sensibilidade, a seus preconceitos e manias, a seus tiques. (...) A ciência é genérica e a arte é individual; e por isso há estilo na arte e não há em ciência. A arte é a maneira de ver o mundo de uma sensibilidade intensa e curiosa, maneira que é própria de cada um de seus criadores, e intransferível. Os retóricos consideravam o estilo como ornamento, como uma linguagem festiva. Quando, em verdade, é a única forma pela qual um artista pode dizer o que tem a dizer. E se o resultado é insólito, não é porque a linguagem o seja, senão porque o é a maneira que tem esse homem de ver o mundo".
A ARTE
"Não se faz arte, nem a sentimos, com a cabeça, mas com o corpo inteiro; com os sentimentos, os pavores, as angústias e até mesmo os suores".
TENACIDADE DO CRIADOR
"Um pensamento profundo está em devir contínuo, abarca a existência de uma vida e se amolda a ela. (...) E ainda: A criação é a mais eficaz de todas as escolas de paciência e lucidez. É também o testemunho transtornador da única dignidade do homem: a revolta tenaz contra sua condição, a perseverança num esforço considerado estéril. Exige um esforço quotidiano, o domínio de si mesmo, a apreciação exata dos limites do verdadeiro, a medida e a força. Constitui uma ascese. Tudo isso "para nada", para repetir e espernear. Mas talvez a grande obra de arte tenha menos importância em si mesma que na prova que exige a um homem e na ocasião que lhe proporciona de vencer seus fantasmas e de se aproximar um pouco mais da realidade nua".
Ernesto Sábato/Miguel Angel
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ANTICIPO
El último libro de Sabato/2004
Esta semana se publica "España en los diarios de mi vejez". En estas crónicas de viaje aparecen las reflexiones,las observaciones y los miedos de un Sabato íntimo. Viva ofrece un anticipo del texto.
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Jueves (en Madrid)
Me siento a escribir lo que me va saliendo, para asirme a algo, como uno pudiera tomarse de un tronco en la crecida de un gran río, o como si lo escrito pudieran ser mojones que me recordarán el camino cuando esté perdido; como frecuentemente me sucede en estos años cuando a cada paso enfrento un precipicio.
(...) Le voy dictando a Elvirita (N. de la R.: su constante compañía), y busco en algún fondo inhallable de mí, las escenas o los momentos, que quiero contar. A veces aparecen borrosas, a veces se muestran y luego se van, es casi una cacería. La vida me ha ido quitando posibilidades que antes fueron mías, y a cambio me estuviera dejando el escribir como un último don. Cuando las pérdidas parecen cubrirme los ojos, escribir y pintar me renacen.
Escribir como lo último que me va quedando.
También los afectos. Siempre.
Visita al museo del Prado
Caminando despacio hemos ido hasta el correo de Cibeles.
Me detengo a mirar esa zona en que Madrid se ensancha, donde grandes y antiguos paseos trepan hacia la Puerta de Alcalá, por un lado, y por el otro, hacia la Puerta del Sol.
Pero prefiero la sombra, entonces apurados salimos de las avenidas y nos vamos lentamente bajo los árboles del Paseo del Prado, hacia el Museo. Nunca miro más que a un pintor, lo contrario hasta me parece una falta de respeto. Esta vez sólo algún cuadro de Goya. El Goya oscuro, el feroz, el desgarrador Goya me sigue deslumbrando. Y también El Bosco. Cuánta incomprensión habrán sufrido estos creadores geniales en su época. Uno, por advertir los monstruos terribles que ocultaba en su vientre la diosa razón, con sus toros y aquelarres. El otro, con sus seres híbridos y deformes, anunciando las desgracias de un mundo que se mueve compulsivamente tras la riqueza y los bajos placeres. Reyes a caballo junto a fieras mitad humanos, junto a minúsculas escenas de matanzas y sacrificios. Aquellos símbolos habrán sido considerados esquivos y desafiantes en su tiempo. Hoy se nos aparecen con toda lucidez, como trágico acabamiento de un modo de vivir y concebir la existencia.
Como autómata, como cuando de chico me levantaba sonámbulo, me dirijo hacia Goya.
Y elijo un cuadro, un solo cuadro y me detengo.
El pintor de los monstruos; el que pintó magistralmente con humo y sangre. El Dos de Mayo. Lo miro de a poco, como si lo tanteara y me sumergiera en él. Fue en 1814 cuando Goya en su taller pintaba la batalla. Sí, están ahí, son hombres fuertes peleando por su tierra; peleando por Madrid.
(...)
De pie frente al cuadro de pronto comprendo que estoy, en este mismo momento, por el misterio de lo imaginario, en mi propio taller sintiendo entre los dedos la ansiedad del pincel.
Jueves en el café de la vuelta
Ayer por la tarde, después de volver a corregir una de las conferencias, caminamos unas cuadras y ya con frío entramos a un bar del viejo Madrid. No más pasar la puerta me ensordece el alegre griterío, el humo y las risas que rebalsan el local; con dificultad avanzo hasta sentarnos contra una pared como para tener donde atrincherarme. Es un café típico, quiero decir típico de antes, de cuando lo moderno aún no había hecho estragos en España.
Este es un reducto anticuado, con mesas de madera y sillas tipo Viena, percheros de hierro y lámparas que parecen de opalina. A un lado, la barra repleta de parroquianos que vociferan a los gritos sus preferencias en el fútbol. Después de una breve pero ardua lucha con mi carácter molesto, impaciente, nervioso, intolerante, rescaté mi lado observador y me dispuse a gozar de los madrileños en su caldo. Lo primero que sorprende es ver en las mesas a familias enteras, algo impensable en Buenos Aires. Hay abuelos, hijos jóvenes, nietos, sin problemas generacionales ni historias. Todos hablan a la vez y a los gritos.
Los miro y más me doy cuenta que están todos de fiesta, que la vida es para ellos una fiesta, podrían decirme “vea tío, mejore la cara, pues, aquí se viene a celebrar”. Y me río al pensarlo, tan distintos de mí, ¡tan distintos de mi educación severa! ¿Quién de nosotros se hubiera atrevido a hablar y reír sin reparos delante de nuestro padre?
Hay marcas que son estigmas. Durante mi infancia era sonámbulo y tenía permanentes pesadillas; con los años, con vergüenza y dolor, reconocí que la pesadilla consistía en verme sentado, a solas, con mi padre. ¿Quién hubiera osado reírse de él, o tocarle un papel, o aunque más no fuera a hacerle una pregunta personal? Así me crié hace muchos años.
Sábado
Ayer temprano en la tarde llamaron de la editorial para decir que de ninguna manera podíamos ir al Bernabeu. Estaban agitados y no parecieron escuchar razones: la ETA había hecho estallar una bomba enfrente mismo del estadio. Ni pensarlo, fuimos igual.
(...) Fue un partidazo.
Quiero agradecerle a Valdano esta oportunidad de volver a ser joven, nuevamente como en aquellos partidos entre Estudiantes de La Plata y Gimnasia y Esgrima. En perpetua y feroz rivalidad. Yo era rompecanillas, así me decían, muy violento; me apasionaba, pero tuve que dejar porque tenía la mollera débil. Salimos de la cancha antes de que terminara el partido y así y todo, la salida fue brava porque yo insistí en bajar a la calle. Estos riesgos me rejuvenecieron. Y dentro de un rato salimos lo más bien para Santiago de Compostela. Los riesgos rejuvenecen, claro, si uno sale vivo.
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Otra tarde
Estoy alejándome de la vida de esta vida,
La miro con emoción como si ya estuviera fuera de mí.
(Estou me afastando da vida desta vida
Olho-a com emoção como se ja estivesse fora de mim)
O, más bien, como sentado en esas mesas de café que están en las veredas desde donde uno puede ver pasar la gente, y oírlos hablar. A veces nítidamente veo el caminar de hombres y mujeres. De pronto me sonríen.
Pero otras veces, confusamente, como detrás de una nube, o de mis lágrimas.
Soy injusto, siempre hay alguien conmigo.
Pero la vida se aleja.
12 de junio (en Santos Lugares)
Ayer sucedió algo que me obliga a interrumpir la cronología de los hechos. El príncipe de Asturias venía a la Argentina y quiso venir a visitarme. Su gesto me produjo una gran alegría.
Vino directo del aeropuerto. El barrio nunca había visto tanto despliegue que precedió a su llegada ni oído tanta sirena. Pero en cambio, cuando llegó se comportó con una sencillez, una llaneza como sólo lo sabe hacer un rey. Y en ese clima transcurrieron las dos horas en que estuvo en casa. Hablamos de literatura, miró mis cuadros y recorrió esta vieja casa, con su mirada limpia y sensible. Dada su alegría, Elvira a la salida me dijo por lo bajo “parece estar enamorado”. Creo que lo oyó y que ha de ser cierto porque se dio vuelta y sonrió.
29 de junio
Me he quedado mirando mi biblioteca.
¡Cuántos libros he leído que no volveré a abrir!
Es triste.
Miro a esos escritores que fueron verdaderos compañeros de camino. Toco los libros como si por tocarlos me fueran a escuchar. (...) Hace años que no puedo leer, ya he olvidado todo aquello que había aprendido; y lo que es más fuerte aún, ya no tengo aquella ansia de saber. Sin embargo sigo gozando cuando me leen.
(Quantos livros lí que não voltaré a abrir!
È triste.
Olho para esses escritores que foram verdadeiros companheiros de caminho. Toco os libros como se por tocarlos me fossem a escutar. (...) Faz anos que nao posso ler, ja esqueci todo aquilo que havia aprendido; e o que é mais forte ainda, ja não tenho aquela ansia de saber. Contudo continuo gozando quando me leem.)
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Madrid
He estado afirmando la reencarnación.
Elvirita no entra en la discusión, ni argumenta, lo que me irrita. Dice que ni cree ni descree, sólo que no le gusta esa idea de volver, como actores en otra obra, pero sin experiencia, siempre empezando de nuevo, no sabe, no le gusta.
Le insisto con mi sensación. Hombres geniales han creído en la reencarnación; es esa conocida sensación que tienen ciertas personas de que ya han estado en ese lugar; o quienes aseguran que ya vivieron eso mismo que les acontece. A mí me pasa.
Ella me escucha, pero distraídamente. Insisto (...). No quedan dudas, la reencarnación es un hecho demostrable. Existe.
Elvira con calma, como si también lo suyo fuese un hecho, y esta vez inapelable, dice: “Cuando te reencarnes , vas a ser mujer”.
Yo di un grito desesperado, no lo pude contener.
Sonríe victoriosa, ¿ves? ésta es tu verdadera posición frente a la mujer, ya que si fuese verdad que te parecieran superiores y admirables, hubieras reaccionado con alegría.
Inútil fue argumentar que mi sobresalto se debía al sacrificio y abnegación que le atribuyo a las mujeres.
Terminamos riéndonos con unas copas de vino
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Dice Sábato: "Puede parecer un acto de horrible esnobismo que tres crisis fundamentales de mi vida se sucedieran en París, pero efectivamente así fue. La primera se produjo en el invierno de 1935, cuando yo era un muchacho de 24 años. Desde 1930 milité en la Juventud Comunista, cuando la dictadura del general Uriburu. Abandoné estudios, familia y mis comodidades burguesas. Viví con nombre supuesto en La Plata, en cuyos suburbios estaban los dos frigoríficos más grandes del país, donde se explotaba despiadadamente a toda clase de inmigrantes, que vivían amontonados en tugurios de zinc, rodeados de pantanos de aguas podridas. Repartíamos manifiestos, participábamos de la organización de huelgas. Hacia 1933 fue ya secretario de la Juventud Comunista, cuando habían empezado mis dudas sobre el estalinismo, y entonces resolvieron mandarme a las Escuelas Leninistas de Moscú, a purificarme. Si hubiese ido, no habría vuelto jamás vivo. Tenía que pasar previamente por Bruselas, por un congreso contra el fascismo y allí supe con horrendos detalles de los "procesos" de Moscú. Me escapé a París, viví un invierno muy duro en la piecita de un compañero disidente, mientras el partido me buscaba. Logré volver a la Plata, donde proseguí mi carrera en física-metemática. Cuando terminé mi dieron una bourse para trabajar en el laboratorio Curie, donde trabajé durante casi un año y, allí en París, asistí a la ruptura del átomo de uranio, que se disputaban tres laboratorios: ganó la "carrera" un alemán. Pensé que era el comienzo del Apocalipsis. Viví en una confusión horrible, mientras escribía mi primera novela y cometí la infamia de dejar que Matilde se volviera a la Argentina con nuestro primer hijo, de pocos meses, mientras yo tenía una amante rusa. La tercera crisis fue consecuencia de todo esto, y de mi vínculo con los surrealistas: Domínguez, Matta, Wifredo Lam y otros. En otro día de invierno fuimos con Domínguez, a la tarde, al Marché aux Puces y volvimos después en el Metro hasta Montparnasse, donde tenía su estudio Domínguez. En la calle, ya era de noche, en un especie de nevisca, Domínguez se detuvo y me dijo:"¿Qué te parece si esta noche nos suicidamos juntos ?" No era una broma, era muy propenso, como lo probó años después. Yo me negué, aunque también me atraía el suicidio: me salvó mi instinto, y aquí estoy, junto a la Matilde de todos los tiempos, una de esas "mujeres fuertes de la Biblia", que está muriendo, en medio del dolor más profundo de mi vida, en el final de una existencia muy compleja." (Ernesto Sábato, 24 de enero de 1995)
III. Informe sobre ciegos (parte I)
¿Cuándo empezó esto que ahora va a terminar con mi asesinato? Esta feroz lucidez que ahora tengo es como un faro y puedo aprovechar un intesísismo haz hacia vastas regiones de mi memoria: veo caras, ratas en un granero, calles de Buenos Aires o Argel, prostitutas y marineros; muevo el haz y veo cosas más lejanas: una fuente en la estancia, una bochornosa siesta, pájaros y ojos que pincho con un clavo. Tal vez ahí, pero quién sabe: puede ser mucho más atrás, en épocas que ahora no recuerdo, en períodos remotísimos de mi primera infancia. No sé. ¿Qué importa, además?
Recuerdo perfectamente, en cambio, los comienzos de mi investigación sistemática (la otra, la incosciente, acaso la más profunda, ¿cómo puedo saberlo?). Fue un día de verano del año 1947, al pasar frente a la Plaza de Mayo, por la calle San Martín, en la vereda de la Municipalidad. Yo venía bastante abstraído, cuando de pronto oí una campanilla, una campanilla como de alguien que quisiera despertarme de un sueño milenario. Yo caminaba, mientras oía la campanilla que intentaba penetrar en los estratos más profundos de mi conciencia: la oía pero no la escuchaba. Hasta que de pronto aquel sonido tenue pero penetrante y obsesivo pareció tocar alguna zona sensible de mi yo, alguno de esos lugares en que la piel del yo es finísima y de sensibilidad anormal: y desperté sobresaltado, como ante un peligro repentino y perverso, como si en la oscuridad hubiese tocado con mis manos la piel helada de un reptil. Delante de mí, enigmática y dura, observándome con toda su cara, vi a la ciega que vende allí baratijas. Había cesado de tocar su campanilla; como si sólo la hubiese movido para mí, para despertarme de mi insensato sueño, para advertir que mi existencia anterior había terminado como una estúpida etapa preparatoria, y que ahora debía enfrentarme con la realidad. Inmóvil, con su rostro abstracto dirigido hacia mí, y yo paralizado como por una aparición infernal pero frígida, quedamos así durante esos instantes que no forman parte del tiempo si no que dan acceso a la eternidad. Y luego, cuando mi conciencia volvió a entrar en el torrente del tiempo, salí huyendo.
De ese modo empezó la etapa final de mi existencia.
Comprendí a partir de aquel día que no era posible dejar transcurrir un solo instante más y que debía iniciar ya mismo la exploración de aquel universo tenebroso.
Pasaron varios meses, hasta que en un día de aquel otoño se produjo el segundo encuentro decisivo. Yo estaba en plena investigación, pero mi trabajo estaba retrasado por una inexplicable abulia, que ahora pienso era seguramente una forma falaz del pavor a lo desconocido.
Vigilaba y estudiaba los ciegos, sin embargo.
Me había preocupado siempre y en varias ocasiones tuve discusiones sobre su origen, jerarquía, manera de vivir y condición zoológica. Apenas comenzaba por aquel entonces a esbozar mi hipótesis de la piel fría y ya había sido insultado por carta y de viva voz por miembros de las sociedades vinculadas con el mundo de los ciegos. Y con esa eficacia, rapidez y misteriosa información que siempre tienen las logias y sectas secretas; esas logias y sectas que están invisiblemente difundidas entre los hombres y que, sin que uno lo sepa y ni siquiera llegue a sospecharlo, nos vigilan permanentemente, nos persiguen, deciden nuestro destino, nuestro fracaso y hasta nuestra muerte. Cosa que en grado sumo pasa con la secta de los ciegos, que, para mayor desgracia de los inadvertidos, tienen a su servicio hombres y mujeres normales: en parte engañados por la Organización; en parte, como consecuencia de una propaganda sensiblera y demagógica; y, en fin, en buena medida, por temor a los castigos físicos y metafísicos que se murmura reciben los que se atreven a indagar en sus secretos. Castigos que, dicho sea de paso, tuve por aquel entonces la impresión de haber recibido ya parcialmente y la convicción de que los seguiría recibiendo, en forma cada vez más espantosa y sutil; lo que, sin duda a causa de mi orgullo, no tuvo otro resultado que acentuar mi indignación y mi propósito de llevar mis investigaciones hasta las últimas consecuencias.
Si fuera un poco más necio podría acaso jactarme de haber confirmado con esas investigaiones la hipótesis que desde muchacho imaginé sobre el mundo de los ciegos, ya que fueron las pesadillas y alucinaciones de mi infancia las que me trajeron la primera revelación. Luego, a medida que fui creciendo, fue acentuándose mi prevención contra esos usurpadores, especie de chantajistas morales que, cosa natural, abundan en los subterráneos, por esa condición que los emparenta con los animales de sangre fría y piel resbaladiza que habitan en cuevas, cavernas, sótanos, viejos pasadizos, caños de desagües, alcantarillas, pozos ciegos, grietas profundas, minas abandonadas con silenciosas filtraciones de agua; y algunos, los más poderosos, en enormes cuevas subterráneas, a veces a centenares de metros de profundidad, como se puede deducir de informes equívocos y reticentes de espeleólogos y buscadores de tesoros; lo suficiente claros, sin embargo, para quienes conocen las amenazas que pesan sobre los que intentan violar el gran secreto.
Antes, cuando era más joven y menos desconfiado, aunque estaba convencido de mi teoría, me resistía a verificarla y hasta a enunciarla, porque esos prejuicios sentimentales que son la demagogia de las emociones me impedían atravesar las defensas levantadas por la secta, tanto más impenetrables como más sutiles e invisibles, hechas de consignas aprendidas en las escuelas y los periódicos, respetadas por el gobierno y la policía, propagadas por las instituciones de beneficencia, las señoras y los maestros. Defensas que impiden llegar hasta esos tenebrosos suburbios donde los lugares comunes empiezan a ralearse más y más, y en los que empieza a sospecharse la verdad.
Muchos años tuvieron que transcurrir para que pudiera sobrepasar las defensas exteriores. Y así, paulatinamente, con una fuerza tan grande y paradojal como la que en las pesadillas nos hacen marchar hacia el horror, fui penetrando en las regiones prohibidas donde empieza a reinar la oscuridad metafísica, vislumbrando aquí y allá, al comienzo indistintamente, como fugitivos y equívocos fantasmas, luego con mayor y aterradora precisión, todo un mundo de seres abominables.
Ya contaré cómo alcancé ese pavoroso privilegio y cómo después de años de búsqueda y de amenazas pude entrar en el recinto donde se agita una multitud de seres, de los cuales los ciegos comunes son apenas su manifestación menos impresionante.
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I. El dragón y la princesa (parte IX)
--Aquí es --dijo.
Se sentía el intenso perfume a jazmín del país. La verja era muy vieja y estaba a medias cubierta con una glicina. La puerta, herrumbrada, se movía dificultosamente, con chirridos.
En medio de la oscuridad, brillaban los charcos de la reciente lluvia. Se veía una habitación iluminada, pero el silencio correspondía más bien a una casa sin habitaciones. Bordearon un jardín abandonado, cubierto de yuyos, por una veredita que había al costado de un galería lateral, sostenida por las columnas de hierro. La casa era viejísima, sus ventanas daban a la galería y aún conservaban sus rejas coloniales; las grandes baldosas eran seguramente de aquel tiempo, pues se sentían hundidas, gastadas y rotas.
Se oyó un clarinete: una frase sin estructura musical, lánguida, desarticulada y obsesiva.
-- ¿Y eso? --preguntó Martin.
-- El tío Bebe --explicó Alejandra--, el loco.
Atravesaron un estrecho pasillo entre árboles muy viejos (Martín sentía ahora un intenso perfume de magnolia) y siguieron por un sendero de ladrillos que terminaba en una escalera de caracol.
-- Ahora, ojo. Seguime despacito.
Martín tropezó con algo: un tacho o un cajón.
-- ¡No te dije que andés con ojo! Esperá.
Se detuvo y encendió un fósforo, que protegió con una mano y que acercó a Martín.
-- Pero Alejandra, ¿no hay lámpara por ahí? Digo... algo... en el patio...
Oyó la risa seca y maligna.
-- ¡Lámparas! Vení, colocá tus manos en mis caderas y seguime.
-- Esto es muy bueno para ciegos.
Sintió que Alejandra se detenía como paralizada por una descarga eléctrica.
-- ¿Qué te pasa, Alejandra? --preguntó Martín, alarmado.
-- Nada --respondió con sequedad--, pero haceme el favor de no hablarme nunca de ciegos.
Martín volvió a poner sus manos sobre las caderas y la siguió en medio de la oscuridad. Mientras subían lentamente, con muchas precauciones, la escalera metálica, rota en muchas partes y vacilante en otras por la herrumbre, sentía bajo sus manos, por primera vez, el cuerpo de Alejandra, tan cercano y a la vez remoto y misterioso. Algo, un estremecimiento, una vacilación, expresaron aquella sensación sutil, y entonces ella preguntó qué pasaba y él respodió, con tristeza, "nada". Y cuando llegaron a lo alto, mientras Alejandra intentaba abrir una dificultosa cerradura, dijo "esto es el antiguo Mirador".
-- ¿Mirador?
-- Sí, por aquí no había más que quintas a comienzos del siglo pasado. Aquí venían a pasar los fines de semana los Olmos, los Acevedo...
Se rió.
-- En la época en que los Olmos no eran unos muertos de hambre... y unos locos...
-- ¿Los Acevedo? --preguntó Martín--. ¿Qué Acevedos? ¿El que fue vicepresidente?
-- Sí, esos.
Por fin, con grandes esfuerzos, logró abrir la vieja puerta. Levantó su mano y encendió la luz.
-- Bueno --dijo Martín--, por lo menos acá hay una lámpara. Creí que en esta casa sólo se alumbraban con velas.
-- Oh, no te vayas a creer. Abuelo Pancho no usa más que quinqués. Dice que la electricidad es mala para la vista.
Martín recorrió con su mirada la pieza como si recorriera parte del alma desconocida de Alejandra. El techo no tenía cielo raso y se veían los grandes tirantes de madera. Había una cama turca recubierta con un poncho y un conjunto de muebles que parecían sacados de un remate: de diferentes épocas y estilos, pero todos rotosos y a punto de derrumbarse.
-- Vení, mejor sentate sobre la cama. Acá las sillas son peligrosas.
Sobre una pared había un espejo, casi opaco, del tiempo veneciano, con una pintura en la parte superior. Había también restos de una cómoda y un bargueño. Había también un grabado o litografía mantenido con cuatro chinches en sus puntas.
Alejandra prendió un calentador de alcohol y se puso a hacer café. Mientras se calentaba el agua puso un disco.
-- Escuchá --dijo, abstrayéndose y mirando al techo, mientras chupaba su cigarrillo.
Se oyó una música patética y tumultuosa.
Luego, bruscamente, quitó el disco.
-- Bah --dijo--, ahora no la puedo oír.
Siguió preparando el café.
-- Cuando lo estrenaron, Brahms mismo tocaba el piano. ¿Sabés lo que pasó?
-- No.
-- Lo silbaron. ¿Te das cuenta lo que es la humanidad?
-- Bueno, quizá...
-- ¡Cómo quizá! --gritó Alejandra--, ¿acaso creés que la humanidad no es una pura chanchada?
-- Pero este músico también es la humanidad...
-- Mirá, Martín --comentó mientras echaba el café en la taza-- ésos son los que sufren por el resto. Y el resto son nada más que hinchapelotas, hijos de puta o cretinos, ¿sabés?.
Trajo el café.
Se sentó en el borde de la cama y se quedó pensativa. Luego volvió a poner el disco un minuto.
-- Oí, oí lo que es esto.
Nuevamente se oyeron los compases del primer movimiento.
-- ¿Te das cuenta, Martín, la cantidad de sufrimiento que ha tenido que producirse en el mundo para que haya hecho música así?
Mientras quitaba el disco, comentó:
-- Bárbaro.
Se quedó pensativa, terminando su café. Luego puso el pocillo en el suelo.
En el silencio, de pronto, a través de la ventana abierta, se oyó el clarinete, como si un chico trazase garabatos sobre un papel.
-- ¿Dijiste que está loco?
-- ¿No te das cuenta? Ésta es una familia de locos. ¿Vos sabés quién vivió en ese altillo, durante ochenta años? La niña Escolástica. Vos sabés que antes se estilaba tener algún loco encerrado en alguna pieza del fondo. El Bebe es más bien un loco manso, una especie de opa, y de todos modos nadie puede hacer mal con el clarinete. Escolástica también era una loca mansa. ¿Sabés lo que le pasó? Vení. --Se levantó y fue hasta la litografía que estaba en la pared con cuatro chinches.-- Mirá: son los restos de la legión de Lavalle, en la quebrada de Humahuaca. En ese tordillo va el cuerpo del general. Ése es el coronel Pedernera. El de al lado es Pedro Echagüe. Y ese otro barbudo, a la derecha, es el coronel Acevedo. Bonifacio Acevedo, el tío del abuelo Pancho. A Pancho le decimos abuelo, pero en realidad es bisabuelo.
Siguió mirando.
-- Ese otro es el alférez Celedonio Olmos, el padre de abuelo Pancho, es decir mi tatarabuelo. Bonifacio se tuvo que escapar a Montevideo. Allá se casó con una uruguaya, una oriental, como dice el abuelo, una muchacha que se llamaba Encarnación Flores, y allá nació Escolástica. Mirá qué nombre. Antes de nacer, Bonifacio se unió a la legión y nunca vió a la chica, porque la campaña duró dos años y de ahí, de Humahuaca, pasaron a Bolivia, donde estuvo varios años; también en Chile estuvo un tiempo. En el 52, a comienzos del 52, después de trece años de no ver a su mujer, que vivía aquí en esta quinta, el comandante Bonifacio Acevedo, que estaba en Chile, con otros exiliados, no dió más de tristeza y se vino a Buenos Aires, disfrazado de arriero: se decía que Rosas iba a caer de un momento a otro, que Urquiza entraría a sangre y fuego en Buenos Aires. Pero él no quiso esperar y se largó. Lo denunció alguien, seguro, si no no se explica. Llegó a Buenos Aires y lo pescó la Mazorca. Lo degollaron y pasaron frente a casa, golpearon en la ventana y cuando abrieron tiraron la cabeza a la sala. Encarnación se murió de la impresión y Escolástica se volvió loca. ¡A los pocos días Urquiza entraba en Buenos Aires! Tenés que tener en cuenta que Escolástica se había criado sintiendo hablar de su padre y mirando su retrato.
De un cajón de la cómoda sacó una miniatura, en colores.
-- Cuando era teniente de coraceros, en la campaña del Brasil.
Su brillante uniforme, su juventud, su gracia, contrastaban con la figura barbuda y destrozada de la vieja litografía.
-- La Mazorca estaba enardecida por el pronunciamiento de Urquiza. ¿Sabés lo que hizo Escolástica? La madre se desmayó, pero ella se apoderó de la cabeza de su padre y corrió hasta aquí. Aquí se encerró con la cabeza del padre desde aquel año hasta su muerte, en 1932.
-- ¡En 1932!
-- Sí, en 1932. Vivió ochenta años, aquí, encerrada con su cabeza. Aquí había que traerle la comida y sacarle todos los desperdicios. Nunca salió ni quiso salir. Otra cosa: con esa astucia que tienen los locos, había escondido la cabeza de su padre, de modo que nadie nunca la pudo sacar. Claro, la habrían podido encontrar de haberse hecho una búsqueda, pero ella se ponía frenética y no había forma de engañarla. "Tengo que sacar algo de la cómoda", le decían. Pero no había nada que hacer. Y nadie nunca pudo sacar nada de la cómoda, ni del bargueño, ni de la petaca esa. Y hasta que murió en 1932, todo quedó como había estado en 1852. ¿Lo creés?
-- Parece imposible.
-- Es rigurosamente histórico. Yo también pregunté muchas veces, ¿cómo comía? ¿Cómo limpiaban la pieza? Le llevaban la comida y lograban mantener un mínimo de limpieza. Escolástica era una loca mansa e incluso hablaba normalmente sobre casi todo, excepto sobre su padre y sobre la cabeza. Durante los ochenta años que estuvo encerrada nunca, por ejemplo, habló de su padre como si hubiese muerto. Hablaba en presente, quiero decir, como si estuviese en 1852 y como si tuviera doce años y como si su padre estuviese en Chile y fuese a venir de un momento a otro. Era una vieja tranquila. Pero su vida y hasta su lenguaje se habían detenido en 1852 y como si Rosas estuviera todavía en el poder. "Cuando ese hombre caiga", decía señalando con su cabeza hacia afuera, hacia donde había tranvías eléctricos y gobernaba Yrigoyen. Parece que su realidad tenía grandes regiones huecas o quizá como encerradas también con llave, y daba rodeos astutos como los de un chico para evitar hablar de esas cosas, como si no hablando de ellas no existiesen y por lo tanto tampoco existiese la muerte de su padre. Había abolido todo lo que estaba unido al degüello de Bonifacio Acevedo.
-- ¿Y qué pasó con la cabeza?
-- En 1932 murió Escolástica y por fin pudieron revisar la cómoda y la petaca del comandante. Estaba envuelta en trapos (parece que la vieja la sacaba todas las noches y la colocaba sobre el bargueño y se pasaba las horas mirándola o quizá dormía con la cabeza allí, como un florero). Estaba momificada y achicada, claro. Y así ha permanecido.
-- ¿Cómo?
-- Y por supuesto, ¿qué querés que se hiciera con la cabeza? ¿Qué se hace con una cabeza en semejante situación?
-- Bueno, no sé. Toda esta historia es tan absurda, no sé.
-- Y sobre todo tené presente lo que es mi familia, quiero decir los Olmos, no los Acevedo.
-- ¿Qué es tu familia?
-- ¿Todavía necesitás preguntarlo? ¿No lo oís al tío Bebe tocando el clarinete? ¿No ves dónde vivimos? Decíme, ¿sabés de alguien que tenga apellido en este país y que viva en Barracas, entre conventillos y fábricas? Comprenderás que con la cabeza no podía pasar nada normal, aparte de que nada de lo que pase con una cabeza sin el cuerpo correspondiente puede ser normal.
-- ¿Y entonces?
-- Pues muy simple: la cabeza quedó en casa.
Martín se sobresaltó.
-- ¿Qué, te impresiona? ¿Qué otra cosa se podía hacer? ¿Hacer un cajoncito y un entierro chiquito para la cabeza?
Martín se rió nerviosamente, pero Alejandra permanecía seria.
-- ¿Y dónde la tienen?
-- La tiene el abuelo Pancho, abajo, en una caja de sombreros. ¿Querés verla?
-- ¡Por amor de Dios! --exclamó Martín.
-- ¿Qué tiene? Es una hermosa cabeza, y te diré que me hace bien verla de vez en cuando, en medio de tanta basura. Aquéllos al menos eran hombres de verdad y se jugaban la vida por lo que creían. Te doy el dato que casi toda mi familia ha sido unitaria o lomos negros, pero que ni Fernando ni yo lo somos.
-- ¿Fernando? ¿Quién es Fernando?
Alejandra se quedó repentinamente callada, como si hubiese dicho algo de más.
Martín se quedó sorprendido. Tuvo la sensación de que Alejandra había dicho algo involuntario. Se había levantado, había ido hasta la mesita donde tenía el calentador y había puesto agua a calentar, mientras encendía un cigarrillo. Luego se asomó a la ventana.
-- Vení --dijo, saliendo.
Martín la siguió. La noche era intensa y luminosa. Alejandra caminó por la terraza hacia la parte de adelante y luego se apoyó en la balaustrada.
-- Antes --dijo-- se veía desde aquí la llegada de los barcos al Riachuelo.
-- Y ahora, ¿quién vive aquí?
-- ¿Aquí? Bueno, de la quinta no queda casi nada. Antes era una manzana. Después empezaron a vender. Ahí están esa fábrica y esos galpones, todo eso pertenecía a la quinta. De aquí, de este otro lado hay conventillos. Toda la parte de atrás de la casa también se vendió. Y esto que queda está todo hipotecado y en cualquier momento lo rematan.
-- ¿Y no te da pena?
Alejandra se encogió de hombros.
-- No sé, tal vez lo siento por el Abuelo. Vive en el pasado, y se va a morir sin entender lo que ha sucedido en este país. ¿Sabés lo que pasa con el viejo? Pasa que no sabe lo que es la porquería, ¿entendés? Y ahora no tiene ni tiempo ni talento para llegar a saberlo. No sé si es mejor o es peor. La otra vez nos iban poner bando de remate y tuve que ir a verlo a Molinari para que arreglara el asunto.
-- ¿Molinari?
Martín volvía a oír ese nombre por segunda vez.
-- Sí, una especie de animal mitológico. Como si un chancho dirigiese una sociedad anónima.
Martín la miró y Alejandra añadió, sonriendo:
-- Tenemos cierto género de vinculación. Te imaginás que si ponen la bandera de remate el viejo se muere.
-- ¿Tu padre?
-- Pero no, hombre: el abuelo.
-- ¿Y tu padre no se preocupa del problema?
Alejandra lo miró con una expresión que podría ser la mueca de un explorador a quien se le pregunta si en el Amazonas está muy desarrollada la industria automovilística.
-- Tu padre --insistió Martín, de puro tímido que era, porque precisamente sentía que había dicho un disparate (aunque no sabía por qué) y que era mejor no insistir.
-- Mi padre nunca está aquí --se limitó a aclarar Alejandra, con una voz que era distinta.
Martín, como los que aprenden a andar en bicicleta y tienen que seguir adelante para no caerse y que, gran misterio, terminan siempre por irse contra un árbol o cualquier otro obstáculo, preguntó:
-- ¿Vive en otra parte?
-- ¡Te acabo de decir que no vive acá!
Martín enrojeció.
Alejandra fue hacia el otro extremo de la terraza y permaneció allá un buen tiempo. Luego volvió y se acodó sobre la balaustrada, cerca de Martín.
-- Mi madre murió cuando yo tenía cinco años. Y cuando tuve once lo encontré a mi padre aquí con una mujer. Pero ahora pienso que vivía con ella mucho antes que mi madre muriese.
Con una risa que se parecía a una risa normal como un criminal jorobado puede parecerse a un hombre sano agregó:
-- En la misma cama donde yo duermo ahora.
Encendió un cigarrillo y a la luz del encendedor Martín pudo ver que en su cara quedaban restos de la risa anterior, el cadáver maloliente del jorobado.
Luego, en la oscuridad, veía como el cigarrillo de Alejandra se encendía con las profundas aspiraciones que ella hacía: fumaba, chupaba el cigarrillo con una avidez ansiosa y concentrada.
-- Entonces me escapé de mi casa --dijo.
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