
Dos poucos antigos amigos, uns nem sabiam que ainda estava vivo e outros se esqueceram dele. As filhas e os dentes, o abandonaram aos poucos. Nem todos eles e nem todas, uma delas ainda mantinha três contatos por ano através de cartões: no Natal, no seu aniversário e no dia dos pais. E pelas fotos anexadas, via os netos crescerem.
Também lembrava dele o proprietário, quando cobrava a mensalidade do quarto e sala que lhe alugava nos fundos do cortiço, com um quintal estrategicamente isolado do resto dos vizinhos.
E só. Mas, se restava algum orgulho em Graciliano, eram os diplomas de vida conquistados graças aos muitos anos de filosofia lida e vivida, aprendendo a fruir da solidão que lhe inculcou uma aversão por ruídos e conversas dispensáveis, desenvolvendo instintiva necessidade de silêncios; ninguém o visitar tinha seu encanto.
Com exceção desse gato que aparecera se pavoneando pelas bordas dos altos muros que rodeavam o terreno, havia quase um ano. Nas primeiras vezes, o bicho respondera aos seus chamados com indiferença ou bufando com miados hostis, arreganhando os dentes como resposta. Por pura diversão e pacientemente, Graciliano o atraíra aos poucos, fazendo questão que ele o visse arremessando restos de alimentos por sobre o muro, onde parecia reinar o siamês, que ele deduziu mestiçado como resultado de alguma aventura extra-pedigree, devido ao tamanho ser maior que seus ancestrais. Passados alguns dias, percebera que as tentativas de sedução tinham dado certo: deu de cara com ele no quintal. O orgulhoso invasor não arrefecera sua hostilidade defensiva ao vê-lo. Rosnou e mostrou os dentes. Disfarce. Era o início de uma amizade que durara até hoje. Imaginando que já devia ter um nome a que respondia há anos, nem tentara batizá-lo; então o chamava de “Gato”, “Tigre”, “Gordo” ou qualquer nome que lhe ocorre-se no momento das suas visitas, que podia ser a qualquer hora do dia ou da noite.
Se demorava a voltar, talvez da casa onde fora criado – cuja localidade devia ser distante, porque das comedidas pesquisas nas redondezas de vizinhos, ninguém soube informar origem ou falta –, não conseguia deixar de sentir o desassossego de uma ausência.
Mas quando instalado em seu colo, entre um cafuné e outro, Graciliano dialogava com o gato como se fosse gente. E de tanto conversar e adivinhar as respostas ou comentários, não se surpreendeu quando o gato falou com ele. Começou com uma resposta à pergunta tantas vezes feita assim que ele assomava no pátio ou na porta da cozinha: “Ta com fome, gato?” “Muita”, ronronou ele. “T’aqui,” ofereceu o velho, indicando a travessa cheia de ração que comprava religiosamente de moeda em moeda. Minutos depois, ao se dar por satisfeito, o siamês espreguiçou e procurou: “Tem água?” “Taqui,” replicou Graciliano, oferecendo vasilha com água fresca. Depois de beber, o gato sacudiu o bigode, lambeu os beiços e disse: “Uma cochilada agora ia bem”. “Teu lugar preferido está à disposição,” sorriu o velho, sinalando a velha poltrona de vime com o assento coberto de almofadas roídas. “Nunca tive um lugar preferido, mas aí está bem,” sussurrou o peludo dando um pulo e subindo na poltrona. Começou a lamber patas e pele, penteando os pêlos cuidadosamente com sua língua rosada. “Isso é tomar banho?” perguntou o velho, divertido. “Como deve ser, antes de dormir. Detesto água e o sabão que aquela mulher usa para me irritar”. “Então tua dona é uma mulher!” Interrompeu, festejando a descoberta. “Ela cuida de mim desde que lembro. Isso deve fazer ela se achar dona de minha liberdade. Sim, deve ser minha proprietária.” “Gosta dela?” quis saber Graciliano. “Não sei ao certo. Me alimenta com sobras podres de suas comidas estranhas, mas não me mete medo. Eu prefiro essas coisas que você me serve. Cheiram bem e tem sabores de que gosto.” “Então você gosta daqui?” Indagou o velho, disfarçando o embaraço da pergunta. A resposta não justificou a demora: “Não pretende me dar banho, me faz carícias de que gosto, não faz muito barulho, fala comigo, me alimenta generosamente e... como sei que não me fará mal enquanto isso, posso cochilar sem medo nesta casa. Isso deve ser ‘gostar’.” Logo, o gato bocejou, se acomodou para dormir e ronronante, explicou: “Agora preciso descansar para mais tarde voltar de onde venho. O caminho pelos tetos é longo, difícil e perigoso.” Os homens por esses arrabaldes costumam matar gatos, como matam pombas. E a um e outro vizinho, se metido a besta, sabia Graciliano, e disse. “Sim, sim, à vontade.” Ia perguntar ao bicho “Quer que apague a luz?” Mas preferiu não dizer mais nada; havia tempo descobrira que vendo seu amigo dormir à vontade, assim, perto dele, a melancolia ocasional se esvaia convertendo-se em orgulhosa responsabilidade e, secretamente, ficava agradecido pela confiança. Saiu da cozinha com cuidado e foi sentar no pátio.
Tirou os óculos, e com a borda da camisa limpou as lentes umedecidas pela mesma alegria que sentia quando criança nas festas de seus aniversários; olhando o céu cheio de estrelas, disse à lua cheia, sua outra interlocutora: “Quando ele acordar, vou perguntar seu nome”.
Vasilha de água fresca...
...Isso deve ser 'gostar'
sexta-feira, 16 de janeiro de 2009
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Sempre se perguntando o que teria acontecido para provocar esse sumiço, sua apreensão crescera à medida dos dias se sucederem sem o amigo dar as caras ou os bigodes e, mesmo considerando não ter esse direito, desde que o “gato não era dele” e sim de ignorada vizinha dos arredores, sentia-se inconformado que alguém pudesse ir em busca de algo que não lhe faltava ficando a seu lado, como saciar a fome, proteção e afeto; algo constrangido, admitia esperar dele um mínimo de fidelidade.
Então, no quarto dia, o gato finalmente reapareceu. Mas o contentamento ofuscou-se logo que ele entrou pela porta da cozinha, onde Graciliano estava postado: ignorando-o, passou ao seu lado e com estranha tensão, imediatamente auscultou todos os cantos do lugar, como se fossem desconhecidos; só depois dessa prévia e demorada pesquisa, pareceu se acalmar e, como se só então o tivesse notado, fez os agrados costumeiros entre amigos: com o rabo em riste, roçou seu corpo nas pernas dele, abaixou-se até esfregar as orelhas em seus pés, permitiu que o acaricia-se, ronronou, porém, mesmo quando lhe foi servida a ração, permaneceu ostensivamente vigilante e, enquanto a devorava, voltava-se a observar, pela porta entreaberta, o muro circundante que por ela podia se ver. Curioso e culpado pela sua desatenção, Graciliano, deduzindo que seu amigo estaria procurando sinais de presenças que delatassem intrusos ou perseguidores, assomou-se e percorreu o pátio atrás de um motivo, procurando um perigo. Sem perceber nada de anormal, ao voltar ao interior da cozinha, observou que o bicho se dera por satisfeito e já bebia sua água; a seguir, em lugar de pular na poltrona costumeira, sempre pronta a recebê-lo, preferiu se deslizar em direção ao quarto, bem distante da porta da cozinha e acomodou-se no canto de uma prateleira, na aconchegante penumbra do quarto; preparando-se para dormir, não deixou de observar os movimentos de Graciliano que, influenciado pelo peludo amigo, aprendera a se deslocar silenciosamente, numa mútua aversão por barulhos inúteis.
Haviam se passado algumas horas, durante as quais Graciliano debruçara-se na continuação da leitura de um livro, quando um ruído estranho, provindo da cozinha, chamou-lhe a atenção. Com cautela foi até lá, e um arrepio lhe eriçou os pêlos da nuca ao surpreender o intruso devorando o que restara na vasilha: um gatarrão nédio, forte, rajado de tons cinza, mostrava uma característica inédita num bichano dessa espécie: em lugar de longo rabo, havia um toco curto e torto. Ao vê-lo entrar, os olhos de ouro do bicho se fixaram nos dele e, antes de Graciliano sequer abrir a boca – ou fechá-la, devido à surpresa e à certeza de ter descoberto o motivo do receio de ‘seu’ amigo –, sentindo-se acuado, o animal, retesado, ameaçou avançar em sua direção; Graciliano ia berrar qualquer hostilidade para espantar o desconhecido, afinal, a casa tinha alguém responsável pelo que pudesse acontecer nela – e com suas visitas –, mas calou ao lembrar que desse modo alertaria o ‘seu’ que, no quarto, não devia saber o que estava se passando e não pretendia provocar uma batalha, onde muito provavelmente, o ‘seu siamês’ não ia se sair bem numa refrega com tamanha fera. O bicho pareceu aproveitar a hesitação e, atravessando velozmente por entre seus pés, desapareceu num átimo porta afora; Graciliano correu atrás e, para aumentar seu sobressalto, voltou a dar com ele no pátio, desta vez a poucos metros de distância, imobilizado numa pose que parecia desafiadora, como sopesando se a agressividade do homem era perigosa o bastante para sua integridade. Girando os braços com espavento, feito hélices, Graciliano avançou sobre ele; avaliando a periculosidade, o rabicó preferiu fugir e lançando um último olhar, pulou os obstáculos que obstruíam alcançar os altos muros das casas vizinhas e desapareceu. Recuperado o fôlego, após o duelo silencioso, Graciliano foi espiar no quarto: lá encontrou o Gato do vizinho que, ainda meio oculto pelas sombras da habitação, podia ser visto sentado sobre as patas traseiras; olhando em torno, disse “Entendeu meus receios?”
Tinha entendido e, apertando as orelhas, o velho lhe sacudiu levemente a cabeça peluda, como fazia sempre que lhe era permitido; depois disso, o gato demorou-se a voltar a deitar, mas, quando o fez, permaneceu com um olho semi-aberto. Depois, como das outras vezes, quando o ponteiro do relógio marcou 22 h, o gato espreguiçou-se, e na cozinha comeu mais alguns bocados que o velho voltara e lhe servir, depois de lavar a vasilha usada pelo metediço, receoso com prováveis contágios; depois de beber mais água, preparou-se para ir embora.
Com o mesmo pesar que se repetia nesses momentos de adeuses, Graciliano abaixou-se e apertou uma das orelhas do felino, e quis dizer “Não gosta de mim o bastante?”, mas pronunciou “Não gosta daqui?” O gato coçou a orelha e ronronou: “Meu amigo. Tem essa força que me obriga a voltar aonde nasci. Tento lutar contra isso, faz parte de minha luta diária, junto aos outros obstáculos nesse ir e vir para este lugar, driblando perigos sabidos ou novos, como esse assustador outro que até duvido seja da minha espécie...” e agregou, sacudindo o longo rabo e examinando o redor “... temo que pretenda tomar o território que terminou por descobrir, mesmo que eu tenha tentado o despistar.”
“Não deixarei que isso aconteça!” asseverou Graciliano. O felídeo retraiu as unhas e, lânguido, lambeu uma das patas. Arrumou os bigodes e dando uma piscadela disse: “Não prometa o sucesso antecipadamente, meu amigo. A decepção pode acarretar sofrimentos desnecessários.” Fez uma pausa e agregou: “Mas voltarei”.
“Vai demorar?” quis saber Graciliano. Se afastando lentamente, o bicho murmurou: “Queria poder escolher o tempo, onde ficar e com quem, meu amigo. Do muito que não entendo, tem mistérios inesperados que nos conduzem a fazer o que nem sabíamos que devemos fazer.” Provindo da escuridão da noite, por onde o gato, ainda tenso a observar as sombras, desaparecia lentamente, Graciliano ouviu: “este estranho impulso, que não avalia as ocasiões favoráveis ou desfavoráveis de acordo com os ganhos e perdas, devia estar no que bebi do corpo... de onde vim.”
O silêncio fechou a porta e, com ele, Graciliano deitou-se na escuridão de seu quarto.
“Até amanhã, meu amigo”, torceu o solitário. E um minuto antes de dormir, estalou um: “Amanhã vou perguntar seu nome! Sem falta...”
Na manhã seguinte, bem cedo, como de costume, Graciliano estava preparando o café quando ouviu seu nome ser gritado.
Assomou na porta da cozinha e do portão de ferro da entrada de seu “território” estava o senhorio:
– Seu Graciliano, tenho visto uns gatos indo e vindo por esta área. É isso mesmo?
– Bom dia. – gaguejou Graciliano.
– Não deixe, viu? Esses bichos viram praga se deixar. Tem que acabar com eles. Me avise, se precisar. Falou?
– Bom... Dia. – gaguejou Graciliano.
– Tá, tá. Bom dia! – gritou o homem, indo embora.
– Bom... Dia. – gaguejou Graciliano. O leite fervendo derramando no fogão, nem chamou sua atenção. Instintivamente, correu até onde estava o pacote de ração, apertou-o contra o peito, olhando em redor, receoso, procurou um lugar seguro para escondê-lo.
O seu IFA* lhe alertava sobre aquele homem ser capaz de coisas temíveis.
E lembraria por muito tempo disso.
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*Instinto Felídeo Adquirido.
...mas voltarei.
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Num dia qualquer, o proprietário veio falar com ele e o fez durante quase uma hora, andando pelo pátio de lá pra cá: a partir do discurso, Graciliano depenou as redondilhas e ficou com a essência da intenção: a vontade dele se mudar dali?
Por enquanto não, mas precisava fazer umas reforma na área, coisa de poucos dias.
Decidira derrubar finalmente a tentativa abandonada de sua falecida mãe de fazer um sobrado, que permanecera semi construído, encima dos três cômodos que Graciliano ocupava hoje, que fora a moradia na infância e herança infeliz da mãe do dono.
Além de se sentir um idiota pagando impostos sobre uma coisa inútil.
Graciliano teria para onde ir, passar uns dias até terminar o serviço dos pedreiros?
Por enquanto...
Bem, o senhor quem sabe. Mas o trabalho vai começar por esses dias. Espero que agüente.
O destino trouxe a circunstância. Suportá-la ou mudá-la, Graciliano.
No primeiro dia, o Gato do Vizinho, tinha vindo visitá-lo bem cedo e, já empanturrado, dormia langoroso, deitado no sofá da sala, ao lado de Graciliano que lia algum livro...
Súbito, provindo do teto, as primeiras marretadas acordaram o gato que, assustado e tenso, elevou a vista, procurando a origem e a razão do estrondo. Também sobressaltado, Graciliano acompanhou o olhar, esquecido de que a qualquer momento teria inicio a demolição mal anunciada dias atrás. O peludo olhou para o velho amigo e a pergunta estava nos olhos azuis escancarados e no seu corpo tenso. Ensurdecendo-os, as marteladas se sucediam, e junto ao eco de seu fragor, a violência se espalhava por todos os cantos sacudindo os objetos menores. Graciliano estendeu a mão, solidário com o espanto que o barulho provocava no seu amigo e acariciou sua cabeça. Do sofá, o bichano pulou no seu colo, miou bem perto do rosto dele, como pedindo explicações. Graciliano, também atarantado, murmurou nas orelhas dele:
“Funcionários do dono da casa.
Destruindo coisas inúteis.”.
Os golpes a ecoar pela casa, estavam ao lado deles, entre eles, invadindo cada canto, cada pulsar de seus corações chocados.
“Funcionários.
Autoridades.
Grande ruído.
O estrondo da Calamidade.
Pára com isso.” – ronronou o siamês. Graciliano sacudiu carinhosamente a cabeça do amigo entre suas mãos e, como resposta impotente, lhe cobriu as orelhas. Desconfortável, o gato se desvencilhou delas e pulou ao chão. Temeroso, sempre olhando para o alto, se dirigiu à cozinha e parou à frente da vasilha com restos de ração. Esfregando as orelhas abaixadas de desconforto, disse a Graciliano, que o seguira contrafeito:
“Desculpe meu amigo.
Mas é evidente que meus ouvidos não foram feitos para este estorvo ruidoso.
Qualquer lugar é melhor que o insuportável.”
E, iniciando um assalto à vasilha, justificou:
“Reabastecer-me para voltar de onde vim.
Neste período do sol, o trajeto é mais demorado e perigoso para mim.”
Sem palavras, um embaraçado Graciliano, reforçou o repasto, despejando mais alimento no recipiente.
Enquanto o siamês comia num esforço tenso, o bate-arrebenta se sucedia implacável, ameaçando um terremoto iminente vindo do alto. O homem sentou numa cadeira a observá-lo, e o desconforto da infelicidade aumentou quando o amigo felino, se dando por satisfeito, limpou restos de comida dos bigodes, e ainda de orelhas abaixadas, disse nervoso:
“Voltarei amanhã...
Ou quando esse intolerável acabar.”
E cautelosamente começou a partir. Graciliano não o acompanhou até o muro como de costume. Preferiu quedar-se assim, esperando que o silêncio da ausência se sobrepusesse ao estrondo de batalha sobre sua cabeça. E à disritmia de seu coração cansado.
Imaginando o amigo observando à distancia a movimentação e a ostentação ruidosa da destruição, sem chegar mais perto e retornando de onde viera, passaram-se os dias inteiros de duas semanas, durante os quais, virtualmente aprisionado dentro da casa, Graciliano teve de beber o ir e vir dos pedreiros pelo quintal, carregando os entulhos da demolição; os pequenos e irritantes acidentes do cotidiano recrudesceram: quebraram-se copos e pratos escorregando da mesa e de suas mãos; acidentalmente queimou os dedos acendendo o fogão; a escova de dente mergulhou na privada; o vento trazia o pó acirrado pelos pedreiros e, através da janela, antes de pousar sobre a superfície de todos os objetos, o arremessava diretamente dentro de seus olhos ou empanando seus óculos e, em miríades de pedrinhas, também em sua boca, areia que ele mordia e engolia com gargarejos de cachaça amarga; o barulho das marretadas derrubando paredes, encima de sua cabeça, que os tufos de algodão enfiados em suas orelhas atenuaram em parte, permanecia em forma de eco no seu cérebro:
“Retumba, estrondeia o estrondear”,
repetia o som do dia, ofendendo o silêncio da noite.
sobrado semi construído, encima dos três cômodos...
“Retumba, estrondeia o estrondear”
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Quando a hecatombe da destruição invadia sua mais elementar privacidade e a tolerância física atingia o limite, Graciliano era forçado abandonar a casa, espairecer, poupar ouvidos, olhos, garganta e pulmões, fazendo longos e aborrecidos passeios pelos arrabaldes, retornando ao entardecer, porque sinal do término do expediente e, por conseqüência, a volta da calmaria.
Uma semana depois, a violência do barulho amainara, ainda que de vez em quando, algum pedreiro reaparecia pelo pátio, a retirar entulhos remanescentes do sobrado demolido, indicando que a obra chegava ao término.
No entardecer do último dia, Graciliano preparava-se para festejar a conclusão dos trabalhos e, como lhe fora impossível fazê-lo durante o trabalho, munido de fiambres, pão, vinho e esperança de paz e silêncio, voltou a sentar-se à pequena mesa de plástico, debaixo do caramanchão – construção que Graciliano montara no pátio, com ripas e escoras, cuidando por meses a fio da planta trepadeira, cujo nome desconhecia e com quem, desde que a descobrira broto num rincão do terreno, mantinha conversas íntimas, regadas a água fresca e proteção contra intempéries e formigas.
No primeiro copo de vinho servido, Graciliano notou que o portão se abria cuidadosamente e o mestre de obra, sorrateiro, entrava no seu pátio, porém, ao vê-lo, tentou esconder a intenção e o facão sob a camisa; Graciliano suspeitou imediatamente de seu comportamento e perguntou: “Esqueceu alguma coisa?”
“Pois é! E não é que esqueci mesmo, seu? Fui deixando pra depois, deixando, deixando. É que patrão mandou cortá essa planta, logo no começo, pra não atrapalhá o trabalho.” Disse o homem, meio sem jeito, sinalando o caramanchão.
Graciliano olhou para as folhas sobre sua cabeça e demorou a entender. O mestre de obra continuou a justificar a ordem recebida.
“O homem também disse que atrapáia, que as folha seca suja tudo quando ventania. E que os vizinho mete bronca por limpá as sujeiras que caem nas áreas deles. Que não pega bem. Que já avisara o senhor disso, sei lá eu. Faz tempão... que se não, ele mesmo faria...”
Graciliano lembrou da ameaça esquecida por estúpida, recolheu os alimentos, a garrafa, deu um chute na pequena mesa de plástico, virando-a de patas para o ar e, carregando tudo, entrou na casa fechando ruidosamente a porta atrás de si. De imediato foi até a vitrola e logo a seguir, as notas de um Réquiem, de Mozart, invadiram todos os sons do mundo.
Quando o pau-mandado terminou de cortar o frágil tronco da planta e foi-se embora calado e cabisbaixo, o réquiem havia terminado; Graciliano saiu do interior da casa e arrastando os pés descalços, chegou-se até os restos da planta; chutando os ramos moribundos, até machucar os dedos do pé, disse entre dentes, parafraseando o poeta:
"Maldito sejas pelo mal que fizeste sem querer!"
Do alto de um teto distante, apenas o testemunho imóvel de um gato.
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ANTES


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DEPOIS


"Maldito sejas pelo mal que fizeste sem querer!"
Gato visita a "obra"
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Tonto de beber e comer, Graciliano deitara e desmaiara.
Ao acordar, mergulhado em ressaca e perdido o senso de tempo, teve a grata surpresa de ver o gato andando pelo chão, ao redor da cama. Tentou sorrir para ele. O bichano parou de andar ao perceber que acordara e de um pulo, subiu no leito. Aos pés dele disse:
“Morto. A idéia de que estivesse morto. Para entender seu silêncio apesar de minhas lambidas, meus miados, quase gritos, há mais de hora.” Ronronou o gato mal humorado, coçando com a pata traseira a orelha direita. “Ressuscite, meu amigo, a tigela está vazia.” Informou o bicho.
Graciliano levantou com esforço, e o felino, trêfego atravessando entre os pés, acompanhou-lhe o andar arrastado até a cozinha; ao chegar, retirou o pacote da estante e, enquanto o abria e servia a vasilha, sob o olhar algo impaciente do gato, este quis saber: “Que foi aquilo lá fora? As folhas murchando, o chão coberto delas”
“E ali ficarão até o vento as levar e espalhar pela maldita vizinhança!” Disse Graciliano num tom de ingênua vingança que o amigo não captou.
“Gostava como era antes. Fazia sombra no calor. Podia me refugiar nela, me esconder entre seus ramos e tentar pegar pássaros. Coisa que deixei de tentar faz tempo. Era mesmo quase impossível. Mas, agora, sem planta, é um descampado inquietante até para mim. Ao menos até entrar aqui, onde nada temo.”
Graciliano sentiu renascer o amor-próprio pela confiança nele depositada e quis lhe agradecer, porém, a emoção lhe fez tossir, ao invés de dizer: “Que bom saber disso, meu amigo.”
“Não me agradeça”, disse o siamês, para surpresa do velhote. E mais não disse o bicho, que logo se acocorou à beira da vasilha a iniciou o abocanhar.
Graciliano preparou café e, bebendo, observava, satisfeito, o amigo se alimentar. Apertara o parco orçamento, sacrificara uns quitutes e conseguira uma boa dose de ração para ele. Teriam uma semana garantida, sorriu satisfeito.
Ao terminar de beber o café e comer o pão, suspirou, engolindo o no da garganta, levantou e disse:
“Concordo com quem acha que existem duas maneiras de nos refugiarmos das misérias da vida: música e gatos.” E dando uma alegre pirueta, dirigiu-se à sala, escolheu um disco e logo a música ressoou no ambiente. Acendeu um cigarro, e sentou-se numa poltrona a entoar a letra da música:
"Afinal deixei a terra natal
E cantando andei menos mal
Tanto que passei
Tão longe daí
Que em mim um país construí.
E assim foi melhor
Porque não senti o medo."
Pouco depois, o gato chegava à sala, lânguido de satisfação; pulou no colo, deu umas voltas sobre si mesmo até encontrar a posição certa,e acomodando-se, ficou quieto, atento à música e à voz grave do homem que cantarolava enquanto, distraidamente, lhe acariciava o lombo. Ao finalizar a canção, disse o gato: “O som de sua voz, que estranhamente entendo, vibra sob minhas patas e minha barriga. E isso me conforta, amigo.”
Graciliano regozijou-se e, segurando as orelhas peludas, disse: “Só a minha voz? E a dona que te criou?” O animal sacudiu a cabeça e ele largou as orelhas.
“Dona? Ninguém pode ser dona de um gato, mas, podemos conceder nossa companhia. Entretanto, o único que entendo da voz de quem se diz minha dona é quando grita: ‘Esse gato é meu!’ ‘Sai daí pulguento!’ ‘Tá com fome?’ e o pior deles ‘Vem cá, no colinho da mamãe’”
“Ela diz outra coisa? Um nome?” ia perguntar Graciliano, aflito para acalmar sua curiosidade infantil de lhe conhecer o apelido. Mas o peludo continuou a ronronar e miar, “Não consigo me comunicar com a dona com a mesma naturalidade com você. Serei eu uma invenção sua? Se for, não gostaria de saber. Me poupe de mais um enigma. De todo modo, aprendo muito falando com você. Por exemplo, como se diz para se referir a esse bicho andando na sua perna?”
BARATA! – gritou Graciliano dando um pulo que fez o gato pular para longe e, sacudindo a perna, enojado, fez o inseto se desprender e cair no chão, para depois pisar nele, esmagando-o; imediatamente recolheu-o com uma folha de papel e, no banheiro, jogo-o na privada. Ao voltar, olhou de esguelha para o bichano e cobrou: “Os gatos não deveriam perseguir, caçar e matar esses bichos?”
“Nos caçamos e matamos a presa, para nos alimentar, mas essas coisas não se comem.” Afirmou o siamês, do alto de sua indiferença com a cobrança.
“Como sabe que não se come? Já experimentou?” – caçoou Graciliano.
“Sei porque sei. Só servem de brincadeira. Como eu fazia, muito antes, quando me divertia com isso. Como parecem se divertir aqueles outros, de quatro patas, os barulhentos que gostam
“Cachorros?”
“Esses! Correm atrás e se pegarem, rasgam até matar. E para quê? Nunca vi um deles comer gatos.”
“Por brincadeira, talvez. Como você com as baratas. E não comem, provavelmente porque um deles comeu e não gostou.” Gracejou o homem.
“Eles devem saber. Os de tua raça às vezes parecem gostar de comer alguns dos meus.” O bichano espirrou e Graciliano entendeu claramente: “Náusea!”
O gato coçou os bigodes fixando os olhos azuis nos verdes de Graciliano e esperou até este entender.
“Náusea”, repetiu o homem, assentindo e, solidário, fez caretas de nojo. E citou, reconciliador:
“Não sei quem disse que o cão, é a prosa, o gato, é a poesia.”
“Prosa? Poesia? Mas fale longamente. Sua voz me sossega, me dá segurança. Sei que enquanto você falar não poderá aprontar qualquer calamidade ao mesmo tempo.”
“Calamidade?”
“Pisar no meu rabo ou me alçar no colo como se fosse uma bolsa ou... enquanto durmo ir embora me deixando à mercê dos outros...”
“Dos homens?”
“Esses! Você sabe que eles não são muito amigos dos gatos, a maioria tolera porque somos úteis para livrá-los dos ratos que eles tanto temem. Como se fossemos responsáveis por essas criaturas existirem. Pretensão ignorante. Não sou exterminador de ratos. Que também não se comem. Minha única pretensão é ser o que sou, gato.” E afirmou, num gesto lento, se espreguiçando entediado. “Não precisamos disso, sabemos obter comida sem todo esse trabalho sujo. Eles deviam ser o que são...”
“Os ratos?”
“Não, esses que correm e andam como você, assim, desse jeito... sem jeito. Usando somente duas patas.”
“Bípedes! Os homens são bípedes e você é quadrúpede.” Explicou Graciliano, divertindo-se professoral.
“Então, meu amigo bípede, espero que não se ofenda. Eis mais um mistério: não compreendo como é possível não se desequilibrarem e caírem o tempo todo. É preciso muita paciência com as limitações da mente... bípede.”
“Às vezes caímos e damos com a cara no chão. Nos machucamos. Principalmente quando crianças...” E procurando o termo certo para ser compreendido, acrescentou: “quando filhotes.”
“Quando não caem encima de nós! E mesmo assim, insistem. Deviam experimentar usar as quatro, é mais seguro.” Sentenciou o quadrúpede, lambendo uma delas.
“Bem, alguns deles, se caírem, não conseguiriam mais levantar.” Divertiu-se o velho com seu sarcasmo.
“Difícil entender esses bípedes. Não que tivesse tentado alguma vez, contudo, admito que a existência deles tenha facilitado de certa maneira minha vida e outros de minha raça. Úteis, apesar de perigosos.” Encerrou o gato e pulando do colo, se acomodou no sofá, pedindo novamente: “Fale, amigo. Me dê sono ou me force a entendê-lo.”
“Obrigado pela opção”, ironizou Graciliano.
“Comece a dizer”, ordenou o siamês, com certa irritação por não entender a intenção do comentário.
“Está bem, eu digo: Sabias que há milhares de anos atrás vocês, gatos, eram adorados como deuses.” O siamês bocejou e acariciou o bigode.
“Os bípedes mais antigos eram mais sábios. Atualmente nosso prestigio não é mais o mesmo. O desrespeito pelas nossas vidas é assustador. Bem, se vocês se caçam e matam entre si, sem ser para se alimentar, por que haveriam de nos poupar? Seria esperar muito de suas limitações.”
O siamês fez uma pausa para deter sua atenção nos lentos movimentos de Graciliano, folheando um livro. “É a calma deste lugar que me atraiu desde o começo. É raro, lhe garanto, o silêncio. Antes eu não era assim. Quando nada entendia, brincar de caçar era meu trabalho e depois satisfazer aquela mulher e tolerar suas graças. Mas com o tempo, minhas preferências mudaram. Descansar, comer bem e dormir em segurança passaram a ser mais importante. Tagarela demais esta noite. Isso me entedia. Vamos, diga coisas com significado, me chame a atenção com sua fala.”
Graciliano sorriu, e estendendo o livro que segurava para perto do amigo, que o cheirou, perguntou, capcioso. “Sabe ler?” O gato deu um tapinha no livro e sacudiu o rabo; olhando para ele, respondeu:
“Não me faça perguntas que não sei responder. Irritam meus bigodes e meu senso.”
“Desculpe”, pediu Graciliano, encabulado. A seguir, leu o que estava escrito:
“Queime tudo o que puder
as cartas de amor
as contas telefônicas
o rol de roupas sujas
(...)
a confissão interrompida
o poema erótico que ratifica a impotência
e anuncia a arteriosclerose
os recortes antigos e as fotografias amareladas.
(...)
Seja como os lobos: more num covil
e só mostre à canalha das ruas os seus dentes afiados.
Viva e morra fechado como um caracol.
Diga sempre não à escória eletrônica.
Destrua os poemas inacabados, os rascunhos,
as variantes e os fragmentos
(...)
Não confie a ninguém o seu segredo.
A verdade não pode ser dita.”
O gato ouvira quieto o poema até acabar e depois, do sofá, deu um pulo sobre a mesa e sentou-se sobre as patas traseiras, bem perto do rosto de Graciliano; levantou uma das dianteiras que o velhote segurou e balançou, como num aperto de mão. O felídeo, observando o afago, disse:
“Não que sejam muitos, mas você é o bípede mais estranho que conheço... Suas palavras...”
“Essas palavras são de um amigo que não me conhece, Lêdo Ivo, seu nome.” Interrompeu o homem.
“Outro bípede enigmático. Suponho que ele deve ter amigos de minha raça, e perspicaz como parece, também falar com eles.” Concluiu o gato, porém inquirindo nos olhos dele.
“Não sei se ele tem amigos gatos e muito menos, se fala com eles. Mas incomum e poeta, é.” Sentenciou, fechando o livro.
“Deve ser, como você. Se você não fosse também incomum, falaria comigo? Estaria instalado neste... Isto aqui é um covil?”
“Muitos afirmariam isso, seguramente.” Ironizou Graciliano.
“Entendo. Andou escondendo verdades para os outros”, deduziu o bicho.
“Eu não sou tão perspicaz. Aprendi a esconder tarde demais. Confiei.”
“Você confia em mim?” Perguntou o quadrúpede, retirando sua pata da mão dele.
“Nunca sei se vás voltar.” Queixou-se Graciliano num murmúrio.
“Nem eu. Quites.” Suspirou incomodado, o Gato-do-Vizinho.
“E você, gato, confia em mim?”
“Quando durmo neste... covil, a segurança
Espreguiçou-se o peludo, depois lambeu uma pata e pensativo, concluiu: “Confiar pode não ser tudo de que preciso. Mas, do que tenho, boa parte é você, meu amigo falante. E parece o bastante, acredito. Deve ser por isso que volto sempre.”
“É, pode ser, mas a ração é também atraente”, comentou Graciliano, sentindo-se estúpido.
“Também.” Concordou o siamês, arrematando.
De pronto, o gato olhou em redor, espreguiçou-se mais uma vez e da mesa, pulou ao chão.
Sacudiu o rabo e ronronou: “Bem, sinto que é a ocasião de ir.”
Graciliano ficou de pé e abaixou-se para lhe acariciar o lombo; enquanto andavam em direção à porta de saída, iniciou a pergunta. “Queria saber por que, sempre a esta mesma hora...” O gato parou de andar, olhou para ele e o interrompeu com uma pergunta:
“Tem certeza que saberei responder?”
Graciliano hesitou e, sacudindo-lhe as orelhas, disse sorrindo, sem jeito: “Deixa pra lá.”
“Voltarei”, despediu-se o siamês, saindo pela porta da cozinha e entrando na noite.
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Não se acostumara apesar de não ser raro, mas dois dias de sumiço do Gato-do-Vizinho, o deixavam desconfortável, porém, conformado com o mistério, esperava sua visita a qualquer momento. De todo modo, estava na hora de fazer algumas compras, onde se incluía a ração para o amigo e não se surpreenderia se ao voltar, o encontrasse sentado numa cadeira no pátio, a esperá-lo. Sem trancar o portão – desnecessária segurança já que poucos sabiam que naquele fundo de terreno pudesse morar alguém digno de um larápio vagabundo –, Graciliano desceu as longas escadas em direção à rua, após passar rápida e silenciosamente pelas portas das casas vizinhas do cortiço, evitando, como o eremita radical que ele gostaria de ser, cruzar com quem quer que seja.
Mas foi inútil, pouco antes de chegar ao portão de ferro que dava para a rua, um grupo de três homens falavam alto entre si. Um deles, ao vê-lo chegar, abaixou-se e pegou uma gaiola amarrotada, suja e enferrujada que se encontrava a seus pés e, erguendo-a à altura de seu rosto, expôs seu conteúdo, como o faria um caçador mostrando o fruto de sua caçada. E disse, entre baforadas de cachaça:
“Grandão, hein? Deu um puta trabalho, mas olha só. Peguei o bicho.”
Graciliano paralisou por uns segundos e, a seguir, instintivamente, estendeu a mão para pegar a jaula, mas o homem desviou-a e voltou a depositá-la no chão, segurando-a entre suas pernas e, orgulhoso, esfregou as mãos: “O patrão vai me pagá o almoço em troca.” Os outros riram alto e caçoaram: “Almoço? E pinguço almoça?” “Vai é te descontá os litro de cachaça que tu deve pro homi”.
Sem piscar de terror, os olhos azuis bem abertos de seu amigo prisioneiro, observavam fixamente os verdes de Graciliano.
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Corredor em direção à escada
Degraus até o portão da rua
A jaula!
gato6

Tremeu a comissura dos lábios pálidos de Graciliano no desesperado esforço para fingir sorriso e despistar o interesse e intenção ao perguntar, num suspiro: “Quanto é que tu deve pro homem?” Disse ao homem do bafo, que apertava a jaula entre seus pés, onde o Gato-do-vizinho se mantinha encolhido, com o terror gritando em seus olhos, fincados nos de Graciliano. O aludido não lhe deu muita atenção, encolheu de ombros, sem parecer ter entendido.
“O homem aí, ta falando com’cê, Lenilson.” disse um outro, cutucando-o.
“Como é que é?” Perguntou o tal Lenilson, debochando e provocando risadinhas nos amigos, com sua resposta inconseqüente.
Graciliano tossiu, limpando a garganta de ansiedade e tentou interpretar alguma indiferença, ao repetir: “Ce não ta devendo uma grana pro cara? Quanto?”
“E eu que sei?” respondeu o ocasional caçador de gato, satisfeito por divertir os colegas.
“Fala direito pro senhor, Lenilson.” Repreendeu um deles, como se estivesse se dirigindo a uma criança.
“É que não sei mesmo, cara.” Disse, folgazão, com o raciocínio retardado pelo álcool.
Os olhos do gato e os de Graciliano se cruzaram novamente quando ele perguntou:
“Você não disse que vai trocar a divida pelo gato? Então, como sabe se vai topar a troca?”
“Ele não vive dizendo que quê limpá a área de gatos? Tonce. Vamo negociá o bicho, ué!” ponderou com dificuldade o homem, deleitando os colegas com sua expertise pueril e aumentando o fluxo dos vasos sanguíneos de Graciliano, que lhe coraram as bochechas.
“Assim que o homi abri o boteco, vamo fazê negócio. Lógico que vai topá.”
Graciliano tirou do bolso uma nota e mostrou-a ao homem.
“Mais que isso?” ofereceu.
Lenilson olhou a nota, olhou o gato, olhou os colegas que se divertiam com a expectativa criada pela oferta e disse.
“Sei lá. Já falei que vó negociá com o cara.”
“Pegai Lenilson!” Provocou um deles.
“Melhó um gato na mão que um gato pra negociá!” Parafraseou, galhofeiro, um outro.
“Pega aí”, ordenou Graciliano. O homem olhou a nota em dúvida, Graciliano aproveitou a hesitação e enfiou a nota no bolso da camisa do tal Lenilson, abaixou-se e pegou a jaula; de imediato virou-se e galgou as escadas, de volta à casa.
“Ei! Peraí, velho!” Gritou o surpreendido caçador de gatos, em meio às gargalhadas dos colegas.
Graciliano pulava cada degrau com a gaiola apertada contra o peito e, dentro dela, chacoalhando, o siamês se segurava, cravando as unhas nas grades.
“Peraí, cara!” Gritou mais uma vez o Lenilson no pé da longa escada, com a voz enrolada e abafada pelas risadas dos outros.
Graciliano chegou à porta da cozinha e arfando de taquicardia, apoiou-se na porta, sem largar a gaiola, recuperando o ar que deixara no caminho. Ainda podia-se ouvir a voz do homem ao longe e o eco zombeteiro das risadas.
“Horror” ronronou o gato, lambendo uma pata ferida.
“Ta machucado?” quis saber o homem, tentando abrir a porta rapidamente.
“Melhor entrar, amigo. Aqueles bípedes podem estar vindo para me pegar. E aí sim, podem me machucar mais. Nos machucar, pode ser.”
“Sim. Vamos entrar, trancar a porta.” Foi o que Graciliano fez. Trancou com trava e chave e logo desfez a trança de arame que segurava a porta enferrujada da pequena prisão. Mas o tamanho do gato, impedia a saída pela abertura.
“Como aquele maldito conseguiu...” Murmurou Graciliano, pegando um alicate e cortando algumas das finas grades.
“Quase me quebra para conseguir isso. Parece que tenho mais cartilagem elástica do que ossos a quebrar,” informou o peludo, enquanto aguardava a liberdade. Ao sair finalmente, mancando, olhou para a prisão e disse: “Agora sei como se sentem os pássaros. Ainda bem que faz tempo desisti deles.” Diante do olhar do amigo, sentenciou, enquanto lambia a pata esfolada: “Poucas vezes o passado nos orgulha.”
O coração de ambos parou de bater por frações de segundos ao ouvirem, vindo de fora do outro lado da porta a voz xaroposa:
“Aí, velho! Cadê meu gato?”
“Horror” disse o gato debaixo da mesa, onde correra a se refugiar.
Graciliano segurou a respiração para ouvir melhor, encostou a orelha na porta, atento aos barulhos de fora.
“Como é que é, cara? Devolve meu gato!” Gritou o homem.
“Horror”, cochichou o procurado, debaixo da mesa.
Graciliano fez sinais de silêncio.
“Aí, velho. Não adianta fingi, sei que ce taí. Vai, devolve minha gaiola e meu gato.”
“Quem falou que o gato é teu!” Disse Graciliano se engasgando de indignação.
“Eu que peguei ele! A arapuca fui eu que botei!”
“Vítima de minha ambição, cai na armadilha do horror.” Miou o siamês.
“Eu paguei por ele, agora é meu!” Arriscou o velho.
“Essa mixaria aqui, não paga nem a gaiola que tu pegó. Vai devolvé numa boa ou vou aí pegá?”
“Horror”, repetiu o peludo ferido, encolhendo-se mais na penumbra, debaixo da mesa.
“Vá pro quarto!” ordenou o velhote sibilante ao amigo, e ameaçou entre dentes: “Ele que tente. Canalha!”
“É o medo”, ronronou o peludo enquanto, obediente, saia mancando de debaixo da mesa, correndo em direção ao quarto onde se entrevou sob a cama.
A voz do proprietário da casa se ouve, clamando: “Lenilson! Ó cara, que negócio é esse?”
Graciliano desesperado, procurou com o olhar e fixou os olhos na faca sobre a pia.
A voz do proprietário: “Vai invadindo a casa das pessoas desse jeito, cara? Não na minha propriedade!”
A voz xaroposa: “Mas o véio pegou meu gato, cara. Era pr’ocê”
“Saindo! Simbora. Depois falo com ele. Vamos lá pra baixo. Vai, vai!”
Resmungo ininteligível do expulso.
...
O silêncio.
...
Graciliano apoiou as costas na porta fechada e deixou-se cair lentamente até sentar no chão, um tremor convulso agitou-lhe os ombros num pranto silencioso. Sem lágrimas.
Apertando-se o peito sufocado, assim o encontrou o gato, ao voltar lentamente do quarto.
Esfregou o bigode no pé do alicaído e disse:
“Quem cria inimigos homens por se importar com a sorte de um pobre gato, é um valente, e um amigo.” Consolou o siamês, subindo no colo e avançando por seu peito em lentos passos até se deter bem perto de seu rosto e fixando os olhos nele, tão claros como os seus, sussurrou:
“Assim, per...ten...ço...te.”
Graciliano apertou-o contra o peito que estava prestes a sucumbir, e ouvindo o ronrom no seu ouvido, permitiu-se as lágrimas estancadas havia tempo. Depois entendeu claramente quando o gato disse: “Aquela dona me chama de Lorde.”
“Finalmente!” Disse o velho, secando seus olhos para ver melhor o “Lorde? Ah! Faz sentido”, gracejou Graciliano, pondo o amigo no chão e levantando-se com esforço.
“Agora vamos cuidar dessa pata seu... seu Lorde! Ah! Ah!” Riu o ‘valente’, indo em direção à sala, tamborilando as palmas nos joelhos, acompanhando o ritmo de sua alegria.
“Lorde... Seja lá o que isso signifique...”, resmungou o peludo, meneando a cabeça e coxeando atrás de Graciliano.
quinta-feira, 15 de janeiro de 2009
O gato do vizinho 7
Lá fora, calor de 30 graus.
Dentro da padaria, o refrescante chão; deitado nele, ao pé de uma máquina caça-níquel, um cão peludo, dormita. Um homem aposta moedas na máquina, enquanto segura um copo com bebida numa das mãos. Está visivelmente irritado com seus sucessivos fracassos nas suas apostas e estonteado pelos também sucessivos goles de bebida, grita palavrões a cada vez que o resultado lhe é adverso.
Perto deles, apoiado no balcão, Graciliano, bebendo cerveja a lentos goles, descansa de longa caminhada por um bairro que pouco conhece, observa o belo e grande cão indiferente ao barulho e deduz errado: respondendo à sua pergunta sobre sua origem e possuidor, a moça que o atendera, lhe faz saber que o apostador ruidoso não é seu dono, o animal pertence ao vendedor de coco, abacaxi e outras frutas, abrigado pelo enorme guarda-chuva colorido na calçada enfrente, torrando sob o sol, e é surdo.
“O homem?”
“Não, o cachorro!”, esclareceu a moça, com a risadinha habitual com a reação das pessoas ao saberem disso. Como muitos, agora Graciliano observa o cão com outros olhos. E compreende a indiferença com o som muito alto da televisão ligada mostrando imagens de desenhos animados japoneses, misturado com os palavrões de insatisfação do jogador que cresce em gradação; por perto, outros homens mantêm conversas ininteligíveis, e olhando de vez em quando o apostador, riem de suas tentativas; pelo tom das gozações, Graciliano percebe que o grupo é comparsa do outro, todavia, isso não lhe diminui a crescente irritação, pelo contrário. Tudo isso acaba por perturbar Graciliano que, apesar do calor externo não ser muito convidativo, acelera os goles para sair logo dali; observando o imperturbável cachorro com os decibéis aumentando em intensidade, sorri por ele em represália. No momento de Graciliano pensar em pedir a conta, subitamente, o homem que aposta, perde a compostura de vez e sem outra opção, encontra no cachorro, deitado a seus pés, a válvula de descarrego a suas malogradas tentativas e desfere um violento chute na cabeça do animal que acorda, dando um pulo acompanhado de um uivo aflitivo, espantado e atordoado pelo imprevisto; tenta encontrar o caminho da fuga, mas este lhe é impedido pelo homem de garrafa em punho que desafia: “Quer me morder, sarnento? Vem cá, filho da puta!” Os amigos gargalham, a moça, aflita, atrás do balcão, pede parar com isso. O cão pretende a escapada por entre as pernas do bêbado, mas este, segurando uma garrafa, levanta a mão com a intenção clara de bater no animal; num ímpeto, Graciliano joga o conteúdo de seu copo no rosto do homem que, surpreendido pela ação e cego momentaneamente pela bebida que invadira seus olhos, balança aturdido e embaralhando seus pés com o cachorro tentando escapar, se desequilibra, e despenca todo seu peso na vidraça da parte inferior da vitrina que sustenta a caixa registradora; a violência do tombo faz com que a cabeça do homem arrebente o grosso vidro e invada o interior da redoma; as afiadas lamina de vidros penetram na sua garganta e imediatamente jorro de sangue salpica de vermelho escuro os objetos ao redor; ante o acidente, a moça do caixa une seu grito ao de sua colega atrás do balcão, em contrapartida ao silêncio estupefato dos outros homens que observam o colega esticado no chão, com a cabeça presa no interior do mostrado, estrebuchando e se esvaindo do sangue que salta aos borbotões de sua garganta; o apavorado cão sai
“Eis um dos meus segredos”, afirma Graciliano, num suspiro cansado.
“Você matou um dos teus, então.”, conclui o gato, pulando do colo do amigo onde se instalara para ouvir a história.
“Não tenho certeza.” Duvida o velho, servindo-se do café da garrafa térmica a seu lado.
“Por isso poucas pessoas te visitam neste covil.” Deduz Lord, o siamês, observando os cantos e as paredes manchadas com mapas de umidade.
“Não é provável. Essa história ninguém conhece. Os motivos do que você chama solidão são outros.” Disse o homem, puxando um cigarro do maço.
“Você parece gato, homem. Nós também temos poucos amigos. Mas nós sabemos por quê.”
“Eu também.”
“Vai me contar outra história, percebe-se. Gosto disso, mas deixemos para depois. É o momento agora de ir.” O gato espreguiçou, e, sentando-se sobre as patas traseiras, ficou observando Graciliano que, absorto, acendia um cigarro. E esperou.
Depois da primeira tragada, imerso em pensamentos, o homem não notou que a impaciência do bichano aumentava a cada tragada.
O barulho de súbitas rajadas de vento trouxeram Graciliano de volta à casa, à sala e ao gato aos seus pés, que abanava o rabo nervosamente.
“Ah, sim! Então, já vai?” O animal nada disse, apenas se levantou e, lentamente, foi em direção à cozinha.
“Ah, claro! A saideira para viagem!”, lembrou Graciliano, e foi atrás dele encher a vasilha de ração, que o gato comeu, com o pouco entusiasmo da disciplina; depois de se dar por satisfeito, bebeu da água no recipiente ao lado.
“Amanhã falaremos de solidão.” Disse ele, saindo à noite e piscando os olhos para protegê-los da ventania que aumentara. Graciliano o acompanhara para vê-lo pular o muro e desaparecer na escuridão.
“Com um Lorde por perto, a solidão terá de esperar”, murmurou o homem, com um sorriso melancólico, e entrando na casa, fechou a porta atrás de si.
“Bons caminhos te guiem, meu amigo. Estarei esperando. Amanhã.”
O estalido do vento aumentou lá fora, e a luz se apagou repentinamente.
“É o vento tentando derrubar árvores e só consegue apagar as luzes... Nada de premonições.”
De vela
“Sem poder ler. E pensando tristezas. Até amanhã, meu amigo lorde. Esse vento não há de ser nada, você conhece o caminho como a palma... como a palma da pata!” Sorriu de cenho franzido e, mesmo tentando, mal conseguiu dormitar por momentos, interrompido por sonhos estranhos à beira de pesadelos; na desordem onírica, a sombra do gato se esgueirava.

