Fantasma Sai de Cena, de Philip Roth, fala de velhice e da proximidade da morte
Daniel Galera
Mais ou menos na metade de Fantasma Sai de Cena há uma passagem antológica, um parágrafo que pode ser visto como eixo para todo o romance. Nele, Philip Roth refere-se à ficção literária como uma amplificação efêmera do quociente de dor que nos cabe na vida, porém observa: 'Para umas poucas , muito poucas, essa amplificação, que brota do nada, insegura, constitui a única confirmação, e a vida não vivida, especulada, traçada no papel impresso, é a vida cujo significado acaba sendo mais importante.'
Vinda de um autor grandioso com a obra alicerçada em alter egos, a declaração de que a ficção importa mais que a vida é difícil de ser ignorada, sobretudo quando quem a enuncia é Nathan Zuckerman, o maior 'outro eu' de Roth, que, supostamente, se despede para sempre nesse volume.
O livro não se resume, é claro, a essa defesa do valor intrínseco da ficção. Numa narrativa sucinta e vigorosa, ressurgem aqui diversos temas caros ao autor, como a proximidade da morte, os reflexos da situação política e histórica na vida privada dos americanos e, sobretudo, o combate das paixões - acima de todas o desejo sexual - com as forças superiores que tentam abafá-las. A partir do esplêndido O Teatro de Sabbath (1995), seus protagonistas cerceados pela religião, pelos vínculos familiares, pela moral e pelos bons costumes ganharam um novo oponente, certamente o mais implacável de todos: a velhice.
A satisfação dos desejos, por mais transitória e ambígua que fosse, ainda era a desforra de personagens idosos como Mickey Sabbath, o Coleman Silk de A Marca Humana (2000) e o David Kepesh de O Animal Agonizante (2001). Para o Zuckerman de Fantasma Sai de Cena, porém, o cerco se fecha: a extração de uma próstata cancerosa o deixou não apenas incontinente, mas também impotente.
Não é indispensável conhecer as peripécias anteriores de Zuckerman para entender o que se passa no novo livro, mas há vínculos importantes, em especial com The Ghost Writer (no Brasil, Diário de Uma Ilusão), de 1979, no qual o personagem, então com 23 anos, se encontra com E. I. Lonoff, um escritor capaz de renunciar a tudo em nome da literatura. Zuckerman cobiça não apenas a disciplina de seu ídolo, mas também sua jovem amante, Amy Bellette.
Em Zuckerman Unbound (1981), nosso herói conhece as amargas conseqüências do sucesso repentino de seu romance Carnovsky (como ocorreu com Roth e seu O Complexo de Portnoy, de 1969). É um homem acuado, ignorando os leitores que 'confundiam faz-de-conta com confissão e gritavam na rua para um personagem que vivia dentro de um livro'.
Fantasma Sai de Cena se passa em 2004 e nos apresenta Zuckerman aos 71 anos. Após um auto-exílio de 11 anos num lugarejo nas montanhas, o consagrado escritor retorna a Nova York para um tratamento contra incontinência urinária. Tendo passado mais de uma década isolado sem celular, computador, televisão e jornais, livre da 'tirania de sua intensidade emocional', ele rapidamente se vê 'de volta ao drama, ao momento, ao turbilhão dos acontecimentos'. Primeiro, avista Amy Bellette numa lanchonete, ostentando na cabeça raspada a cicatriz de uma cirurgia. Depois, vê nos classificados de uma revista um anúncio assinado por dois jovens escritores propondo trocar seu apartamento em Manhattan por um refúgio rural. Por impulso, telefona para o casal e aceita a troca. E assim Zuckerman conhece Jamie Logan.
Assim que vê Jamie, Zuckerman fica enfeitiçado. A simples presença da linda moça de 30 e poucos anos no mesmo recinto exerce um efeito devastador. Mas ele já não é um 'homem inteiro'. É um velho impotente que usa fraldas e não sabe quem é Tom Cruise. Para piorar, vê-se perseguido por um ex-namorado de Jamie, o impetuoso Richard Kliman, que pretende escrever a biografia de Lonoff e revelar um segredo escabroso sobre a vida pessoal do autor falecido. Zuckerman decide impedi-lo a qualquer custo, não apenas para honrar a memória de seu ídolo e proteger Amy, mas também porque Richard representa a virilidade e a juventude perdidas. Agora Zuckerman sabe que é tarde demais para retornar ao seu refúgio. O tumulto das paixões o engoliu de novo.
É impressionante a velocidade com que Roth arma esse tabuleiro e aproxima suas peças. Por um lado, esse romance é um testemunho sobre a tragédia da velhice, da oposição entre a decadência física e os impulsos primitivos que se recusam a ceder - tema que o autor tem enfrentado com sinceridade e obstinação exemplares. Por outro, o desespero de seu protagonista é o gancho para tratar de outro assunto, as relações entre a vida e a ficção.
Zuckerman não ousa tocar em Jamie, mas, depois de passar a noite no apartamento do jovem casal democrata acompanhando a vitória de Bush nas urnas, ele retorna ao hotel e escreve um diálogo intitulado 'Ele e ela', a dupla que, de acordo com Chekhov, era o centro de gravidade de qualquer conto. Nathan e Jamie. Transformados num hábito, esses diálogos de alta voltagem erótica são a saída que Zuckerman encontra para sublimar suas aspirações. 'As conversas que não tive com ela me emocionam mais do que as conversas que tivemos de fato.' É apenas na ficção que ele confessa já tê-la visto 10 anos antes num almoço, que fala do 'prazer devastador' que sente em sua presença. 'Quero morrer de ciúme', ele pede. 'Me fale sobre todos os homens que você já teve.' É o mesmo artifício que usara com Amy Bellette décadas antes, na casa de Lonoff, quando, para aplacar o desejo e a culpa, imaginara que a moça era, na verdade, Anne Frank.
Em paralelo, Zuckerman discute com Richard a validade de uma biografia de Lonoff. Para Richard, é a chance de dar a um gênio esquecido a visibilidade que merece. Para o alter ego de Roth, uma biografia é uma 'segunda morte'. Ele argumenta que julgar a ficção de um autor com base em suposições sobre sua biografia é uma 'mentira que é só mentira', ao passo que a ficção é a 'mentira que revela a verdade'. Como os diálogos imaginários que trava com Jamie na solidão de seu quarto de hotel.
São vários os gritos de desespero de Zuckerman ao longo do romance, mas um deles o percorre por completo e o extrapola: é o grito em defesa da supremacia da imaginação sobre a realidade. Acreditar na fábula literária, deixar-se afetar por seu encadeamento de mentiras que revelam verdades, depende de um acordo tácito entre autor e leitor, um acordo sobre o qual não se fala sob pena de desmanchar o encanto. Roth é um especialista no assunto, e com Fantasma Sai de Cena ele investe contra leitores, críticos e qualquer um interessado em desmanchar a mágica da ficção. Se não por outro motivo, simplesmente porque para alguns poucos, não importa a causa de seu atrito com o mundo, a literatura segue sendo 'a vida cujo significado acaba sendo mais importante'.
Daniel Galera, escritor, é autor de Mãos de Cavalo, entre outros(SERVIÇO)Fantasma Sai de Cena, Philip Roth, Tradução de Paulo Henriques Britto
Cia das Letras, 282 págs., R$ 42