domingo, 10 de dezembro de 2006

TEATRO: "As Velhas"

AS VELHAS

©Peça em dois atos de Miguel Angel Fernandez

Personagens:

FILOMENA: MÃE. 90 anos

MARIANA: FILHA. 65 ANOS

JOSÉ: "NOIVO" DE MARIANA, 35 E 66 ANOS.

PRIMEIRO ATO

Cenário: Dois quartos; o da direita pertence a FILOMENA; uma cama, criado-mudo. À esquerda, o de MARIANA, cama e guarda-roupa; no centro, a sala. Um antigo armário. Cadeiras, mesa. Ao fundo, o resto da casa.

Mãe e filha entram chegando da missa: Terço na mão, manto nos ombros; livro de missa. Ambas de saias longas, pretas. Filomena senta numa cadeira, põe tudo sobre a mesa, e adormece imediatamente. Mariana vai até o móvel, tira dele vidro com pílulas; a jarra de água ao lado: enche copo. Guarda o vidro no bolso

MARIANA − Mãe! Acorda. Aqui o remédio das nove. Vamos. Toma. (Ela faz caretas enquanto bebe) O sermão do padre foi longo, não foi? Por hoje chega de jejum. Vou preparar o chá.

Ela sai. Assim que a outra sai, Filomena levanta com desenvoltura, vai até o móvel e tira pacote de bolachas escondido. Guarda alguma no bolso; esconde novamente o pacote. Come. TEMPO. Entra Mariana com bandeja pronta: chá, xícaras. Coloca tudo sobre o móvel. Abrindo gavetas, procura.

MARIANA − Os biscoitos acabaram? Vou sair para comprar.

(A outra resmunga enquanto disfarça o mastigar. Sai. Filomena levanta e prontamente se serve de chá: bebe e come. Assim que termina vai para seu quarto, à direita. Tira do bolso envelope e com algum esforço o esconde no colchão. Deita suspirando. Entra Mariana na sala com embrulho nas mãos.

MARIANA − Mãe, já foi deitar? Não vai tomar seu chá?

Ao colocar o embrulho sobre a mesa, percebe migalhas nela. Senta. Come e toma seu chá em silêncio longo. TEMPO. Ao acabar, vai ao seu quarto. Tira a blusa. Abre a porta do guarda-roupa e a pendura. Senta na cama; enquanto tira os sapatos, do guarda-roupa sai, cheirando a blusa, JOSÉ, vestido de branco igual a padeiro, aparenta uns 32 anos, seu rosto completamente branco de farinha; senta atrás dela; observando-a espera reação.

MARIANA (Sem olhar para ele; habituada) − Ai, José, José. Aquela velha ainda há de me enterrar. Será que se pode morrer de aborrecimento? Quem sabe? Mas nos disseram que mães são sagradas. Era o que também dizia aos meus alunos. "Mãe, é como o altar da igreja aos domingos" E como pesam esses domingos, José! (Pausa. Ela pega a blusa das mãos dele e a coloca novamente dentro do móvel, se deita e segura a mão dele carinhosamente, ele a imita) Dormir um pouco. Descansar uma horinha. Vai ser dia longo. Tão longo, José. Se não fosse por tua companhia, sei não se despertaria.

Blecaute. TEMPO. Luz dia.

Mariana entra vindo da rua, carrega sacola. Coloca-a sobre a mesa; senta para retomar o fôlego. Levanta e sai. Tempo. Filomena entra, vê a sacola, examina o conteúdo. De uma caixa de ovos, tira dois deles e rápida vai ao quarto de Mariana; debaixo do travesseiro esconde−os. Volta para a sala. Finge indiferença mexendo nas gavetas quando Mariana volta.

MARIANA − Procurando alguma coisa?

FILOMENA − Não preciso responder a perguntas idiotas.

MARIANA − Se é doce que procura, não vai achar. Sabe que está proibida.

FILOMENA − A velha quer que eu acredite que se importa com minha saúde.

MARIANA − É meu dever de filha.

FILOMENA − E meu direito de mãe é te mandar pro inferno, ou pra cozinha. Escolhe.

MARIANA − Isso não é escolha. É sentença. Vou trazer o chá.

Levando a sacola, sai. Filomena, contente com o que tira de dentro da gaveta: um doce evidentemente escondido por ela mesma, guarda-o no bolso. De uma outra gaveta, retira as coisas de missa: terço, livro, manto. Tempo. Está pronta para sair. Entra Mariana com xícara de chá.

FILOMENA − Será que as galinhas botaram hoje? (Disfarça risada)

MARIANA − O último bicho que andou por aqui, foi aquele gato que você envenenou. Toma. (Tira do bolso frasco e dele uma pílula. Junto com a xícara, dá para Filomena bebe.) Vai passar no correio depois da missa?

FILOMENA − Faz mais de 30 anos com essa mesma cantilena! (Imitando) "Vai passar no correio?" Vergonha de você mesma ir, não é? (Pausa.) Se vou lá é pra visitar minhas velhas colegas, não por tua causa. Pelo menos com elas se pode conversar decentemente. E esperando o quê ainda? Milagre nos envelopes? Alguma encomenda de véu e grinaldas? Velha louca! (Pausa. Pronta para sair. Como lembrando subitamente) Dá uma olhada se a galinha botou lá, no galinheiro! (Assinalando o quarto de Mariana. Tosse com risadinha e sai. Mariana adivinhando, vai ao seu quarto; assim que entra, do guarda-roupa sai José, fica parado ao perceber a fúria dela. Observa-a procurar no guarda-roupa, debaixo da cama, até encontrar os ovos debaixo do travesseiro)

MARIANA (Com os ovos na mão) − Não me importo mais com estas coisas. Estou acostumada. A velha está cada dia mais louca. Não sei. Mas às vezes me parece que tem ciúme de nós. (Pausa.) Parecia tudo tão certo. No começo o sol, depois a lua no céu daquela festa, e você equilibrando pães mágicos.

(Como aguardando a deixa, José tira do bolso dois pãezinhos espetados por garfos e imita passos de balé com eles, como Chaplin no filme "Em busca do ouro”. Mariana sorri.) Rindo de tuas palhaçadas, no final da quermesse já estávamos apaixonados.

(Acaricia José que deita a seu lado. TEMPO. Do fundo, entra Filomena na sala. Livra-se do manto e do livro de missa. Vai até a porta do quarto de Mariana. Ouve com atenção).

MARIANA − Se você morreu, José, quero deitar a teu lado esta vida seca que me resta. (Pausa) A morte virando esperança. (TOM) Ai, Mariana quanto pecado! (Acariciando-se) Mas dentro de meu ventre, ainda levo nosso filho inascido. Ele está lá, José. Aninhado com tua ausência.

(Leva a mão dele até o regaço e o faz acaricia-lo. Grudada na porta, Filomena espia escondendo risadinha. Satisfeita vai para seu quarto. Tira garrafa de esconderijo e bebe. A esconde novamente. Pausa. De lá, para a sala, grita)

FILOMENA − Tô chamando você!

Rapidamente, José entra no guarda-roupa. Ela esconde os pãezinhos no móvel. Suspira. Vai para o quarto da mãe.

FILOMENA − Olha aqui! O médico falou que preciso me cuidar mais, que não estou melhorando. (Imitando-o) "Na sua idade, precisa de mais cuidados". Ele sempre disse! "Na sua idade".Velho imbecil, velhice não é doença! (Imitando-se) "Doença, doutor, é minha filha. Essa coitada que vive misturando fantasmas naqueles refogados temperados com sementes de tédio! (Para ela) Ou sementes de loucura, heim?

MARIANA − A loucura pode temperar o tédio, mãe. Vou pegar teu remédio.

Vai até a sala. Filomena, lembrando subitamente, tira do bolso envelope e o esconde no colchão. Mariana volta de copo e remédio nas mãos.

MARIANA − Toma. (Bebe, se engasga. Escarra ruidosamente no chão) Doente e velha demais para ficar aí, imaginando coisas...

FILOMENA − Doente? Estou é sendo envenenada por uma velha louca. Imaginando? Pensa que me engana?

MARIANA − Deita um pouco agora e pára com essas besteiras.

FILOMENA (Resmunga, preparando-se para deitar) − Besteira, besteira foi ter-me casado com aquele desgraçado. (Pausa.) Com a noite vinha o pavor de me deitar a seu lado, sempre me procurando com aquela "coisa" esfregando-a em mim. O único que fez foi ter ajudado parir você, pra morrer logo em seguida. Como se ele tivesse abortado! Na sua sabedoria, o Senhor me deu a luz compensando-me com a morte dele. (Olhando Mariana dos pés à cabeça.) O meu tormento com você foi outra "coisa.”

MARIANA (Esfregando o chão.) − De volta ao velho castigo.

FILOMENA − E porque não? As filhas servem para serem castigadas.

Aqui ela se transforma: forte e ereta, com desenvoltura anda ao redor de Mariana, ajoelhada.

FILOMENA − Viram como é prendada? Ela é tão educada, prestativa e gentil. Parece até gente grande!

MARIANA (Levanta o rosto sem emoção; mecanicamente.)

− Professora...

FILOMENA (Emendando as frases) − ...Como já devem ter adivinhado, dará uma excelente professora! Não é filhinha?...

MARIANA − ...Ou então freira...

FILOMENA − ...para não correr o risco de ser mãe de estupradores! Uma comunidade de santas religiosas! Reinaria nela como exemplo, não acham?...

MARIANA − ...Cordeirinho...

FILOMENA −− ...sem pecado, padre! Incapaz de fazer mal a quem quer que seja...

MARIANA − ...Sacrifícios...

FILOMENA − ...pelos outros que ninguém é capaz de fazer. Prestimosa que só vendo...

MARIANA − ...Sorte e felicidade...

FILOMENA − ...Deus me deu ter filha assim, que não larga da mãe nem por um minuto. Até preparar chá, ela já sabe.

MARIANA − ...O que seria dela...

FILOMENA − ...se a mãe lhe faltasse? Só Deus sabe. Mas Ele haverá de cuidar desta santa se um dia me chamar a seu lado. Até lá, não existe sacrifício suficiente...

MARIANA − ...Sensível e frágil...

FILOMENA − ...como é, podem imagina-la andando pelo mundo, sem a ajuda e a força de sua mãe? Só de pensar dá um aperto no coração, não dá?...

MARIANA − ...Homem...

FILOMENA (Sua voz mudando com o "correr dos anos")

− ...Homem nenhum merece flor assim. Essa vida cheia de demônios em cada esquina. Mas a mãe não há de lhe faltar, para protegê-la dos pecados dos outros...

MARIANA − ...Professora...

FILOMENA (O tempo curva suas costas) − ...Agora que minha filha é professora, precisa ter cuidado nesse ir e vir da escola. Vou pedir ao padre mudar esse horário tão tarde. Nunca se sabe o que pode acontecer, não é, querida?...

MARIANA − ...Festa...

FILOMENA − ...Só se for a da quermesse da igreja. Não posso te imaginar andando com essa corja esfregando-se em impudências que me dão arrepios. Não a minha filha, por favor! Você tem mãe! Agora, os outros...

MARIANA (Ainda de joelhos) − ...os outros na rua, brincando ou brigando, pulando na chuva, na lama.

FILOMENA ("Volta" ao presente) − Pulando de galho, não é? Fugir para a lama com aquele padeiro indigente! Não vou te perdoar nunca por ter querido me abandonar.

MARIANA − Abandonar?

FILOMENA − Ainda bem o ensebado desapareceu! Morto deve estar. Amém! Podias ter casado com aquele velho farmacêutico, um palerma decente e com dinheiro.

MARIANA − Se não for com José, será com ninguém.

FILOMENA − Homem serve pra nos dar teto e comida. Depois disso é melhor que morram e levem para os vermes aquela porqueira que estão sempre querendo meter dentro da gente! Ah! e tem as pestes dos filhos! E o que é nosso ainda será deles! É o calvário do senhor que repetimos neste mundo. Agradece a Ele por estar viva. Não a mim!

MARIANA (Senta na borda da cama) − "Viva" estava naquele dia na praça... E você parou na minha frente...

FILOMENA (Relembrando, interpreta) − "Vai demorar muito esta vergonha? Tá esperando o quê?" (TOM) E você com ar de idiota romântica...

MARIANA − "Meu noivo. Vamos casar."

FILOMENA (Revivendo, erguida e forte) − Ele não virá. Vamos pra casa. Agora!

MARIANA (Desafiadora) − Ele virá, claro que virá.

FILOMENA − Vamos evitar a humilhação de mais alguém ficar sabendo deste vexame. Levanta daí e vamos pra casa!

MARIANA − Ficarei aqui até ele chegar. Goste você ou não.

FILOMENA − Falei com ele.

MARIANA − Não acredito em você. O sol que ilumina é testemunha.

FILOMENA − Esse sol não adianta. Porque ele não virá.

MARIANA − O sol veio.

FILOMENA − Veremos quem tem razão. Filha patética.

Filomena se afasta, e vai até a sala, permanecendo nas sombras. Mariana sentada na cama, igual o faria "num banco de praça".

MARIANA − E fiquei esperando, esperando até cair a tarde e começar a chover. (Faz que abre um guarda-chuva) A noite acendeu as luzes da praça. (Luzes do quarto diminuindo pouco a pouco) E nunca mais vi José.

Lentamente se dirige à sala. As luzes vão aumentando de intensidade, acompanhando sua chegada. Revivendo o momento da volta de Mariana da praça, (quarto) Filomena impaciente, a aguarda. Vira-se ao vê-la chegar.

FILOMENA − Mas olhem só para ela! Enlameada como prostituta abandonada. Eu disse que ele não iria. Quando você sair dessa letargia de coitada e desanuviar as idéias, vai entender melhor. Agora tira essa roupa imunda, vai tomar banho.

MARIANA ("Voltando" ao presente) − Prestativa e gentil. Protegida do pecado dos outros...

FILOMENA − No fundo você sempre quis que fosse assim. Não pretendo ter de ouvir lamentações a esta altura. É tarde demais. Vamos voltar. Tá na hora de preparar a comida. Vá logo. (Indo para seu quarto) Vou dar uma cochilada antes da comida. (Alto) Espero sobreviver a mais esta!

Mariana vai a seu quarto. Ao entrar, a porta do guarda-roupa se abre suavemente, dele sai José.

MARIANA − E você acreditou que me abandonar seria o melhor. Agora olha pra mim. Requentando recordações nas panelas...

Senta na cama. Ele a ajuda a tirar os sapatos, deita e a convida a fazer o mesmo.

Tempo. O casal parece dormir. Filomena levanta, cuidando não fazer barulho vai ao quarto de Mariana. Encosta o ouvido na porta. José a pressente e levanta assustado, entrando imediatamente no guarda-roupa. Filomena entra sem fazer barulho, se acerca da cama, olha fixamente para a filha dormindo. Pé ante pé, vai até o guarda-roupa, procura até encontrar embrulho, dele tira dois pãezinhos, cheira-os e faz caretas. Abaixa-se, pega os sapatos de Mariana; com algum esforço esmaga os pães deixando as migalhas caírem no interior deles; leva a mão à boca, escondendo seu divertimento e volta ao quarto. No meio do caminho:

BLECAUTE. TEMPO.

"Luz de noite”. Filomena entra ligeira vindo do fundo, se livra do manto e do livro de missa jogando-os sobre a mesa e vai direto para seu quarto; do bolso tira envelope que esconde no colchão. Senta para retomar fôlego. Entra Mariana na sala vindo do fundo, vê o manto sobre a mesa.

MARIANA − Mãe? (Sai e volta pouco depois) Aconteceu alguma coisa? Cadê você? (Filomena se esconde atrás da "porta" do quarto. Mariana vai até lá. Não a vê. Volta à sala) Onde será que a velha se meteu?

Sai. Filomena no quarto assoma a cabeça, constata que Mariana não está na sala; tira garrafa escondida, abre-a no momento que Mariana volta, vindo do fundo. Da sala, ouve o barulho da rolha. Vai ao quarto e pega a mãe no flagra tomando um gole do gargalo. Pausa.

MARIANA − Que está fazendo? (Pausa. Tentando lhe arrancar a garrafa) Me dá isso! Então eram meus refogados que estavam te matando, não é? Velha bêbada!

FILOMENA − Não te mete na minha vida, velha maluca!

MARIANA (Pegando a garrafa) − Olha só quem está falando! (Tom) Nessa idade! Deixa o médico saber disso.

FILOMENA − E como é que aquele velho idiota vai saber disso?

MARIANA − Ora, eu vou dizer a ele.

FILOMENA − Se você fizer isso, vou contar teu segredo para todo mundo...

MARIANA − Que segredo?

FILOMENA − Aquele que escondes no teu galinheiro. Esse povo de fariseus adora intrigas. Ficarás mal falada na cidade. Apedrejada até! Eu juro!

MARIANA − E isso, por causa de uma garrafa de vinho?

FILOMENA − Que é minha! E a quero de volta. (Mariana sai do quarto levando a garrafa) Onde cê vai?

MARIANA − Ao banheiro!

Sai. Ouve-se a descarga. Mariana volta. Gritando, da sala.

MARIANA − E agora me deixa dormir! Dorme você também alcoólatra!

Entra no seu quarto. TEMPO. Filomena abre outra garrafa tirada de esconderijo, cuidando para não fazer barulho. Bebe. Pausa. Tira de algum lugar um estojo de maquiagem. Cantarola enquanto se maquia.

FILOMENA − "O vinho faz bom sangue, bom sangue produz bom humor." (Bebe mais um gole, continua a se maquiar.) "O bom humor faz nascer bons pensamentos, bons pensamentos dão origem a boas ações.". (Desnudando os ombros, levantando a saia acima do joelho, faz pose de bailarina de cabaré.)... e as boas ações conduzem a Deus"...Viva Deus!

(Fica estática, ouvindo sua última palavra, olhos fixos no nada, seu rosto virou uma máscara deformada pela maquiagem exagerada. Pausa. Abaixa a saia, cobre os ombros, tenta se recompor, subitamente constrangida. Olha na direção da platéia. Pausa. Leva as mãos à boca.)

FILOMENA − Alguém viu meus dentes?

(Longo silencio)

MARIANA (Deitando. Grita do quarto.) − Vai ficar aí até a meia-noite? Velha doente!

FILOMENA − Doente e longa meia-noite.

MARIANA levanta o braço e apagam todas as luzes. BLECAUTE.

TEMPO. FADE. Luz de dia. Mariana lendo um livro na sala. TEMPO. Do fundo, ouve-se longo barulho de descarga do banheiro. Pausa.

FILOMENA (Off) − Boboca! Vem me limpar!

MARIANA (Fecha o livro com violência) − Outra vez, dona Filomena!? (Para si) Velha fingida. Isso que dá beber até morrer!

FILOMENA (Off) − Mas ainda estou viva! Depois de morta não vai mais precisar! (Pausa) E então?

Ela reluta, anda pela sala. TEMPO. Entra Filomena lentamente. Mariana não a vê. Assusta-se quando a outra fala.

FILOMENA (Finge não ver ninguém) − Não tem ninguém na casa.

MARIANA − Já estava indo. Como cê fez?

FILOMENA − Não fiz.

MARIANA − Mas não pode...

FILOMENA − Sei que não posso sozinha. Por isso não o fiz. Agora que estou sozinha nesta casa, preciso aprender a conviver com minhas próprias sujeiras.

MARIANA − Que cê tá falando? Vamos lá, eu te ajudo.

FILOMENA − Quem é você, velha?

MARIANA − Mãe, não precisa...

FILOMENA − Confusa senhora, não posso ser sua mãe. Só tive uma filha. E ela fugiu há muito tempo com o fantasma de um padeiro. Estou sozinha depois disso, como pode ver.

MARIANA − Está toda molhada. Não pode ficar assim...

Ao chegar perto, Filomena tenta dar-lhe um tapa.

FILOMENA − Que está fazendo na minha casa, sua desconhecida! Vá embora! Não vai conseguir levar nada. Minha filha, hipócrita depravada, preferiu a genitália de um fantasma, emporcalhando os valores desta casa e envenenando o sacrifício de uma mãe! Nada mais resta, só o martírio de uma velha moribunda. Vai-se embora de minha casa!

Mariana corre para seu quarto. Senta na cama com o rosto entre as mãos. TEMPO. Filomena aproveita o momento. Vai até o móvel e retira algum doce. Sovina, come gulosamente. Mariana no quarto levanta de repente, resolvida, vai pra sala. Surpreende Filomena de boca cheia, o rosto sujo de chocolate, ela a olha petrificada.

MARIANA − A pobre velha moribunda! Desobediente come às escondidas, “emporcalhando-se" de doces. "Nada mais resta" a dividir, não é?

FILOMENA − Ainda está na minha casa?

MARIANA − Se quiser arrebentar vá "emporcalhar" só tua cama, por que eu limpei a casa. Que é minha também! Vá, velho martírio! Vai, porca!

FILOMENA − Porca é aquela cama fedida...

MARIANA − ...De teus vômitos!

FILOMENA − ...Vomito para não morrer envenenada com teus refogados!...

MARIANA − ...Então faça você mesma a maldita comida!

FILOMENA − Se pudesse... comigo era limpa e não fedia como certas pessoas que não conseguem viver sem emporcalhar as panelas de más intenções. (De braços abertos) Pai! Por que me abandonaste neste inferno?

MARIANA − Deus não tem nada a ver com o inferno que você criou!

FILOMENA − O inferno é preciso! Sem ele perderíamos as forças que protegem as virtudes. (TOM) As tuas, sempre frágeis, aliás... É o que você queria, não é? Se deliciar acariciando a genitália às escondidas... E chama a mim de porca.

MARIANA − Já posso ver as portas se abrindo para um novo inferno.

FILOMENA − E por que não? Estamos quase mortas, e você não pode me abandonar. Sem mim nada existe que te prenda neste mundo, como nunca ouve.

MARIANA − Ouve José.

FILOMENA − "Aquilo?" Ora, minha aprendiz de pecadora, você é tão aborrecida. Carregando a cruz dessas misérias carnais, como um pobre Cristo! Cristo que coisa grave devia ter aprontado, afinal o Pai poderia tê-lo salvado, mas não o fez. Por quê? Culpa, minha filha. Pecado. Você entende disso muito bem.

MARIANA − Não era o que você dizia de Cristo quando eu era criança...

FILOMENA − Aquilo era catecismo! Precauções contra as perversões que infernizam a mente das crianças. É preciso que aprendam a se sentirem culpados. É uma luta, por que o pior defeito das crianças é não conhecerem o pecado. Foi melhor assim.

MARIANA − Coitadas das crianças. E de nós.

FILOMENA − É verdade. Poderíamos ter tido vida mansa, com as regalias de um rico casamento. Mas graças a você...

MARIANA − Escolhe outra culpa, velha.

FILOMENA − Culpa tenho de ter todas as razões do mundo? Veja eu. Casei com aquele bocó por tua causa! Você precisava de um pai para acalmar esse povo faminto de escândalo...

MARIANA − Eu? Precisava de um pai?

FILOMENA − ...E que foi que ganhei com isso? Como já disse, estamos quase mortas e não preciso esconder mais nada. Tive que casar com aquele imbecil de quem você sempre perguntava: (Imitando) −"Como era meu pai, mãe?" − Inventei tudo que você sabe. A única verdade é que morreu na noite que você nasceu.

MARIANA ( Na defensiva) − Quem era esse outro, o meu pai “de verdade”, mãe?

FILOMENA − Ele foi a fonte de meu ódio. E você a filha bastarda de um pesadelo. Graças a Deus o patife me abandonou... (Olhando-a fixamente) Cuidado com esse olhar! Nada de esperança! Deixa você debilitada... (TOM) querer morrer quando a ilusão passa pela porta de tua casa, de braço dado com uma prostituta. (TOM) Melhor o ódio, minha filha! É mais forte e protetor. E nem tenta te aproveitar dessa história suja. Está digerida e evacuada melhor que tuas comidas. E agora me deixa dormir com meu companheiro e santo ódio. Vai. (TOM) Tem mais, velha. Já contei tantas histórias da carochinha para você! (Ri. Tosse) Não esquece meu remédio!

MARIANA − Já que estamos quase mortas, conta direito a história de como morreu o meu "falso" pai. Pode contar, velha. Vamos nos divertir juntas.

FILOMENA − Essa história não é pra teu bico, "velha.”

MARIANA − Morreu mesmo ou também ele te trocou por outra.

FILOMENA − Não tinha coturno para tanto... Foi numa antiga meia-noite. Os berros daquela criança não paravam... Você, não parava de berrar! E aquele imbecil manchado de sangue. Do meu sangue! O palerma com cara de benfeitor! (Se empolgando) Ganias igual a um cão! E ele rindo, como um cavalo! Parecia que a filha era dele. De repente seu coração arrebentou. Aquele pateta ridículo querendo festejar às minhas custas! Agradecendo a Deus e à vida pelo meu parto! Torci para que tivesses morrido também. Passava da meia-noite. Apaguei todas as luzes e dormi dias. (De repente Filomena apaga a luz do abajur) E já passa da meia-noite.

MARIANA (Levantando-se.) − Você deve odiar toda luz, não é, mãe? (Sai do quarto. Na escuridão total ainda se ouve)

FILOMENA − E às lamúrias também! Não esquece do meu remédio!

BLECAUTE.

FADE. Até luz do dia.

Entra Mariana na sala, leva bandeja com pratos, xícaras etc.

MARIANA (Gritando) − Vai tomar o chá na cama? (Filomena na cama permanece imóvel. Mariana vai até lá.) Velha. Acorda. Vamos, deixa de pose. Abre esses olhos.

Mariana a sacode de leve. Pausa. Inquieta-se. A sacode com mais força; tenta levanta-la, mas sem jeito nem força, não consegue impedir que ela vá deslizando até cair da cama; agarrada ao colchão, parte dele levanta. No chão, ela acorda. Mariana vai ajudá-la, mas percebe que por uma das costuras, alguns envelopes assomam. Divide-se entre a curiosidade e a necessidade de socorrê-la. Vence a curiosidade. Pega um envelope. Dá uma rápida olhada. Espantada com a revelação, deixa-o cair. Ainda atordoada volta-se para pegar outros. São muitos, dezenas. Filomena entende imediatamente o que se passa. Tenta se levantar, sem conseguir.

MARIANA − Que maldição você merece, velha traidora?

FILOMENA (Semi-erguida, no chão) − Traição daquele desgraçado! O idiota jurou que desapareceria para sempre. Em seguida me aparece a primeira carta! (Pausa) Escondi, claro. Depois do que eu sofri te criando e te aturando, não ia permitir que essas cartas despertassem tuas intenções de me abandonar? (TOM) E além do mais, teria perdido este momento se as tivesse rasgado... (Tosse) Ontem você não trouxe o remédio. Ajuda-me a levantar.

MARIANA − Enganada sempre. Obedecendo sempre...

FILOMENA − Obediência teria sido casar com o velho da farmácia.

MARIANA (Olhando as cartas) − "Se não casei com José será com ninguém."

FILOMENA − Sempre pensando em si mesma. Aquele velhote da farmácia, além de apaixonado, tinha posses. Depois de morto teria deixado tudo para nós...

MARIANA (Sem tirar os olhos das cartas) − Envenenado por você, certamente.

FILOMENA − E pra que serve um homem? (Pausa.) Não teríamos passado todos esses anos dependendo das migalhas dessas aposentadorias de pobre.

MARIANA (Irônica, arrumando envelopes) − Amar é depender do outro. Não é, "mamãe"?

FILOMENA (Arrastando-se) − Isso! Dependentes uma da outra, ficaremos juntas nesta miséria até o fim.

MARIANA (Preparando-se para sair) − Não, "mamãe.” Enterrarei esta miséria numa cova bem funda. Junto com teu cadáver.

FILOMENA (Imitando. Com ódio) − "Incapaz de matar uma mosca.” "Mansa como cordeirinho.” (Se arrasta em direção a ela) Simuladora! (Engasga. Pausa) Mas meu ódio não será enterrado comigo, não; ficará pairando no ar que respires, amaldiçoando o dia em que te pari emporcalhada de sangue! (Agarra-se no vestido de Mariana. Esta a repele.)

MARIANA − Sangue do teu sangue, "mamãe.”

FILOMENA − Devia ter te envenenado naquela meia-noite, maldita bastarda!

MARIANA (Olhando as cartas) − Agora que descobri teu segredo, posso ir embora deste sepulcro.

FILOMENA − Partir, fugir! Isso também é sonho, velha ridícula! E de ilusões, você está infetada! (Subitamente engasga, se assusta. Está piorando) O remédio! (Mariana tira do bolso um frasco, o observa detidamente e o guarda novamente. Filomena adivinha as intenções) Leva ele contigo, maldita! Sem mim, verás que não existe remédio para a peste que te espera lá fora! (Tosse. Pausa, vingativa) Desafasta de uma vez por todas, velha decrépita! Vai-te embora atrás do outro cadáver, por que este aqui, é meu!

MARIANA, sem olhar para Filomena, que se debate cada vez mais contra o sufoco, ensaia saída. Pára na porta, por um instante parece indecisa. Pega alguns envelopes e os guarda. Pausa.

MARIANA − Adeus, velha morta!

Vai para o seu quarto, senta na cama. Filomena se debate entre estertores que vão paralisando-a até imobilizar-se de vez. Morre. Mariana pega um envelope ao acaso, o abre e lê. À medida que as cartas vão sendo abertas, num outro canto do palco, luz ilumina José de maneira fantasmagórica, irreal; fala enquanto ela lê em silêncio.

JOSÉ − "Já perdi a conta do número de cartas; não sei qual o número desta, mas, que importa? Se tivesses partido de vez, eu saberia. Por que minhas cartas nunca voltaram. Deves estar aí, na mesma cidade onde nos conhecemos. Partí de lá depois de nossa aventura, encorajado pela tua mãe, como já deves saber. Se te levasse comigo, que tinha eu para oferecer, além de minha ternura e minha mala sempre pronta? Eu, um aventureiro e aprendiz de todas as profissões. Fui padeiro na tua cidade, mas também fui motorista e lavrador em outras. Mas, dessa vez, trouxe comigo, dentro da mala, a maior tristeza: te perder. E a única alegria: te amar.

Hoje, depois de cada carta que envio, fico sempre esperando algum sinal. E nada. Mas o silencio é o berço da esperança. Esperança de tolo? Pode ser, mas tenho convivido tanto tempo com esta situação, que agora já é como um vício, dependendo dele para levar esta vida que não é totalmente vazia porque tenho você aqui dentro, junto do meu sangue. Mesmo que seja desta maneira louca e solitária. Até a próxima, amor. Para sempre teu, José."

Mariana recolhe outra carta, profundamente emocionada.

JOSÉ − "Quantos anos já se passaram desde a última vez que estivemos juntos? Quantos sonhos já tive? E aquele que mais se repete, é onde te vejo chegando neste lugar, de mala na mão. Te vejo abrindo-a e dela escapam centenas de cartas, e como se tivessem vida própria, voam pelos corredores, entram nos quartos até me encontrarem escondido dentro do guarda-roupa. Torcendo para ser denunciado por elas, te vejo pelas frestas vindo na minha direção. No instante em que abrirás a porta, o sonho acaba. Nunca abrirás aquela porta, Mariana? Me despeço até a próxima, amor. Posso te chamar assim? Para sempre teu, José"

Mariana escolhe outra. A luz sobre José vai aumentando de intensidade, como se a sua presença fosse se tornando mais real a cada momento.

JOSÉ − "...ouço o barulho do tempo passando pela minha janela aberta, e o vento entra e sacode estas folhas fazendo as palavras dançarem, como querendo fugir. Mas a lembrança de tua voz e de teu corpo, são meus. É para eles que escrevo. A única coisa viva que tenho neste lugar. Por que aqui os velhos estão como mortos. Eu não. O mundo não é pequeno para mim, porque nele está você, Mariana. Hoje trabalhei no jardim, arrumando o caminho da entrada. Um dia chegarás por esse caminho?

Despeço-me agora, antes de apagar a proibida luz. Até quando? Não sei, amiga. José.”

Mariana mais impaciente joga a carta sobre a cama, se abaixa, encontra o par de sapatos onde Filomena esmagara os pãezinhos, enquanto derrama o conteúdo, olha em direção ao quarto da mãe meneando a cabeça. Debaixo da cama, retira velha mala, guarda os sapatos, as cartas, pega algumas roupas das gavetas, enquanto José continua a fala; a luz sobre ele se intensifica, tornando-o cada vez mais "real.”

JOSÉ − São estas cartas que mantém minha lucidez e conseguir obedecer os regulamentos desta casa. Elas, essas enfermeiras que nunca riem, ficam atrás de mim querendo saber que cartas são estas que nunca têm respostas. As ouvi dizendo que é coisa de velho gagá. Pode ser, mas não me importo. Como não me importo de comer essas sopas sem graça nem sal. Semelhante à vida sem você. Deixo eles com suas fofocas e continuo a esperar. Sempre teu, José.

Ao terminar esta carta, Mariana pronta para sair se volta e abre a porta do guarda-roupa. Vazio. Sorri, pega a mala e vai embora. BLECAUTE.

SEGUNDO ATO

LOCAL: CASA DOS IDOSOS

O que era o quarto de Filomena à direita, virou o de Mariana aqui; antes a sala, doravante o hall de entrada. O de Mariana, à esquerda, é de José agora. O guarda-roupa no mesmo local.

FADE até luz de entardecer. No hall, imóvel, Mariana de pé com a mala ao lado. Pausa. Da esquerda aparece José, vestido de branco como nas cenas anteriores. Ao vê-la fica estático. TEMPO. Acercam-se e se abraçam. TEMPO.

JOSÉ (Como final de frase decorada, mas exultante) − ...E então você chegou. (Pausa.) Um dia aconteceria. (Preocupado) Você está pálida. Teus olhos...

MARIANA (Acabrunhada) − Olhos com muita noite... Cansada.

Ele tira lentamente o casaco de padeiro, o boné, mostrando cabelos brancos (ou calvície), limpa com ele restos de farinhas ainda no rosto, como ator que termina encenação; isto é: mostra seu atual e verdadeiro rosto. Mariana, como se estivesse esperando essa atitude, não parece se importar ou perceber a mudança.

JOSÉ − Vem comigo. Vem.

Ele pega a mala e a conduz até seu quarto. Sentam na borda da cama, se olham por muito tempo. Se tocam, descobrindo-se.

MARIANA − Estamos velhos, José? Olha para mim.

JOSÉ − Olhando que você está aqui.

MARIANA − Estava com medo que a morte...

JOSÉ − Medo do que não se conhece?

MARIANA − Minha mãe agora conhece.

JOSÉ − Nunca casou?

MARIANA − "Sem José, não tem ninguém!", dizia para minha mãe.

JOSÉ − Finalmente aqui! (Pausa. Tom) Com quem você falou na entrada?

MARIANA − Não tinha ninguém. Fui entrando até... Ver você.

JOSÉ − Ninguém viu você chegar?

MARIANA − Como a morte: ninguém viu!

JOSÉ − Mariana. Por aqui as coisas são um pouco complicadas, burocráticas. São muito severos eles.

MARIANA − Eles quem?

JOSÉ − As enfermeiras, os médicos. Todos.

MARIANA − O que eles podem fazer? O que foi que eu fiz?

JOSÉ (Disfarçando preocupação) − Dizem que os velhos devem estar sempre ocupados. Muito bem, estaremos ocupados então! Quero que me contes toda tua vida, desde o dia que sai daquela cidade feito trapo... (Tom) Você leu todas minhas cartas? (De repente se ouve o barulho em OFF, alguém tentando abrir uma porta, batem. José levanta assustado.) Tinha me esquecido dele!

MARIANA − Ele?

JOSÉ − Meu companheiro de quarto! Se ele te encontrar aqui, tenho certeza que vai dizer a todos que nos viu na cama juntos.

MARIANA − Por que ele faria isso?

JOSÉ − Ele inventa. Esse sim é um velho gagá. Já fez isso com outros. Foi um escândalo da última vez até descobrirem que era tudo mentira. Melhor se esconder até me livrar dele. (Olha procurando, acha: Abre as portas do guarda-roupa, pega a mala dela, ajuda-a entrar) Entra aqui. Depois veremos o que fazer.

MARIANA (Olhando em volta) − Mas, que lugar é este?

JOSÉ − Explico depois. Agora entra aí.

(Se ouvem mais batidas na porta) Vamos, depressa. (Ela entra no guarda-roupa.)

BLECAUTE. TEMPO.

José está sentado num banquinho, na frente de pequena mesa, joga damas com seu parceiro, que é muito velho, sentado na borda da cama; imóvel, pensa a jogada. José olha de vez em quando na direção do guarda-roupa. Impaciente. O homem deita. José levanta silenciosamente e abre o guarda-roupa com cuidado. Dele assoma Mariana.

MARIANA − José! (Ele faz sinais, ela percebe o homem deitado e abaixa a voz) O que vamos fazer agora?

(Ele a conduz até o hall. Olha ao redor temeroso. De repente soa campainha bem alta. Barulho de passos, vozes, portas, metais etc, tudo ensurdecedor. Ele pega Mariana pela mão e saem pelo fundo. BLECAUTE. TEMPO).

Iluminação "sinistra”. José está no quarto dele, Mariana no dela, à direita. Ambos sentados na borda da cama, quietos. Vão se levantando simultaneamente. Os dois encostam-se nas suas respectivas portas. TEMPO. De seus lugares.

MARIANA − "Romeu"?

JOSÉ − Fizeram muitas perguntas?

MARIANA − Todas estúpidas, José. Por quê?

JOSÉ − Porque somos velhos.

MARIANA − Nos castigar por isso?

JOSÉ − É que aqui não se pode fazer o que se quer.

MARIANA − Como dividir o prato?

JOSÉ − Visitar o quarto do outro.

MARIANA − Por que eles fazem isso?

JOSÉ − Porque ninguém nos quer lá fora.

MARIANA − Quem se importa com lá fora se o que quero está aqui dentro! Primeiro minha mãe, depois o tempo, agora essas pessoas. De quem é a vida afinal?

JOSÉ − Deles, Mariana.

MARIANA − Quero minha vida de volta, José.

JOSÉ − Para isso é preciso fugir...

FADE. Até BLECAUTE.

José está jogando damas com o companheiro de quarto. TEMPO. Ele está nervoso. O outro vai dormindo ate deitar de vez. José mexe de leve para ter certeza. Rápido vai até o guarda-roupa. Dele sai Mariana. Abraçam-se em silencio. (Cochicham)

JOSÉ − Vai ser esta noite, minha querida.

MARIANA − Estou pronta e ansiosa para te seguir.

(Sem eles perceberem, o companheiro vai "acordando")

JOSÉ − Todos estes dias de castigo!

MARIANA − Não devias ter empurrado aquela bruxa.

JOSÉ − Eu sei, mas ela te insultando... Não consegui me controlar. Foi quase sem querer.

MARIANA − Velho corajoso!

JOSÉ − Tolo, isso sim. Tudo piorou desde então.

Ele percebe o companheiro "ouvindo" a conversa; disfarça, rápido. Ela não percebe a manobra, mas entra no jogo saudoso. Luzes acompanham o momento, piscam e evoluem; música de valsa surge. A abraça) Como naquela primeira noite. Me acompanha?

MARIANA (Surpresa, mas se deixando levar) – Ah! Se as pernas fossem asas!

JOSÉ − Gostou de meus pãezinhos engraçados?

MARIANA − O senhor é que é engraçado. Onde aprendeu a fazer pães dançar?

JOSÉ − Aprendi com outro palhaço e... Senhor? Me chamam de José desde pequeno. Gosto de vê-la rir... "Senhorita"?...

MARIANA − Meu nome é Mariana.

JOSÉ (Sedutor) − Então são dois... Maria e Ana.

MARIANA − Na dúvida, minha mãe deve ter preferido os dois. Gostou?

JOSÉ − De sua mãe?

MARIANA − Do meu nome, seu bobo!

JOSÉ − Muito. São as caras da dona.

MARIANA − Não tenho duas caras!

JOSÉ − Mas vale por duas. Mariana faz o quê?

MARIANA − Leciono na escola paroquial. Todas aquelas crianças...

JOSÉ − São suas?

MARIANA (Rindo) − Claro que não! Sou... Solteira.

JOSÉ − Há muito tempo?

MARIANA − ...O suficiente. E... Você?

JOSÉ − Também o suficiente. (Olhando ao longe) Aquela é sua mãe? E olhando feio pra cá. Ela é brava?

MARIANA − É sim. Mas esta noite não tenho medo de nada!

JOSÉ − Vamos até o coreto? Podemos dançar melhor lá, mais... Sozinhos.

MARIANA − Não sei...

JOSÉ − Dançar?

MARIANA − ...Se devo. A minha barraca...

JOSÉ − A festa está quase no fim. Vamos aproveitar antes de tudo acabar e sua mãe venha tirar você de mim.

MARIANA − Está bem. Vá na frente. Disfarça...

JOSÉ − Não vai fugir... Maria... Ana.

MARIANA − Estou muito feliz para fugir!

JOSÉ − Você fugiria?

MARIANA − É claro que não! Já falei que não tenho medo esta noite!

JOSÉ − Fugiria comigo.

MARIANA − Com você?

(As luzes mudam subitamente. Música acaba. Silêncio)

JOSÉ − Poderíamos ter fugido naquela noite! (Ele percebe que o companheiro voltou a dormir.) Mas desta vez vamos. Sem medo. Vamos escapar esta noite... De todos!

MARIANA (Brincando) − "Vá na frente"!

JOSÉ − Juntos desta vez!

MARIANA − Vamos.

JOSÉ − Me dá tua mão.

MARIANA (Apertando-se num abraço) − Leva tudo!

JOSÉ − Pronta?

MARIANA − Desde que deixei minha mãe morta.

JOSÉ − Muito bem. Então ouve o que vamos fazer.

Enquanto ele murmura o plano de fuga para Mariana, luz sobre companheiro que aparenta estar "ouvindo" a conversa. As sombras que acompanharam a cena anterior, começam a "cercá−los"; gesticulando e segredando vão saindo seguidos pelas sombras. TEMPO. FADE. BLECAUTE.

Sirene alta. Barulhos de passos, correrias, vozes, gritos, luzes vermelhas piscando.

TEMPO. Até silêncio total.

Entra José do fundo, com aspecto abobalhado; senta na borda da cama. TEMPO. Entra Mariana, também está mudada: parece mais velha, de avental amarrotado, cabelos desgrenhados, abatida. Aperta com força o decote (onde esconde remédio). Pára no meio do hall; hesita, mas vai para o quarto dele; ao chegar bem perto da porta, imediatamente luzes começam a piscar no hall. Percebendo, não se importa, entra e senta ao lado dele.

MARIANA (Sem olhar para ele) − Meu corpo está frio. Pobre corpo dolorido e humilhado. Que rancor naquelas pessoas! Vingativos e cruéis como o deus celeste de minha mãe! Seria o desenterrado ódio de minha mãe? (Pausa) Antes, quando a memória dos momentos que passamos junto me fortalecia, a velhice estava só nas minhas rugas. (Percebe que ele está ausente. O acaricia) Depois, ao te saber vivo, a ilusão de mudar a vida me iluminou como as luzes daquela praça antiga... Agora estou velha, por fim. (Resolvida, levanta e puxa-o pelas mãos) Vem, José, vamos dançar! Apaguemos nossa luz para que nos percam na escuridão! Vem comigo! Vamos voar!

JOSÉ (Balbuciando) − Não me importa estar morto. (Como acordando) Estamos loucos?

MARIANA − Não, amor! Loucura é agarrar-se à vida quando o mundo não nos quer! Vem comigo meu querido. Toma. (Tira do colo pequeno frasco, o faz beber; também ela o faz.)

Nos esconderemos na morte... Com um beijo te levo, amor de minha noite!

(Ajuda-o a deitar. Ele obedece com sorriso infantil. Deita a seu lado.

FADE até BLECAUTE. TEMPO.

Luz intensa ilumina de repente todo o Cenário. O local e o ambiente são os mesmos do primeiro ato. Mariana está sozinha no seu quarto, sentada na cama; cabisbaixa. A porta do guarda-roupa escancarada. TEMPO. Acorda assustada quando se ouve o grito de Filomena ressoando alto pela casa)

FILOMENA (Gritando do fundo) − Boboca, vem me limpar!

Levanta lentamente e vai até o guarda-roupa. TEMPO longo. Dentro dele não há ninguém. Fecha a porta e sai do quarto; atravessando a sala vai atrás do chamado de Filomena.

Fim

sexta-feira, 8 de dezembro de 2006

MULHERES : Mencken

As companheiras do homem, mesmo que mostrem respeito por seus méritos e autoridade, sempre o vêem secretamente como um jumento, e com uma sensação próxima da piedade. O que ele diz ou faz, por mais brilhante, raramente as engana; elas vêem o homem como ele é por dentro e o consideram um sujeito oco e patético.
Neste fato, talvez resida uma das melhores provas da inteligência feminina ou, como diz o lugar comum, da intuição feminina. As características desta assim chamada intuição são simplesmente uma aguda e acurada percepção da realidade, uma imunidade natural ao encantamento emocional e uma incansável capacidade para distinguir claramente entre a aparência e a substância. A aparência do homem, no círculo familiar comum, é a de um magnífico herói, um semi-deus. A substância é a de um pobre coitado.
É verdade que uma esposa costuma invejar seu marido em algumas de suas mais sinceras prerrogativas e sentimentalismos. Ela pode invejar sua masculina liberdade de movimentos e ocupações, sua impenetrável complacência, seu deleite caipira em pequenos vícios, sua capacidade para esconder a dura face da realidade numa capa de romantismo, sua inocência e infantilidade generalizadas. Mas ela nunca lhe inveja sua alma vulgar e pretensiosa.
Esta cortante percepção da fanfarronice e do faz de conta masculino, esta aguda compreensão do homem como o eterno tragicômico, estão na base daquela piedosa ironia que responde pelo nome de instinto maternal. As mulheres adoram tratar um homem como um filho porque conseguem enxergar sua incapacidade de defesa, sua necessidade de um ambiente acolhedor e sua tocante tendência a se iludir.
Este traço irônico não é apenas claro como água na vida real, diariamente; é também o que dá o tom da literatura feminina. Uma romancista se for competente o bastante para ser levada a sério, nunca trata os homens como heróis. Dos tempos de Jane Austen aos de Selma Lagerlöf, ela sempre injeta em seu próprio personagem um toque de superioridade ou de derrisão mal camufladas. Não consigo me lembrar de nenhum personagem masculino criado por uma mulher que não seja, no fundo, um palerma.
O fasto de ainda ser necessário, neste último estágio da senilidade humana, provar que as mulheres Têm uma fina e fluente inteligência, é uma prova eloqüente dos incuráveis preconceitos, da observação deficiente e da patetice completa de seus amos e senhores. As mulheres, na realidade, não são apenas inteligentes; também detêm quase um monopólio das formas mais sutis e úteis da inteligência. A coisa em si poderia ser razoavelmente descrita como um traço feminino especial; em mais de uma de suas manifestações existe uma feminilidade mais palpável do que a feminilidade da crueldade, do masoquismo e até do rouge em seu rosto.
Os homens são fortes. São bravos em combate físico. Os homens são românticos e amam aquilo que concebem como senso a beleza e a virtude. Os homens tendem à fé, à caridade e à sperança. Os homens sabem suar e carregar seus fardos.
Os homens são ternos e cordiais. Mas, assim que demonstram possuir os verdadeiros fundamentos da inteligência ou revelam capacidade para descobrir o cerne da verdade eternas no lusco fusco da ilusão e da alucinação e tentam trazêla à luz, neste ponto estarão sendo femininos, e ainda nutridos pelo leite de suas mães. Os traços e qualidades essenciais do homem, suas características ainda não poluídas, são as mesmas do homem das cavernas. O homem das cavernas limitava se a músculos e a um cérebro de mingau. Sem a mulher para conduzi-lo e pensar por ele, seria um espetáculo mais que lamentável: um bebê de barbas, um coelho na forma de um mamute, uma frágil e absurda caricatura de Deus.
Evidentemente, não quero dizer que a masculinidade não contribuiu para o complexo de reações químicas fisiológicas que produz o que chamamos de certas aptidões. O que quero dizer é que este complexo é impossível sem a contribuição feminina, ou seja, que ele é um produto da interação entre os dois elementos. Nas mulheres de talento podemos ver o quadro oposto. Há alguma coisa de masculino nelas, que as faz tanto se barbear quanto brilhar. Pense em Gorge Band, Catarina, a Grande, Elizabeth da Inglaterra, Rosa Bonheur, Teresa Carreño ou Cosima Wagner.
Nenhum dos dois sexos, sem alguma fertilização das características complementares
do outro, é capaz de atingir os picos da criatividade humana. O homem, sem o toque salvador da mulher que existe nele, é parvo, ingênuo e romântico demais, fácil de enganar e anestesiado em sua imaginação, o que não lhe permite ser mais do que um oficial de cavalaria, um teólogo ou um gerente de banco. E a mulher, sem qualquer traço daquela divina inocência masculina, seria rígida demais para aqueles vastos jatos de fantasia que se projetam no coração do que chamamos de gênios. Ao homem exclusivamente masculino falta a graça necessária para dar forma objetiva aos seus sonhos mais sublimes e secretos; e a mulher exclusivamente feminina torna se uma criatura cínica demais para ter o poder de sonhar.
O que os homens, em seu egoísmo, confundem constantemente com uma deficiência de inteligência na mulher, é apenas a incapacidade dela para dominar aquele complexo de conhecimentos mesquinhos ou aquela coleção de trivialidades cerebrais que constituem o principal equipamento mental do homem médio. Um homem pode pensar que é mais inteligente do que sua mulher porque é capaz de somar com menor margem de erro, porque se julga capaz de distinguir entre as idéias de políticos rivais ou porque julga se íntimo das minúcias de algum negócio ou profissão sórdidos ou degradantes. Mas esses talentos vazio não constituem realmente sinais de inteligência; são, na verdade, apenas uma minienciclopédia de truques e tramóias, cujo aprendizado exige pouco mais de seus poderes mentais do que se exige de um chimpanzé para aprender a recolher uma moeda ou acender um fósforo.
Toda a bagagem mental do empresário médio, ou mesmo do profissional médio, é desordenadamente infantil. Não se exige mais sagacidade para se levar adianta a condução diária do mundo ou despejar as doses habituais de burrice em nome da medicina e do direito, do que a de dirigir um táxi pó pôr um peixe para fritar. Nenhuma pessoa observadora conversa cinco minutos com a maioria dos empresários e dos profissionais limito-me aqui àqueles que deram certo e excluo os fracassados confessos – sem deixar de se maravilhar pela sua letargia intelectual, sua incurável ingenuidade ou sua fantástica falta de bom senso. O falecido Charles Francis Adams, neto de um presidente americano e bisneto de outro, depois de toda uma vida em íntimo contado com alguns dos principais gênios dos negócios na América, relatou, já idoso, que nunca ouviu nenhum deles dizer qualquer coisa que valesse a pena ser ouvida. Todos eram homens vigorosos e masculinos, o que os tornava bem sucedidos num mundo masculino. Intelectualmente, eram cartuchos de pólvora seca.
Mas há um terreno fértil a para perguntar se, se aqueles homens fossem inteligentes, chegariam a ser tão bem sucedidos em suas grosseiras empreitadas – e responde dizendo que a prova de suas mentalidades inferiores é exatamente a de terem conquistado e mentido com um simples lengalenga a sua pilha de bilhões. Esta idéia é facilmente provada pela conhecida incapacidade de homens inegavelmente de primeira classe diante de preocupações práticas e banais. É impossível imaginar, por exemplo, Aristóteles conseguindo multiplicar 3472701 por 99999 sem cometer um erro, interessando se pelo número de cavalos num automóvel ou pelo preço das geladeira numa liquidação. Pelo mesmo motivo, ninguém pensaria em Aristóteles tornando se um expert em bridge, golfe e outros jogos idiotas, como os quais os supostos homens bem sucedidos se divertem entre si. Em seu grande estudo sobre a maneira de ser dos britânicos, Havelock Ellis descobriu que a incapacidade para praticar certas façanhas é visível em quase todos os homens de primeira classe. Por exemplo, não sabe dar nós em gravatas. Confundem-se ao pôr suas contas em dia. Não entendem nada de política partidária. Em suma, não inertes e impotentes em todos os setores de desempenho nos quais o homem médio atinge suas mais altas performances. Esses homens de primeira classe são facilmente ultrapassados por outros cuja real inteligência está tão abaixo da deles quanto a dos Simidae.
Esta falta de aptidão para truques mentais ou de caráter trivial – que deve parecer a um barbeiro uma estupidez e a um caixa de banco uma imbecilidade completa – é um traço que os homens de primeira classe partilham com as mulheres de primeira, segunda e até de terceira classes. Raramente se ouve falar de mulheres que se deram bem em ocupações nas quais poderiam brilhar – por exemplo, afinar pianos, torna-se advogadas ou escrever editoriais de jornais, embora a grande maioria de tais ocupações esteja perfeitamente dentro dos seus poderes físicos e poucas delas imponham grandes barreiras sociais a que as mulheres as desempenhem.
Não há nenhuma razão externa para que elas não possam se impor nos tribunais, nas redações de revistas, como gerentes de fábricas e hotéis, e mesmo no comércio atacadista. Os tabus que encontram pelo caminho são míseros; várias mulheres aventurosas desafiaram nos com destemor e, assim que arrombaram a porta, não se viram absolutamente em desvantagem. Mas, como todo mundo sabe, o número de mulheres no ramo dos negócios ou na prática de tais profissões ainda é muito pequeno, e menor ainda o daquelas que atingiram alguma distinção na competição com os homens.
A causa disto, portanto, não é externa, mas interna. Reside na capacidade da mulher para aprender realidades mais amplas, na sua impaciência para o que considera reles e meretrício, enfim, numa desqualificação para a rotina mecânica e as técnicas vazias que se encontram em todas as variedades de homens. Até naqueles objetivos que os costumes da Cristandade lhes conferiram, as mulheres raramente mostram aquela proficiência semi-automática e convencional de que os homens se orgulham e se gabam. É um clichê observar que as donas de casa que realmente sabem cozinhar, costurar suas próprias roupas, ou são competentes para instruir seus filhos em matérias de moral, aprendizado e higiene, sabem também como esconder tudo isto. Mas as mulheres que sabem fazer tudo isto são raras e, quando se conhece uma, ela não se torna muito admirada por sua inteligência em conhecimentos gerais.
Isto é particularmente comum nos Estados Unidos, onde a posição da mulher é mais alta do que em qualquer outro país civilizado ou semi-civilizado, e onde a velha convicção de sua inferioridade intelectual vem sendo desafiada com sucesso. A mesa de jantar do americano burguês tornou-se um problema para a técnica deficiente da esposa americana. Ao convidado que respeita seu esôfago, instado a digerir aquela gororoba discordante e malfeita, aconselha-se que evite esta experiência todas as vezes que puder – ou então que se resigne àquilo, como alguém que se resigna a ser barbeado por um paralítico. Em nenhum outro lugar do mundo as mulheres têm mais liberdade e tempo de lazer para expandir suas mentes do que nos Estados Unidos, e em nenhum outro demonstram tal nível de inteligência – mas, ao mesmo tempo, em nenhum outro lugar serve-se uma comida caseira tão ruim, uma administração tão inepta da economia doméstica ou uma maior dependência de substitutos externos (que têm o homem como provedor). Certamente não será coincidência que a terra das mulheres emancipadas e entronizadas seja também a terra da comida enlatada: sopas, carne de porco, feijão, às vezes refeições inteiras em lata, e tudo pronto para servir. E em nenhum outro lugar há uma tendência mais chocante para se despejar a educação das crianças nas mãos de pedagogos e seu condicionamento físico a experts em playgrounds, além de sexólogos e outros tipos de profissionais, quase todos blefes.
Em resumo, as mulheres se rebelam – muitas vezes inconscientemente ou se submetendo de vez em quando – contra os truques burros e mecânicos que a atual organização da sociedade impõe à sua inteligência. Se elas gostassem e se orgulhassem desses truques, estariam tão de quatro quanto os homens que se contentam em ser garçons, contadores, caçadores de gazeteiros ou batedores de tapetes – e orgulhosas disto. A tendência inerente a qualquer mulher sobre tudo que lhe parece estúpido é a de fugir a qualquer obrigação ao mínimo. E quando algum imprevisto a isenta, temporária ou permanentemente, da tentação ao casamento, e ela entra em competição com os homens na condução dos negócios mundiais, a espécie de carreira em que ela se dispõe a batalhar fornece ainda mais provas de sua superioridade mental. Exemplos? Em qualquer atividade que não exija mais do que uma técnica invariável ou um pouco de esperteza, ela normalmente fracassa; em qualquer outra que exija talento criativo e um pensamento independente, a mulher normalmente se dá bem. É por isto que ela geralmente é um fiasco como advogada, porque a advocacia exige apenas um arsenal de frases ocas e fórmulas estereotipadas, além de um torpor mental que põe estes fantasmas acima do bom senso, da verdade e da justiça. É também um fiasco nos negócios porque estes, quase como regra, não passam de um composto tão fedorento de trivialidades e velhacarias que causam revolta à sua integridade intelectual. Mas ela é geralmente competente como enfermeira, uma profissão que requer engenhosidade, raciocínio rápido, coragem diante de situações desconcertantes, e, acima de tudo, capacidade para penetrar e dominar seu caráter.
Quando ela entra em competição com os homens no mundo das artes, particularmente naqueles planos secundários em que a simples esperteza mental ainda não recebeu o estalo do gênio, ela invariavelmente é capaz de empatar. No demi monde, qualquer um encontrará nesta mulher argúcia, ousadia e elasticidade suficientes diante de dificuldades especiais – enfim, qualidades capazes de tornar vergonhoso o equipamento exigido por profissões exclusivamente masculinas. Se o trabalho do homem médio exigisse metade da habilidade mental e criatividade do trabalho da proprietária de um bordel comum, este homem médio estaria sempre a um milímetro de passar fome.
Os homens, como se sabe, não acreditam na inteligência superior das mulheres; seu egoísmo exige esta descrença, e eles não são capazes de refletir o suficiente para mudar de idéia, mesmo diante de análises lógicas e de provas. Mais ainda, há uma certa aparência capciosa de certeza em suas posições; eles forçaram as mulheres a adotar uma personalidade artificial que esconda bem a verdadeira personalidade delas, e as mulheres acharam proveitoso estimular esta mentira. Mas, embora qualquer homem normal nutra esta balela de que é intelectualmente superior a todas as mulheres e, em partícula à sua esposa, constantemente entrega os pontos de sua pretensão consultando-a e dependendo daquilo que ele chama de intuição feminina.
Quer dizer, ele sabe por experiência que o juízo dela em assuntos de importância capital é mais sutil e penetrante que o dele – mas, relutante em creditar essa maior sagacidade a uma inteligência mais competente, ele se refugia na doutrina de que, nela, isto se deve a algum talento impenetrável e intangível para avaliar corretamente; uma espécie de sensibilidade meio mística ou um vago instinto, em essência, infrahumanos. A verdadeira natureza deste suposto instinto, entretanto, se revela por um exame das situações que inspiram o homem a pedir ajuda à mulher. Estas situações não brotam dos problemas puram ente técnicos que formam as suas preocupações do dia a dia, mas de problemas mais raros, fundamentais e difíceis, que o atormentam apenas de tempos em tempos e a intervalos irregulares, insistindo em testar, não a sua meta capacidade para espremer o crânio , mas a sua legítima capacidade de raciocínio.
Nenhum homem, exceto aquele conscientemente inferior ou calça curta, consultaria sua mulher sobre a contratação de um empregado, se deve emprestar dinheiro a um caloteiro ou sobre qualquer outro assunto rotineiro ou de mau gosto. Mas nem mesmo o mais egoísta dos homens deixaria de consultá-la a respeito de admitir um sócio em sua empresa, se deve entrar para a vida pública ou sobre o casamento de sua filha.
Tais coisas são de gigantesca importância; são elas que fundam o bem estar, exigem do homem a sua melhor cabeça para confrontá-las, e os perigos ocultos numa decisão errada superam até a sua vaidade. É em tais situações que a superior garra mental das mulheres é de óbvia utilidade, e tem de ser admitida. É então que elas superam seus insignificantes sentimentalismos, superstições e fórmulas que lhes foram inculcadas pelo homem, e aplicam ao caso o seu singular talento para separar a aparência da substância, e então exercem o que se considera sua intuição.
Intuição? Uma ova! As mulheres são as supremas realistas da espécie.
Aparentemente ilógicas, elas detêm uma superlógica rara e sutil. Aparentemente desligadas, agarram-se à verdade com uma tenacidade que resiste a cada fase das incessantes e gelatinosas mudanças de forma desta verdade. Aparentemente pouco observadores e fáceis de tapear, elas enxergam tudo, com olhos brilhantes e demoníacos. Também em alguns homens esta implacável perspicácia se revela – homens tidos como distantes ou menos inflamáveis do que a maioria, homens cínicos, sardônicos e com um talento especial para a lógica. Algumas vezes os homens também têm cabeça. Mas esta será um homem raro, muito raro, que consegue manter uma inteligência estável, capaz de juízos constantemente sólidos e que não deixa levar pelas aparências. Como, digamos, uma mulher multípara média de 48 anos.
1918

MULHERES FORA DA LEI
Um dos principais encantos da mulher na sociedade humana talvez seja o fato de que elas são relativamente incivilizadas. No cipoal de repressões e inibições pueris que tenta enredá-las, continuam a mostrar um lado cigano, meio fora da lei, se por acaso a lei se puser no caminho de seus interesses particulares. Vejamos agora o homem. Os picos da civilização são exaltados com tanto foguetório pelos sentimentalistas, que não conseguimos enxergar seus desprogressos. Intrinsecamente, perfeito é a marcha tipo passo de ganso. No sentido convencional, o homem civilizado é aquele que melhor conseguiu frear e conter seus instintos sinceros e naturais – ou seja, o homem que cometeu as violências mais cruéis contra o seu próprio ego no interesse do bem estar público. O valor deste bem estar é sempre superestimado. Para que serve, no fundo?
Simplesmente para favorecer o maior número – de velhacos, ignorantes e galinhas mortas. A aptidão para se submeter e prosperar confortavelmente nesta civilização de pés rapados é muito mais marcante nos homens que nas mulheres, e maior ainda entre os homens inferiores do que entre os homens de categoria superior. Deve ser óbvio, até para um asno tão patético quanto um professor universitário de História, que pouquíssimos dos homens de primeira classe eram inteiramente civilizados, no sentido que lhe atribuem os jornais. Pense em César, Napoleão, Lutero, Frederico o Grande, Comwell, Barba Ruiva, Inocêncio III, Bolívar, Aníbal, Alexandre e, peara chegar aos nossos tempos, Grant, Stonewall Jackson, Bismarck, Wagner e Cecil Rhodes.
O fato de que as mulheres têm uma capacidade maior do que os homens para controlar e esconder suas emoções não é uma indicação de que elas sejam mais civilizadas, mas uma prova de que elas são menos civilizadas. Esta capacidade é uma característica dos selvagens, não dos homens civilizados, e sua perda é um dos prejuízos que a espécie tem pago por seus canhestros picos de civilização. O verdadeiro selvagem – sempre reservado, digno e cortês – sabe como mascarar seus sentimentos, mesmo diante da mais temível ameaça; o homem civilizado sempre se rende à ameaça. A civilização torna-se cada vez mais histérica e babona e, especialmente sob a democracia, tende a degenerar num mero bate boca entre dementes. O único objetivo da prática política, por exemplo, é o de manter o povo alarmado (e, portanto, clamando por ser conduzido em segurança) por uma galeria interminável de capetas e papões, todos, claro, imaginários.
As guerras fugiram ao controle dos homens superiores – os únicos capazes de julgar sem paixão, mas com inteligência, as causas por trás delas e as conseqüências que advirão. Agora passaram a ser declaradas assim que se põe uma multidão em pânico, e só terminam quando já esgotaram sua fúria. Neste ponto, o efeito da civilização foi o de reduzir uma arte que era o repositório da coragem, e da vocação inata de alguns dos melhores homens, ao nível de um assalto a um bordel ou ao de uma briga no cais. Todas as guerras da Cristandade são agora repelentes e degradantes; sua condução passou das mãos dos nobres cavaleiros para as dos demagogos, agiotas e camelôs de atrocidades. Para podermos reconstituir a guerra em grande estilo, como concebiam o príncipe Eugène, Marlborough e o vleho Dessauer, temos que recuar aos povos bárbaros.
1921

A MULHER FRIA
O talento feminino para esconder a emoção é provavelmente o maior responsável pela convicção de tantos americanos do sexo masculino de que as mulheres são vazias de paixão, e é por isto que eles contemplam suas manifestações do mesmo tipo no macho quase que com horror. Este talento feminino fica ainda mais à vista quando se sabe que poucos observadores, nas raras ocasiões em que pesam no assunto, são propícios a uma observação científica. A verdade é que não há razão alguma para se acreditar que a mulher normal é frígida, ou que a minoria de mulheres inquestionavelmente o são tenham algum peso na balança. É a vaidade dos homens que dá tanto valor às mulheres do tipo virginal, o que faz com que este tipo tenda a crescer pela seleção sexual – mas, a pesar disto, está longe de superar a mulher normal, tão realistamente descrita pelos teólogos e publicistas da Idade Média. Seria apressado, no entanto, concluir que esta seleção longa e contínua não se faz sentir, mesmo no tipo normal. Seu principal efeito talvez tenha sido o de tornar mais fácil para a mulher conquistar e ocultar suas emoções do que para um homem.
Mas este é um mero reforço de uma qualidade inata ou que, pelo menos, antecipou de muito a ascensão daquela curiosa preferência já mencionada. Esta preferência obviamente deve a sua origem ao conceito da propriedade privada e é mais evidente nos países em que a maior concentração de propriedades está nas mãos dos homens – i.e., em que a casta dos proprietários conseguiu descer ao mais baixo estrato dos néscios e dos tapados. O homem de baixo nível nunca tem total confiança em sua mulher, a menos que seja convencido de que ela é totalmente desprovida de suscetibilidade amorosa. Ele fica inquieto quando ela dá algum sinal de responde à alturas às suas maneiras elefantinas, e fica mais desconfiado ainda quando ela reage com chama ao que deveria ser um casto beijo conjugal. Se ele conseguisse se livrar de tais suspeitas, haveria menos tagarelice pública a respeito de mulheres assexuadas, menos livros seriam escritos por charlatões propondo esta ou aquela “cura”, e muito menos formalismo e monotonia no recesso do lar.
Tenho a impressão de que esta espécie de marido está prestando a si mesmo um péssimo favor, e que ele não gosta de ficar consciente disto. Tendo capturado uma mulher segundo as conveniências do seu gosto austero, ele logo descobre que ela o deprime – que sua vaidade foi quase tão penosamente atingida pela inércia emocional dela como o teria sido por um espírito mais provocante e hedonista. Pois o que mais delicia um homem é ver uma mulher atravessar a barreira da solene submissão, em direito à potência afrodisíaca do seu grande amor – ou seja, o contraste agudo e envaidecedor entre a reserva que ela mantem na presença de outros homens e sua absoluta entrega a ele na intimidade. Isto faz cócegas em sua vaidade. Ao resto do mundo, ela parece remota e inabordável; para ele, ela é dócil, palpitante, efervescente, e até mesmo abandonada. Quanto maior o contraste entre os dois fronts da moça, maior a satisfação dele – até o ponto em que isto levanta as suspeitas do paspalhão. No momento em que ela diminui um pouquinho este contraste em público – ao sorrir para um ator atraente, ao dizer uma palavra a mais a um mâitre que lhe deu atenção, ao segurar a mão do padre nas despedidas ou ao piscar de brincadeira para o marido de sua irmã, imediatamente o matuto começa a procurar por bilhetes clandestinos, contrata detetives particulares ou passa a examinar atentamente os olhos, orelhas,narizes e o cabelo de seus filhos com dúvidas vergonhosas. Isto explica muitas catástrofes domésticas.
1921

INTERMEZZO SOBRE A MONOGAMIA
O predomínio do casamento monogâmico no reino de Cristo é comumente atribuído a considerações éticas. Isto é tão absurdo quanto atribuir à guerras a mesma consideração. A simples verdade é a de que tais considerações não passam de deduções extraídas da experiência e são rapidamente abandonadas quando a experiência se volta contra elas. No presente caso, a experiência ainda está abundantemente a favor da monogamia; os homens civilizados a preferem, porque acham que a monogamia funciona. E por que funciona? Porque é o mais eficiente de todos os antídotos disponíveis aos alarmes e terrores da paixão. A monogamia, em suma, mata a paixão – e a paixão é o mais perigoso de todos os inimigos da suposta civilização , a qual é baseada na ordem, no decoro, na repressão, na formalidade, no trabalho e na disciplina.
O homem civilizado – o homem civilizado ideal – é aquele que nunca sacrifica a segurança dos seus por paixões particulares. Ele chega à perfeição quando deixa de amar apaixonadamente – quando reduz a mais profunda de suas experiências instintivas, do nível do êxtase para o nível de um mero estratagema para municiar exércitos ou construir fábricas, mandar reformar suas roupas, reduzir a mortalidade infantil, arranjar mais inquilinos para cada senhoria ou informar a polícia sobre o que qualquer cidadão pode estar fazendo de dia ou de noite. A monogamia consegue tudo isto ao destruir o apetite. Ela força as duas partes contratantes a uma intimidade
tão persistente quanto não atenuada; estão sempre firmemente de acordo em muitos
pontos. Pouco apouco, o mistério do relacionamento se evapora e o homem e a mulher atingem aquele ponto assexuado de irmão e irmã. Portanto, aquele maximum de tentação de que fala George Bernard Shaw já contém em si as raízes da sua própria decadência. Todo marido começa por beijar uma garota bonita (sua esposa) e termina maquiavelicamente evitando beijar aquela com quem ele partilha diariamente as refeições, os livros, as toalhas de banho, a carteira, os parentes, as ambições, os segredos, as doenças e os negócios – um procedimento tão romântico quanto o de mandar que lhe engraxem os sapatos. Nem mesmo o inato sentimentalismo do homem consegue superar o desgosto e a chatice disso tudo. E nem mesmo a capacidade histriônica da mulher pode ver nisto qualquer sombra de volúpia ou espontaneidade.
Os defensores da monogamia, iludidos pelos seus reflexos morais, deixam de usufruir todas as vantagens que há nela. Considere, por exemplo, a importância moral de preservar a virtude dos não casados – ou seja, daqueles ainda capazes de se apaixonar. O atual plano para se lidar com, digamos, um jovem de vinte anos é cercá-lo de espantalhos e proibições – para tentar convencê-lo logicamente de que a paixão é perigosa. Isto é um abuso e uma imbecilidade – abuso, porque ele próprio já sabe que ela é perigosa; e imbecilidade, porque é impossível sufocar uma paixão lutando contra ela. A maneira de matá-la é dar-lhe corda sob condições desfavoráveis e desanimadores para vergá-la ao chão, pouco a pouco, até reduzi-la a um absurdo ou horror. Muito mais ainda poderia ser conseguido se fosse proibida a poligamia a estes jovens antes do casamento, mas permitida a monogamia. A proibição, neste último caso, seria relativamente fácil de impor, ao invés de impossível, como no outro. A curiosidade ficaria satisfeita; a natureza sairia da jaula; mesmo o romance teria a sua chance, 99% dos jovens se submeteriam, mesmo porque seria mais fácil submeter-se do que resistir a ela.
E o resultado? Obviamente seria louvável – isto é, aceitando-se a atual definição de louvável. O resultado final, seis meses depois, seria um jovem desiludido e no cabresto, tão desprovido de paixão quanto um velho de oitenta anos – em suma, o cidadão ideal do reino de Cristo.
1921

A LIBERTINA
O homem médio de nosso tempo é muito mais virtuoso do que sua mulher o imagina – muito menos escolado no pecado e ainda menos voluntarioso no amour . Não estou dizendo, é claro, que ele seja um puro de coração, porque tudo indica que não é; quero dizer apenas que, na grande maioria dos casos, ele é puro na ação, mesmo sob enorme tentação. E por quê? Por várias razões importantes, para nos limitar a estas: uma delas é a de que lhe falta a coragem; outra é a de que lhe falta dinheiro; e outra é a de que ele é fundamentalmente um ser moral, com consciência. Falta-lhe uma boa dose de iniciativa pecaminosa para que ele mergulhe em qualquer affaire, exceto o mais sórdido e casual. Um homem pode forçar sua esposa a partilhar com ele a mais tenebrosa pobreza, mas até mesmo a menos vampiresca das amantes lhe exigirá ser cortejada em grande gala, e os custos desta gala afugentam todo eles, exceto aqueles poucos colecionadores de decepções. Assim, enquanto a esposa souber de cor e salteado os rendimentos do marido, terá todos os instrumentos para fazê-lo dobrar-se aos seus juramentos.
Mais eficiente ainda do que a barreira fiscal é a barreira da pusilanimidade. O traço que distingue o homem dos outros vertebrados é o seu medo excessivo, sua submissão aos alarmes e sua incapacidade para a aventura sem uma multidão às suas costas. Em sua encarnação normal, ele é tão incapaz de iniciar uma relação extraconjugal – flertes rápidos com garçonetes não contam – quanto de escalar os parapeitos do Inferno. Bem que ele gostaria de ser capaz, assim como gosta de imaginar se comandando uma carga de cavalaria ou escalando o Matterhorn. Quase sempre, por sinal, sua vaidade o faz imaginar que ele realizou aquilo, embora admita,por rubores e piscadelas, que ainda pode fazer melhor. Mas, no fundo de toda esta presunção, não há nada mais que um saco de vento. Qualquer mulher a quem venham contar as escapadelas de seu marido não demora muito a se perguntar quanto tempo ele levaria para pedi-la em casamento, se lhe fosse deixada toda a iniciativa – e chega à conclusão de que uma criatura tão pusilânime dificilmente ficaria bem no papel de Don Juan.
Finalmente, há a sua consciência – o sedimento acumulado de covardia ancestral, durante incontáveis gerações, com vagos temores e superstições religiosas para temperá-los e derretê-lo. O quê! Consciência? Sim, meus caros, consciência. Esta consciência pode ser imperfeita, inepta, barata ou de uma burrice a toda prova. Às vezes, pode ser tão indistinguível quanto o medo de que alguém está nos olhando. E é alimentada com hipocrisia, estupidez ou falsidade. Mesmo assim, dentro dos parâmetros da Cristandade, faz perfeitamente jus ao nome – e está sempre em ação. O homem, lembre-se, não é um ser in vácuo; é o fruto e o escravo do ambiente que o
banhou. Não se pode entrar para a Legislatura ou para uma prisão sem se tornar, em alguma medida, um personagem dúbio. Assim como não se consegue viver num moderno Estado democrático, ano após ano, sem cair até certo ponto, pelo menos, sob aquela obsessão moral que é a marca distintiva do homem turba à solta.
No momento em que uma Tentação concreta se levanta diante dele, com seu nariz empoado, os lábios escarlates e pestanas provocantemente caídas – no momento em que ele parece estar fisgado, e sua falta de fundos conspira com sua falta de coragem para tomá-lo de assalto, naquele preciso momento, sua consciência entre em função e acaba com a festa. Primeiro, ele vê as dificuldades; depois, o perigo; e, finalmente, o pecado. O resultado é que ele bate em retirada e o resultado é que a tentadora Vê fugir a sua presa. Chega a ser o escândalo secreto da Cristandade, pelo menos nas regiões protestantes, que a maioria dos homens seja fiel às suas mulheres.
É preciso gastar a sola do sapado para se conhecer um homem que admita ser casado, mas nestes são os fatos. Para cada marido americano que sustenta uma corista em luxúria nababesca, haverá centenas que, ano após ano, continuam fiéis aos juramentos e tornaram-se tão incapazes de um desvio quanto de cortar as orelhas de seus filhos. São como os condenados à cela da morte.
1921

A ISCA DA BELEZA
Exceto no palco, o homem bonito não leva mais vantagem no amour do que seu irmão mais gótico. De fato, na vida real, ele é visto com maior suspeição por todas as mulheres, exceto as muito estúpidas. Uma balconista de mercadinho pode perfeitamente se apaixonar por um astro do cinema, assim como uma viúva velha e retardada pode sucumbir a um gigolô que tenha ombros de Parthenon, mas nenhuma mulher que se dá o respeito – mesmo supondo a momentaneamente atraída por uma boa grana – iria se render àquela loucura ou confessá-la à sua melhor amiga. Este desdém pelo bonitão costuma ser interpretado pelos psicólogos amadores como uma falta de senso estético das mulheres – e que lhes falta a pronta e delicada resposta masculina diante da beleza. Nada poderia ser mais absurdo. As mulheres, na verdade, têm um senso estético muito mais afiado que o do homem. A beleza é mais importante para elas; pensam mais no assunto; e anseiam mais por ela em seus ambientes. O homem médio, pelo menos na Inglaterra e na América, ostenta um orgulho bovino pela sua indiferença às artes, exceto aquelas que talvez consigam diverti-lo; raramente vê-se um homem mostrando metade do entusiasmo que sua mulher demonstra na presença de um belo tecido, uma cor inusitada ou uma forma graciosa. As mulheres são resistentes à assim chamada beleza do homem pela razão simples e suficiente de que tal beleza é, em grande parte, imaginária. Um homem verdadeiramente belo é tão raro, na verdade, quanto uma jóia verdadeiramente.
O que os homens tomam como beleza em si próprios normalmente não passa de uma pompa oca, uma revoltante ostentação, o esplendor superficial de um saracoteio animal. O mais atraente astro do cinema, visto à luz de autênticos valores estéticos, não passa de uma vulgaridade ambulante; seu semelhante poderá ser encontrado, não na galeria Uffizi ou entre as harmonias de Brahms, mas entre sofás de pelúcia, relógios rococós ou quadros arrematados num leilão de terceira. Todas as mulheres, exceto as menos inteligentes, radiografam esta impostura com seus olhos. Elas sabem que o corpo humano, a não ser por algum tempo na infância, não é belo, mas pavoroso. Seus próprios corpos femininos não lhe provocam deleite; daí seu constante esforço para escondê-lo ou disfarçá-lo; elas nunca os exporiam esteticamente, mas apenas como um ato de aberta provocação sexual. Se se anunciasse que um elenco inteiramente masculino faria um strip tease num palco, as únicas mulheres que compareceriam ao espetáculo seriam algumas adolescentes retardadas, uma ou duas solteironas psicopatas e uma brigada de indignadas senhoras da igreja local. Os homens não demonstram uma apreensão tão sagaz da beleza relativamente frágil da constituição humana. A isca mais eficiente que uma mulher pode jogar é aquela que ele, totalmente, concebe como sendo a beleza dela. Esta suposta beleza é,quase sempre pura ilusão. O corpo feminino, mesmo em sua melhor forma, é deficiente em forma; tem curvas muito fechadas e massas mal distribuídas; comparadas a ele, uma simples leiteira de barro ou mesmo uma cuspideira de porcelana têm um design mais inteligente e satisfatório – são, em suma, objets d’art. Na popa e na proa, toda mulher contém duas massas que se recusam a combinar numa composição equilibrada. Vista de lado, parece um S exagerado, dividido ao meio por uma imperfeita linha reta que a faz parecer uma moeda amassada por um bêbado. Mais ainda, é extremamente raro encontrar uma mulher que demonstre a mais modesta consciência do que o seu sexo é capaz; só a beleza rara chega a ser tolerável. A mulher média, até que a arte corra em seu socorro, é pouco graciosa, mal esculpida e toscamente articulada, mesmo para uma mulher. Se ela tem um belo torso, pode se apostas que tem pernas arqueadas. Se suas pernas são bonitas, o cabelo será feio. Se tiver belos cabelos, é quase certo que também terá mãos descarnadas, olhos turvos ou falta de queixo. Uma mulher que passe por todos os testes é tão incomum que se torna uma espécie de maravilha e, quase sempre, passa a ganhar a vida exibindo-se como tal, seja no palco, no submundo ou como a jóia particular de algum rico connoisseur. Mas esta falta de autêntica beleza nas mulheres não lhes traz nenhuma desvantagem prática nos negócios primários do seu sexo, porque seus efeitos são mais que superados pela sugestibilidade emocional, a hercúlea capa cidade para a ilusão e a quase total falta de senso crítico dos homens. Os homens não exigem a beleza autêntica, mesmo que em pequenas doses; contentam se perfeitamente com a mera aparência da beleza, porque não têm nenhum talento para diferenciar o artificial do real. Uma camada de pó de arroz, bem aplicada sobre um rosto, lhes é tão satisfatória quanto uma pele de damasco. Uma peruca feita com os cabelos do cadáver de um chinês, artisticamente penteados e tingidos, os deleita tanto quanto as tranças de Vênus. Seios falsos os atraem com a mesma eficiência de um busco autêntico e rijo. Um belo vestido o satisfaz até com mais segurança do que pernas, ombros, mãos ou olhos realmente belos. Em suma, os homens avaliam as mulheres e as adquirem como esposas pela força dos seus aspectos puramente superficiais, o que é tão inteligente quanto avaliar um ovo pela casca. Nunca vãos aos bastidores; nunca lhes ocorre analisar as impressões que receberam. O resultado é o de que muitos homens, tapeados por esses aperfeiçoamentos sem valor, já estarão casados há anos quando conseguirem realmente enxergar sua mulher – ou, pelo menos, como se supõe que o Pai Celestial a veja ou como o seu embalsamador a verá. Todos os truques podem parecer óbvios e infantis para as mulheres, mas, diante de um espectador tão ingênuo como o homem, elas não resistem à tentação de continuar à praticá-los. Uma enfermeira diplomada me contou que, mesmo tendo passado pelo extremo desconforto de um parto, a grande maioria das mulheres continuam a tentar mudar sua compleição física através de processos químicos ou preocupando-se com o arranjo de seu cabelo. Engodos como estes chegam a ser transparentes, mas bastam para armar a cilada e fazer de bobo mesmo o mais prudente dos homens.
E, aberto o caminho para esta surdez, burrice e cegueira, a vaidade masculina instantaneamente se reforça. Ou seja, assim que um homem normal sucumbe aos charmes postiços de um tipo definido (ou, mais precisamente, assim que esse tipo definido diz “É este!” e o leva pelo nariz), ele defende a sua escolha com fúria e vigor, mulher que não é bonita constitui um insulto tão intolerável que nem mesmo um inimigo costuma se atrever a tanto. Soaria muito menos ofensivo dizer-lhe que sua mulher é uma idiota. Em comparação, seria como acariciá-lo cuspindo-lhe no olho. O ego do macho é simplesmente incapaz de digerir tal afronta. É uma arma tão ignominiosa quanto o veneno dos Borgias. E é assim que, em termos humanos, uma conspiração do silêncio circunda a ilusão da beleza feminina, e à sua vítima é permitido deliciar-se com ela como se fosse de verdade. As iscas que ele morde não são comíveis e nem o alimentam, mas são brilhantes e espalhafatosas. Ele sucumbe a um par de olhos bem pintados, a um torneio gracioso de um corpo, a uma compleição sintética ou a uma bela amostra de pernas, sem dar a mínima atenção ao fato de que ali pode haver uma mulher inteira, e que, no interior da cavidade craniana da mulher existe um cérebro, e que as idiossincrasias deste cérebro são muito mais importantes do que todos os estigmas físicos combinados. Mas poucos homens, perdidos neste Dédalo emocional, são capazes de um exame mais claro desses fatos. Eles driblam esses fatos, mesmo quando lhes são favoráveis, e depositam toda a ênfase nas superficialidades enganadoras. O estúpido e sentimental homem médio, quando tem uma mulher notavelmente sensível, só falta pedir desculpas por isto. O ideal do seu sexo é sempre uma mulher bonita, e a vaidade e frivolidade que costumam acompanhar a beleza tornam-se os totens do encanto.

O LUGAR DO HOMEM NA NATUREZA: Mencken

Como já disse, a teoria antropomórfica do mundo revelou-se absurda diante da moderna biologia – o que não quer dizer, naturalmente, que um dia a tal teoria será abandonada pela grande maioria dos homens. Ao contrário, estes a abraçarão à medida que ela se tornar cada vez mais duvidosa. De fato, hoje, a teoria antropomórfica ainda é mais adotada do que nas eras de obscurantismo, quando a doutrina de que um homem era um quase-Deus foi no mínimo aperfeiçoada pela doutrina de que as mulheres são inferiores. O que mais está por trás da caridade, da filantropia, do pacifismo, da “inspiração” e do resto dos atuais sentimentalismos?
Uma por uma, todas estas tolices são baseadas na noção de que o homem é um animal
glorioso e indescritível, e que sua contínua existência no mundo deve ser facilitada e assegurada. Mas esta idéia é obviamente uma estupidez. No que se refere aos animais, e mesmo num espaço tão limitado como o nosso mundo, o homem é tosco e ridículo.
Poucos bichos são tão estúpidos ou covardes quanto o homem.
O mais vira-lata dos cães tem sentidos mais agudos e é infinitamente mais corajoso, para não dizer mais honesto e confiável. As formigas e abelhas são, de várias formas, mais inteligentes e engenhosas; tocam para a frente seus sistemas de governo com muito menos arranca-rabos, desperdícios e imbecilidades. O leão é mais bonito, digno e majestoso. O antílope é infinitamente mais rápido e gracioso. Qualquer gato doméstico comum é mais limpo. O cavalo, mesmo suado do trabalho, cheira melhor. O gorila é mais gentil com seus filhotes e mais fiel à companheira. O boi e o asno são mais produtivos e serenos. Mas, acima de tudo, o homem é deficiente em coragem, talvez a mais nobre de todas as qualidades. Seu pavor mortal não se limita a todos os animais do seu próprio peso ou mesmo da metade do seu peso – exceto uns poucos que ele degradou por cruzamentos artificiais-, seu pavor mortal é também daqueles da sua própria espécie – e não apenas de seus punhos e pés, mas até de suas risotas.
Nenhum outro animal é tão incompetente para se adaptar ao seu próprio ambiente. A criança, quando vem ao mundo, é tão frágil que, se for deixada sozinha por aí durante dias, infalivelmente morrerá, e essa enfermidade congênita, embora mais ou menos disfarçada depois, continuará até a morte. O homem adoece mais do que qualquer outro animal, tanto em seu estado selvagem quanto abrigado pela civilização. Sofre de uma variedade maior de doenças e com mais freqüência. Cansa-se ou fere-se com mais facilidade. Finalmente, morre de forma horrível e geralmente mais cedo. Praticamente todos os outros vertebrados superiores, pelo menos em seu ambiente selvagem, vivem e retêm suas faculdades por muito mais tempo. Mesmo os macacos antropóides estão bem à frente de seus primos humanos. Um orangotango casa-se aos sete ou oito anos de idade, constrói uma família de setenta ou oitenta filhos, e continua tão vigoroso e sadio aos oitenta quanto um europeu de 45 anos.
Todos os erros e incompetências do Criador chegaram ao seu clímax no homem. Como peça de um mecanismo, o homem é o pior de todos; comparados com ele, até um salmão ou um estafilococo são máquinas sólidas e eficientes. O homem transporta os piores rins conhecidos da zoologia comparativa, os piores pulmões e o pior coração. Seus olhos, considerando-se o trabalho que são obrigados a desempenhar, são menos eficientes do que o olho de uma minhoca; o Criador de tal aparato ótico, capaz de fabricar um instrumento tão cambeta, deveria ser surrado por seus fregueses. Ao contrário de todos os animais, terrestres, celestes ou marinhos, o homem é incapaz, por natureza, de deixar o mundo em que habita.
Precisa vestir-se, proteger-se e armar-se para sobreviver. Está eternamente na posição
de uma tartaruga que nasceu sem o casco, um cachorro sem pêlos ou um peixe sem
barbatanas. Sem sua pesada e desajeitada carapaça, torna-se indefeso até contra as moscas. E Deus não lhe concedeu nem um rabo para espantá-las.
Vou chegar agora a um ponto de inquestionável superioridade natural do homem: ele tem alma. É isto que o separa de todos os outros animais e o torna, de certa maneira, senhor deles. A exata natureza de tal alma vem sendo discutida há milhares de anos, mas é possível falar com autoridades a respeito de sua função. A qual seria a de fazer o homem entrar em contato direto com Deus, torná-lo consciente de Deus e, principalmente, torná-lo parecido com Deus. Bem, considere o colossal fracasso desta tentativa. Se presumirmos que o homem realmente se parece com Deus, somos levados à inevitável conclusão de que Deus é um covarde, um idiota e um pilantra. E, se presumirmos que o homem, depois de todos esses anos, não se parece com Deus, então fica claro imediatamente que a alma é uma máquina tão ineficiente quanto o fígado ou as amídalas, e que o homem poderia passar sem ela, assim como o chimpanzé, indubitavelmente, passa muito bem sem alma.
Pois é este o caso. O único efeito prático da se ter uma alma é o que ela infla o homem vaidades antropomórficas e antropocêntricas – em suma, com superstições arrogantes e presunçosas. Ele se empertiga e se empluma só porque tem alma – e subestima o fato de que ela não funciona. Assim, ele é o supremo palhaço da criação, o reductio ad absurdum da natureza animada. Não passa de uma vaca que acredita dar um pulo à Lua e organiza toda a sua vida sobre esta teoria. É como um sapo que se gaba de combater contra leões, voar sobre o Matterhorn ou atravessar o Helesponto.
No entanto, é esta pobre besta que somos obrigados a venerar como uma pedra preciosa na testa do cosmos. É o verme que somos convidados a defender como o favorito de Deus na Terra, com todos os seus milhões de quadrúpedes muito mais bravos, nobres e decentes – seus soberbos leões, seus ágeis e galantes leopardos, seus imperiais elefantes, seus fiéis cães, seus corajosos ratos. O homem é o inseto a que nos imploram, depois de infinitos problemas, trabalho e despesas, a reproduzir. Mencken

segunda-feira, 4 de dezembro de 2006

O ÓBITO DO POETA

por Ralph J. Hofmann

A cada tanto encontro mais alguma coisa que me deixa pasmo com as opiniões dos Chico Buarques, L.F. Veríssimos e outros tantos artistas e particularmente escritores e compositores em relação às ameaças representadas pela total ausência de moralidade na vida pública e ainda mais, seu óbvio desprezo por tudo que não seja a perpetuação no poder, passando diretamente pela tentativa de controlar a disseminação de idéias.

Uma negação dessas é particularmente obscena vindo de um poeta maior, que certamente deveria estar na Academia Brasileira de Letras como é o Chico Buarque. Mas está longe de estar sozinho.

Ha pouco reli o óbito de Gyorgy Faludy, 95 anos, morto em Setembro deste ano. O poeta húngaro preso entre 1950 e 1953 numa prisão estalinista escrevia seus poemas com seu sangue em papel higiênico. Os companheiros de cárcere memorizavam as obras e os que eram soltos ditavam os poemas para a esposa do poeta.

Faludy foi libertado após a morte de Stalin, mas as marcas da prisão nunca desapareceram. Em 1983 escreveu:

Decorem este meu poema
Livros são efêmeros
Este será emprestado, rasurado,
Queimado pelos guardas na fronteira húngara
Extraviado pela biblioteca, sua espinha será quebrada
Será reduzido a pó pelos cupins
Ou amarelará e entrará em combustão
Quando a temperatura Farenheit chegar
A 451, a temperatura que sua cidade atingirá
Ao ser queimada.
Decorem este meu poema.


(Me desculpem a tradução muito pobre)

Ante a simpatia do governo húngaro pelo nazismo antes da segunda guerra Faludy se refugiara na França em 1938. Depois se refugiara no Marrocos donde fora aos Estados Unidos e se alistara. Voltou à Hungria assim que terminou a guerra e viu conforme disse “a construção de uma democracia sem democratas”

Em Outubro de 1956, quando os tanques russos entraram em Budapest, tendo participado da resistência Faludy novamente se exilou passando por vários países e finalmente se fixando em Toronto. Voltou do Canadá em 1989, um monumento vivo à resistência húngara.

Esse caso está longe de ser único ou excepcional na história dos países da Cortina de Ferro ou da Cortina de Bambu. E certamente são conhecidos dos intelectuais de esquerda do Brasil. Basta lembrar Solzhenytzin ou o tratamento dispensado a Boris Pasternak, apenas para citar dois sobreviventes do sistema, um encarcerado e outro tratado como não-pessoa, protegido pela sua popularidade internacional.

Então por que nossos intelectuais, que influenciam massas de jovens, se prestam a serem vivandeiras dos que claramente não estão dando a mínima importância às responsabilidades do poder, somente às prerrogativas do poder.

Ao fecharem seus olhos ao que ocorre à nossa volta, em lugar de combaterem os indivíduos que deram provas mais do que suficientes de sua amoralidade, tornam-se co-responsáveis seja de uma guerra fratricida em potencial, não importa qual o lado que a faça eclodir, seja de uma destruição futura de formas de arte ou literárias que não se enquadrem no padrão oficial.

“Apesar de Você”, Chico Buarque? Não. Você não é mais o autor desse poema. Agora você está lubrificando as engrenagens de uma máquina de coagir. É uma criança brincando com a “Caixa de Pandora”.

Publicado em 01/12/2006

A CANETA DE VERISSIMO

Perfil do Articulista
Rodrigo Constantino é economista, formado pela PUC-RJ, com MBA de Finanças pelo IBMEC. Saiba mais!
A CANETA DE VERISSIMO

por Rodrigo Constantino



Quando penso que o colunista Verissimo vai desistir do seu proselitismo e voltar para os bons artigos sobre o cotidiano, o gaúcho aparece com mais um espetáculo de ideologia barata. No seu último artigo, Parker 51, Verissimo conta uma rápida história de como tinha um símbolo todo especial a caneta que ele pegava emprestado com o pai para fazer sua prova final. Reconhece que não era pela sua maior eficiência que a pedia, mas pelo simbolismo que tinha. A história, que parece meio sem sentido no começo, mostra no final a intenção do autor, ao afirmar que é “esse significado maior, que não é mensurável, que não se julga nem tecnicamente nem pelo resultado da prova, que nunca entra na equação dos privatistas”. Verissimo está condenando aqueles que defendem a privatização da Petrobras pelo argumento da eficiência, que ele parece ao menos reconhecer ser maior na gestão privada. Assim como a caneta Parker que seu pai lhe emprestava, ele acredita que a empresa tem um valor simbólico, e por isso deve permanecer uma estatal, ainda que seja menos eficiente assim. Os “ultraliberais” seriam insensíveis para este sentimento tão nobre e superior.

Há uma “pequena” diferença, que o ilustre colunista parece não perceber. No caso da canetinha, sua propriedade era bem definida. Ela era do pai de Verissimo, que tinha o direito de emprestá-la para quem quisesse, pelo motivo que fosse. Mas a Petrobras não. A Petrobras utiliza recursos públicos, é propriedade estatal, e por isso pertence, ao menos na teoria, a cada pagador de imposto. Ela não é do Verissimo apenas. E, portanto, ele não tem o direito de torrar o dinheiro alheio, via maior ineficiência, em troca da busca desse lindo sentimento de simbolismo. Verissimo, que é bem rico, poderia juntar várias outras nobres almas – e com o bolso cheio também – para comprar a Petrobrás do governo, e aí esses sensíveis homens poderiam fazer o que quisessem com a empresa, inclusive levá-la à bancarrota em nome do símbolo que ela representa. Os insensíveis, que precisam pensar na eficiência, seriam poupados assim.

Talvez a explicação para Verissimo não ter notado tão gritante distinção entre os casos de sua analogia esteja no seu próprio artigo, quando assume que sempre foi “um péssimo aluno, da tribo dos que passavam raspando”. Talvez, se tivesse estudado um pouco mais...


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