terça-feira, 24 de abril de 2007

PSICANÁLISE: Freud


"Seja qual for o caminho que eu escolher, um poeta já passou por ele antes de mim."
Sigmund Freud

"É meu amigo aquele que me socorre, não o que me conforma"
Es amigo mío aquel que me socorre, no el que me compadece.
Freud

Há numerosos indivíduos civilizados que recuariam aterrados perante a idéia do assassínio ou do incesto, mas que não desdenham satisfazer a sua cupidez, a sua agressividade, as suas cobiças sexuais, que não hesitam em prejudicar os seus semelhantes por meio da mentira, do engano, da calúnia, contanto que o possam fazer com impunidade.
Sigmund Freud


S. Freud
"Sería muito simpático que existisse deus, que tivesse criado o mundo e fosse uma benevolente Providencia; que existissem uma orden moral no universo e uma vida futura; mas é um fato sorpreendente que todo isto seja exatamente o que nos sentimos obrigados a desejar que exista."

Sería muy bueno que dios existiese, que hubiera creado el mundo y fuese benévola Providencia; que existiese un orden moral en el universo y una
vida futura; pero es un hecho sorprendente que todos esto sea exactamente lo que nos sentimos obligados a querer que exista.
Sigmund Freud

"O sentimento de felicidade derivado da satisfação de um impulso selvagem instintivo não domado pelo ego é incomparavelmente mais intenso do que o derivado da satisfação de um instinto que já foi dominado."
"O homem civilizado trocou uma parcela de suas possibilidades de felicidade por uma parcela de segurança."
Sigmund Freud

"O homem é um organismo animal com (como outros) uma disposição bissexual inequívoca. O individuo corresponde a uma fusão de duas metades simétricas, uma das quais, (...) é puramente masculina, e a outra, feminina. (...). O sexo constitui um fato biológico que, embora de extraordinária importância na vida e na saúde mental, é dificil de apreender psicologicamente. Acostumamo-nos a dizer que todo ser humano apresenta impulsos, necessidades e aributos instintivos tanto masculinos quanto femininos, e, ainda que a anatomia, é verdade, possa indicar essas características, a psicologia não pode. Para esta, o contraste entre os sexos se desvanece num contraste entre atividade e passividade, no qual identificamos, de forma excessivamente imediata, a atividade com a masculinidade e a passividade com a feminidade, opinião de modo algum universalmente confirmada no reino animal. A teoria da bissexualidade ainda está cercada por muitos pontos obscuros, e não podemos deixar de sentir como um sério impedimento na psicanálise o fato de que ainda não tenha sido descoberto nenhum elo com a teoria dos instintos. Seja como for, se considerarmos verdadeiro o fato de que todo individuo busca satisfazer tanto desejos masculinos quanto femininos em sua vida sexual, ficamos preparados para a possibilidade de que esses dois conjuntos de exigências não sejam satisfeitos pelo mesmo objeto e que interfiram um com o outro, a menos que possam ser mantidos separados e cada impulso orientado para um canal especifico que lhe seja apropriado.
(...) Quanto ao individuo sexualmente maduro, a escolha de um objeto restringe-se ao sexo oposto, estando as satisfações extragenitais, em sua maioria proibidas como perversões. A exigência, demonstrada nessas proibições, de que haja um único tipo de vida sexual para todos, não leva em consideração as dessemelhanças inatas ou adquiridas, na constituição sexual dos seres humanos; cerceia, em bom número deles, o gozo sexual, tornando-se assim fonte de grave injustiça. (...) No entanto, o próprio amor genital heterossexual, que permaneceu isento de proscrição, é restringido por outras limitações, apresentadas sob a forma da insistência na legitimidade e na monogamia."

FRASES Machado de Assis

<(Machado, aos 35 anos)


"Quando houvesse alguma intenção sexual, quem me provaria que não era mais que uma sensação fulgurante, destinada a morrer com a noite e o sono?" (Dom Casmurro, p. 336).

"Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado de nossa miséria"

"Um dia, quando já não houver império britânico nem república norte-americana, haverá Shakespeare; quando se não falar inglês, falar-se-á Shakespeare."

"Contra a conspiração da indiferença, tem V. Exa um aliado invencível: é a conspiração da posteridade."

ILUSÃO
"Alguma coisa sempre escapa ao naufrágio das ilusões" (Machado de Assis)

POESIA
"Há pessoas para as quais o crepúsculo é o prolongamento da aurora"
(Machado de Assis)

PRAZER
"Vale a pena comprar o prazer de uma hora por alguns dias de enfado"

VIDA
"Vivo mais em cinco minutos de solidão do que em vinte anos de bulício"
JUSTIÇA
"É claro que a justiça, sendo cega, não vê se é vista, e então não cora"

"Tinha em flor todas as ilusões da juventude" (Machado de Assis)

"Nem só de pão vive o homem. Vive de pão e de crédito"

"Somos todos criados com três ou quatro idéias que, em geral, são o nosso farnel de jornada"

"Era uma criança querendo ser moça, um lindo prefácio de mulher"


"Está morto : podemos elogiá-lo à vontade"

"Não importa ao tempo o minuto que passa, mas o minuto que vem.
O minuto que vem é forte, jocundo, supõe trazer em si a eternidade, e traz a morte, e perece como o outro, mas o tempo subsiste."

AMIGO
Abençoados os que possuem amigos, os que os têm sem pedir.
Porque amigo não se pede, não se compra nem se vende
Amigo a gente sente!

Benditos os que sofrem por amigos, os que falam com o olhar.
Porque amigo não se cala, não questiona nem se rende
Amigo a gente entende!

Benditos os que guardam amigos, os que entregam o ombro pra chorar.
Porque amigo sofre e chora
Amigo não tem hora pra consolar!

Benditos sejam todos os amigos, que acreditam na tua verdade ou te apontam a realidade.
Porque amigo é a direcção é a base, quando falta o chão.

Benditos sejam todos os amigos de raízes, verdadeiros.
Porque amigos são herdeiros de real sagacidade.

Ter amigos... é a melhor cumplicidade !

Machado de Assis

Ernesto SÁBATO


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O ESCRITOR E SEUS FANTASMAS
ERNESTO SÁBATO
"A existência é trágica por sua radical dualidade, por pertencer, ao mesmo tempo, ao reino da natureza e ao reino do espirito: enquanto corpo somos
natureza, e, em conseqüência, perecíveis e relativos; enquanto espirito participamos do absoluto e da eternidade. A alma puxada para cima por
nossa ânsia de eternidade e condenada à morte por sua encarnação, parece ser a verdadeira representante da condição humana e a autentica sede de
nossa infelicidade.
Poderíamos ser felizes como animais ou espirito puro, mas não como seres
humanos".
Nietzsche/Sábato

"Que é um criador? É um homem que, em algo 'perfeitamente' conhecido,
encontra aspectos desconhecidos. Mas, sobretudo, é um exagerado"
Sábato

"Quê? Querem uma originalidade absoluta? Não existe. Nem na arte nem em nada. Tudo se constrói sobre o anterior, e em nada do que é humano se pode encontrar pureza. Os deuses gregos também eram híbridos e estavam 'infectados' de religiões orientais e egípcias".

"Qual é minha pátria? Crescemos bebendo a nostalgia européia de nossos pais, ouvindo falar da terra distante, de seus mitos e contos, vendo quase suas montanhas e seus mares. (...) Mas também, em momentos de solidão naquelas cidades, sentimos que nossa terra era esta, estava aqui na pampa e no vasto rio, pois a pátria, não é senão a infância, alguns rostos, algumas lembranças.(...) deste modo Shakespeare foi o maior escritor da Inglaterra escrevendo tragédias que, às vezes, nem mesmo se desenrolavam em sua pátria".

"Pois é um erro imaginar que a metafísica se encontra unicamente nos vastos tratados filosóficos, quando, como observou Nietzsche, a encontramos na rua, nas tribulações do modesto homem de todos os dias".

"Estamos no final de uma civilização, e em um de seus confins. Submetidos a uma dupla ruptura no tempo e no espaço, estamos submetidos a uma experiência duplamente dramática. Perplexos e angustiados, somos atores de uma obscura tragédia, sem ter por trás o respaldo de uma grande cultura indígena (asteca, inca) e sem poder, tampouco, reivindicar de modo cabal a tradição de Roma ou Paris."

"Desde nossas instituições até nossa arte, tudo está sendo questionado, e questionado em uma atmosfera de tormentoso nervosismo. Quem somos? Para onde vamos? Qual é nossa verdade nacional/ Somos algo novo, está gestando aqui algo relamente original, neste caos de sangue e cultura?"

"Não há outra forma de se alcançar a eternidade senão afundando no instante, nem outra forma de chegar à universidade senão através da própria circunstância: o aqui e agora. A tarefa do escritor seria a de entrever os valores eternos que estão implícitos no drama social e político de seu tempo e lugar".

"O homem de hoje vive em alta tensão, ante o perigo da aniquilação e da morte, da tortura e da solidão. É um homem de situações extremas, chegou ou está frente aos limites últimos de sua existência. A literatura que o descreve e interroga não pode ser, pois, senão uma literatura de situações excepcionais".

"Seja qual for a coisa que se quer dizer, não há senão uma palavra para expressa-la, um verbo para anima-la e um adjetivo para qualifica-la. É preciso, então, buscar até descobri-los, essa palavra, esse verbo e esse adjetivo, e jamais se contentar com o aproximativo, nem jamais recorrer a fraudes, mesmo felizes, a palhaçadas de linguagem para evitar a dificuldade"(Maupassant)

"ninguém pode criar um personagem maior que ele mesmo, e se o apanha da história o rebaixará até seu próprio nível".

"Lançado cegamente à conquista do mundo externo, preocupado tão somente com o manejo das coisas, o homem acabou por se coisificar a si mesmo, caindo no mundo bruto onde rege o cego determinismo. Empurrado pelos objetos, títere da mesma circunstância que havia contribuído a criar, o homem deixou de ser livre e se tornou tão anônimo e impessoal como seus instrumentos. Já não vive no tempo originário do ser, senão no tempo de seus próprios relógios. É a queda do ser no mundo, é a exteriorização e a banalização de sua existência. Ganhou o mundo mas perdeu a si próprio. Até que a angustia o desperta, embora o desperte para um universo de pesadelo. Cambaleante e ansioso, busca novamente o caminho de si mesmo, em meio às trevas. Algo lhe sussurra que, apesar de tudo, é livre ou pode sê-lo, que de qualquer forma não é equiparável a uma engrenagem."

"Ocorre que, com freqüência, confunde-se transformação com decadência, porque se avalia o novo com os critérios que serviram para o velho".

"É bastante singular que se pretenda valorar a ficção do século XX com os cânones do século XIX, um século em que o tipo de realidade que o romancista descrevia era tão diferente da nossa como um tratado de frenologia de um ensaio de Jung."

"Um mau escritor ou um principiante pode incorrer na tentação de incluir uma autêntica carta de amor em um romance, com o resultado de que se torna falsa, ao ser desprendida da complicada magia que, na vida real, formava seu suporte e seu contorno. A realidade na qual vivem os seres humanos, e mesmo apenas a realidade externa que tanto preocupava aqueles narradores, é infinita, tem raízes que se estendem em todas as direções, sofre o reflexo de todas as luzes e os efeitos das mais remotas causas: todo corte é automaticamente falsificador. De modo que aqueles supostos realistas eram irrealistas da mais curiosa espécie. O paradoxo da criação do romance consiste em que o escritor deve dar em uma obra que é forçosamente finita uma realidade que é fatalmente infinita. Para consegui-lo, não pode recorrer ao corte mas à recriação: e deve proceder com aquela carta de amor de modo semelhante as falsas perspectivas que usam os cenógrafos que são falsas precisamente para dar a sensação de verdade".

CORPO, ALMA E LITERATURA
"O vitalismo de Nietzsche culmina na fenomenologia existencial, pois supera o mero biologismo sem renunciar à integridade concreta do ser humano. Para Heidegger, com efeito, ser homem é ser no mundo, e isso é possível através do corpo: o corpo é o que nos individualiza, o que nos dá uma perspectiva do mundo, desde o "eu e aqui". Não mais o observador imparcial e ubíquo da ciência ou da literatura objetivista, mas este eu concreto, encarnado em um corpo. Nesse corpo que me converte em "um ser para a morte". Daí a importância metafísica do corpo.
Essa concretude da nova filosofia caracterizou sempre a literatura, que jamais deixou de ser antropocêntrica, embora muitos de seus teóricos paradoxalmente assim o quisessem. Essa concretude restituiu ao homem sua autêntica condição trágica. A existência é trágica por sua radical dualidade, por pertencer, ao mesmo tempo, ao reino da natureza e ao reino do espírito: enquanto corpo somos natureza, e, em conseqüência, perecíveis e relativos; enquanto espírito participamos do absoluto e da eternidade. A alma puxada para cima por nossa ânsia de eternidade e condenada à morte por sua encarnação, parece ser a verdadeira representante da condição humana e a autêntica sede de nossa infelicidade. Poderíamos ser felizes como animal ou espírito puro, mas não como seres humanos".

PROSA E POESIA
"A prosa é o diurno, a poesia é a noite; se alimenta de monstros e símbolos, é a linguagem das trevas e dos abismos. Não há grande romance, pois, que em última instância não seja poesia."

DO ESTILO
"O estilo é o homem, o indivíduo, o único: sua maneira de ver e sentir o universo, sua maneira de 'pensar' a realidade, ou seja, essa maneira de mesclar seus pensamentos a suas emoções e sentimentos, a seu tipo de sensibilidade, a seus preconceitos e manias, a seus tiques. (...) A ciência é genérica e a arte é individual; e por isso há estilo na arte e não há em ciência. A arte é a maneira de ver o mundo de uma sensibilidade intensa e curiosa, maneira que é própria de cada um de seus criadores, e intransferível. Os retóricos consideravam o estilo como ornamento, como uma linguagem festiva. Quando, em verdade, é a única forma pela qual um artista pode dizer o que tem a dizer. E se o resultado é insólito, não é porque a linguagem o seja, senão porque o é a maneira que tem esse homem de ver o mundo".

A ARTE
"Não se faz arte, nem a sentimos, com a cabeça, mas com o corpo inteiro; com os sentimentos, os pavores, as angústias e até mesmo os suores".

TENACIDADE DO CRIADOR
"Um pensamento profundo está em devir contínuo, abarca a existência de uma vida e se amolda a ela. (...) E ainda: A criação é a mais eficaz de todas as escolas de paciência e lucidez. É também o testemunho transtornador da única dignidade do homem: a revolta tenaz contra sua condição, a perseverança num esforço considerado estéril. Exige um esforço quotidiano, o domínio de si mesmo, a apreciação exata dos limites do verdadeiro, a medida e a força. Constitui uma ascese. Tudo isso "para nada", para repetir e espernear. Mas talvez a grande obra de arte tenha menos importância em si mesma que na prova que exige a um homem e na ocasião que lhe proporciona de vencer seus fantasmas e de se aproximar um pouco mais da realidade nua".
Ernesto Sábato/Miguel Angel
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ANTICIPO
El último libro de Sabato/2004

Esta semana se publica "España en los diarios de mi vejez". En estas crónicas de viaje aparecen las reflexiones,las observaciones y los miedos de un Sabato íntimo. Viva ofrece un anticipo del texto.
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Jueves (en Madrid)

Me siento a escribir lo que me va saliendo, para asirme a algo, como uno pudiera tomarse de un tronco en la crecida de un gran río, o como si lo escrito pudieran ser mojones que me recordarán el camino cuando esté perdido; como frecuentemente me sucede en estos años cuando a cada paso enfrento un precipicio.

(...) Le voy dictando a Elvirita (N. de la R.: su constante compañía), y busco en algún fondo inhallable de mí, las escenas o los momentos, que quiero contar. A veces aparecen borrosas, a veces se muestran y luego se van, es casi una cacería. La vida me ha ido quitando posibilidades que antes fueron mías, y a cambio me estuviera dejando el escribir como un último don. Cuando las pérdidas parecen cubrirme los ojos, escribir y pintar me renacen.

Escribir como lo último que me va quedando.

También los afectos. Siempre.


Visita al museo del Prado

Caminando despacio hemos ido hasta el correo de Cibeles.

Me detengo a mirar esa zona en que Madrid se ensancha, donde grandes y antiguos paseos trepan hacia la Puerta de Alcalá, por un lado, y por el otro, hacia la Puerta del Sol.

Pero prefiero la sombra, entonces apurados salimos de las avenidas y nos vamos lentamente bajo los árboles del Paseo del Prado, hacia el Museo. Nunca miro más que a un pintor, lo contrario hasta me parece una falta de respeto. Esta vez sólo algún cuadro de Goya. El Goya oscuro, el feroz, el desgarrador Goya me sigue deslumbrando. Y también El Bosco. Cuánta incomprensión habrán sufrido estos creadores geniales en su época. Uno, por advertir los monstruos terribles que ocultaba en su vientre la diosa razón, con sus toros y aquelarres. El otro, con sus seres híbridos y deformes, anunciando las desgracias de un mundo que se mueve compulsivamente tras la riqueza y los bajos placeres. Reyes a caballo junto a fieras mitad humanos, junto a minúsculas escenas de matanzas y sacrificios. Aquellos símbolos habrán sido considerados esquivos y desafiantes en su tiempo. Hoy se nos aparecen con toda lucidez, como trágico acabamiento de un modo de vivir y concebir la existencia.

Como autómata, como cuando de chico me levantaba sonámbulo, me dirijo hacia Goya.

Y elijo un cuadro, un solo cuadro y me detengo.

El pintor de los monstruos; el que pintó magistralmente con humo y sangre. El Dos de Mayo. Lo miro de a poco, como si lo tanteara y me sumergiera en él. Fue en 1814 cuando Goya en su taller pintaba la batalla. Sí, están ahí, son hombres fuertes peleando por su tierra; peleando por Madrid.

(...)

De pie frente al cuadro de pronto comprendo que estoy, en este mismo momento, por el misterio de lo imaginario, en mi propio taller sintiendo entre los dedos la ansiedad del pincel.


Jueves en el café de la vuelta

Ayer por la tarde, después de volver a corregir una de las conferencias, caminamos unas cuadras y ya con frío entramos a un bar del viejo Madrid. No más pasar la puerta me ensordece el alegre griterío, el humo y las risas que rebalsan el local; con dificultad avanzo hasta sentarnos contra una pared como para tener donde atrincherarme. Es un café típico, quiero decir típico de antes, de cuando lo moderno aún no había hecho estragos en España.

Este es un reducto anticuado, con mesas de madera y sillas tipo Viena, percheros de hierro y lámparas que parecen de opalina. A un lado, la barra repleta de parroquianos que vociferan a los gritos sus preferencias en el fútbol. Después de una breve pero ardua lucha con mi carácter molesto, impaciente, nervioso, intolerante, rescaté mi lado observador y me dispuse a gozar de los madrileños en su caldo. Lo primero que sorprende es ver en las mesas a familias enteras, algo impensable en Buenos Aires. Hay abuelos, hijos jóvenes, nietos, sin problemas generacionales ni historias. Todos hablan a la vez y a los gritos.

Los miro y más me doy cuenta que están todos de fiesta, que la vida es para ellos una fiesta, podrían decirme “vea tío, mejore la cara, pues, aquí se viene a celebrar”. Y me río al pensarlo, tan distintos de mí, ¡tan distintos de mi educación severa! ¿Quién de nosotros se hubiera atrevido a hablar y reír sin reparos delante de nuestro padre?

Hay marcas que son estigmas. Durante mi infancia era sonámbulo y tenía permanentes pesadillas; con los años, con vergüenza y dolor, reconocí que la pesadilla consistía en verme sentado, a solas, con mi padre. ¿Quién hubiera osado reírse de él, o tocarle un papel, o aunque más no fuera a hacerle una pregunta personal? Así me crié hace muchos años.


Sábado

Ayer temprano en la tarde llamaron de la editorial para decir que de ninguna manera podíamos ir al Bernabeu. Estaban agitados y no parecieron escuchar razones: la ETA había hecho estallar una bomba enfrente mismo del estadio. Ni pensarlo, fuimos igual.
(...) Fue un partidazo.

Quiero agradecerle a Valdano esta oportunidad de volver a ser joven, nuevamente como en aquellos partidos entre Estudiantes de La Plata y Gimnasia y Esgrima. En perpetua y feroz rivalidad. Yo era rompecanillas, así me decían, muy violento; me apasionaba, pero tuve que dejar porque tenía la mollera débil. Salimos de la cancha antes de que terminara el partido y así y todo, la salida fue brava porque yo insistí en bajar a la calle. Estos riesgos me rejuvenecieron. Y dentro de un rato salimos lo más bien para Santiago de Compostela. Los riesgos rejuvenecen, claro, si uno sale vivo.

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Otra tarde

Estoy alejándome de la vida de esta vida,
La miro con emoción como si ya estuviera fuera de mí.
(Estou me afastando da vida desta vida
Olho-a com emoção como se ja estivesse fora de mim)

O, más bien, como sentado en esas mesas de café que están en las veredas desde donde uno puede ver pasar la gente, y oírlos hablar. A veces nítidamente veo el caminar de hombres y mujeres. De pronto me sonríen.

Pero otras veces, confusamente, como detrás de una nube, o de mis lágrimas.

Soy injusto, siempre hay alguien conmigo.

Pero la vida se aleja.


12 de junio (en Santos Lugares)

Ayer sucedió algo que me obliga a interrumpir la cronología de los hechos. El príncipe de Asturias venía a la Argentina y quiso venir a visitarme. Su gesto me produjo una gran alegría.

Vino directo del aeropuerto. El barrio nunca había visto tanto despliegue que precedió a su llegada ni oído tanta sirena. Pero en cambio, cuando llegó se comportó con una sencillez, una llaneza como sólo lo sabe hacer un rey. Y en ese clima transcurrieron las dos horas en que estuvo en casa. Hablamos de literatura, miró mis cuadros y recorrió esta vieja casa, con su mirada limpia y sensible. Dada su alegría, Elvira a la salida me dijo por lo bajo “parece estar enamorado”. Creo que lo oyó y que ha de ser cierto porque se dio vuelta y sonrió.


29 de junio

Me he quedado mirando mi biblioteca.

¡Cuántos libros he leído que no volveré a abrir!
Es triste.
Miro a esos escritores que fueron verdaderos compañeros de camino. Toco los libros como si por tocarlos me fueran a escuchar. (...) Hace años que no puedo leer, ya he olvidado todo aquello que había aprendido; y lo que es más fuerte aún, ya no tengo aquella ansia de saber. Sin embargo sigo gozando cuando me leen.
(Quantos livros lí que não voltaré a abrir!
È triste.
Olho para esses escritores que foram verdadeiros companheiros de caminho. Toco os libros como se por tocarlos me fossem a escutar. (...) Faz anos que nao posso ler, ja esqueci todo aquilo que havia aprendido; e o que é mais forte ainda, ja não tenho aquela ansia de saber. Contudo continuo gozando quando me leem.)
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Madrid

He estado afirmando la reencarnación.

Elvirita no entra en la discusión, ni argumenta, lo que me irrita. Dice que ni cree ni descree, sólo que no le gusta esa idea de volver, como actores en otra obra, pero sin experiencia, siempre empezando de nuevo, no sabe, no le gusta.

Le insisto con mi sensación. Hombres geniales han creído en la reencarnación; es esa conocida sensación que tienen ciertas personas de que ya han estado en ese lugar; o quienes aseguran que ya vivieron eso mismo que les acontece. A mí me pasa.

Ella me escucha, pero distraídamente. Insisto (...). No quedan dudas, la reencarnación es un hecho demostrable. Existe.
Elvira con calma, como si también lo suyo fuese un hecho, y esta vez inapelable, dice: “Cuando te reencarnes , vas a ser mujer”.

Yo di un grito desesperado, no lo pude contener.

Sonríe victoriosa, ¿ves? ésta es tu verdadera posición frente a la mujer, ya que si fuese verdad que te parecieran superiores y admirables, hubieras reaccionado con alegría.

Inútil fue argumentar que mi sobresalto se debía al sacrificio y abnegación que le atribuyo a las mujeres.

Terminamos riéndonos con unas copas de vino
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Dice Sábato: "Puede parecer un acto de horrible esnobismo que tres crisis fundamentales de mi vida se sucedieran en París, pero efectivamente así fue. La primera se produjo en el invierno de 1935, cuando yo era un muchacho de 24 años. Desde 1930 milité en la Juventud Comunista, cuando la dictadura del general Uriburu. Abandoné estudios, familia y mis comodidades burguesas. Viví con nombre supuesto en La Plata, en cuyos suburbios estaban los dos frigoríficos más grandes del país, donde se explotaba despiadadamente a toda clase de inmigrantes, que vivían amontonados en tugurios de zinc, rodeados de pantanos de aguas podridas. Repartíamos manifiestos, participábamos de la organización de huelgas. Hacia 1933 fue ya secretario de la Juventud Comunista, cuando habían empezado mis dudas sobre el estalinismo, y entonces resolvieron mandarme a las Escuelas Leninistas de Moscú, a purificarme. Si hubiese ido, no habría vuelto jamás vivo. Tenía que pasar previamente por Bruselas, por un congreso contra el fascismo y allí supe con horrendos detalles de los "procesos" de Moscú. Me escapé a París, viví un invierno muy duro en la piecita de un compañero disidente, mientras el partido me buscaba. Logré volver a la Plata, donde proseguí mi carrera en física-metemática. Cuando terminé mi dieron una bourse para trabajar en el laboratorio Curie, donde trabajé durante casi un año y, allí en París, asistí a la ruptura del átomo de uranio, que se disputaban tres laboratorios: ganó la "carrera" un alemán. Pensé que era el comienzo del Apocalipsis. Viví en una confusión horrible, mientras escribía mi primera novela y cometí la infamia de dejar que Matilde se volviera a la Argentina con nuestro primer hijo, de pocos meses, mientras yo tenía una amante rusa. La tercera crisis fue consecuencia de todo esto, y de mi vínculo con los surrealistas: Domínguez, Matta, Wifredo Lam y otros. En otro día de invierno fuimos con Domínguez, a la tarde, al Marché aux Puces y volvimos después en el Metro hasta Montparnasse, donde tenía su estudio Domínguez. En la calle, ya era de noche, en un especie de nevisca, Domínguez se detuvo y me dijo:"¿Qué te parece si esta noche nos suicidamos juntos ?" No era una broma, era muy propenso, como lo probó años después. Yo me negué, aunque también me atraía el suicidio: me salvó mi instinto, y aquí estoy, junto a la Matilde de todos los tiempos, una de esas "mujeres fuertes de la Biblia", que está muriendo, en medio del dolor más profundo de mi vida, en el final de una existencia muy compleja." (Ernesto Sábato, 24 de enero de 1995)


III. Informe sobre ciegos (parte I)

¿Cuándo empezó esto que ahora va a terminar con mi asesinato? Esta feroz lucidez que ahora tengo es como un faro y puedo aprovechar un intesísismo haz hacia vastas regiones de mi memoria: veo caras, ratas en un granero, calles de Buenos Aires o Argel, prostitutas y marineros; muevo el haz y veo cosas más lejanas: una fuente en la estancia, una bochornosa siesta, pájaros y ojos que pincho con un clavo. Tal vez ahí, pero quién sabe: puede ser mucho más atrás, en épocas que ahora no recuerdo, en períodos remotísimos de mi primera infancia. No sé. ¿Qué importa, además?
Recuerdo perfectamente, en cambio, los comienzos de mi investigación sistemática (la otra, la incosciente, acaso la más profunda, ¿cómo puedo saberlo?). Fue un día de verano del año 1947, al pasar frente a la Plaza de Mayo, por la calle San Martín, en la vereda de la Municipalidad. Yo venía bastante abstraído, cuando de pronto oí una campanilla, una campanilla como de alguien que quisiera despertarme de un sueño milenario. Yo caminaba, mientras oía la campanilla que intentaba penetrar en los estratos más profundos de mi conciencia: la oía pero no la escuchaba. Hasta que de pronto aquel sonido tenue pero penetrante y obsesivo pareció tocar alguna zona sensible de mi yo, alguno de esos lugares en que la piel del yo es finísima y de sensibilidad anormal: y desperté sobresaltado, como ante un peligro repentino y perverso, como si en la oscuridad hubiese tocado con mis manos la piel helada de un reptil. Delante de mí, enigmática y dura, observándome con toda su cara, vi a la ciega que vende allí baratijas. Había cesado de tocar su campanilla; como si sólo la hubiese movido para mí, para despertarme de mi insensato sueño, para advertir que mi existencia anterior había terminado como una estúpida etapa preparatoria, y que ahora debía enfrentarme con la realidad. Inmóvil, con su rostro abstracto dirigido hacia mí, y yo paralizado como por una aparición infernal pero frígida, quedamos así durante esos instantes que no forman parte del tiempo si no que dan acceso a la eternidad. Y luego, cuando mi conciencia volvió a entrar en el torrente del tiempo, salí huyendo.
De ese modo empezó la etapa final de mi existencia.
Comprendí a partir de aquel día que no era posible dejar transcurrir un solo instante más y que debía iniciar ya mismo la exploración de aquel universo tenebroso.
Pasaron varios meses, hasta que en un día de aquel otoño se produjo el segundo encuentro decisivo. Yo estaba en plena investigación, pero mi trabajo estaba retrasado por una inexplicable abulia, que ahora pienso era seguramente una forma falaz del pavor a lo desconocido.
Vigilaba y estudiaba los ciegos, sin embargo.
Me había preocupado siempre y en varias ocasiones tuve discusiones sobre su origen, jerarquía, manera de vivir y condición zoológica. Apenas comenzaba por aquel entonces a esbozar mi hipótesis de la piel fría y ya había sido insultado por carta y de viva voz por miembros de las sociedades vinculadas con el mundo de los ciegos. Y con esa eficacia, rapidez y misteriosa información que siempre tienen las logias y sectas secretas; esas logias y sectas que están invisiblemente difundidas entre los hombres y que, sin que uno lo sepa y ni siquiera llegue a sospecharlo, nos vigilan permanentemente, nos persiguen, deciden nuestro destino, nuestro fracaso y hasta nuestra muerte. Cosa que en grado sumo pasa con la secta de los ciegos, que, para mayor desgracia de los inadvertidos, tienen a su servicio hombres y mujeres normales: en parte engañados por la Organización; en parte, como consecuencia de una propaganda sensiblera y demagógica; y, en fin, en buena medida, por temor a los castigos físicos y metafísicos que se murmura reciben los que se atreven a indagar en sus secretos. Castigos que, dicho sea de paso, tuve por aquel entonces la impresión de haber recibido ya parcialmente y la convicción de que los seguiría recibiendo, en forma cada vez más espantosa y sutil; lo que, sin duda a causa de mi orgullo, no tuvo otro resultado que acentuar mi indignación y mi propósito de llevar mis investigaciones hasta las últimas consecuencias.
Si fuera un poco más necio podría acaso jactarme de haber confirmado con esas investigaiones la hipótesis que desde muchacho imaginé sobre el mundo de los ciegos, ya que fueron las pesadillas y alucinaciones de mi infancia las que me trajeron la primera revelación. Luego, a medida que fui creciendo, fue acentuándose mi prevención contra esos usurpadores, especie de chantajistas morales que, cosa natural, abundan en los subterráneos, por esa condición que los emparenta con los animales de sangre fría y piel resbaladiza que habitan en cuevas, cavernas, sótanos, viejos pasadizos, caños de desagües, alcantarillas, pozos ciegos, grietas profundas, minas abandonadas con silenciosas filtraciones de agua; y algunos, los más poderosos, en enormes cuevas subterráneas, a veces a centenares de metros de profundidad, como se puede deducir de informes equívocos y reticentes de espeleólogos y buscadores de tesoros; lo suficiente claros, sin embargo, para quienes conocen las amenazas que pesan sobre los que intentan violar el gran secreto.
Antes, cuando era más joven y menos desconfiado, aunque estaba convencido de mi teoría, me resistía a verificarla y hasta a enunciarla, porque esos prejuicios sentimentales que son la demagogia de las emociones me impedían atravesar las defensas levantadas por la secta, tanto más impenetrables como más sutiles e invisibles, hechas de consignas aprendidas en las escuelas y los periódicos, respetadas por el gobierno y la policía, propagadas por las instituciones de beneficencia, las señoras y los maestros. Defensas que impiden llegar hasta esos tenebrosos suburbios donde los lugares comunes empiezan a ralearse más y más, y en los que empieza a sospecharse la verdad.
Muchos años tuvieron que transcurrir para que pudiera sobrepasar las defensas exteriores. Y así, paulatinamente, con una fuerza tan grande y paradojal como la que en las pesadillas nos hacen marchar hacia el horror, fui penetrando en las regiones prohibidas donde empieza a reinar la oscuridad metafísica, vislumbrando aquí y allá, al comienzo indistintamente, como fugitivos y equívocos fantasmas, luego con mayor y aterradora precisión, todo un mundo de seres abominables.
Ya contaré cómo alcancé ese pavoroso privilegio y cómo después de años de búsqueda y de amenazas pude entrar en el recinto donde se agita una multitud de seres, de los cuales los ciegos comunes son apenas su manifestación menos impresionante.
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I. El dragón y la princesa (parte IX)





--Aquí es --dijo.
Se sentía el intenso perfume a jazmín del país. La verja era muy vieja y estaba a medias cubierta con una glicina. La puerta, herrumbrada, se movía dificultosamente, con chirridos.
En medio de la oscuridad, brillaban los charcos de la reciente lluvia. Se veía una habitación iluminada, pero el silencio correspondía más bien a una casa sin habitaciones. Bordearon un jardín abandonado, cubierto de yuyos, por una veredita que había al costado de un galería lateral, sostenida por las columnas de hierro. La casa era viejísima, sus ventanas daban a la galería y aún conservaban sus rejas coloniales; las grandes baldosas eran seguramente de aquel tiempo, pues se sentían hundidas, gastadas y rotas.
Se oyó un clarinete: una frase sin estructura musical, lánguida, desarticulada y obsesiva.
-- ¿Y eso? --preguntó Martin.
-- El tío Bebe --explicó Alejandra--, el loco.
Atravesaron un estrecho pasillo entre árboles muy viejos (Martín sentía ahora un intenso perfume de magnolia) y siguieron por un sendero de ladrillos que terminaba en una escalera de caracol.
-- Ahora, ojo. Seguime despacito.
Martín tropezó con algo: un tacho o un cajón.
-- ¡No te dije que andés con ojo! Esperá.
Se detuvo y encendió un fósforo, que protegió con una mano y que acercó a Martín.
-- Pero Alejandra, ¿no hay lámpara por ahí? Digo... algo... en el patio...
Oyó la risa seca y maligna.
-- ¡Lámparas! Vení, colocá tus manos en mis caderas y seguime.
-- Esto es muy bueno para ciegos.
Sintió que Alejandra se detenía como paralizada por una descarga eléctrica.
-- ¿Qué te pasa, Alejandra? --preguntó Martín, alarmado.
-- Nada --respondió con sequedad--, pero haceme el favor de no hablarme nunca de ciegos.
Martín volvió a poner sus manos sobre las caderas y la siguió en medio de la oscuridad. Mientras subían lentamente, con muchas precauciones, la escalera metálica, rota en muchas partes y vacilante en otras por la herrumbre, sentía bajo sus manos, por primera vez, el cuerpo de Alejandra, tan cercano y a la vez remoto y misterioso. Algo, un estremecimiento, una vacilación, expresaron aquella sensación sutil, y entonces ella preguntó qué pasaba y él respodió, con tristeza, "nada". Y cuando llegaron a lo alto, mientras Alejandra intentaba abrir una dificultosa cerradura, dijo "esto es el antiguo Mirador".
-- ¿Mirador?
-- Sí, por aquí no había más que quintas a comienzos del siglo pasado. Aquí venían a pasar los fines de semana los Olmos, los Acevedo...
Se rió.
-- En la época en que los Olmos no eran unos muertos de hambre... y unos locos...
-- ¿Los Acevedo? --preguntó Martín--. ¿Qué Acevedos? ¿El que fue vicepresidente?
-- Sí, esos.
Por fin, con grandes esfuerzos, logró abrir la vieja puerta. Levantó su mano y encendió la luz.
-- Bueno --dijo Martín--, por lo menos acá hay una lámpara. Creí que en esta casa sólo se alumbraban con velas.
-- Oh, no te vayas a creer. Abuelo Pancho no usa más que quinqués. Dice que la electricidad es mala para la vista.
Martín recorrió con su mirada la pieza como si recorriera parte del alma desconocida de Alejandra. El techo no tenía cielo raso y se veían los grandes tirantes de madera. Había una cama turca recubierta con un poncho y un conjunto de muebles que parecían sacados de un remate: de diferentes épocas y estilos, pero todos rotosos y a punto de derrumbarse.
-- Vení, mejor sentate sobre la cama. Acá las sillas son peligrosas.
Sobre una pared había un espejo, casi opaco, del tiempo veneciano, con una pintura en la parte superior. Había también restos de una cómoda y un bargueño. Había también un grabado o litografía mantenido con cuatro chinches en sus puntas.
Alejandra prendió un calentador de alcohol y se puso a hacer café. Mientras se calentaba el agua puso un disco.
-- Escuchá --dijo, abstrayéndose y mirando al techo, mientras chupaba su cigarrillo.
Se oyó una música patética y tumultuosa.
Luego, bruscamente, quitó el disco.
-- Bah --dijo--, ahora no la puedo oír.
Siguió preparando el café.
-- Cuando lo estrenaron, Brahms mismo tocaba el piano. ¿Sabés lo que pasó?
-- No.
-- Lo silbaron. ¿Te das cuenta lo que es la humanidad?
-- Bueno, quizá...
-- ¡Cómo quizá! --gritó Alejandra--, ¿acaso creés que la humanidad no es una pura chanchada?
-- Pero este músico también es la humanidad...
-- Mirá, Martín --comentó mientras echaba el café en la taza-- ésos son los que sufren por el resto. Y el resto son nada más que hinchapelotas, hijos de puta o cretinos, ¿sabés?.
Trajo el café.
Se sentó en el borde de la cama y se quedó pensativa. Luego volvió a poner el disco un minuto.
-- Oí, oí lo que es esto.
Nuevamente se oyeron los compases del primer movimiento.
-- ¿Te das cuenta, Martín, la cantidad de sufrimiento que ha tenido que producirse en el mundo para que haya hecho música así?
Mientras quitaba el disco, comentó:
-- Bárbaro.
Se quedó pensativa, terminando su café. Luego puso el pocillo en el suelo.
En el silencio, de pronto, a través de la ventana abierta, se oyó el clarinete, como si un chico trazase garabatos sobre un papel.
-- ¿Dijiste que está loco?
-- ¿No te das cuenta? Ésta es una familia de locos. ¿Vos sabés quién vivió en ese altillo, durante ochenta años? La niña Escolástica. Vos sabés que antes se estilaba tener algún loco encerrado en alguna pieza del fondo. El Bebe es más bien un loco manso, una especie de opa, y de todos modos nadie puede hacer mal con el clarinete. Escolástica también era una loca mansa. ¿Sabés lo que le pasó? Vení. --Se levantó y fue hasta la litografía que estaba en la pared con cuatro chinches.-- Mirá: son los restos de la legión de Lavalle, en la quebrada de Humahuaca. En ese tordillo va el cuerpo del general. Ése es el coronel Pedernera. El de al lado es Pedro Echagüe. Y ese otro barbudo, a la derecha, es el coronel Acevedo. Bonifacio Acevedo, el tío del abuelo Pancho. A Pancho le decimos abuelo, pero en realidad es bisabuelo.
Siguió mirando.
-- Ese otro es el alférez Celedonio Olmos, el padre de abuelo Pancho, es decir mi tatarabuelo. Bonifacio se tuvo que escapar a Montevideo. Allá se casó con una uruguaya, una oriental, como dice el abuelo, una muchacha que se llamaba Encarnación Flores, y allá nació Escolástica. Mirá qué nombre. Antes de nacer, Bonifacio se unió a la legión y nunca vió a la chica, porque la campaña duró dos años y de ahí, de Humahuaca, pasaron a Bolivia, donde estuvo varios años; también en Chile estuvo un tiempo. En el 52, a comienzos del 52, después de trece años de no ver a su mujer, que vivía aquí en esta quinta, el comandante Bonifacio Acevedo, que estaba en Chile, con otros exiliados, no dió más de tristeza y se vino a Buenos Aires, disfrazado de arriero: se decía que Rosas iba a caer de un momento a otro, que Urquiza entraría a sangre y fuego en Buenos Aires. Pero él no quiso esperar y se largó. Lo denunció alguien, seguro, si no no se explica. Llegó a Buenos Aires y lo pescó la Mazorca. Lo degollaron y pasaron frente a casa, golpearon en la ventana y cuando abrieron tiraron la cabeza a la sala. Encarnación se murió de la impresión y Escolástica se volvió loca. ¡A los pocos días Urquiza entraba en Buenos Aires! Tenés que tener en cuenta que Escolástica se había criado sintiendo hablar de su padre y mirando su retrato.
De un cajón de la cómoda sacó una miniatura, en colores.
-- Cuando era teniente de coraceros, en la campaña del Brasil.
Su brillante uniforme, su juventud, su gracia, contrastaban con la figura barbuda y destrozada de la vieja litografía.
-- La Mazorca estaba enardecida por el pronunciamiento de Urquiza. ¿Sabés lo que hizo Escolástica? La madre se desmayó, pero ella se apoderó de la cabeza de su padre y corrió hasta aquí. Aquí se encerró con la cabeza del padre desde aquel año hasta su muerte, en 1932.
-- ¡En 1932!
-- Sí, en 1932. Vivió ochenta años, aquí, encerrada con su cabeza. Aquí había que traerle la comida y sacarle todos los desperdicios. Nunca salió ni quiso salir. Otra cosa: con esa astucia que tienen los locos, había escondido la cabeza de su padre, de modo que nadie nunca la pudo sacar. Claro, la habrían podido encontrar de haberse hecho una búsqueda, pero ella se ponía frenética y no había forma de engañarla. "Tengo que sacar algo de la cómoda", le decían. Pero no había nada que hacer. Y nadie nunca pudo sacar nada de la cómoda, ni del bargueño, ni de la petaca esa. Y hasta que murió en 1932, todo quedó como había estado en 1852. ¿Lo creés?
-- Parece imposible.
-- Es rigurosamente histórico. Yo también pregunté muchas veces, ¿cómo comía? ¿Cómo limpiaban la pieza? Le llevaban la comida y lograban mantener un mínimo de limpieza. Escolástica era una loca mansa e incluso hablaba normalmente sobre casi todo, excepto sobre su padre y sobre la cabeza. Durante los ochenta años que estuvo encerrada nunca, por ejemplo, habló de su padre como si hubiese muerto. Hablaba en presente, quiero decir, como si estuviese en 1852 y como si tuviera doce años y como si su padre estuviese en Chile y fuese a venir de un momento a otro. Era una vieja tranquila. Pero su vida y hasta su lenguaje se habían detenido en 1852 y como si Rosas estuviera todavía en el poder. "Cuando ese hombre caiga", decía señalando con su cabeza hacia afuera, hacia donde había tranvías eléctricos y gobernaba Yrigoyen. Parece que su realidad tenía grandes regiones huecas o quizá como encerradas también con llave, y daba rodeos astutos como los de un chico para evitar hablar de esas cosas, como si no hablando de ellas no existiesen y por lo tanto tampoco existiese la muerte de su padre. Había abolido todo lo que estaba unido al degüello de Bonifacio Acevedo.
-- ¿Y qué pasó con la cabeza?
-- En 1932 murió Escolástica y por fin pudieron revisar la cómoda y la petaca del comandante. Estaba envuelta en trapos (parece que la vieja la sacaba todas las noches y la colocaba sobre el bargueño y se pasaba las horas mirándola o quizá dormía con la cabeza allí, como un florero). Estaba momificada y achicada, claro. Y así ha permanecido.
-- ¿Cómo?
-- Y por supuesto, ¿qué querés que se hiciera con la cabeza? ¿Qué se hace con una cabeza en semejante situación?
-- Bueno, no sé. Toda esta historia es tan absurda, no sé.
-- Y sobre todo tené presente lo que es mi familia, quiero decir los Olmos, no los Acevedo.
-- ¿Qué es tu familia?
-- ¿Todavía necesitás preguntarlo? ¿No lo oís al tío Bebe tocando el clarinete? ¿No ves dónde vivimos? Decíme, ¿sabés de alguien que tenga apellido en este país y que viva en Barracas, entre conventillos y fábricas? Comprenderás que con la cabeza no podía pasar nada normal, aparte de que nada de lo que pase con una cabeza sin el cuerpo correspondiente puede ser normal.
-- ¿Y entonces?
-- Pues muy simple: la cabeza quedó en casa.
Martín se sobresaltó.
-- ¿Qué, te impresiona? ¿Qué otra cosa se podía hacer? ¿Hacer un cajoncito y un entierro chiquito para la cabeza?
Martín se rió nerviosamente, pero Alejandra permanecía seria.
-- ¿Y dónde la tienen?
-- La tiene el abuelo Pancho, abajo, en una caja de sombreros. ¿Querés verla?
-- ¡Por amor de Dios! --exclamó Martín.
-- ¿Qué tiene? Es una hermosa cabeza, y te diré que me hace bien verla de vez en cuando, en medio de tanta basura. Aquéllos al menos eran hombres de verdad y se jugaban la vida por lo que creían. Te doy el dato que casi toda mi familia ha sido unitaria o lomos negros, pero que ni Fernando ni yo lo somos.
-- ¿Fernando? ¿Quién es Fernando?
Alejandra se quedó repentinamente callada, como si hubiese dicho algo de más.
Martín se quedó sorprendido. Tuvo la sensación de que Alejandra había dicho algo involuntario. Se había levantado, había ido hasta la mesita donde tenía el calentador y había puesto agua a calentar, mientras encendía un cigarrillo. Luego se asomó a la ventana.
-- Vení --dijo, saliendo.
Martín la siguió. La noche era intensa y luminosa. Alejandra caminó por la terraza hacia la parte de adelante y luego se apoyó en la balaustrada.
-- Antes --dijo-- se veía desde aquí la llegada de los barcos al Riachuelo.
-- Y ahora, ¿quién vive aquí?
-- ¿Aquí? Bueno, de la quinta no queda casi nada. Antes era una manzana. Después empezaron a vender. Ahí están esa fábrica y esos galpones, todo eso pertenecía a la quinta. De aquí, de este otro lado hay conventillos. Toda la parte de atrás de la casa también se vendió. Y esto que queda está todo hipotecado y en cualquier momento lo rematan.
-- ¿Y no te da pena?
Alejandra se encogió de hombros.
-- No sé, tal vez lo siento por el Abuelo. Vive en el pasado, y se va a morir sin entender lo que ha sucedido en este país. ¿Sabés lo que pasa con el viejo? Pasa que no sabe lo que es la porquería, ¿entendés? Y ahora no tiene ni tiempo ni talento para llegar a saberlo. No sé si es mejor o es peor. La otra vez nos iban poner bando de remate y tuve que ir a verlo a Molinari para que arreglara el asunto.
-- ¿Molinari?
Martín volvía a oír ese nombre por segunda vez.
-- Sí, una especie de animal mitológico. Como si un chancho dirigiese una sociedad anónima.
Martín la miró y Alejandra añadió, sonriendo:
-- Tenemos cierto género de vinculación. Te imaginás que si ponen la bandera de remate el viejo se muere.
-- ¿Tu padre?
-- Pero no, hombre: el abuelo.
-- ¿Y tu padre no se preocupa del problema?
Alejandra lo miró con una expresión que podría ser la mueca de un explorador a quien se le pregunta si en el Amazonas está muy desarrollada la industria automovilística.
-- Tu padre --insistió Martín, de puro tímido que era, porque precisamente sentía que había dicho un disparate (aunque no sabía por qué) y que era mejor no insistir.
-- Mi padre nunca está aquí --se limitó a aclarar Alejandra, con una voz que era distinta.
Martín, como los que aprenden a andar en bicicleta y tienen que seguir adelante para no caerse y que, gran misterio, terminan siempre por irse contra un árbol o cualquier otro obstáculo, preguntó:
-- ¿Vive en otra parte?
-- ¡Te acabo de decir que no vive acá!
Martín enrojeció.
Alejandra fue hacia el otro extremo de la terraza y permaneció allá un buen tiempo. Luego volvió y se acodó sobre la balaustrada, cerca de Martín.
-- Mi madre murió cuando yo tenía cinco años. Y cuando tuve once lo encontré a mi padre aquí con una mujer. Pero ahora pienso que vivía con ella mucho antes que mi madre muriese.
Con una risa que se parecía a una risa normal como un criminal jorobado puede parecerse a un hombre sano agregó:
-- En la misma cama donde yo duermo ahora.
Encendió un cigarrillo y a la luz del encendedor Martín pudo ver que en su cara quedaban restos de la risa anterior, el cadáver maloliente del jorobado.
Luego, en la oscuridad, veía como el cigarrillo de Alejandra se encendía con las profundas aspiraciones que ella hacía: fumaba, chupaba el cigarrillo con una avidez ansiosa y concentrada.
-- Entonces me escapé de mi casa --dijo.

terça-feira, 13 de março de 2007

O Poeta e as Drogas


por Rodrigo Constantino

"A humanidade ganha mais tolerando que cada um viva conforme o que lhe parece bom, do que compelindo cada um a viver conforme pareça bom ao restante." (John Stuart Mill)

Um lado menos conhecido do poeta Fernando Pessoa é seu legado sobre economia e política, que Gustavo Franco ajudou a resgatar no livro A Economia em Pessoa, que organizou. O livro conta com artigos da época em que Pessoa escrevia para a Revista de Comércio e Contabilidade. Durante a leitura, fica claro que o poeta não era um leigo no assunto, e seus argumentos permanecem atuais e importantes para a defesa de coisas como a globalização, a privatização e o livre comércio. Em um dos artigos, intitulado As Algemas, Pessoa condena vários tipos de legislação restritiva, incluindo o tipo que pretende beneficiar o consumidor individual, proibindo a venda de determinados artigos – desde a cocaína às bebidas alcoólicas – por o seu uso ou abuso serem nocivos ao indivíduo. Fernando Pessoa era totalmente contra isso, e usa a Lei Seca como estudo de casos.

Em primeiro lugar, o poeta considera deprimente e ignóbil a circunstância de se "prescrever a um adulto, a um homem, o que há de beber e o que não há de beber". Compara tal atitude com a de colocar um colete-de-força num cão. Alerta que, indo por esse caminho, "não há lugar certo onde logicamente se deva parar", já que "se o Estado nos indica o que havemos de beber, por que não decretar o que havemos de comer, de vestir, de fazer"? Vai mais além, questionando por que o Estado não haveria de prescrever onde devemos morar ou com quem devemos dar-nos. Afinal, "todas essas coisas têm importância para a nossa saúde física e moral; e se o Estado se dispõe a ser médico, tutor e ama para uma delas, por que razão se não disporá a sê-lo para todas"? Ele lembra ainda que o Estado não é uma entidade abstrata, mas "se manifesta através de ministros, burocratas e fiscais – homens, ao que parece, e nossos semelhantes, e incompetentes portanto, do ponto de vista moral, senão de todos os pontos de vista, para exercer sobre nós qualquer vigilância ou tutela em que sintamos uma autoridade plausível". Como John Stuart Mill defendeu em A Liberdade, "o indivíduo não presta conta de suas ações perante a sociedade, na medida em que estas dizem respeito unicamente a ele, e a ninguém mais".

Passando ao exemplo empírico, Pessoa demonstra o completo fracasso da Lei Seca americana. De cara, temos a conseqüência do acréscimo da corrupção dos funcionários do Estado, além dos privilégios dos ricos sobre os pobres, já que estes não podem pagar os subornos que aqueles podem. Como outra conseqüência, estabeleceu-se dentro do Estado um segundo Estado, de contrabandistas, uma organização coordenada e disciplinada, destinada à técnica variada da violação da lei. "Ficou definitivamente criado e organizado o comércio ilegal de bebidas alcoólicas", ele afirma. Logo, tem-se a substituição do comércio honesto e normal por um desonesto e anormal, com o agravante deste se tornar um segundo Estado anti-social, dentro do próprio Estado. Por fim, Pessoa lembra que quem tem dinheiro continua a beber o que quiser, enquanto que quem tem pouco dinheiro mas é alcoólico, bebe da mesma maneira mas gasta mais, saindo prejudicado financeiramente. E há ainda os casos "tragicamente numerosos, dos alcoólicos que, não podendo por qualquer razão obter bebidas alcoólicas normais, passaram a ingerir espantosos sucedâneos – loções de cabelo, por exemplo – com resultados pouco moralizadores para a própria saúde". Surgiram ainda várias drogas não-alcoólicas, só que mais prejudiciais que o álcool, que sendo livremente vendidas, arruinam a saúde, mas dentro da lei.

A conclusão de Fernando Pessoa sobre o assunto geral das restrições ao comércio e em particular sobre o paternalismo estatal contra as drogas é que "a legislação restritiva, em todos os seus ramos, resulta, portanto, inútil e nociva".

terça-feira, 13 de fevereiro de 2007

O nacional-burrismo


acreditar na idéia de que as "grandes potências" querem dominá-lo por meio da cultura

A QUESTÃO
O NACIONALISMO RESSURGIU EM TODO O MUNDO. NO BRASIL, ELE SE MANIFESTA SOBRETUDO NA CULTURA, QUE, NO AFÃ DE VALORIZAR "NOSSAS RAÍZES POPULARES", DEIXOU DE SER VISTA COMO UM REPERTÓRIO DE GRANDES OBRAS LITERÁRIAS, MUSICAIS, FILOSÓFICAS.

O PERIGO
ALÉM DE FOMENTAR UMA AVERSÃO INJUSTIFICADA AO QUE VEM DE FORA, O NACIONALISMO CULTURAL ESCONDE O VERDADEIRO PROBLEMA: AS ENORMES DEFICIÊNCIAS DO SISTEMA EDUCACIONAL BRASILEIRO.

O nacionalismo cultural, uma das idéias mais perigosas que jamais afligiram o planeta, está ressurgindo em toda parte como reação ao processo de globalização. A idéia é perigosa, porque a idealização da própria cultura tem como corolário a desvalorização da cultura alheia, o que estimula as rivalidades nacionais e as guerras, e também porque a invenção de um inimigo externo comum cria falsas solidariedades e silencia contradições internas. Essa idéia está renascendo na Europa diante da penetração crescente da cultura americana. Está renascendo nos Estados Unidos, cada vez mais convencidos de serem o povo eleito, designado por Deus para converter o mundo ao American way of life. E está renascendo no Brasil.

O nacionalismo cultural foi muito influente entre nós, desde a fase de consolidação de nossa independência. Tudo começou com o nacionalismo romântico de Gonçalves Dias. Depois vieram o nacionalismo científico de Sílvio Romero e Euclides da Cunha, o nacionalismo modernista de Graça Aranha e Oswald de Andrade, o nacionalismo regionalista de Gilberto Freyre e o nacionalismo autoritário de Azevedo Amaral. Comum a todas essas variedades é o tema da falta de originalidade de nossas elites culturais, sua tendência compulsiva a copiar modelos estrangeiros.

A partir dos anos 50, o nacionalismo deixou de ser predominantemente cultural e passou a ser político e econômico. Em parte, foi dessa índole o nacionalismo do Instituto Superior de Estudos Brasileiros (Iseb), para o qual a "redução" da cultura estrangeira tinha como objetivo principal a promoção de nossa autonomia socioeconômica, e mesmo o dos militares, para os quais o repúdio às ideologias "exóticas" estava a serviço de uma fantasia de grande potência.

Com o fim da ditadura militar, o nacionalismo político e econômico perdeu fôlego, mas houve uma curiosa regressão para o nacionalismo cultural. Essa regressão fez-se acompanhar de uma redefinição do conceito de cultura. Ela deixou de ser vista como um repertório de grandes obras literárias, musicais e filosóficas e passou a ser vista num sentido etnográfico, como conjunto de valores, tradições, modos de fazer e de sentir. Foi a hora e a vez da ideologia da "broa de milho". Essa tendência está se acentuando em nossos dias. Quanto mais o governo é acusado de dobrar-se a exigências neoliberais, mais faz questão de mostrar-se fiel a nossas raízes nacional-populares. Tudo se passa como se o nacionalismo cultural estivesse ocupando o vazio deixado pelo recuo do nacionalismo político-econômico.

Essa mudança de função não torna o nacionalismo cultural menos perigoso. Como toda ideologia, ele induz o que minha geração chamava "falsa consciência". Essa falsa consciência faz com que os nacionalistas lamentem o caráter "inautêntico" da nossa cultura e o atribuam à influência dos grandes centros hegemônicos, sem se dar conta de que grande parte do problema se deve a nossos déficits educacionais e ao impacto do lixo cultural difundido pela indústria eletrônica de massas. Ora, essa indústria pode ser estrangeira, mas pode também ser nacional. A cultura de massas americana é indesejável por ser cultura de massas, e não por ser americana. A cultura de massas brasileira produz resultados igualmente deploráveis.

A verdade é que nas condições de um mundo globalizado, a cultura brasileira só poderá subsistir e se impor internacionalmente mediante a abertura para o mundo. Para mantermos nossa identidade cultural, temos de avançar, e não nos entrincheirar atrás de barricadas. Avançar significa, entre outras coisas, incorporar o que existe de melhor na cultura estrangeira. Não teríamos tido o cinema novo se Glauber Rocha tivesse sido impedido pelos nacionalistas da época de ler Cahiers du Cinéma, nem a bossa nova se eles tivessem retido na alfândega os discos de jazz.

O chauvinismo é um fenômeno social, e não necessariamente político. A sociedade brasileira abrigou no passado focos de chauvinismo antilusitano, como hoje tem nichos de chauvinismo antiargentino e principalmente antiamericano. Opor-se ao unilateralismo de Bush é dever de todas as pessoas de bem, mas é preciso velar para que essa crítica política não se degrade em xenofobia cultural. Há uma palavra de ordem contra o Halloween, pichada em várias paredes do centro do Rio, cujo tom é tão fascista que se chega a suspeitar que os autores da inscrição pertencem a uma organização de extrema direita. Aparentemente eles acham que só o Halloween é uma festa importada, e que o Natal já era celebrado pelos índios, com pinheirinhos cheios de luzes e flocos de algodão, quando Cabral chegou ao Brasil. Patologias desse gênero existem em todas as sociedades, mas elas podem traduzir-se em atitudes racistas quando estimuladas politicamente.

Certas importações são de fato irritantes, como acontece no caso da linguagem. Mas corrigir essas anomalias por decreto é uma anomalia maior ainda. Não há nada de mais provinciano que a legislação francesa que tenta impedir o uso de palavras estrangeiras, como se a própria língua francesa não fosse um amálgama de contribuições latinas, célticas e germânicas, e como se o inglês, contra o qual se quer defender o francês, não fosse constituído em altíssima proporção de palavras francesas levadas à Inglaterra pelos normandos. Uma lei semelhante no Brasil faria pouco sentido, porque o problema, entre nós, é que a maioria das pessoas não sabe português. Se quiserem que os adolescentes de hoje deixem de traduzir delete por deletar, tomem providências para que todos eles leiam Machado de Assis. Enquanto isso, eu não me preocuparia demasiadamente com deletar: é um neologismo, sim, mas já aceito pelo Aurélio e que, apesar da opinião de alguns puristas, me parece muito bem formado, construído a
partir de uma raiz impecavelmente latina (delere, destruir, que subsiste no adjetivo indelével).

O famoso caráter "inautêntico" da cultura brasileira, provocado pela vocação mimética de nossas elites, é um falso problema. O verdadeiro problema é a estrutura de poder da sociedade brasileira. O que está em jogo não é saber se o Brasil copia ou não a cultura estrangeira, e sim examinar por que as relações sociais internas dificultam o acesso das classes populares à grande cultura, seja ela nacional ou estrangeira. A inimiga não é a cultura estrangeira, e sim a incultura, que condena suas vítimas a uma ignorância imparcial, impedindo-as de conhecer tanto Proust quanto Guimarães Rosa.

(Sergio Paulo Rouanet é filósofo, diplomata, ex-ministro
da Cultura e autor de As Razões do Iluminismo )

ANTIAMERICANISMO PATOLÓGICO

por Rodrigo Constantino

“Para os latino-americanos é um escândalo insuportável que um punhado de anglo-saxãos, chegados ao hemisfério muito depois dos espanhóis, tenham se tornado a primeira potência do mundo”. (Carlos Rangel)


O povo brasileiro é, segundo algumas pesquisas apontam, um dos que tem maior sentimento negativo em relação aos Estados Unidos. A grande causa, creio, está na ignorância alimentada pela inveja. A falta de conhecimento acerca de inúmeros fatos, junto com décadas de lavagem cerebral ideológica, transformaram a nação do norte num demônio, assim como no perfeito bode expiatório. Não será meu objetivo aqui esgotar o assunto, pois seria necessário, para tanto, um livro inteiro. Sugiro então a leitura de A Obsessão Antiamericana, do francês Jean-François Revel. Ou, para quem preferir um estilo mais irônico, Manual do Perfeito Idiota Latinoamericano, o qual tem, entre os autores, Álvaro Vargas Llosa. Neste artigo irei tratar do tema de forma sucinta.

Uma das principais acusações contra os Estados Unidos diz respeito à seu poderio militar e seu aspecto belicoso. Muitos chegam ao absurdo de afirmar que é o poder americano que representa a maior ameaça à paz mundial, não a corrida armamentista de Irã, Coréia do Norte ou China. Chamam o país de “império”, e acham que sua força inigualável gera instabilidade no mundo. Não param para refletir que, mesmo com tanto poder, os Estados Unidos jamais foram conquistadores. Ignoram que entraram em várias guerras apenas de forma reativa, defendendo sempre o lado correto. Até mesmo a mais fracassada de todas as guerras, com o Vietnã, costuma gerar muito calor nos debates, mas pouca luz. Esquecem o contexto, e ignoram que o regime de Ho Chi Min, depois da partida americana, matou em poucos anos cerca de três vezes mais que as duas décadas de guerra com os Estados Unidos. Não citam Camboja, que não teve intervenção americana, e por isso mesmo viu o Khmer Vermelho, do comunista Pol-Pot, trucidar algo como 30% de sua população. Não pensam que a ajuda americana na Coréia foi o que possibilitou a sulista ser próspera e livre hoje, e não como sua irmã do norte. Mas ainda tem gente que pensa que o mundo seria mais calmo se o Irã tivesse o mesmo poder que os Estados Unidos.

Durante a Guerra Fria, havia uma divisão mais igual de forças, com o império soviético dividindo com os Estados Unidos a hegemonia. Alguém por acaso acha que o mundo era mais seguro? A hegemonia unilateral dos americanos hoje é bem mais tranquilizadora que a situação anterior, com um império maligno, que objetivava a exportação do terror mundo afora, ameaçando a paz e a liberdade dos povos. Graças ao poder americano o mundo não caiu nas garras comunistas. Não fossem os americanos e seu poder bélico, talvez boa parte do mundo hoje falasse russo e obedeceria a uma nomenklatura ditatorial, com os dissidentes jogados num campo de concentração qualquer da Sibéria. Se Hitler fracassou, devemos isso aos americanos, e se Stalin e seus seguidores também fracassaram, novamente devemos isso ao poder dos americanos. Todos que defendem a liberdade, ou seja, repudiam o nazismo e o socialismo, deveriam agradecer esta força militar americana que hoje tanto condenam, sem reflexão alguma.

Os Estados Unidos nunca conquistaram nações. Foram atacados tanto pelo Japão como pela Alemanha, reagiram, venceram, e garantiram a liberdade nesses países, que hoje desfrutam da segunda e terceira maiores economias do globo, respectivamente. Estão tentando fazer o mesmo no Iraque, ainda que a situação seja bem mais delicada ali. Aliás, sobre o Islã, é relevante destacar que nas intervenções na Somália, Bósnia ou Kosovo, assim como pressões sobre o governo macedônio, tiveram por objetivo defender as minorias islâmicas. Quem ataca de facto os muçulmanos são os próprios muçulmanos, como no caso do Iraque no Kwait, que foi defendido pelos americanos, ou na Argélia, onde o próprio povo que se massacra sozinho. Como que tamanha contradição pode passar desapercebida? Em 1956, foram os americanos que detiveram a ofensiva militar anglo-francesa-israelense contra o Egito, na chamada “Expedição Suez”. Nada disso é relevante para os povos obstinados e imbuídos de fé cega, assim como pesada lavagem cerebral de seus líderes, que utilizam os Estados Unidos como perfeito bode expiatório para justificar suas atrocidades domésticas.

Há muito mais o que se falar no campo militar, mas podemos partir para o caso econômico também. Os Estados Unidos são acusados de exploradores comerciais, mas ignoram que o país possui um déficit com praticamente todas as demais nações. São mais de US$ 700 bilhões importados todo ano a mais do que exportam. Em outras palavras, os consumidores americanos garantem o emprego de milhões de pessoas mundo afora, e ainda são acusados de exploradores e “consumistas”. Dependem do consumo dos americanos, mas vivem condenando-o. Criticam o embargo a Cuba, esquecendo que este país apontou mísseis para a Flórida e tomou na marra as empresas americanas na ilha, sem notar ainda a contradição de que culpam a ausência do comércio com os Estados Unidos pelos males do país comunista ao mesmo tempo que culpam o comércio pela pobreza de outros países. É preciso decidir se ser parceiro comercial dos americanos é solução para a miséria ou exploração que leva à miséria!

Enfim, a lista de acusações infundadas seria infindável. Claro que existe muito o que se criticar nos Estados Unidos, não há dúvida. Mas está muito evidente que estas pessoas não estão utilizando a razão para tanto. Não são críticas racionais, mas sim passionais, totalmente desprovidas de lógica. Não é razoável alguém bradar contra os Estados Unidos ao lado de Chávez, por exemplo. Não há um pingo de lógica em alguém que justifica um Bin Laden, achando causas para seu terrorismo nos próprios Estados Unidos, por exemplo. Na verdade, este antiamericanismo, em grau impressionante no Brasil, é totalmente patológico. É uma doença mesmo, fruto de uma inveja indomável. Certas pessoas jamais irão perdoar o fato desses “broncos” americanos terem criado em poucos séculos a nação mais próspera do mundo, com base em ampla liberdade individual. Não vão perdoar também o fato deles não terem deixado os soviéticos acabarem com a liberdade no mundo. A patologia é tanta, em alguns casos, que gostariam que a Al Qaeda conseguisse aquilo que os comunistas não conseguiram: a destruição dos americanos. Caso para a psiquiatria mesmo...


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O jornalista burro

Gramsci dizia que os jornalistas são os que mais se acham intelectuais. Ele ria disso. De fato, até hoje, os jornalistas, por escreverem todos os dias, se acham intelectuais. Muitos acreditam, inclusive, que por causa de que escrevem, eles são também leitores. Mas não são. Em geral não possuem hábito de leitura, sabem apenas um pouco de política cotidiana, nada de filosofia e, de literatura, muito menos. Mas a população de um país pobre e com índices educacionais baixos, acaba até acreditando que o jornalista, por escrever, lê e é culto. E ao fim o próprio jornalista acha conveniente ele mesmo acreditar nisso.

Mas, não raro, o jornalista é uma figura medrosa, cujos hábitos intelectuais são tacanhos e, pior de tudo, é o que vai ler isso que escrevo e vai dizer: não vale generalizar. Ora, quando alguém diz isso, então está comprovada a sua burrice.

Escrever é generalizar. Principalmente na crítica jornalística, o principal instrumento, e talvez impossível de ser substituído, é a generalização. Não podemos nunca escrever bem se optamos por contar casos, picuínhas. Nem podemos escrever frases do tipo "os são paulinos são uns arruaceiros, mas o Huguinho, o Zezinho e o Luisinho, e mais o fulano X e o Y, não são". Não faria sentido. Ou seja, quando escrevemos, generalizamos - forçadamente. O leitor inteligente sabe disso. O burro não. O burro acha que foi para ele, somente para ele, que falamos o que falamos. À vezes, até foi!

Outro dia, um jornalista burro ficou bravo comigo por causa de que eu mostrei para ele que ele era burro ao dizer que eu não podia generalizar. Todavia, o sujeito era tão burro que ele não percebeu o que eu estava lhe ensinando, e ficou agressivo. Ele não percebeu que a toda frase que ele escrevia ele generalizava, e quanto mais negava isso, mais burro se mostrava. E cada vez que eu dizia que ele era burro e estava comprovando isso, ficava mais nervoso.

Mas o pior de um jornalista não é só a burrice. O pior, mesmo, é quando ele é burro e se acha inteligente. Talvez fosse o caso de começarmos a fazer uma triagem nas redações de jornais. Um mecanismo interessante seria colocar um mata-burro na porta. Isso ajudaria muito. Pois sobrariam poucos e, com certeza, os menos puxa sacos do poder. Pois jornalista burro, que se acha inteligente, é aquele que ataca um poder para que ninguém perceba que ele está sendo financiado por outro.


Paulo Ghiraldelli Jr. "O filósofo da cidade de São Paulo".
Site: www.filosofia.pro.br

O BRASIL VISTO PELA TV

por Maria Lucia Barbosa, socióloga

A Televisão é o altar diante do qual as massas se ajoelham em atitude de adoração aos ídolos populares, fabricados muitas vezes com a argila da mediocridade, pintados com as tintas da vulgaridade.

Jornais são relativamente pouco lidos desempenhando, portanto, função moderada na formação da opinião pública. Já a TV exerce influência vital na vida das pessoas. É informação rápida e volumosa que não solicita muito do raciocínio, entretenimento e prazer, companhia e consolo. Moda, linguajar, costumes, crenças, comportamentos, atitudes e valores são hoje menos transmitidos pelos meios de controle social como a família, a escola, a Igreja, e mais pelos canais de televisão com suas novelas, filmes, programas variados, entre os quais alguns de bom nível.

Na TV, contudo, não predomina o bom gosto ou a sofisticação. Mesmo porque, esse meio de comunicação de massas é produto e reflexo da sociedade e dos tempos em que se vive. Fantasiando a realidade a televisão reflete e devolve em forma de sonho a imagem recriada do que se passa entre os indivíduos. É como se fosse um gigantesco espelho mágico. Ao mesmo tempo, o espelho projeta o que as pessoas gostariam de ser e ter na vida real, e não podem.

A TV é por excelência o palanque eletrônico onde atores políticos desfilam com o intuito de alcançar e manter o poder. E aqui não se deve omitir que o rádio se presta igualmente às doutrinações políticas e religiosas, portanto, ao controle social, mas não com tanto impacto.

Quanto aos telejornais cito o poeta e ensaísta alemão, Hans Magnus Enzensberger: “A idéia de que a TV, um dia, poderia democratizar o conhecimento, foi apenas uma ilusão. O telejornal é o melhor exemplo dos seus limites de ação. Incoerentes, esses jornais televisivos não têm a menor intenção de informar, mas de vender qualquer coisa”.

De uns tempos para cá nossos telejornais estão vendendo boas notícias como se continuassem a obedecer às ordens do então ministro Luiz Gushiken. E não poderiam, é claro, faltar escândalos e tragédias. Desse modo, o acontecimento mais momentoso do início do ano foi a cratera que se abriu em São Paulo, originada das obras do metrô. Dia e noite os telejornais repetiram algo sobre o imenso buraco e não se sossegou enquanto não apareceram as vítimas. Mas, como tudo guarda intenções políticas, depois da eleição para presidente da Câmara dos deputados quando foi vitorioso o petista Arlindo Chinaglia, a cratera sumiu, pelo menos dos vídeos. E que, conforme a mídia, o governador de São Paulo, José Serra (PSDB) teria apoiado Chinaglia.

Nos telejornais podemos saber o que se passa no Iraque que está no ar vinte quatro horas. Muitas outras notícias internacionais, mas nada de especial sobre o grande companheiro Hugo Chávez, sua lei habilitante que lhe confere poderes ditatoriais, seu crescente armamentismo com intuitos atômicos, o desabastecimento de carne na Venezuela. Nenhuma palavra sobre os mineiros que marcharam com bananas de dinamite para protestar contra Evo Morales, outro companheiro querido. Silêncio sobre as intenções do recém-eleito presidente do Equador, Rafael Correa, que pretende expropriar investimentos estrangeiros, o que poderá prejudicar o Brasil naquele país a exemplo do que fez Evo Morales sem que aqui se levantasse uma única voz nacionalista.

No Brasil um cenário róseo é visto na TV. Bastante futebol (apesar da inesperada derrota para Portugal que passou batida). Intoxicação de PAN. Um tanto de PAC (a nova panacéia governamental). Daqui a pouco volta a novela da formação do ministério possibilitando ao presidente da República, que anda recolhido, mais exibições televisivas que no primeiro mandato tiveram a característica de overdose visual.

Na TV a indústria brasileira cresceu (na verdade diminuiu o ritmo). Muito estardalhaço sobre a violência urbana, com o cuidado de não respingar nas autoridades enquanto, independente daquela Guarda Nacional que até agora não mostrou a que veio, a ocorrência de um dos crimes mais bárbaros já ocorridos no Rio de Janeiro: numa cena de horror um menino de seis anos morre ao ser arrastado preso no carro, pelos bandidos que roubaram o veículo de sua mãe. Na TV o presidente Luiz Inácio dizendo que a Saúde no Brasil atingiu a perfeição, na realidade a tragédia da jovem de dezessete anos, que em trabalho de parto percorreu quatro hospitais sem conseguir atendimento vindo a falecer com seu bebê. Na TV a educação brasileira como a melhor do mundo, nos jornais a manchete: “educação piora em 10 anos”. Nos aeroportos caos e revolta sem que o governo tome a menor providência. Provavelmente o presidente Luiz Inácio não viu e não sabe o que está ocorrendo com os passageiros, a maioria, certamente, seus eleitores.

Mas enquanto o povo acreditar na TV está tudo bem. Especialmente para o governo petista. Que precioso instrumento de poder é a televisão. Luiz Inácio que o diga.

Os ateus são prepotentes?

O ÔNUS DA PROVA

por Rodrigo Constantino
“A ignorância traz muito mais certezas que o conhecimento.” (Charles Darwin)


Os ateus e agnósticos costumam ser injustamente acusados de prepotentes. Os crentes afirmam que os ateus se acham os donos da verdade. Não poderia haver maior inversão! O ponto de partida de um ateu é justamente o reconhecimento da nossa ignorância, dos limites do nosso conhecimento. Há muito que o homem pode aprender sobre o mundo, principalmente utilizando sua principal ferramenta epistemológica, que é a razão. Foi raciocinando, e não rezando, que chegamos a tantos avanços tecnológicos e medicinais, ou mesmo às conquistas da liberdade. Mas há um limite onde nossos sentidos conseguem chegar. Além disso, resta um mar de desconhecimento.

O ateu consegue conviver com essa ignorância, com muitas dúvidas sobre o mundo, sobre as questões básicas que sempre mexeram com os homens. Como tudo começou, de onde viemos, para onde vamos, tais questões não têm resposta ainda, e o reconhecimento disso é que possibilita a eterna busca por mais conhecimento. Como disse Epíteto, “é impossível para um homem aprender aquilo que ele acha que já sabe”. Mas o crente religioso não suporta a dúvida. Ele não consegue apenas não saber. “A dúvida é tortura apenas para o crente, mas não para o homem que segue os resultados de sua própria investigação”, disse Humboldt. E então surgiram muitas religiões, oferecendo as respostas prontas, garantindo já saber sobre essas questões complexas. A prepotência, portanto, está justamente do outro lado, do lado dos que juram saber as respostas, pois estas teriam sido “reveladas”.

Muitos entendem que deus é uma palavra apenas para designar esse desconhecido, essa vastidão acima da nossa capacidade intelectual. Mas nesse caso, eu pegaria emprestada a frase de Frank Lloyd Wright, e diria que acredito em deus, mas soletro natureza. Não vejo porque dar outro nome então. Pois o outro nome, deus, vem carregado de outros conceitos, e gera muito mais confusão. Cada um terá sua idéia subjetiva do que venha a ser esse deus. O deus de Einstein, por exemplo, é muito parecido com o dos ateus, já que ele declarava não crer na imortalidade do indivíduo e considerava a ética uma preocupação exclusivamente humana, sem nenhuma autoridade super-humana acima. Não vejo mal algum nisso. Mas vejo riscos no deus antropomórfico que muitos homens criam e passam a acreditar. Um deus que observa os homens, que pune, que salva, enfim, no deus cristão ou no Alá dos muçulmanos. Essa crença em deus pode ser prepotente por afirmar saber as respostas, e ainda costuma ser intolerante, pois não admite competição e repudia qualquer outro deus.

Algumas perguntas delicadas são feitas pelos ateus, mas costumam ficar sem respostas objetivas por parte dos crentes. Se esse deus meio humanizado é onisciente, sabe de tudo, então ele tem que conhecer a dor e o sofrimento, para ter criado tais sentimentos. Mas como pode um ser perfeito conhecer a dor e o sofrimento? A perfeição pressupõe ainda a inércia, pois qualquer mudança, qualquer ação, irá levar inexoravelmente para uma situação pior. Como deus agiu então para criar o mundo? A ação é fruto do desconforto e da busca pela melhoria, e seres perfeitos não agem. Se o teísmo é vagamente definido como uma força superior, um ser misterioso cuja essência não podemos sequer entender, então deus seria um ateu. Ele não acredita numa força superior a ele mesmo, e seus próprios poderes, apesar de acima dos homens, seria natural para ele, e compreensíveis. Tudo seria “natural” pela sua perspectiva. É justamente o que defendem os ateus.

Muitos crentes ficam incomodados com isso tudo, e partem para a fuga mais conhecida: exigem que se prove então que deus não existe. Mas como se pode provar uma não existência? Se for uma fantasia, como seria possível provar que ela é mesmo uma fantasia? A ciência busca refutar teorias, testando-as. As que suportam os testes, são consideradas válidas até que provem o contrário. Mas é impossível partir da necessidade de provar que algo não existe. Eu poderia afirmar que existe um gnomo vivendo em minha casa, e que ele é invisível e indetectável. Nenhum método que os homens conhecem seria capaz de provar a sua existência. Se eu pedisse para provarem que ele não existe, isso seria impossível. E creio que se eu insistisse muito em sua existência, era mais provável chamarem os homens de branco e me levarem para um hospício, depois de realizado um teste com o bafômetro. O ônus da prova deve estar com aqueles que afirmam sua existência, não o contrário.

Os ateus apenas não reconhecem as crenças subjetivas dos crentes como prova da existência de um deus. Se alguém deseja que suas crenças sejam levadas a sério pelos demais, deve mostrá-las como algo mais que conceitos pessoais, que um estado da mente. Uma crença torna-se objetiva quando é justificada com razões que podem ser examinadas e avaliadas por outros. Caso contrário, não é nada mais do que uma visão pessoal das coisas, uma emoção do indivíduo que nada prova sobre o mundo externo.

Espero ter deixado mais claro que os ateus costumam ser mais humildes por aceitar a ignorância humana, enquanto os crentes assumem uma postura de prepotência e intolerância porque consideram que já sabem as respostas.


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Publicado em 09/02/2007

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2007

Significados e históricos de ditos populares

DEIXAR AS BARBAS DE MOLHO
Significado: Ficar de sobreaviso, acautelar-se, prevenir-se.

Histórico: Na Antiguidade e na Idade Média a barba significava honra e poder. Ter a barba cortada por alguém representava uma grande humilhação. Essa idéia chegou aos dias de hoje. Um provérbio espanhol diz que "quando você vir as barbas de seu vizinho pegar fogo, ponha as suas de molho". Todos devemos aprender com as experiências dos outros.

FALAR PELOS COTOVELOS
Significado: Falar demais.

Histórico: Surgiu do costume que as pessoas muito falantes têm de tocar o interlocutor no cotovelo afim de chamar mais a atenção. O folclorista brasileiro Câmara Cascudo fazia referência às mulheres do sertão nordestino, que à noite, na cama com os maridos, tocavam-nos para pedir reconciliação depois de alguma briga.

CONHECER NO SENTIDO BÍBLICO
Significado: Ter feito sexo com alguém.

Histórico: A maior parte do Velho Testamento foi escrita em hebreu, em que a palavra "conhecer" (yo-day-ah) é usada em diversas situações diferentes, podendo significar "conhecer intimamente, de maneira próxima". Em uma das passagens bíblicas, por exemplo, Deus diz que "conhece Moisés pelo nome", o que quer dizer que ele o conhece bem, que há um relacionamento entre os dois. Em outros casos, conhecer intimamente pode significar manter relações sexuais com uma pessoa e daí é que vem a expressão.

CHORAR AS PITANGAS
Significado: Chorar muito.

Histórico: O nome pitanga vem de pyrang, que, em tupi, significa vermelho. Portanto, a expressão se refere a alguém que chorou muito, até o olho ficar vermelho.

CUSPIDO E ESCARRADO
Significado: Uma pessoa é muito parecida com outra.

Histórico: Mais uma digreção brasileira. A origem do ditado vem da expressão Esculpido em carrara". A frase é uma alusão à perfeição das esculturas de Michelangelo, pois carrara é um mármore da Itália e foi bastante usado por ele. Algum tempo atrás significava fazer bustos de pessoas famosas em carrara, o mais chique dos mármores, ou seja, fazia uma cópia perfeita da fisionomia da pessoa.

BAFO DE ONÇA
Significado: Hálito fétido.

Histórico: A onça é animal carnívoro e se lambuza na hora de comer a caça, por isso fede muito e sua presença é detectada à distância na mata.

a BEÇA
Significado: Muito, em grande quantidade.

Histórico: No Rio imperial, havia um comerciante rico chamado Abessa, que adorava ostentar roupas de luxo. Quando alguém aparecia fazendo o mesmo, dizia-se que ele estava se vestindo à Abessa, ou seja, como o comerciante. Virou sinônimo de abundância, exagero. Outra versão é atribuída à grande profusão de argumentos utilizados pelo jurista sergipano Gumersindo Bessa (1849-1923) ao enfrentar Rui Barbosa em famosa disputa pela independência do território do Acre, que seria incorporado ao Amazonas. Quem primeiro utilizou a expressão foi Rodrigues Alves (1848-1919), presidente do Brasil de 1902 a 1906, admirado da eloqüência de um cidadão ao expor suas idéias: "O senhor tem argumentos à bessa." Com o tempo, o sobrenome famoso perdeu a inicial maiúscula e os dois esses foram substituídos pela letra c com cedilha (ç).]


PODE TIRAR O CAVALO DA CHUVA
Significado: Pode esperar que vai demorar.

Histórico: No interior o meio de transporte mais utilizado é o cavalo. Além de não enguiçar nem parar por falta de combustível, o cavalo tem a vantagem de deixar clara a intenção do visitante na chegada. Se ele amarra o bicho na frente da casa, sinal de permanência breve; se leva para um lugar protegido da chuva e do sol, pode botar água no feijão, o moço vai demorar. Depois o sentido da expressão se ampliou para desistir de um propósito qualquer.


OVELHA NEGRA DA FAMÍLIA
Significado: Filhos que não têm bom comportamento.

Histórico: Histórico: A história dessa frase nasceu do milenar trabalho de pastoreio. Em todo o rebanho há um animal de trato difícil, que não acompanha os outros. Cuidando das ovelhas, protegendo-as dos lobos, providenciando-lhes os melhores pastos, o pastor não evita, porém, que uma delas se desgarre. É a "ovelha negra". Por metáfora, a frase passou a ser aplicada nas famílias e em outras comunidades, a filhos ou a afiliados que não têm bom comportamento. Na "Ilíada", de Homero (século IX a. C.) relata o sacrifício de uma ovelha negra como garantia do pacto celebrado entre Páris e Menelau, que resultou na guerra de Tróia. Mas ela não foi punida por mau comportamento. Como muitas ovelhas negras, era inocente.


BATEU AS BOTAS
Significado: Morreu.

Histórico: Esta frase é uma variante das tradicionais "Esticou as canelas", "Abotoou o paletó", "Partiu desta para melhor". O curioso, porém, é que se aplica apenas ao morto adulto, do sexo masculino, que tenha o costume de andar de botas ou ao menos calçado. O sapato tem sido símbolo de qualificação social ao longo de nossa história, tendo partilhado seu prestígio com certa marcas de tênis, em busca dos quais adolescentes delinqüentes chegam a matar. Provavelmente bate as botas ao morrer alguém de certas posses, ao menos remediado. Outros morto apenas esticam as canelas ou parte desta para melhor. No segundo caso, partem com estilo, fazendo dupla elipse, já que está subentendido que partiram desta para outra vida, que os comentadores antevêem mais favorável a quem partiu. Dependendo da herança, sua partida é mais favorável para quem ficou. As origens da frase residem no bom trato despedindo aos mortos, posto arrumadinhos nos caixões, com o paletó abotoado. Como, porém, as mulheres passaram a usar roupas semelhantes às dos homens, também elas podem abotoar o paletó à triste hora da partida. A pergunta, entretanto, permanece: triste para quem? Sábios, os latinos cunharam outra frase: "Requiescat in pacem" (descanse em paz). E há um emblema para as cerimônias da morte, o Requiem (Descanso). Um dos mais célebres é o de Mozart.

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CONVERSA MOLE PARA BOI DORMIR
Significado: Assunto sem importânica.

Histórico: Esta frase nasceu quando o boi era tão importante que dele só não aproveitava o berro. Tratado quase como pessoa, com ele os pecuaristas conversavam, não, porém, para fazê-lo dormir. Nas touradas, quando o boi ainda é touro, até sua fúria compõe o espetáculo. Na copa de 1950, o Brasil venceu Espanha por 6 a 1 e quase 200 mil pessoas cantaram touradas em Madri, de Carlos Alberto Ferreira Braga, o Braguinha, que termina com este verso: "Queria que eu tocasse castanholas e pegasse um touro a unha/ caramba, caracoles/ não me amoles/ pro Brasil eu vou fugir/ isso é conversa mole/ para boi dormir".

DEU DE MÃO BEIJADA
Significado: Entrega espontânea

Histórico: Esta frase nasceu do rito empregado nas doações ao rei ou ao papa. Em cerimônia de beija-mão, os fiéis mais abastados faziam suas ofertas, que podiam ser terra, prédios e outras dádivas generosas. O papa Paulo IV (1476-1559), em documento de 1555, aludiu a esses meios regulares de provento sem ônus, dividindo-os em oblações ao pé do altar e de mão beijada. Desde então a frase tem sido aplicada para simbolizar favorecimentos. Nunca de mão beijada, em 1998 foi a sexta vez que o Brasil disputou a final de uma copa do mundo.

FALAR PELO COTOVELO
Significado: Falar demais.

Histórico: Tem origem nos gostos de faladores contumazes, que procuram tocar os interlocutores com os cotovelos em busca de maior atenção. O primeiro a registrar a expressão foi o escritor latino Horácio (65- 8 a .C.), numa de suas sátiras. O folclorista brasileiro Luís de Câmara Cascudo (1898-1986) referiu-se ao costume das esposas no sertão nordestino de cutucar os maridos à noite, no leito conjugal, buscando reconciliação depois de alguma briga diurna. Entre os estadistas, quem mais fala pelos cotovelos é o presidente de cuba, Fidel Castro.

INÊS É MORTA
Significado: Não adianta mais.

Histórico: Personagem histórica e literária, celebrada em Os lusíadas, de Luís de Camões (1524-1580), Inês de Castro (1320-1355) teve um caso com o príncipe Dom Pedro (1320-1367), com quem teve três filhos. Por reprovar o romance, a casa real condenou a dama castelhana que vivia na corte portuguesa à morte por decapitação. Ela literalmente perdeu a cabeça por um homem. Quando já era o oitavo rei de Portugal, Dom Pedro deu-lhe o título de rainha. Mas àquela altura logicamente isso de nada adiantava: Inês já estava morta. A frase passou a significar a inutilidade de certas ações tardais. É o título de romance do mineiro Roberto Drummond.

MISTURAR ALHOS COM BUGALHOS
Significado: Frase que sintetiza confusão.

Histórico: Frase de uso corrente na linguagem coloquial desde os tempos dos primeiros cultivos do alho, erva de que se aproveita o bulbo, principalmente como tempero. Os namorados, entretanto, procuram evitar pratos com tal condimento, já que o beijo fica mais adequado ao trato com vampiros e não com os amados, dado ao cheiro pouco agradável advindo de sua metabolização no organismo. Com o sentido de coisas desconexas e trapalhadas, foi registrada por João Guimalhões Rosa num de seus contos: "O senhor pode às vezes distinguir alhos de bugalhos, e tassalhos de borralhos, e vergalhos de chanfalhos, e mangalhos... Mas, e o vice-versa?" Com sua escrita plena de complexidades e sutilezas, o maior escritor brasileiro do século XX misturou muito mais do que alhos com bugalhos, criando novas palavras ao manter alho como sufixo de diversas outras, aproveitando a coincidência fonética de ‘bugalho’, do celta bullaca (conta grande de rosário, noz), rimar com alho, além de designar coisa parecida na forma.


VÁ PENTEAR MACACOS
Significado: Não incomode, vá para longe.

Histórico: Esta frase, proferida como ofensa, é adaptação brasileira de um provérbio português: "Mau grado haja a quem asno penteia". Na tradição de Portugal, pentear burros e jumentos seria tarefa menor, quase desnecessária. Provavelmente o verbo significava escovar, um luxo para animais de carga. Mas no século XVIII, o animal já havia sido substituído por bugio em Portugal e por macaco no Brasil, tal como aparece em documentos de 1756 assinado pelo rei Dom José (1714-1777), que deve ter penteado muitos macacos, já que quem exercia o poder era o marquês de Pombal (1699-1782), que, inclusive, transferiu a capital do Brasil de Salvador para o Rio de Janeiro. A expressão está registrada por Luís da Câmara Cascudo (1898-1986) em Locuções tradicionais do Brasil.

RASGAR SEDA
Significado: Elogiar exageradamente.

Histórico: A sabedoria popular costuma resumir seus ensinamentos em diretos e provérbios, quase sempre ligados a acontecimentos da vida cotidiana, mas sua permanência na memória depende dos registros escritos. Com a frase acima, não se deu diferente. Foi sempre sinônimo de elogios exagerados e está presente numa das comédias do fundador do teatro de costumes no Brasil, o dramaturgo Luís Carlos Martins Pena (1815-1848), em cena na qual um vendedor de fazendas vai à casa de uma moça para cortejá-la e, como pretexto, oferece-lhe alguns panos "apenas pelo prazer de ser humilde escravo de uma pessoa tão bela". Retruca a moça: "Não rasgue a seda, que esfiapa-se".

É DE TIRAR O CHAPÉU
Significado: É muito bom.

Histórico: Foi no reinado de Luís XIV, o Rei Sol, que a França disciplinou as saudações feitas com o chapéu. O costume vinha dos templos da mais parda das eminências, o cardeal Richelieu, à época de Luís XIII. Os cumprimentos podiam ser feitos com um toque na aba; erguendo-o um pouco, sem retirá-lo da cabeça; tirando-o inteiramente ou fazendo-o roçar no chão, quase como uma vassoura, tudo dependendo da importância social de quem era saudado. Como se sabe, os Luíses XIII e XIV foram reis que se preocuparam muito com chapéus. Logo depois, um dos mais famosos da seqüência, Luís XVI, perdeu muito mais do que o chapéu: a própria cabeça, na Revolução Francesa.

É UM ELEFANTE BRANCO
Significado: É algo que não serve para nada.

Histórico: A origem desta frase vem de um costume do antigo reino de Sião, situado na atual Tailândia, que consistia no gesto do rei de dar um elefante branco aos cortesãos que caíam em desgraça. Sendo um animal sagrado, não poderia ser posto para trabalhar. Como presente do próprio rei, não poderia ser vendido. Matá-lo, então, nem pensar. Não podendo também ser recusado, restava ao infeliz agraciado alimentá-lo, acomodá-lo e ajaezá-lo com luxo, sem nada obter de todos esses cuidados e despesas. A frase foi utilizada pelo ex-presidente João Figueiredo para queixar-se dos excessivos gastos, não de uma estatal, mas de seu sítio do Dragão.


ESTAR DE PAQUETE
Significado: Situação das mulheres quando estão menstruadas.

Histórico: Paquete, já nos ensina o Aurélio, é um das denominações de navio. A partir de 1810, chegava um paquete mensalmente, no mesmo dia, no Rio de Janeiro. E a bandeira vermelha da Inglaterra tremulava. Daí logo se vulgarizou a expressão sobre o ciclo menstrual das mulheres. Foi até escrita uma ``Convenção Sobre o Estabelecimento dos Paquetes``, referindo-se, é claro, aos navios mensais.


QUINTOS DOS INFERNOS
Significado: Amaldiçoar alguém ou local muito longínquo.

Histórico: Uma corrente (com variantes, é claro) associa o termo quintos ao imposto de 20% cobrados pela coroa portuguesa sobre todo o ouro fundido no Brasil. Falava-se em quintos mais ou menos como hoje ainda se fala em décimas, no sentido tributário. Em Parati, por exemplo, até hoje existe a velha Casa dos Quintos. O navio que levava a Lisboa o produto dessa arrecadação era a nau dos quintos; por causa da antipatia que os brasileiros sentiam por esse tributo, teria sido agregada a locução "dos infernos", ficando então completa a expressão. Outra corrente volta-se para Quintos, uma das freguesias de Beja, em Portugal. Como estava situada, na Idade Média, no limite do território português, a localidade era alvo constante das investidas dos chefes árabes que dominavam grande parte da Península Ibérica, o que tornava infernal a vida nessas paragens. Daí teria vindo o hábito de arrenegar os desafetos e inimigos, mandando-os para "os Quintos dos infernos".


DORMIR COM AS GALINHAS
Significado: Dormir muito cedo.

Histórico: A expressão significa deitar-se cedo, logo ao anoitecer, como fazem as galinhas.


AMA-SECA
Significado: Babá.

Histórico: O termo surgiu na época da escravidão e correspondia à escrava que não amamentava. A escrava que dava de mamar era chamada de ama-de-leite.


ENTRAR COM O PÉ DIREITO
Significado: Começar bem.

Histórico: A expressão surgiu no Império Romano e conseguiu se espalhar pelo mundo inteiro. Nas festas realizadas na antiga Roma, os convidados eram avisados de que deveriam entrar nos salões com o pé direito - dextropede. A medida, segundo os romanos, evitaria o agouro. Entre as personalidades brasileiras que disseram em público algo parecido está o nosso ilustre Rui Barbosa. Em discurso feito às vésperas da posse do marechal Hermes da Fonseca (1855-1923), disse a seguinte frase: "Que o novo presidente entre com o pé direito".


CATAR MILHO
Significado: Datilografar ou digitar lentamente.

Histórico: A expressão catar milho mostra a influência do mundo rural no urbano. Milho aqui está no lugar de grão: grão de milho, que é parte da espiga. Se alguns grãos caem no chão, se esparramam, cata-se um por um, como as galinhas fazem com o bico no terreiro quando se joga milho para elas. Catar milho tem um sentido metafórico, porque , ao utilizar somente um dedo só de cada mão, próprio de quem não fez curso para adquirir agilidade nessa tarefa, é semelhante ao ato de catar cada grão de milho no chão.


a EMENDA SAIU PIOR DO QUE O SONETO
Significado: O conserto ficou pior que o original.

Histórico: Querendo uma avaliação, certo candidato a escritor apresentou soneto de sua lavra ao poeta português Manuel Maria Barbosa du Bocage (1765-1805) pedindo-lhe que marcasse com cruzes os erros encontrados. O escritor leu tudo, mas não marcou cruz nenhuma, alegando que elas seriam tantas que a emenda ficaria ainda pior do que o soneto. A autoridade do mestre era incontestável. Bocage levou essa forma poética a tal perfeição que fazia o que bem queria com um soneto, tornando-se muito popular, principalmente em improvisos satíricos e espirituosos, pelos quais é conhecido.


AO DEUS DARÁ
Significado: Deixado de lado.

Histórico: Esta famosa frase serviu originalmente de resposta de quem não queria dar esmolas. Homens duros de coração respondiam aos mendigos que lhe estendiam a mão: Deus dará. Eles não. Quem dependia da caridade pública ficava em má situação, ao Deus dará. A expressão cristalizou-se de tal forma que, no século XVII, um negociante português que vivia no Recife, de tanto proferir a frase, passou a tê-la acrescentada ao próprio nome. Ficou conhecido como Manuel Álvares Deus Dará. Seu filho, Simão Álvares Deus Dará, foi provedor-mor da fazenda do Brasil.